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13.3 PERÍODO TRIBAL/JUÍZES 1200 a 1000 a.C
13.3 PERÍODO TRIBAL/JUÍZES 1200 a 1000 a.C

1. Recordando

Na aula anterior foram considerados os grupos que saíram da terra da escravidão, como chegaram a Canaã a terra que “corre leite e mel” (Ex 3,8), e junto aos grupos locais, inconformados pela exploração dos reis das cidades-estado[1], se retiraram para as montanhas, longe do controle, da vigilância e perseguição, dos carros de guerra e começaram uma nova forma de organização social conhecida como período tribal, ou como alguns dizem: aldeias comunitárias.

 

Na região montanhosa esses lavradores, pastores e imigrantes se reúnem em grupos cada vez maiores. Entre eles certamente estão descendentes dos patriarcas. Já não adoram Deus da mesma maneira que na cidade. A situação em que se encontram faz com que eles tenham uma experiência nova de Deus. Não aceitam o que na cidade se fala de Deus. Para eles, Deus não é alguém que sustenta e justifica a exploração, mas é alguém que está junto com eles na luta. Por isso, vão adotar do grupo de Moisés, que chega do Egito, por volta de 1200 a.C., um Deus com um nome provocador: Israel, que significa Deus luta.

 

Esse grupo, fugitivo do Egito, traz consigo experiências impor­tantíssimas entre elas: a certeza de que é possível vencer o opressor e o nome diferente de Deus (Javé), que não se confunde com o Deus das cidades-estado (que trazia o nome de El). Essas experiências vão ser fundamentais para unir cada vez mais os grupos em torno de uma causa comum: criar uma nova sociedade dentro de Canaã.

 

Todos esses grupos, tinham algo que era comum aos demais: Acima de tudo, sua condição socioeconômica. Eram hebreus, isto é, excluídos; todos fizeram oposição às cidades-estado; todos fizeram seu êxodo, sua libertação da dominação dos reis; todos fizeram uma experiência de passagem, de Páscoa; todos fizeram uma forte experiência de Deus no processo histórico de libertação, por conta disso, tinham objetivos comuns: viver livres da opressão, na fraternidade, respeitando-se nas diferenças que não comprometiam a unidade do novo projeto, mas também optando conjuntamente por aspectos essenciais para a sobrevivência da experiência alternativa que estava nascendo.

 

Dessa mesma forma procederam os quilombos, ao tentarem conscientemente construir uma sociedade livre em pleno Nordeste brasileiro escravocrata. Para evitar os particularismos locais que poderiam atrapalhar a nova convivência nas comunidades de Palmares, os quilombos mantiveram elementos essenciais luso-brasileiros, como a língua e a religião. Foi assegurada, porém, a prática de costumes africanos e indígenas naquilo que não tinha força para comprometer a unidade dos quilombos.

 

Na formação de Israel não terá sido diferente. Como em Palmares, também em Israel a religião teve um papel decisivo. Realizaram uma religião modelo como projeto a ser sempre buscado. Nessa nova forma de viver a fé, todos passaram a cultuar o Deus cujo nome é YHWH e que faz história com seu povo. A fé nesse Deus único criou uma identidade religiosa. Tornou-se fermento de transformação social.

 

A grande assembleia de Siquém indica esse desejo, essa aliança, em que todos os grupos envolvidos na formação das tribos israelitas se comprometem a ser fiéis a esse Deus. A partir daquele momento, YHWH deveria ser o Deus único, o Deus de todos os grupos. A assembleia de Siquém é lembrada como o ponto alto dessa nova organização (Js 24,1-28).  

 

A festa da Páscoa simboliza muito bem essa síntese das diferentes tradições religiosas, unificando-as ao redor do que havia em comum. Todos fizeram a experiência de Páscoa, de passagem, da opressão para a liberdade, para a terra onde corre “leite e mel”, isto é, terra boa. Foram os hebreus, pessoas à margem da sociedade da época, de diversas etnias, tradições e lugares que formaram o Povo de Israel.

 

Só mais tarde, especialmente a partir do exílio babilônico no século VI a.C., é que se desenvolve a ideologia da “etnia judaica” como raça eleita, mas, nas origens não foi assim. Fazer parte do Povo de Israel não significava pertencer a uma mesma árvore genealógica ou ser descendente de Abraão. Como vimos, hebreus são todas as pessoas excluídas pela sociedade daquele tempo.

 

A sobrevivência desses grupos nas montanhas só foi possível graças ao ferro, que já era conhecido e muito usado na época e serviu para a fabricação de machados e arados, utilizados no desmatamento e na preparação da terra para a agricultura.

 

A água necessária para a sobrevivência era retida em grandes cisternas revestidas com cal. Isso favoreceu o crescimento de povoados em regiões que, antes, apresentavam dificuldades para a sobrevivência humana. Esses grupos foram chegando aos poucos e foram ocupando lugares diferentes nas montanhas e em épocas distintas, recebendo nomes conforme as regiões que ocupavam.

 

O livro de Josué (1-12) apresenta a conquista completa do território, por parte das diferentes tribos, de forma rápida, unitária e muito simplificada. Mas esse mesmo livro, em muitas passagens, fala que as tribos não conseguiram ocupar determinadas áreas, como as planícies, porque nelas havia carros de ferro, utilizados para as guerras, os quais os israelitas não possuíam (Jz 1,19.27-36; Js 16,10; l7,12). A tribo de Judá, por exemplo, ocupou a região Sul, mas não conseguiu expulsar os Jebuseus que habitavam Jerusalém (Js 15,63). Assim também a tribo de Efraim não conseguiu expulsar os cananeus que habitavam Gazer, na parte central da terra de Israel (Js 16,10). O mesmo aconteceu com outras tribos (Js 17,11-13). Isso significa que a ocupação da terra não foi completa, unitária e pacífica como foi apresentada nos primeiros capítulos do livro de Josué. Não havia um órgão político centralizado que criasse ou controlasse os diversos grupos que foram ocupando os espaços vazios, nas montanhas do território de Canaã.

 

2 – A organização em tribos

Enquanto nas montanhas de Canaã se processa a formação e união das tribos[2], nas planícies as cidades estados começam a entrar em serias dificuldades. Enquanto nas montanhas de Canaã se processa a formação e união das tribos, na planície as cidades-Estado começam a entrar em sérias dificuldades. O Egito não envia mais tropas regulares para manter a ordem.

 

Contenta-se em receber os impostos. Os reis das cidades de Canaã fazem guerras continuas entre si para tomar o território do outro, deixando muitas vezes as cidades destruídas. Esse ambiente de desordem política é momento oportuno para que os camponeses refugiados nas montanhas- readquiram as terras mais férteis da planície, das quais eles se haviam retirado para escapar da exploração. Mas para que isso aconteça, é necessário que algo ou alguém os faça bem unidos e lhes dê coragem suficiente.

 

E essa coesão e coragem nascem justamente da religião Javé, o Deus do deserto, o Deus dos hebreus que venceu os deuses do Faraó, é também mais poderoso que os deuses cananeus. Por isso, há possibilidade de lutar e vencer. Animados em Javé, os grupos unidos descem das montanhas e conquistam cada vez mais a região da planície e até cidades (ler J s 6-12).

 

Entretanto, esses grupos necessitam de uma organização mais ampla. Não basta conquistar terras e cidades, mas é preciso saber o que fazer com elas.

 

A grande preocupação das tribos era não criar entre elas a mesma opressão que tinham sofrido. Foi, então, organizada uma liga ou confederado das tribos para que pudesse nascer e tornar-se viável um sistema diferente de sociedade. Através de assembleias, adultos de todas as tribos se reuniam periodicamente para adorar Javé, o Deus libertador, e para produzir normas orientadoras, elaborar e promulgar leis, fazer repartição igualitária das terras. Instituíram juízes para uniformizar as leis de cada tribo e que poderiam servir também para as outras, e para julgar os casos pendentes. As decis6es eram tomadas em assembleia, tanto a nível religioso, como político e econômico. Formou-se, assim, aquilo que costumamos chamar de Confederação das Doze Tribos de Israel.

 

2.1 – Principais características do projeto tribal

O novo sistema experimentado pelos israelitas pode ser reconstituído da seguinte forma. Havia uma articulação, um pacto entre as tribos.Representantes de todas elas se reuniam periodicamente em assembleias para celebrar sua fé e decidir questões de interesse comum, tal como a assembleia de Siquém.

 

Cada tribo também fazia suas assembleias para celebrar culto a Deus, para celebrar a memória da ação de Deus na sua história passada e presente. Tanto em cada tribo como no conjunto das tribos, os levitas exerciam um papel fundamental.

 

Eram os encarregados das atividades do culto e da transmissão das tradições. Cada tribo, por sua vez, se subdividia em vários clãs ou associações protetoras de famílias. Cada clã era composto de aproximadamente 50 famílias. Seus chefes constituíam a coordenação dos clãs. Aos clãs competia tratar: do auxílio econômico mútuo; do recrutamento militar; das celebrações; da observância das leis tribais; dos acordos matrimoniais. A família era a unidade básica. Tendo aproximadamente 50 pessoas, era composta pelos maridos, esposas, filhos, filhas e parentes próximos. Para visualizar o jeito de as tribos se organizarem, olhe atentamente o quadro abaixo!

 

Certamente nem tudo ia às mil maravilhas. Que havia dificuldades, isso o próprio livro dos Juízes nos relata. Falaremos disso mais adiante, aqui a nossa intenção é realçar o que havia de bom, novo, diferente das sociedades dos reis de Canaã ou mesmo do Egito. Israel ensaiou um projeto alternativo nos diferentes aspectos da vida: econômico, político, religioso, militar e no exercício da justiça. Vamos aqui resumir as principais bases que regiam as relações na sociedade tribal em Israel.

 

2.1.2 - Solidariedade econômica

No sistema egípcio e dos reinos cananeus, havia acumulação de riquezas nas mãos de poucos. Altos tributos eram cobrados das famílias camponesas. O comércio visava ao luxo e ao acúmulo. O latifúndio acumulava terras, enquanto as famílias camponesas se tornavam sem-terras.

 

As tribos ensaiaram algo novo, diferente, havia autonomia na produção; não havia tributação; nem acúmulo de bens, seja em terras, seja em produtos; a produção era fundamentalmente de cerceais e de gado pequeno, isto é, ovelhas e cabras; a acumulação era proibida em vista do bem comum. Partilhar era a palavra de ordem e acontecia em grandes festas. Por outro lado, especialmente Ex 16,13-27 nos mostra que ainda existia o vício do acúmulo, consequência da vida no sistema do faraó do Egito de onde acabavam de se libertar.

 

A caminhada rumo a Terra Prometida como que antecipou o jeito de conviver na terra prometida, foi como que uma escola onde as pessoas foram se desfazendo dos maus hábitos introjetados lá no Egito e assimilando novas formas de vida. Observe na narrativa sobre as codornizes e o maná (Ex 16,1-30) que os hebreus deviam recolher segundo a necessidade de cada pessoa, de cada família (Ex 16-181). Mas ainda havia quem acumulasse (Ex 19s1). E o interessante é que o acumulado apodrecia.[3]

 

Diferentemente do latifúndio nas cidades-estado, os israelitas tinham como proposta fundamental a partilha da terra entre as tribos, os clãs e as famílias. No livro de Josué, são oito capítulos inteiros para falar dessa reforma agrária (Js 13-21).

 

A terra pertence somente a Deus (Nm 26,52-56; 33,54 e Js 11,23). Nós não passamos de simples agregados de Deus (Lv 25,23; Sl 24, 1). Por isso, ninguém pode se apossar da terra. Se a terra é de Deus, todas as pessoas têm direito dela fazer uso. Essa proposta de uso coletivo da terra pelos clãs e famílias foi colocada em prática pelos israelitas especialmente nas montanhas de Canaã. A transmissão da terra se fazia mediante a herança (lRs 21,1-3). Também o ano sabático (Dt 15,1-11) e o ano jubilar (Lv 25,1-35) indicam uma sociedade fraterna. Um dos grandes objetivos das tribos foi construir um mundo em que “não haja pobres em seu meio” (Dt 15,4). É muito significativo que na nova sociedade também as mulheres conquistaram um direito que só os homens tinham. É o direito ao uso da terra, mas somente quando não havia filhos homens na família (Nm 27,1-11; 36,1-12).

 

2.1.3 - Poder partilhado

Um segundo pilar que sustentava a sociedade tribal eram as novas relações políticas. Nas cidades-estado, o poder era centralizado nas mãos dos reis. Era um poder absoluto, muitas vezes tirânico. As decisões vinham dos palácios, das cortes. Os reis se apresentavam como representantes das divindades. Diferentemente, em Israel, foram características políticas importantes do novo modelo social: Não havia rei; não havia palácio; não havia burocracia hierarquizada; mas havia uma sociedade igualitária, baseada na solidariedade mútua e organizada a partir da base, das famílias aparentadas que se articulavam em clãs e estes, por sua vez, em tribos (Nm 1,1-46); a autoridade era patriarcal e estava com os anciãos, homens líderes e com mais experiência acumulada, tanto nas famílias, como nos clãs e nas tribos; também o poder era partilhado, embora somente entre os homens. Um texto típico que sinaliza nessa direção é Ex 18,13ss. Mais uma vez, os vícios do poder centralizado no Egito permaneciam presentes. Moisés e o povo precisaram libertar-se deles. Como conseguiram? Com a adoção da experiência do grupo que veio de Madiã, aqui representado por Jetro, sogro de Moisés. O poder em Israel era repartido entre as lideranças.

 

Confira ainda outros dois textos que falam do poder colegiado (Nm 11,10-30; Dt 1,9-18). Mas como era esse poder? Leia Dt 17,14-20 e perceba que o poder experimentado pelos israelitas era muito diferente do poder dos reis cananeus descrito em 1Sm 8,10-17.

 

Em Dt 17,14-20, fica claro que a liderança que tivesse tal autoridade, de fato, nunca podia tornar-se um opressor. Senão vejamos: devia ser irmão do povo (v. 15); não devia ter exército grande (cavalos) nem levar o povo de volta à escravidão como no Egito (v. 16); não podia ter um harém com muitas mulheres, nem seguir os deuses das mulheres estrangeiras (v. 17; 1Rs 11,3s); nem podia ter grandes riquezas (v. 1 7b); devia seguir a lei de Deus (vv. 18ss). Era rei um líder com estas características? É difícil. O exercício do poder não era feito a portas fechadas, mas os rumos do povo eram definidos em decisões participativas, em assembleias populares (Js 18,1-10; 24,1-28).

 

Se nas tribos nenhuma pessoa podia ser o rei, quem então era o rei? A resposta você encontrará em Jz 8,22s. É dessa experiência religiosa de que somente Deus é rei que nasceu a expressão “Reino de Deus”. E neste “reinado”, a cidadania plena certamente está na ordem do dia, de todos os dias.

 

Embora o exercício do poder ainda fosse patriarcal, a participação das mulheres era possível. Ocupavam espaço de liderança que lhes iria ser subtraído durante o reinado. Sinal disso é a liderança da juíza Débora. Se você ainda não leu, então leia Jz 4-5! Os dois capítulos, um em prosa e o outro em poesia, descrevem os mesmos fatos.

 

Embora subvalorizados em comparação com os papéis do homem, os papéis sociais da mulher eram fundamentais: a procriação; a conservação e distribuição dos alimentos ao longo do ano; seu trabalho na produção de tecidos e outros objetos de artesanato; sua importância na transmissão da tradição das matriarcas, das parteiras e outras tradições; seu auxilio na lavoura, especialmente nas colheitas. É importante compreender que a casa na sociedade antiga não era, como hoje em dia, só lugar de consumo. Era muito mais. Era "indústria" doméstica, lugar de produção.

 

Confira Pr 31,10-31! O texto reflete a ambiguidade das experiências de mulheres numa cultura patriarcal. Por um lado, seus espaços são restritos e o poder lhes é negado. Por outro lado, o texto descreve uma diversidade de experiências: mulheres trabalham com lã e linho (v. 13), no comércio (v. 14), na compra e venda de propriedades (v. 16), na administração de propriedades (v. 16), etc. Ou seja, elas atuavam em espaços públicos onde normalmente só os homens atuavam.

 

2.1.4 - Leis a serviço da vida

Em terceiro lugar, analisemos o exercício da justiça, a aplicação da lei. Nas cidades-estado valia a lei do rei. Sua lei se confundia com sua vontade. E a profecia nos lembra que se praticava muito suborno na época dos reis. Muitos juízes decidiam a favor de quem os pagava (Am 5,7.12). Já no projeto alternativo, temos os juízes tribais. Há os juízes ocasionais e os permanentes. Sobre os juízes ocasionais falaremos adiante, quando tratarmos da questão do exército. Os juízes permanentes julgavam as questões do povo, zelando pela observância das leis tribais. Eram eles os administradores da justiça. Entre eles, nós temos Tola, Jair, Abesã, Elon e Abdon (Jz 10,1-5; 12,815). Certamente, na época tribal ainda não havia leis escritas. As que temos hoje nas Escrituras, especialmente no Pentateuco, os cinco primeiros livros da Bíblia, foram escritas durante o reinado, o exílio e até mesmo depois do exílio. São inúmeras leis espalhadas especialmente nos livros do Êxodo, Levítico e Deuteronômio. Muitas delas são antigas e remontam à época tribal.

 

Entre os códigos legais, se destacam os 10 mandamentos. O decálogo pode ser encontrado em Ex 20,2-17 e em Dt 5,6-21. Embora seja importante para a ética de Israel, ele não pode ser considerado o resumo de todas as leis, pois muita coisa foi introduzida e extraída do decálogo durante a história de sua redação. Faltam temas centrais típicos de outros códigos legais e mesmo da profecia. Senão vejamos: Faltam as leis que se referem aos tabus, como a abstinência de determinados alimentos, questões referentes à pureza e impureza e os tabus sexuais; Faltam as leis referentes ao culto, aos sacrifícios, às primícias aos dízimos, às festas, às peregrinações; faltam referências à economia e ao Estado, como o comportamento dos súditos para com as autoridades, os impostos, o trabalho forçado, a guerra e o serviço militar; faltam leis sobre o comportamento em relação aos excluídos, ao direito dos pobres, das viúvas, dos órfãos, dos forasteiros, dos surdos e dos cegos. Sua ausência é flagrante, pois são temas centrais no direito bíblico.

 

Por mais abrangentes que os dez mandamentos pareçam ser, de forma alguma eles se referem a todas as esferas da convivência e a todos os temas fundamentais da ética bíblica. Mas, mesmo assim, tornaram-se referência importante na vida do povo de Israel e também na vida das igrejas. Por isso, pensamos ser conveniente abordá-los mais adiante em um módulo próprio.  

 

2.1.5 Fé no Deus Libertador

Um quarto pilar que serviu de esteio para o sistema tribal é a religião. Se podemos comparar as relações econômicas, políticas e legais aos tijolos de uma construção, certamente o cimento que os ligava entre si foi a mística, a espiritualidade, foi o jeito de viver a fé no Deus da vida. Uma das características fundamentais da religião das tribos de Israel foi a crença num único Deus, libertador, doador de vida e liberdade (Ex 3). Seria interessante que você lesse de novo os parágrafos anteriores que tratam dos dois primeiros mandamentos. Definem como devia ser a nova relação com esse Deus.

 

Em Israel, houve um esforço para superar o politeísmo, isto é, a crença em várias divindades. A contínua insistência dos textos bíblicos, exigindo a fidelidade a um único Deus, já é sinal claro de que havia dificuldades neste campo (Ex 20,2-11; Js 24,1-15). Desde a formação do povo até o exílio do século 6 a.C., ou pelo menos até o rei Josias (640-609 a. C.), o politeísmo existia em Israel. É especialmente o profeta Isaías do exílio na Babilônia (Is 40-55) que elabora a teologia monoteísta.

 

Na assembleia de Siquém, as tribos fizeram a opção por YHWH. Essa opção não se fez por acaso. E a razão é porque foi com a força da fé em YHWH que o povo conquistou a liberdade e a terra. Mas, como já vimos acima, a luta pela superação do politeísmo existente entre as tribos acompanhou a caminhada de Israel durante séculos.

 

A passagem para o monoteísmo, isto é, a crença num único Deus, era de fundamental importância. Em vez de dividir, ele une. Em vez de espalhar, ajunta. Optar por um único Deus significa optar por um projeto único, fraterno.

 

A exigência de Josué de se comprometer com um único Deus as (Js 24,1-15) levou à exclusão de outras experiências religiosas, inclusive das divindades femininas. É possível que se tenha insistido tanto a fim de garantir o projeto tribal, solidário.

 

Na sociedade tribal, o jeito de viver a fé no Deus criador de vida e de relações excludentes certamente tinha muitas formas, muitas cores, muitos rostos. É provável que a imposição do Deus onipotente, masculinizado e autoritário somente tenha acontecido no reinado a partir da teologia do templo.

 

É interessante notar também que nas tribos havia vários santuários com seus cultos e sacerdotes. E não havia templo central com culto e sacerdotes. Só mais tarde, o rei Davi centralizou a arca da Aliança em Jerusalém (2Sm 6). E o rei Salomão é quem construiu o templo oficial de Jerusalém (1Rs 6). Mas somente o rei Josias, em 620 a.C., centralizou o culto em Jerusalém, destruindo os santuários do interior, destituindo seus sacerdotes e proibindo o culto fora de Jerusalém (2Rs 23,4-20).

 

A arca da Aliança, que continha o decálogo, era sinal da presença de Deus no meio de seu povo (Ex 25,10-22). Não estava fixa a algum santuário. Podia ser encontrada nos santuários de Siquém (Js 8,33), de Guilgal, depois da travessia do Jordão (Js 3-4), de Betel (Jz 20,26-28), de Silo (1Sm 1-3). Nas caminhadas do povo, seja em direção à terra prometida, seja nas guerras, a arca ia na frente, como guia, proteção e salvação ao mesmo tempo (Nm 10,33; Js 6; lSm 4-6).

 

A arca da Aliança não era uma representação de Deus. Aliás, o primeiro mandamento proibia imagens de Deus, pois YHWH não pode ser reduzido a algum elemento da natureza. O Deus da vida a tudo transcende. A arca era como que o lugar simbólico onde a presença de YHWH podia ser sentida, visualizada. Era como que o pedestal sobre o qual Deus se fazia presente de forma invisível.

 

Quanto aos sacerdotes, convém ressaltar que eles não podiam ser latifundiários, como nas cidades-estado (Gn 47,22). Quando Dt 18,1-8 fala dos direitos dos sacerdotes levíticos, diz que não podiam ter herança, isto é, terra. Veja também Js 20,1-8! Por não terem terra, os sacerdotes levíticos tinham direito a cidades para morar, junto com os arredores para servirem de pastagem aos seus rebanhos.

 

Os sacerdotes atuavam em santuários espalhados pelo interior: em Tabor (Jz 4,6.14), em Silo (1Sm 1,3; 3,1ss), em Betel (Jz 20,26ss), em Guilgal (Jz 3,19; 1Sm 11,15). Eram sacerdotes familiares ou tribais (Jz 17-18), uma espécie de capelães da roça, algo parecido com que hoje chamamos de "animadores".

 

Mas não havia sacerdotisas como nas religiões cananéias e egípcias. Na religião de YHWH, os traços patriarcais ainda continuam marcantes. Excluem as mulheres da participação no culto oficial, sacerdotal, relegando sua religiosidade para o âmbito privado, a casa. No entanto, alguns traços femininos são incorporados na experiência com YHVH, como a maternidade e a procriação. Para conferir isso, leia Sl 131; Is 49,15; 66,7.13; Os 11,1-5! O saber, portanto, não era centralizado em palácios e templos ou na pessoa do sacerdote. Os pais partilhavam desde cedo com os filhos a sabedoria e o segredo da fé (Dt 6,4-9.20-25).

 

2.1.5 Exército popular de defesa

Por último, é preciso verificar como era o poder militar em Israel tribal. Nas cidades-estado, o exército serve, por um lado, para garantir a estabilidade do sistema, repetindo a população, e, por outro, para fazer guerra de conquista. A guerra de conquista tem como objetivos acumular territórios, saquear riquezas e escravizar os povos conquistados.

 

Nas tribos, as guerras eram mais guerra de defesa. O exército era popular e de voluntários. Somente diante da ameaça de algum inimigo externo, os juízes libertadores articulavam a resistência. Sua ação era movida pela força do espírito (Jz 6,3; 11,29; 13,25; 14,6). O espírito é a porta de entrada por onde Deus se introduz na história, sem suplantar a ação das pessoas. O povo de Israel cresceu com esta consciência durante o período dos juízes. O livro de Juízes guarda a memória de seis desses juízes ocasionais. São eles: Otoniel (3,7-11), Aod ou Eude (3,12-30), Débora (4-5), Gedeão (6-8), Jefté (11-12) e Sansão (13-16).

 

A linguagem do profeta Joel, embora tenha atuado vários séculos após, define bem como os camponeses eram convocados diante da necessidade de se defender contra um exército inimigo: “De vossas relhas forjai espadas e de vossas podadeiras, lanças” (Jl 14,10). Depois da batalha, é isto que ocorria: “Das espadas forjarão arados e das lanças podadeiras” (Mq 4,3; Is 2,4). Dos seus instrumentos de trabalho os camponeses também faziam armas para se defender. Após a luta, os mesmos instrumentos passavam novamente a exercer sua verdadeira função, isto é, gerar alimentos para o povo. Tal como as armas após a batalha, tanto os juízes ocasionais quanto os combatentes, todos voltavam a trabalhar na roça.

 

Convém aqui voltar a frisar que as mulheres cumpriam, na sociedade tribal, um papel com uma participação mais efetiva que na sociedade tributária, a tal ponto de a juíza Débora comandar a guerra de defesa contra uma coligação de reis cananeus. Assim também Miriam, irmã de Moisés, teve um papel de liderança no êxodo (Ex 15,20). Lembre-se também de Raab (Js 2,8-21; 6,22-25) e de Jael (Jz 4,17-22; 5,24-27), ou da mulher que feriu de morte a Abimelec (Jz 9,50-55).

 

Mas é bom não esquecer que a cultura patriarcal prevalecia, mesmo no tribalismo. Embora com mais direitos que nas cidades-estado, as mulheres não saíram da "casa da escravidão patriarcal". O mesmo vale também para os filhos, especialmente as filhas. Para as tribos, a experiência de luta, as guerras de defesa são uma forte experiência de Deus.

 

Daí por que a guerra é chamada de “guerra santa”. A defesa da terra, da produção, da liberdade, da descendência, passou a ser o eixo da experiência de Deus. YHWH se tornou militante, lutador. Não é por acaso que o nome do povo seja Israel, o que significa “Deus luta”. E também não é por acaso que YHWH é o “Deus dos exércitos” (lSm 17,45; 2Sm 5,10).

 

Mas para defender sua vida, foi necessário que as tribos também atacassem cidades-estado que as oprimiam, a fim de consolidar um outro sistema de sociedade. No contexto da guerra, convém lembrar ainda que a lei do anátema, do extermínio, cumpre uma função importante (Dt 13,13-19; 20,10ss; Js 6,17-21).

 

Segundo essa literatura deuteronomista mais tardia, três são as motivações fundamentais para a prática da lei do extermínio total dos ídolos e das riquezas dos reis vencidos. A lei do anátema quer: evitar que a idolatria entre na vida do povo, criando divisões legitimadas por esses mesmos ídolos; manter a igualdade entre os membros das tribos; impedir que os combatentes se apropriem das riquezas, enriquecendo a uns em detrimento de outros. Podiam apenas saquear para matar a fome. Nesse período da história, as tradições orais se solidificaram e surgem os primeiros escritos bíblicos.

 

3. Os Primeiros Escritos Bíblicos

É muito provável que no final do período tribal tenham começado a surgir os primeiros escritos da Bíblia. São ainda pequenos textos que foram tocados e retocados no decorrer dos anos e integrados nos livros, dos quais hoje fazem parte. Podemos citar como escritos prováveis da época tribal:

 

1. Cântico de Débora" (Jz 5). Em Juízes, o "Cântico de Débora" é considerado o texto mais antigo. Ele celebra a vitória do Senhor concedida às tribos, pelas mãos da juíza Débora e do comandante Barac, sobre o exército de Sísara de Haroset -Goim, ao noroeste da planície de Jezrael.

 

2. Decálogo ou Dez Palavras (Ex 20,1-21). O Decálogo é um texto muito antigo por suas semelhanças com textos legislativos do segundo milênio a.C. e por sua forma literária na segunda pessoa do singular, muito semelhante às listas de proibições que regulavam o acesso ao templo nos lugares santos egípcios. Do mesmo modo os hebreus encontraram no Decálogo as condições para sua participação no culto. A Deus devia fidelidade, rejeitando os deuses pagãos, realizando o culto sem imagens, respeitando o nome de Deus e o sábado. Em relação ao próximo, deviam respeitar os pais e a vida (não matar, não cometer adultério), e evitar o falso testemunho e a concupiscência. O Decálogo é de fundamental importância para a orientação da vida, das relações com Deus e com os outros. Conhecemos o Decálogo com o nome de Dez Mandamentos.

 

3. Código da Aliança (Ex 20,22- 23,19). O Código da Aliança é uma aplicação prática do Decálogo. Traz leis e costumes muito antigos, que retratam a fase inicial da vida tribal, quando ainda havia a orientação dos anciãos, antes dos juízes. Regulava o direito geral e civil (Ex 21,122,20), as regras para o culto (Ex 20,22-26; 22,28-31; 23,10-19) e a moral social (Ex 22,21-27; 23,1-9).

 

Alguns salmos parecem retratar esse período (19,2-7; 29; 68; 82; 136). Vamos fazer um exercício lendo esses salmos e lembrando o contexto histórico do período tribal até a confederação das tribos de Israel.

 

4- Textos bíblicos sobre o período tribal

A maioria dos textos bíblicos que tratam da época tribal foram escritos posteriormente. Em alguns casos, passaram-se até mais de 600 anos para que alguém escrevesse algumas dessas narrativas. Não é possível estabelecer datas precisas de redação para todos os textos bíblicos. Tentaremos apenas mostrar, a seguir, alguns exemplos de como o período das tribos interessou a muita gente, mesmo tanto tempo depois, particularmente quando nas redações finais foram incluídas nos textos a memória desse período. Essas inclusões ocorrem às vezes em narrativas sobre períodos que antecedem ao próprio período tribal (Dt 31-34).

 

a) Textos que tratam da época do governo dos anciãos

O início da vida tribal é lembrado em alguns textos de Deuteronômio, Eclesiástico e Josué. Nesses textos encontramos referências à primeira fase do tribalismo, em que o governo do povo estava distribuído entre os anciãos (chefes de família) e clãs, em cada tribo (Dt 31,28). Os textos aludem à fidelidade à lei e à aliança, aos costumes religiosos, agrícolas e tecnológicos de cada tribo (Deuteronômio), destacam alguns líderes (Eclesiástico) e narram lutas de conquista (Josué).

 

Em Deuteronômio, os textos que falam sobre esse período estão nos quatro capítulos finais (31-34), os quais formam uma espécie de conclusão geral do conjunto do Pentateuco. Reúnem tradições de origem e épocas diferentes. As características da vida tribal estão inseridas em um contexto de recordação da despedida e morte de Moisés. Foram acrescentados ao Deuteronômio na última redação do Pentateuco, por volta de 445 a.C. Eclo 46,1-10 apresenta Josué como sucessor de Moisés no ofício profético (v, 1) e fala de Caleb, porque se afeiçoou ao Todo-Poderoso (v. 7).

 

Em Josué, o autor apresenta a conquista da terra de Canaã, desde os preparativos (1-2); a passagem pelo Jordão (3,1-5,12); a conquista de Jericó (5,13-7,26); a tomada de Hai (8,1-29); o tratado entre Israel e os gabaonitas (9,1-27); a coalizão dos cinco reis amorreus e a conquista do Sul (1O, 1-43) e do Norte de Canaã (11,1-12,24).

 

O último discurso de Josué (Js 23) constituía a conclusão da primeira redação do livro. Leia e observe as semelhanças dele com o último discurso de Moisés (Dt 31), a despedida de Samuel (1Sm 12), o testamento de Davi (lRs 2,1-9) e as últimas palavras de Matatias (1Mc 2,49-68).

 

A narrativa da assembléia de Siquém (Js 24) deve ter sido acrescentada durante o exílio ou depois deste, mas a tradição a que ela se refere é muito antiga. Josué apresenta às tribos as intervenções do Senhor em favor do povo na experiência do êxodo e em sua revelação no Sinai. Todas as tribos que não fizeram essas experiências assumiram como sua a experiência vivida por algumas. Todas juntas fizeram um pacto de fidelidade ao Senhor, tornando-se o povo escolhido por Deus.

 

5- Textos que tratam da fase final, sob o governo dos juízes.

Os demais textos sobre o período tribal fazem alusões às regras referentes à guerra santa, à repartição dos despojos, à divisão da Terra Santa e a certos costumes das tribos (Números e Josué), e apresentam as tribos sendo regi das pelos juízes, até o último (Samuel), antes de passarem para o regime monárquico (Juízes). São textos que refletem sobre essa época: Números, Josué e Juízes. Nm 31-32 apresenta as guerras que as tribos enfrentaram; Nm 33,50-56 e Nm 34 fazem a descrição das fronteiras; Nm 35 fala da parte que coube aos levitas; Nm 36 trata da herança da mulher casada. Js 13,8-33 retoma Nm 32, acrescentando nomes de lugares, e faz uma descrição das tribos na região da Transjordânia, sem, contudo, dar suas delimitações; Js 14-17 descreve as fronteiras das três grandes tribos do Centro e Sul da Cisjordânia, e Js 18-19, das tribos do Centro e Norte da Cisjordânia. Alguns dos territórios descritos nesses capítulos de Josué nunca foram dos israelitas, apesar de constarem no plano de Josué (Js 1,4) e do autor de Números (34,1-12); eram as áreas ocupadas ao sul pelos filisteus, pelos gessuritas (lSm 27,8) e pelos aveus (Dt 2,23), e ao norte pelos sidônios e pelos fenícios.

 

Jz 1-18 pode ser dividido em quatro blocos: 1) A primeira introdução (Jz 1-2,5) apresenta a instalação das tribos do Sul. Parece corresponder melhor aos fatos do que o livro de Josué (Js 10). 2) A segunda introdução (Jz 2,6-3,6) fala da morte de Josué, faz uma interpretação religiosa do período dos juízes e justifica a permanência das nações estrangeiras em meio aos israelitas, como castigo e provação da fidelidade ao Senhor. 3) A história dos juízes (Jz 3,7-16,31).4). Os dois apêndices: Jz 17-18 apresenta a história da fundação do santuário de Dã e da origem de seu sacerdócio; Jz 19-21 traz narrativas sobre guerras na tribo de Benjamim.

 

Essas narrativas bíblicas são quase as únicas referências que temos sobre o período tribal. Mas a preocupação dos autores da Bíblia não era contar a história tal qual aconteceu, e sim narrar a presença e a ação de Deus no meio do povo. Por isso, falar sobre esse período é muito difícil, porque na fase inicial da história do povo de Israel o uso da linguagem escrita era extremamente restrito. Quase todos os documentos escritos são muito posteriores ao período tribal. Além disso, são fruto de uma fusão de muitas tradições orais de épocas, contextos e grupos humanos diferentes. O importante para nós não é saber se os fatos aconteceram assim mesmo, mas descobrir a presença de Deus nas lutas do dia-a-dia, como fez o povo de Israel.

 

No período de 1220 a 1010 a.C., as tradições do passado de Israel eram contadas sobretudo por meio da tradição oral. Conhecemos poucas narrativas que teriam sido escritas nessa época. De uma forma geral, esse período ainda faz parte das tradições orais. O povo passou adiante, de geração em geração, as histórias que eram contadas e, muito mais tarde, registradas e unificadas em uma só história familiar.

 

Começam com a história de Abraão e seus descendentes (Isaac, Jacó, José e seus 11 irmãos), dos quais teriam nascido as 12 tribos de Israel. Todavia, de fato, muitos grupos de origens, situações e contextos diferentes integraram as tribos e receberam nomes segundo os lugares nos quais se estabeleceram. A uniformidade com que Josué apresenta o assentamento dos grupos não parece corresponder aos fatos. Há muitas dificuldades para precisar o período histórico das tribos de Israel; a Bíblia e a maioria dos estudiosos o situam nos séculos XII e XI a.C., no período pré-monárquico. O importante, porém, é a leitura que o povo da Bíblia fez de sua história, apesar da dificuldade de compreender alguns textos.

 

Não há dúvidas sobre a existência de grupos marginalizados que se uniram e foram para as montanhas por volta de 1300 a.C.; ali receberam diferentes nomes e são identificados com as 12 tribos de Israel. Estas eram governadas pelos juízes suscitados no meio dos grupos, para sua autodefesa, sobretudo nos momentos de perigo. Os grupos tentavam construir um estilo de governo mais democrático e comunitário, em contraste com o sistema tributário dos reis das cidades-estados e dos faraós do Egito. Infelizmente o sistema de vida tribal sobreviveu por apenas 200 anos. Houve problemas internos - corrupção, ganância e idolatria (1Sm 2,12-25) - além de problemas externos, como a ameaça constante dos filisteus na Cisjordânia e dos edomitas, moabitas, amonitas e madianitas na Transjordânia. O motivo mais importante que o autor bíblico dá ao fracasso do sistema tribal é a idolatria (Jz 2,2-23; 3,1-6). O fracasso era visto como castigo de Deus por causa da infidelidade à aliança. O Senhor não era mais a única segurança e força para levar adiante o projeto de igualdade e justiça. As tribos sentiram, então, necessidade de buscar segurança em outra forma de governo: a monarquia.

 

Conclusão:

Ao concluirmos esta lição poderíamos dizer que a partilha da terra é o coração da experiência tribal. O clã é o esqueleto. A tribo constitui a musculatura e os tecidos. A cabeça do corpo é a fé em Deus que guia o povo, através das lideranças, anciãos e juízes.

 

Assim, chegamos ao final dessa peregrinação pelos caminhos que levaram à formação das tribos de Israel. Durante aproximadamente 200 anos (1250-1050 a.C), coexistiram em Canaã dois modelos bem diferentes de organização social. Um era um projeto de exclusão. O outro de inclusão. Os reis filisteus e cananeus dominavam as planícies da região e muitas cidades fortificadas nas montanhas, enquanto os israelitas viviam livres especialmente nas montanhas. As características do sistema tribal, que analisamos acima, foram vividas com altos e baixos. Não chegaram a concretizar na totalidade o ideal de vida fraterna. Mas chegaram a fazer boa parte do caminho.

 

Dois séculos se passaram e a implantação da monarquia em Israel por Saul e Davi iria destruir esse sistema igualitário pelo qual o povo tanto lutara. O reinado significou, na verdade, uma volta ao mesmo sistema das cidades-estado cananéias, uma volta ao Egito. Será, então, missão da profecia fazer memória da época tribal e vir em defesa das vítimas da violência dos reis em Israel. Por que foi suplantada a experiência tribal? Como o reinado se impôs? A quem interessava? Foi pacífica essa mudança de sistemas? Houve resistência? De quem? Essas e outras questões vamos deixar para a próxima aula.

 

Assista estes filmes: 1ª Parte: http://youtu.be/sdEm2K5Ue4E

                                   2ª Parte http://youtu.be/Z9Uux51qDes

 

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[1] O QUE ERA UMA CIDADE-ESTADO? Era uma cidade governada por um rei. Era independente, como se fosse um pequeno país, cercada de muralhas, para evitar as invasões dos inimigos. Tinha uma parte alta, chamada acrópole, onde ficava o palácio do rei, o templo, e onde morava a classe dominante, gente da elite. Na parte baixa ficava o mercado e o casario de gente mais pobre, como pequenos comerciantes, artesãos e pessoal de segundo escalão. Ao redor da cidade havia terras cultivadas por campone­ses, que aí moravam em casas pequenas, desprotegidos, pois estavam fora das muralhas. O rei dava certa proteção com soldados, mas exigia em troca completa submissão. Com seu trabalho e lavoura esses camponeses sustenta­vam os grandes, que viviam na parte alta, pagando a eles tributo. Na maioria das vezes, sobrava para eles muito pouco da colheita e, por isso, viviam como escravos e numa situação miserável. Em Canaã, essas cidades-estado faziam parte do império do Egito, e pagavam tributo ao Faraó. E os camponeses tinham também que arcar com parte desse tributo.

 

[2] A tribo é uma organização social composta por famílias agrupadas em associações protetoras, a fim de se ajuda­rem economicamente umas às outras, se defenderem dos ataques inimigos e praticar a religião. A família é composta de 40 a 50 pessoas, compreendendo os pais, filhos, tios, primos e parentes, que vivem em casas vizinhas. O chefe é o pai ou avô (ancião), que decide as questões, funciona como sacerdote, arruma casamento para as jovens etc. Todas as pessoas que pertencem à família (chamada casa do pai) são tratadas como irmãos. A associação protetora, composta de umas 50 famílias, é coordenada pelos chefes de família. Essa associação pres­ta auxílio às famílias que, por algum motivo, passam dificuldades econômicas; reúne pessoal para defender a região onde moram; organiza celebrações religiosas e festas comuns, e realiza acordos matrimoniais. Essas famílias e associações, com experiências comuns de opressão e luta, se unem em uma entidade mais ampla chamada tribo, e vivem em região separada por causa do terreno ou floresta, onde exercem ocupações agrícolas e pastoris. A tribo também realiza assembleias, festas; decide fazer guerra ou acordo de paz, resolve questões jurídicas, faz distribuição fraterna da produção anual etc. Essas experiências comuns fazem com que as pessoas da mesma tribo se considerem irmãos e, por isso, procuram encontrar um antepassado comum a todos eles, mesmo que precise ser inventado. E interessante comparar a organização da tribo com a organização da cidade-Estado (cf. acima, p.1).

 

[3] Futuramente aprofundaremos esse tema em a Caminhada no Deserto: Entendendo o livro do Êxodo 15,22-18,27