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18 - Livro da Sabedoria
18 - Livro da Sabedoria

Curso Bíblico Online – Entendendo o Livro da Sabedoria

‘A SABEDORIA É UM ESPIRITO AMIGO DO SER HUMANO’ (Sab 1,6)

 Caminho para a justiça e a vida


 

1ª Aula: Introdução Geral

O livro da Sabedoria foi escrito em grego, no final do séc. I a.C., na colônia judaica de Alexandria, no Egito. O título dessa obra aponta para a “Sabedoria” como o tema principal. De fato, na primeira parte, o autor destaca a importância da Sabedoria como caminho para a justiça e a vida (1,1-6,21). Na parte central do livro, há uma descrição da origem e da natureza da Sabedoria (6,22-9,18); na última parte, o autor faz um resgate da ação da Sabedoria na história (10-19).

 

Contudo, o tema central do livro é a justiça, que está intimamente relacionada com a Sabedoria. Desde primeiro versículo, lemos: “Amem a justiça, vocês que julgam a terra” (1,1), pois “a justiça é imortal” (1,15). O tema da justiça perpassa todo o livro: “Vestirá a justiça como couraça, e usará como capacete um julgamento que não se pode subornar” (5,18); “Conhecer-te é a justiça perfeita, e reconhecer teu poder é a raiz da imortalidade” (15,3).

 

Ao ler os textos relacionados à justiça, constata-se que os justos, mencionados cerca de 27 vezes no livro da Sabedoria, sofrem, resistem e gritam por justiça e julga­mento contra os ímpios (14 vezes), também chamados de injustos (6 vezes): “Vamos oprimir o pobre e o justo [...] Vamos submeter o justo a insultos e torturas, para sabermos de sua serenidade e avaliarmos sua resistência” (2,10.19); “Então o justo estará de pé, cheio de coragem, diante daqueles (ímpios) que o oprimiram e lhe despre­zaram os esforços" (5,1).

 

Opressão, insultos, torturas, desprezo... Os judeus da diáspora alexandrina são discriminados e oprimidos por parte dos governantes gregos ou romanos e seus colabo­radores. Em meio a essa realidade instável, não é uma fantasia absurda fazer um apelo aos que detêm o poder.

 

Conhecendo a cidade de Alexandria e a comunidade judaica

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A cidade de Alexandria, no Egito, berço do livro da Sabedoria, foi fundada em 322 a.C. por Alexandre, o Grande. Já sob Ptolomeu IIe III (285-221 a.C.), a cidade, com um porto artificial voltado ao Mediterrâneo, tinha um grande movimento comercial e cultural, com a sua famosa Biblioteca, o Museu e o famoso farol, uma das sete maravilhas do mundo antigo. Alexandria, ao lado de Roma e Antioquia, era uma das três principais cidades poderosas e prósperas no mundo greco-romano.

 

No tempo do livro da Sabedoria, por volta do ano 30 a.C., Alexandria contava com cerca de 600 mil habi­tantes, entre os quais destaca-se a comunidade judaica, com cerca de 150 mil judeus, chegando a ocupar dois dos cinco quarteirões da cidade. E certo que essa cidade foi o centro mais importante da comunidade judaica fora da Palestina.

 

Historicamente, o Egito foi um dos lugares preferidos para os judeus fugidos da fome, de conflitos, de guerras e de outras dificuldades. A presença de mercenários judeus para servirem aos egípcios é bem conhecida, como os da colô­nia estabelecida por volta de 550 a.C., em Elefantina, uma ilha do rio Nilo, cerca de 900 quilômetros ao sul da atual capital Cairo, do Egito. No período grego (323-50 a.C.), os colonos judeus militares, com o apoio dos Ptolomeus, estabeleceram-se em vários pontos do Egito, tomando-se a mais forte concentração de judeus no mundo antigo.

 

Sob o governo do Segundo Ptolomeu, Filadelfo (285- 246 a.C.), os judeus adquiriram quase todos os direitos referentes à cidadania. Em Alexandria, eles se organiza­ram como politeuma, isto é, dentro da cidade viviam de forma quase autônoma em suas atividades econômicas, políticas e religiosas. Com numerosas sinagogas, os judeus mantinham a fé e a identidade cultural do seu povo. Nessa cidade, o Antigo Testamento foi traduzido do hebraico para o grego, a Bíblia comumente conhecida como a Tradução dos “Setenta” ou “Septuaginta”.

 

Na vida cotidiana, os judeus alexandrinos desem­penhavam um papel muito ativo, principalmente por atuarem na manutenção da ordem, por meio do exercício militar, além de serem despachantes e coletores de taxas nas atividades portuárias. Porém, eles não podiam par­ticipar inteiramente da vida social e política da cidade grega se não abdicassem completamente de sua identidade judaica: seus costumes e cultos religiosos. E enfrentando hostilidade, marginalização e até mesmo perseguição aberta dos gentios, muitos judeus não mais se preocupa­vam em preservar seus costumes e sua religião de origem.

 

Por volta do ano 30 a.C., Alexandria passa a ser ad­ministrada por Roma. A situação dos judeus se agrava radicalmente:

 

1- Os destacamentos de mercenários, inclusive ju­deus, perdem espaço, “emprego”, à medida que a manutenção da ordem começa a ser exercida pelas legiões romanas com a pax romana.

 

2- A função de coletores das taxas também passa a ser executada pelos cidadãos gregos, excluindo os judeus do mercado.

 

3- O governo romano impõe o imposto pessoal, cha­mado laografia, a toda a população sem cidadania plena, empobrecendo especialmente a população judaica rural e de baixa renda.

 

Tudo isso leva a comunidade judaica a uma profunda crise e à divisão interna. De um lado, um grupo dos judeus alexandrinos persiste na abertura à cultura helenista para buscar o direito à cidadania plena e melhor condição so­cial, abandonando inclusive a fé dos antepassados para assumir uma sociedade idólatra; de outro lado, cresce o empobrecimento e a perseguição para a maioria dos judeus por ter mantido a fé e a identidade cultural do povo judaico.

 

Em meio à realidade de perda de status e de espaços na sociedade e do aumento da pobreza, somando-se a isso o desprezo e a hostilidade social, é que nasce o livro da Sabedoria. Como reagir diante da discriminação e perseguição dos “injustos” ou “ímpios”? Como ajudar os judeus fiéis à fé dos seus antepassados a manter sua própria identidade e esperança na vida?

 

Autoria, destinatários

O título original desse livro na Bíblia grega é “Sa­bedoria de Salomão”. Conforme a tradição judaica, o rei Salomão era considerado o patrono da Sabedoria em Israel (lRs 3,5-15), por isso, essa obra foi dedicada a ele. Na antiga tradução latina, o título é apenas “Livro da Sabedoria”, designação que, em geral, aparece nas Bíblias católicas.

 

O autor é desconhecido, não dá seu nome, nem se apresenta no livro, mas, nas entrelinhas dos textos, pode­mos colher algumas informações sobre a autoria:

 

a) Conhecedor da literatura bíblica e da tradição judaica: o tema da imortalidade, em Sb 1,13-15 e 2,23-24, é inspirado em Gn 1-3; a tradição sobre Salomão, em Sb 7-9, se inspira nos textos de lRs 3-11 e 2Cr 1-9; a descrição da fabricação de ídolos, em Sb 13,10-19, vem de Is 44,9-20; a tradição do Êxodo, em Sb 11-19, é baseada no livro do Êxodo.

 

b) Possui domínio da língua, da filosofia e dos cos­tumes gregos, a saber: cosmovisão prática da filosofia grega, em Sb 7,17-20; contemplação da natureza e o culto de seres da criação nos costu­mes gregos em Sb 13,1-9; alimento dos deuses na tradição grega em Sb 19,21 etc.

 

c) Defensor da fé e da identidade cultural do povo judaico (2,12; 9,1): ajuda a discernir a respeito da Sabedoria de Israel como o caminho para a justiça, liberdade e vida (1-5); mostra a natureza e a grandeza da Sabedoria, dom de Deus (6-9); exalta a ação da Sabedoria de Deus na criação e na história (10-19).

 

É provável que o autor seja um judeu, conhecedor do mundo helenista, provavelmente vivendo em Alexandria.

 

Ele, junto com o seu povo, no Egito, vivenciou e enfrentou ameaças constantes à sua vida, fé e cultura. Assim, ele escreveu um livro para reforçar a fé e reavivar a esperança de seus irmãos judeus, fazendo um resgate da Sabedoria de Deus manifestada na história da humanidade e do povo de Israel.

 

O livro é dirigido também aos gentios e aos judeus que renunciaram ou estão em vias de renunciar à sua religião. Nessa obra, em contraposição ao helenismo materialista e idólatra, há uma apresentação da verdadei­ra Sabedoria que vem de Deus como a fonte da justiça, liberdade e vida para todas/os, opondo-se à idolatria e à injustiça (13-15). Os principais alvos de crítica são os governantes gregos e romanos, para que exerçam sempre suas funções com justiça (1,1-15; 6,1-11); e também aos sábios gregos, para que reconheçam a superioridade da Sabedoria de Israel (7,15-23). Além disso, ironiza e critica a pax romana do Imperador (14,22).

 

Conhecendo o livro da Sabedoria

A cultura e a sociedade helenista (greco-romana), baseadas na idolatria, são apresentadas como geradoras de injustiças. Para o autor, a alternativa é uma sociedade que reconheça e procure o Deus vivo e a sua Sabedoria, que necessariamente levará à justiça e à vida para todas as pessoas.

 

A Sabedoria é acreditar no Deus de Israel e ser fiel à sua Lei. Ela não é adquirida por mérito humano, mas um dom de Deus, e conduz à justiça e à verdadeira vida. O autor reforça o papel da Sabedoria divina como condutora e protetora do povo de Deus na história.

 

Dentre as diversas propostas para estruturar o livro da Sabedoria, escolhemos o modelo que divide o texto em três partes: a) 1,1-6,21: amar a justiça e rejeitar as estruturas de morte; b) 6,22-9,18: origem, natureza e meios para adquirir a Sabedoria; c) 10,1-19,22: ação da Sabedoria na história.

 

Primeira parte (1,1-6,21): amar a justiça e rejeitar as estruturas de morte.

Nesta primeira parte, há um convite para viver a justiça. Neste bloco, há uma contraposição entre o modo de vida dos justos e o dos ímpios, os que vivem sem Deus. Os inimigos podem ser os judeus que abandonaram a Lei judaica e a tradição do seu povo.

 

O livro inicia-se com um apelo aos governantes, para amar a justiça e rejeitar as estruturas injustas, que são geradoras de morte (1,1-15). Em seguida, temos um discurso apresentando a maneira de pensar e de agir dos ímpios. Conforme o pensamento do autor, eles fizeram pacto com a morte, são inescrupulosos e usam de vio­lência para atingir seus objetivos (1,16-2,24). No entanto, a vida dos justos está nas mãos de Deus, e eles serão recompensados. Indo na contramão da teologia oficial, o livro afirma que é melhor uma vida sem filhos do que ter filhos de uniões ilegítimas, e a morte prematura pode ser graça de Deus (3,1-4,19). E para finalizar essa parte, retomando o início do livro, o autor reforça o apelo aos governantes, afirmando que o poder é dado por Deus para o serviço da justiça (6,1-21). Em toda esta primeira parte, transparece o pensamento da recompensa do justo e da punição dos ímpios após a morte.

 

Segunda parte (6,22-9,18): origem, natureza e meios para adquirir a Sabedoria.

Nesta segunda parte do livro, o sábio afirma que pu­blicará tudo sobre a origem da Sabedoria. Para ele, “gran­de número de sábios é a salvação para o mundo” (6,24). O autor, como se fosse o rei Salomão, afirma que todos os seres humanos são iguais e têm direito à Sabedoria. Ela “é um tesouro inesgotável para o ser humano” (7,14). A origem do conhecimento está em Deus (7,15-21). Depois de apresentar os atributos da Sabedoria, o autor conclui: “Ela é emanação do poder de Deus” (7,25) e “tudo governa de maneira correta” (8,1; cf. 7,22-8,1). Apresentando a Sabedoria como mulher, pela qual ele está apaixonado e a quem sonha unir-se, o sábio ensina os jovens que estão se afastando da tradição judaica (8,2-16). Por fim, temos uma ampliação de lRs 3,6-9: a oração de Salomão. O rei pede, com insistência, para obter a Sabedoria: caminho para a imortalidade (8,17-9,18).

 

Terceira parte (10-19): ação da Sabedoria na história.

Destacando a libertação do justo, o autor apresenta o agir da Sabedoria na história da humanidade, desde Adão até a história de José (10,1-14). Em seguida, há uma longa recordação da experiência do Êxodo, enfatizando que os inimigos serão punidos e os justos recompensados (10,15- 19,22). Em meio à história do Êxodo, há um longo tratado contra a idolatria nos capítulos 13-15. Assim como Deus defendeu o povo hebreu da opressão dos egípcios, Ele o fará em todos os tempos (19,22).

 

O livro é um convite para reconhecer a presença da Sabedoria de Deus que conduz e protege a nossa vida. É possível esquematizar o livro da Sabedoria da seguinte forma:

 

1,1-6,21: a justiça e a Sabedoria

1,1-15: exortação à justiça.

1,16-2,24: discurso dos ímpios sobre a vida presente.

3,1-4,19: desígnios de Deus.

4,20-5,23: discurso dos ímpios no Juízo.

6,1-21: exortação aos governantes sobre a Sabedoria.

6,22-9,18: origem e natureza da Sabedoria

6,22-25: introdução.

7-8: discurso de Salomão.

9: oração de Salomão.

10-19: a ação da Sabedoria na história

10,1 -21: a Sabedoria protege os patriarcas.

11-19: a Sabedoria dirige a história no Êxodo.

 

O livro da Sabedoria foi escrito em um momento de forte crise política e religiosa da comunidade judaica de Alexandria, no Egito. Nele encontramos um forte apelo para que as pessoas, especialmente os governantes, amem a justiça e busquem a Sabedoria, entendida como fideli­dade a Deus e à Lei. É a Sabedoria que age na história da humanidade, desde as origens até o momento presente, e agirá em todos os tempos e lugares.

 

Organização deste livro

Cada texto bíblico que abrimos nos dá a possibili­dade de pisar no chão da vida de pessoas e grupos em suas lidas diárias, suas esperanças, sonhos e fé no Deus da vida. Para entender o livro da Sabedoria, apesar de ter dezenove capítulos, organizamos este subsídio com seis aulas. O livro da Sabedoria é uma porta que nos permite entrar na comunidade de Alexandria e nos anima em nossa caminhada de fé e esperança.

 

Neste estudo, faremos o seguimento percurso:

 

1ª aula: Introdução Geral: Para entender um texto biblico é fundamental responder às seguintes questões: Quando e onde foi escrito? Quem escreveu? Para quem escreveu? Qual a finalidade? Como era o contexto social, econômico e religioso  em que nasceu o livro?

 

2ª aula: com o tema Chamadas/os para viver a justiça (1,1-15), queremos ouvir, compreender e assumir o serviço da justiça. É um convite para renovar nossa fé no Espírito de Deus e na Sabedoria, que não habitam as pessoas que vivem a injustiça. Precisamos acreditar na justiça e resistir à cultura de morte em que vivemos. No ditado do povo, ouvimos: “A justiça sem a força é impotente; o poder sem a justiça é tirania”.

 

3ª aula: em uma sociedade injusta, quem vive a justiça é perseguido. Com o tema Assumir os riscos de uma vida segundo a justiça (1,16-2,20), vamos refletir e rezar a realidade de pessoas e grupos que são perseguidos por causa da justiça. Queremos nos comprometer com a prática da justiça e descobrir formas de nos solidarizar com as pessoas que são perseguidas por causa da justiça. Vamos fazer valer o ditado popular: "Procure acender uma vela em vez de amaldiçoar a escuridão”.

 

4ª aula: O poder dado por Deus é para o serviço da justiça (6,1-11), tema que provoca revisão so­bre o poder em todas as dimensões: política, econômica, social e religiosa. Como seguidoras e seguidores do Deus da Vida, temos a missão de ser promotoras/es da Paz, usando o poder que temos para a defesa e a promoção da vida ameaçada, sem nunca desanimar: “Água mole em pedra dura tanto bate até que fura”.

 

5ª aula: O ser humano fabrica ídolos para fins lucrativos (15,7-19). Com esse tema, refletiremos a so­ciedade idolátrica em que vivemos e o uso de ídolos para manipular e distorcer a verdade e a justiça. A ambição do poder e do ter não conhece limites e usa de todos os meios, especialmente o religioso, para manipular, opri­mir e manter a corrupção. Juntemos nossas vozes para denunciar e desmascarar os ídolos que insensibilizam o ser humano ante a situação de injustiça social. Relembremos o ditado do povo: “Desconfia da pessoa que não fala e do cão que não ladra”.

 

6ª aula: A Sabedoria ªde Deus sempre acom­panha o seu povo. Rezando o tema A Sabedoria liberta o povo da escravidão (10,15-11,3), buscaremos compre­ender o agir de Deus ao longo da história do seu povo e da nossa história. Diferentemente do culto propagado pelo poder opressor, a fé em Deus garante vida digna e livre da opressão. Em meio à realidade em que vivemos, precisamos confiar que “Deus escreve certo por linhas tortas”.

 

Ler, entender e refletir o Livro da Sabedoria é um grande desafio. Que possamos entrar, com amor e respei­to, no dia a dia da comunidade de Alexandria, perceber suas buscas, sonhos e esperanças e, assim, encontrar novas luzes, para iluminar a vida de nossas comunidades. Renovemos a nossa certeza de que “o Espírito do Senhor enche todo o universo. Ele, que sustenta tudo o que existe, tem conhecimento de tudo o que se diz” (1,7).

 

Para completar e finalizar o nosso estudo assista novamente o vídeo e logo abaixo na caixa  de comentários deixe o seu parecer.

 

 

 

Acesse aqui para ir para a 2ª aula: http://leituraorante.comunidades.net/2-aula-chamados-as-para-viver-a-justica