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2 - A terra esta cheia de violência Gn 6,1-22
2 - A terra esta cheia de violência Gn 6,1-22

Os relatos anteriores de Adão, Eva e a serpente (Gn 2,4b-3,24), Caim e Abel (Gn 4,1-16), Lamec (Gn 4,23-24) mostram a auto-suficiência, cujas conseqüências são concentração de bens, de poder e o controle social.  O ser humano busca ser como deus; ele não reconhece Javé como o seu criador. A conseqüência é a competição, o aumento da violência e a morte.  O narrador descreve o desânimo de Deus diante de seu projeto inicial: "Meu espírito não permanecerá no homem, pois ele é carne; não viverá mais que cento e vinte anos" (Gn 6,3; cf. 2,7).

 

Nos versículos 1-4 do capítulo 6, o autor apresenta uma antiga história sobre a união dos filhos dos deuses com as filhas dos homens. Há muitas interpretações possíveis para esse texto, mas, no contexto das narrativas de Gênesis 1-11, é possível ver a pretensão das pessoas de ser como as divindades. Os filhos de Deus se comportam como donos absolutos do mundo. A vontade deles é que importa: eles viram as belas filhas dos homens, gostaram delas e as tomaram como suas mulheres. Curioso que, na Bíblia, há relatos de homens poderosos que agiram dessa forma, por exemplo: Davi, quando vê Bersabéia tomando banho, fica boquiaberto com a sua beleza e manda buscá-la para si (2Sm 11,2-5).

 

De acordo com o relato de Gênesis, a realidade de corrupção provoca a destruição da terra. A expressão "Javé viu" introduz a decisão de uma intervenção (Gn 6,2; 29,31; Ex 2,25; 3,4; 4,3). No primeiro relato da criação, Deus vê a sua obra e conclui que tudo era muito bom (Gn 1,31). No entanto, agora aparece o oposto: "a maldade do homem era grande sobre a terra, e era continuamente mau todo desígnio de seu coração" (Gn 6,5). Esse texto, possivelmente, nasce a  partir da realidade de injustiça e violência praticadas pelos dirigentes do Estado, especialmente da Babilônia.

 

Diante da maldade do ser humano, o autor apresenta Javé de maneira muito humana, vivendo um grande conflito interior: "arrependeu-se de ter feito o homem sobre a terra, e afligiu-se o seu coração" (Gn 6,6).  A palavra hebraica usada para o verbo arrepender-se é naham, que possui a mesma raiz de Noé. Além do significado de arrepender-se, essa palavra pode ser entendida como doer-se, sentir pesar, consolar-se, compadecer-se, sentir pena e compaixão.

 

O ser humano pode ter esperança, pois Deus se compadece e aponta para uma luz no fim do túnel. O versículo 8 começa com Noé, o homem que encontra graça aos olhos de Javé. Ele é descrito como justo e íntegro entre seus contemporâneos, uma pessoa que "andava com Deus". Esta expressão é usada unicamente para Noé e para Henoc (Gn 5,21-24). O próprio Javé reconhece Noé como justo (Gn 6,8). Ele é o homem que tem no nome a mesma raiz da palavra arrependimento e compaixão. Ele anda e vive com o Deus da gratuidade.

 

O verbo hebraico shāhat, cujo sentido pode ser corromper, é usado três vezes em Gn 6,11-12 para descrever a situação da terra. O mesmo verbo também é usado no v. 13 no sentido de exterminar ou desaparecer: "Deus disse a Noé: 'Chegou o fim de toda carne, eu o decidi, pois a terra está cheia de violência por causa dos homens, e eu os farei desaparecer da terra'" (Gn 6,13.17).  A corrupção do ser humano gera a destruição da terra e de todos os seres vivos. Noé recebe a ordem de fazer uma arca, alojando animais de todas as espécies.

 

Uma arca que não parece nada com um barco: retangular, com três andares, semelhante à concepção de mundo daquela época. É nesse pequeno mundo que estão as sementes da nova humanidade. Arca é um termo que aparece vinte e seis vezes no relato do dilúvio, e será empregado mais duas vezes em Ex 2,3.5. É possível que exista uma ligação entre a salvação da humanidade por meio de Noé e a de Israel por Moisés.

 

No primeiro relato da criação, Deus estabelece uma ordem no universo. No entanto, a maldade humana provoca a desordem. A palavra hebraica dilúvio, mabbûl, significa "o oceano do céu". De acordo com Gênesis 1,9, Deus ordena: "Que as águas que estão sob o céu se reúnam num só lugar e que apareça o continente"; no dilúvio, a ação é contrária: as comportas do céu se abrem (Gn 7,11). As barreiras colocadas por Deus foram rompidas. As águas de cima e as de baixo se misturam. O continente desaparece, a vida se extingue. Acaba-se a ordem. O dilúvio é uma volta ao caos.

 

Em meio ao caos, Deus faz uma aliança com Noé e com toda a sua família. A aliança com Noé não exige a contrapartida, é gratuidade de Deus: o objetivo é preservar a vida. Desde os inícios da humanidade, Deus é o defensor dos justos e dos oprimidos (Ex 3,7). Na arca, homem, mulher, filhos e um casal de cada ser vivo formam uma só família. Eles carregam a responsabilidade de cuidar do universo, mas o centro da salvação é Noé. Ele, como Moisés e outros grandes líderes do povo de Israel, encontra graça aos olhos de Javé (Ex 33,17).

 

Em síntese, o capítulo 6 do livro do Gênesis narra as causas do dilúvio e a decisão de Deus de manter a semente da vida por meio de Noé. Numa descrição detalhada, o texto apresenta os preparativos antes da catástrofe: a construção de uma arca e a escolha de animais de cada espécie para conservar a vida. O narrador já havia nos informado sobre a conduta de Noé, agora comprovada por sua ação: "Noé assim fez; tudo o que Deus lhe ordenara, ele o fez" (Gn 6,22).

 

2. “Deus lembrou-se então de Noé”: Gn 7,1-8,22

 

Tudo esta preparado para as águas caírem. Noé, toda a sua família e os animais aguardam o dilúvio na arca por sete dias (Gn 7,1-10). O próprio Javé confirma o motivo de Noé ter sido o escolhido: "É o único justo que vejo diante de mim no meio desta geração" (Gn 7,1). A auto-suficiência e a maldade humana impossibilitam o relacionamento entre as pessoas, com todos os seres criados e com Deus. Distanciando-se da imagem de Deus, que é o ser humano, a pessoa se distancia do próprio Deus. Mesmo assim, Deus continua estendendo a sua mão. Dando-nos mais uma chance.

 

O olhar de Deus pousa sobre Noé, nele repousam as esperanças de restaurar a humanidade (Gn 6,8). Os poderosos, com sua ganância e ambição, distanciam-se do projeto de Deus, baseado na partilha e na solidariedade. São eles que estão provocando a destruição. A salvação da nação não depende dos poderosos (Sf 3,1-3: Mq 4-5). A família de Noé, como o resto de Israel, é responsável pela sobrevivência e restauração do povo. Esse resto pode contar com a ação de Deus, o go'el, aquele que assume a defesa dos oprimidos e inocentes (Gn 4,11.15: 9,6; Nm 35,19).

 

O dilúvio é descrito como volta ao caos: "nesse dia jorraram todas as fontes do grande abismo e abriram-se as comportas do céu" (Gn 7,11). Romperam-se os diques colocados por Deus. É uma anulação do segundo dia da criação (Gn 1,7). Tudo virou um aguaceiro só: as águas de baixo e as de cima se juntaram, provocando o dilúvio. Mas, afinal, a inundação foi provocada pelo rompimento das comportas do céu ou por uma chuva torrencial? (Gn 7,4.12). É importante lembrar que há duas diferentes redações do dilúvio que se fundiram num único texto.

 

A mistura das águas já tinha acontecido quando ouvimos que "Javé fechou a porta por fora" (Gn 7,16). Dessa forma, o autor nos lembra que Javé, mesmo mantendo firme o seu propósito de destruir a terra, continua acompanhando os passos do ser humano e protegendo as sementes de uma nova humanidade. Tudo desaparece: "Morreu tudo o que tinha um sopro de vida nas narinas. Isto é, tudo o que estava em terra firme" (Gn 7,22).

 

Na terra não sobrou sequer um fio de vida, tudo se extinguiu. Interessante que não são mencionados os animais que vivem no mar. De fato, o que está em questão é a destruição da terra por causa das situações de pecado e da maldição sobre o solo (Gn 3,17). Dessa forma, simbolicamente, as águas purificam a terra e a preparam para uma nova relação dos seres humanos com a terra.

 

Depois da catástrofe, ouvimos uma palavra de esperança: "Deus lembrou-se então de Noé e de todas as feras e de todos os animais domésticos que estavam com ele na arca” (Gn 8,1). Lembrar-se tem o sentido de compadecer-se (Gn 19,29; 30,22; Jr 31,20; Sl 8,5). Novamente nos lembramos da primeira criação: sopra o vento (Gn 1,2), separam-se as águas inferiores e superiores (Gn 1,7), aparecem a terra firme (Gn 1,9) e as plantas (Gn 1,11); as aves voltam ao firmamento (Gn 1,20), o ser humano sai para repovoar a terra (Gn 1,28). Todos esses passos acontecem novamente em Gênesis 8,1-12: Deus ordena o caos, re-cria a ordem. 

 

Para saber se as águas tinham baixado, Noé solta uma pomba, que, não encontrando lugar onde pousar, retorna para a arca. Em seguida, uma segunda pomba é solta e volta com um ramo de oliveira no bico, sinal de vida nova. E, pela terceira vez, solta a pomba que não volta. Assim, Noé compreende que a terra está seca. Já pode sair. Em seguida, o texto acrescenta: "Então assim falou Deus a Noé: 'Sai da arca, tu e tua mulher, teus filhos e as mulheres de teus filhos contigo” (Gn 8,15). Noé recebe a ordem de sair e fazer saírem todos os que se encontram na arca. A bênção de Deus os acompanha: "que pululem sobre a terra, sejam fecundos e multipliquem-se sobre a terra" (Gn 8,17b). Essa bênção a Noé e a seus filhos já havia aparecido no primeiro relato da criação (Gn 1,28; 9,1.7).

 

Como no mito mesopotâmico de Gilgamesh, Noé constrói um altar e oferece sacrifícios para Javé; o ser humano reconhece que Deus é o criador. Esse relato, que nasceu no meio do povo, recebeu alterações da tradição sacerdotal e da teologia do puro e do impuro. O texto contém uma camada popular e outra oficial. Porém, o mais importante é a promessa que não haverá mais maldição: "Enquanto durar a terra semeadura e colheita, frio e calor, verão e inverno, dia e noite não hão de faltar" (Gn 8,22).

 

O ritmo constante dos dias e do ano permite a vida das plantas, dos animais e das pessoas. É o sonho e o desejo de que a vida tenha condições de florescer, não obstante a dura realidade dos exilados. E o mais importante: Deus está presente e renova a sua aliança. Ele é o protetor e o libertador do povo oprimido: "aquele que te modelou, ó Israel: não temas, porque te resgatei, chamei-te pelo teu nome: tu és meu" (Is 43,1). Vamos continuar lendo a história de dilúvio e entender qual é o projeto de Deus para a formação da nova humanidade.

 

3. “Eis que estabeleço minha aliança convosco”: Gn 9,1-17

 

  A primeira cena do capítulo 9,1-7 está emoldurada com uma bênção. No v. 1, Noé e seus filhos são abençoados; no v. 7 a mesma bênção se repete, acrescentando: dominai a terra. A bênção é um sinal da proteção especial de Deus (Gn 12,3: 14,9). Ela não é só desejo ou palavra de consolo, mas é garantia de vida digna. A bênção de Deus inclui prosperidade, vida longa e descendência (cf. Sl 128). Ela se manifesta na multiplicação da vida: "Sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra" (Gn 9,1.7).

 

  Toda a natureza e todo ser vivo está entregue nas mãos do ser humano (Gn 9,2). Antes do dilúvio, a erva é o alimento de todos (Gn 1,29-30). Depois do dilúvio há outra ordem: "Tudo o que se move e possui vida vos servirá como alimento, tudo isso eu vos dou, como vos dei a verdura das plantas" (Gn 9,3). A partir de então o ser humano pode matar outros animais para se alimentar. Matar para se alimentar é muito perigoso, por isso se faz necessário colocar proibições.

 

"Não comereis a carne com sua vida, isto é, com o sangue" (Gn 9,4). A tradição judaica acredita que a vida está no sangue. A vida pertence exclusivamente a Deus. Trata-se do respeito à vida. Não matar os animais simplesmente por diversão ou demonstração de poder. E quanto ao ser humano, a proibição é mais dura ainda, pois o próprio Deus pedirá contas. A expressão "pedirei contas" é repetida três vezes no v. 5, indicando que Deus exercerá a vingança contra quem tira a vida de outra pessoa. Ele age como o parente próximo que tem o direito de vingar o sangue (Gn 4,10).

 

"Quem derrama o sangue do homem, pelo homem terá seu sangue derramado. Pois à imagem de Deus o homem foi feito" (Gn 9,6). De acordo com as leis antigas, quem mata uma pessoa está sujeita à justiça daqueles que têm o direito de exercer a vingança (Nm 35,19). Quem respeita a vida é portador da bênção de Deus.

 

A segunda cena deste capítulo começa com a aliança e termina com o sinal da aliança (Gn 9,8.17). A aliança com Deus possui características diferentes em cada etapa da história de Israel. No início, a aliança é com Noé e com toda a criação, e o sinal é o arco. Em seguida, com Abraão e os seus descendentes, tendo como sinal a circuncisão (Gn 17); mais tarde, no período do pós-exílio, a aliança, tendo como patrono Moisés, será exclusiva para Israel e exigirá a obediência à Lei, em especial à lei do sábado (Ex 19,5; 34,27-28; 24,7-8; Ex 31,16-17).

 

A aliança de Deus com Noé e com todas as criaturas é gratuita. Não há exigências. A sua aliança é em defesa da vida da terra, de todos os animais e do próprio ser humano: "Não haverá mais dilúvio para devastar a terra" (Gn 9,11). A aliança com toda a natureza é um tema presente em outros livros proféticos. Na profecia de Oséias, lemos: "Farei em favor deles, naquele dia, um pacto com os animais do campo, com as aves do céu e com os répteis da terra" (Os 2,20).

 

O termo aliança, berit, é repetido sete vezes neste capítulo (Gn 9,9.11.12.13.15.16.17). O compromisso é firmado com toda a humanidade e com todas as criaturas. O sinal é o arco: "porei meu arco na nuvem e ele se tornará um sinal da aliança entre mim e a terra" (Gn 9,13). Deus coloca um sinal para ele se lembrar de sua aliança. Será que ele tem o hábito de esquecer? Não. É apenas uma forma simbólica de falar. A nuvem é o veículo de Deus (Is 19,1; Sl 104,3). O arco é o símbolo da presença de Deus (Ez 1,28)

 

O surgimento do arco-íris depois de uma chuva forte sempre traz uma sensação de bem-estar, de um novo frescor. No campo ou nas pequenas cidades, há muitas pessoas que costumam repetir: é o sinal da aliança de Deus. O arco-íris é portador de boas-notícias: Deus está sempre disposto a manter a sua aliança. O seu projeto é de um mundo solidário e justo.

 

O convite do grupo profético no exílio continua válido e aberto a todas/os: "Ah! Todos que tendes sede, vinde à água. Vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; comprai sem dinheiro e sem pagar, vinho e leite. Escutai-me e vinde a mim, ouvi-me e vivereis. Farei convosco uma aliança eterna, assegurando-vos as graças prometidas a Davi" (Is 55,1.3). Deus é nosso aliado na construção de uma nova sociedade. Demo-nos as mãos e sejamos, à imagem e semelhança de Deus, portadoras/es de bênçãos.

 

4. A realidade de injustiça atinge toda a natureza.

 

 Nas primeiras páginas da Bíblia, a transgressão de Adão e Eva provoca ruptura no relacionamento com Deus e com a terra. No relato de Caim e Abel vemos que a inveja e as desigualdades atingem a vida do irmão e da irmã. À medida que a realidade de injustiça aumenta, atinge toda a natureza. A autosuficiência do ser humano continua ameaçando a vida em nosso planeta.

 

O dilúvio é conseqüência da maldade humana e da realidade de violência. A decisão de destruir o mundo e a de salvá-lo partem de um único Deus. O mito babilônico, em suas várias versões, é mais antigo do que os relatos de Gênesis 6-9. Provavelmente, os autores do relato bíblico tinham conhecimento dessas histórias e as adaptaram conforme a sua realidade.

 

A intenção do relato bíblico é apresentar o dilúvio como um ato divino por causa da corrupção da humanidade. As narrativas de Gênesis 1,1 até 6,4 narram situações de pecado individual e coletivo. Deus é descrito como o Senhor de toda da história, criador do universo e de todos os seres vivos. Num ato de amor, ele cria e, por causa da maldade humana, ele destrói. A leitura desses textos transmite a consciência de que uma situação de pecado traz sofrimento e destruição para os seres vivos, para toda a natureza e para a sociedade.

 

Toda ação contra a vida é uma ruptura da aliança com Deus. "Pereceu então toda a carne que se move sobre a terra: aves, animais domésticos, feras, tudo o que fervilha sobre a terra e todos os homens. Morreu tudo o que tinha sopro de vida nas narinas" (Gn 7,21-22a). Nas tradições bíblicas há vários textos que reafirmam essa verdade (Os 4,1-3).

 

Na mentalidade dos profetas, Deus faz justiça aos oprimidos e fracos destruindo o opressor. Na profecia de Amós, lemos: "Ele que faz as Plêiades e o Órion, que transforma as trevas em manhã, que escurece o dia em noite, que convoca as águas do mar e as despeja sobre a face da terra, Javé é o seu nome! Ele faz cair devastação sobre aquele que é forte, e a devastação virá sobre a cidadela" (Am 5,8-9).

 

A profecia de Sofonias ergue o seu grito contra a política opressora dos governantes. Ele anuncia a ação de Javé: "Na verdade suprirei tudo da face da terra, oráculo de Javé. Suprimirei os pássaros do céu e os peixes do mar, farei tropeçar os perversos e aniquilarei os homens da face da terra, oráculo de Javé" (Sf 1,2-3). Na realidade, são as situações de injustiça e exploração que estão acabando com a vida do povo e destruindo a natureza (Sf 1,2-2,3).

 

Um pouco antes do exílio da Babilônia, o profeta Jeremias denuncia a situação de destruição, conseqüência da ganância e da ambição dos governantes. A voz do profeta continua ressoando em nossos ouvidos: "Sim, meu povo é tolo, eles não conhecem, são filhos insensatos, não têm inteligência; são sábios para o mal, mas não sabem fazer o bem!" (Jr 4,22). Em seguida, ele descreve a terra como um imenso deserto: "Porque assim disse Javé: a terra será devastada, mas não a aniquilarei completamente" (Jr 4,27).

 

O profeta Jeremias compara a ação imperialista ao dilúvio: "É o Egito que subia como o Nilo e como os rios agitavam as águas. Ele dizia: 'Subirei, cobrirei a terra e destruirei a cidade e os seus habitantes'" (Jr 46,8). Outras pessoas que deram continuidade à profecia de Jeremias vêem a destruição da Babilônia como um ato de Deus: "Porque Javé devasta a Babilônia e acaba com o seu ruído, ainda que suas ondas bramam como grandes águas e ressoe o fragor de sua voz" (Jr 51,55).

 

O tema do dilúvio atravessa a história de Israel como símbolo da destruição causada pela maldade humana e a esperança a partir de Noé. No exílio da Babilônia, na situação de abandono e destruição provocada pelos pecados de uma elite de Israel (Jr 23,1-6; Ez 34,1-31), um grupo recorda a promessa de Deus e sua fidelidade: "Como nos dias de Noé, quando jurei que as águas de Noé nunca mais inundariam a terra, do mesmo modo juro agora que nunca mais me encolerizarei contra ti, que não mais te ameaçarei. Os montes podem mudar de lugar e as colinas podem abalar-se, porém meu amor não mudará, minha aliança de paz não será abalada, diz Javé, aquele que se compadece de ti" (Is 54,9-10).

 

Os relatos em torno do dilúvio em Gn 6-9 contêm uma promessa de vida: "Eu não amaldiçoarei nunca mais a terra por causa do homem... Nunca mais destruirei todos os viventes" (Gn 8,21). Não, Deus não destrói. A sua aliança com o ser humano é feita sem exigir nada em troca. É feita na gratuidade. Mas esse gesto de amor está sem resposta, pois a terra continua sendo destruída pela ganância e ambição de grupos poderosos. O aquecimento global provoca furacões, secas, inundações e incêndios nas florestas. A Vida está ameaçada, e ninguém está a salvo.

 

O efeito estufa é resultado das atividades humanas, especialmente das indústrias que lançam vários gases na atmosfera. Esses gases formam uma camada em torno do planeta e impedem que a radiação solar retorne ao espaço. De acordo com o tratado de Kyoto, em 2005, os países se comprometeram a reduzir em 5% as emissões de dióxido de carbono em relação aos níveis de 1990. Os Estados Unidos, responsável por 25% de todo o gás carbônico emitido no planeta, não assinou esse tratado. Os dados são alarmantes. O nível de emissão de gases continua subindo. De acordo com dados da ONU, em 2005 aconteceram 360 desastres naturais, dos quais a maioria foi provocada pelo aquecimento global. Vejamos os fatos: foram 168 inundações, 69 tornados e furacões e 22 secas que afetaram a vida de 154 milhões de pessoas. 

 

A política neoliberal, concentradora de renda e de poder, continua destruindo a vida. Como podemos pressionar os governos para mudar as políticas de desenvolvimento em vista de uma economia solidária e sustentável? É importante que todas e todos tomemos consciência da gravidade do momento. Como pessoa, grupo e comunidade nós podemos somar forças com outros grupos que lutam pela preservação do meio ambiente. Como seres humanos somos chamados a viver em harmonia com toda a criação. É urgente dar uma resposta à nossa vocação! Que possamos viver de maneira integrada com todo o universo. Respeitemos esse chão sagrado que é a nossa casa.

 

Bom dia natureza, pulmão da terra mãe Portal da cor futuro, cada nascer do sol.       

Carinho companheiro                      

É como se a paz

Cobrisses o mundo inteiro

Terra, água, fogo e ar

Quero o sabor do som

Quero tocar visão

Cheiro de vida, é um mar de gerações

Procuro a resposta

Por que criar a dor?

Se quando estamos junto

Temos sonho, força e amor

Gema da criação

Herdeiro do pintor

Dono do amanhã

Do sim, do não

Coragem companheiro

Pra que fechar a voz?

Se a força do desejo

Pulsa em cada um de nós

 Renovemos nossa aliança com o Deus da vida, com todos os seres vivos e com toda a natureza: "Não haverá mais dilúvio para devastar a terra" (Gn 9,11