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2 - Um Jovem chamado José
2 - Um Jovem chamado José

"José, seu esposo, sendo justo e não querendo denunciá-la publicamente, pensou em despedi-la secretamente" (Mt 1,19).

Quando soube que Maria estava grávida, fiquei inconformado. Imagine meus pensamentos quando percebi em minha noiva sinais de uma gravidez da qual não participei! Como éramos noivos, ainda vivíamos nas casas de nossos pais, e jamais havíamos tido qualquer contato íntimo. Tínhamos um contrato pré-nupcial, e o casamento se realizaria somente dali a um ano. No entanto, ela esperava um filho que não era meu. Fiquei sem reação. Em meu lugar, o que você faria?

Naquele tempo, já era possível pedir o divórcio, e eu tinha uma boa razão para denunciá-la como adúltera e limpar meu nome. Nesse caso, Maria seria julgada, humilhada e apedrejada, e eu poderia me casar novamente. No entanto, eu a amava muito; por isso, para não a difamar, optei por fugir do vilarejo e deixar que todos pensassem que eu não fora digno dela. Isso era melhor que continuar com ela naquelas condições! Teria de ser honesto demais. Para piorar a situação, Maria não dizia nada! Cruz pesada, não concorda?

Então pensei em fugir, não por covardia, mas por amor a Maria. Eu a amava, e queria salvar a honra de minha prometida. Preferi calar-me, a fim de não a ver julgada e condenada.

Enquanto me decidia, o anjo do Senhor se manifestou a mim em sonho e disse que eu não tivesse receio de recebê-la como esposa, pois nela estava se realizando algo extraordinário da parte de Deus. Além disso, fui incumbido de transmitir ao filho que ela carregava no ventre o nome escolhido por Deus: Jesus, cujo significado é "Deus salva”.

Naquela ocasião, Deus me pedia algo muito difícil de cumprir. Porém, apesar do falatório suscitado em Nazaré, aceitei desposá-la.

Maria sabia que era amada, e eu lhe dava mil razões para que pensasse assim. Enquanto a gravidez prosseguia seu curso nor­mal, os cuidados com a casa e a humilde carpintaria absorviam nosso tempo.

Com a aproximação dos dias do nascimento do bebê, tivemos de fazer uma longa viagem. Nessa época, como a Palestina era colônia do Império Romano, o imperador Augusto expediu um decreto para a realização de um recenseamento. Por essa determinação, todos eram obrigados a se registrar em sua cidade de origem. Então, Maria e eu peregrinamos de Nazaré, na Galiléia, até Belém, na Judéia, percorrendo atalhos que só os simples conhecem.

No trajeto, paramos várias vezes. Em uma das paradas, Maria suspirou profundamente, o que me deixou preocupado. Nesse momento, perguntei:

- Está sentindo alguma dor?

- Não - respondeu, alisando a barriga. - Foi somente o menino que se mexeu. Estou pensando se encontraremos hospedagem.

- Não se preocupe, minha querida! Deus está conosco. Vai dar tudo certo.

Quando chegamos a Belém, estava anoitecendo. Aqueles eram dias de grande movimento e confusão na cidade e também de grande lucro para os donos das hospedarias. Assim sendo, dirigimo-nos a uma das estalagens, onde pedimos um quarto particular. Ao receber-nos, o empregado foi dizer ao proprietário que havia dois novos fregueses à entrada. Após dar uma olhada ao redor e ver o grande número de pessoas que se comprimia sob os abrigos, ele perguntou ao empregado:

- Essas pessoas são importantes?

- Pela aparência, parecem ser muito pobres - respondeu-lhe o empregado. - Trata-se de um carpinteiro e de uma mulher montada em um burrico.

- Bem - disse-lhe o dono -, se quiserem, eles podem se encostar a um canto - e apontou-nos para os pórticos lotados.

- Eles querem um quarto particular.

- O quê? Onde se viu tamanha exigência! Um quarto particular, em um momento desses, e ainda por cima para pessoas pobres!

- A mulher está grávida e cansada. Talvez esteja com muitas dores - respondeu o servo.

- Isso não é problema meu! Também estou cansado. Não agüento mais. Se ao menos eles pertencessem a uma certa classe social!

O empregado estava indeciso. Então, o dono dirigiu-se pessoalmente para a porta onde estávamos e disse, procurando ser o mais delicado possível:

- Sinto muito, mas não existe lugar. Por causa do censo, a cidade está repleta de pessoas. Vocês também vieram para cá em obediência ao decreto?

- Sim - respondi-lhe, com ar preocupado.

- A que família pertencem?

- À família de Davi - respondi.

O dono da hospedaria olhou-me surpreso. A família de Davi tinha uma linhagem real.

- E não tem parentes na cidade?

Abaixei os olhos. Nesse momento, o proprietário olhou para Maria aconchegada sobre o burrico. Sob a coberta que lhe caía pelos ombros, naquela semi-escuridão, seu rosto pálido e bonito parecia resplandecente.

- Lamento - disse -, mas não tenho vaga, nem mesmo no pátio. Além disso, um quarto particular é impossível.

- Minha mulher está sentindo as dores do parto - queixei­me a ele.

O dono da hospedaria olhou-nos novamente e falou:

- Escutem. Se quiserem passar a noite em um lugar protegido, eu os aconselho a irem até a encosta da colina. Lá existem algumas grutas, que servem de estalagem aos viajantes. Assim, vocês podem utilizar o dinheiro da hospedagem para comprar roupas para o bebê.

Foi humilhante ouvir aquelas palavras. Ninguém gosta de hos­pedar os pobres! Eles são destinados a gritar seu pedido ao vento e a escutar o eco da própria voz no silêncio da noite. Somente Deus ouve o clamor dos excluídos. Naquele momento, saímos em silêncio, em direção à colina.

Ao cair da noite, Maria entrou em trabalho de parto.

- Meu Deus! - exclamei. - É assim que vai nascer seu Filho, sem o conforto de uma cama, sem o aconchego de uma casa?

- Não se preocupe, José! Entre os pobres, ele será amado, respeitado, bem recebido e se sentirá mais à vontade.

Naquela gruta, sem ostentação nem conforto, o menino nasceu, trazendo esperança para quem não tem lugar na sociedade. Após recebê-lo nos braços, Maria enrolou o bebê com faixas e o reclinou suavemente no cocho que servia para alimentar os ani­mais, que eu havia afofado com o capim perfumado dos campos.

Deitados no chão do estábulo, observamos com veneração nosso bebezinho dormindo na manjedoura. Depois olhamos para o céu e contemplamos as estrelas. Tudo estava em paz, em uma harmonia incrível. Parecia que, naquele momento, o céu e a terra se uniam e se confraternizavam, em um silêncio reverente e adorador.

Em nosso coração, havia um misto de alegria e incerteza. Por que havíamos sido escolhidos como pais do Filho de Deus? No entretanto, apesar dessa dúvida, tínhamos a convicção de que, por  enviar o próprio Filho para viver entre a humanidade, Deus amava seu povo.

Nesse momento, quebrando o silêncio, Maria disse-me:

- José, Deus está aqui. É ele que, feito menino, dorme ao nosso lado.

O restante da noite transcorreu normalmente, sem que mais ninguém percebesse este fato grandioso: Deus veio se hospedar conosco, na pessoa de uma pobre criança.