Translate this Page

Rating: 2.2/5 (463 votos)

ONLINE
1





Partilhe esta Página


21 - JERUSALÉM[1]
21 - JERUSALÉM[1]

Não é fácil escrever sobre Jerusalém. Primeiro por sua importância histórica: para os judeus, é o local do templo e capital histórica de Judá. Para os cristãos, local da morte e ressurreição de Jesus. Para os muçulmanos, local da ascensão de Maomé ao céu. Tudo isso faz com que se tenha grande quantidade de informações, muitas delas controversas. Segundo, porque Jerusalém é uma cidade habitada, o que dificulta as escavações arqueológicas, cujos resultados poderiam trazer à luz novas informações sobre a cidade. Soma-se a isso o atual e prolongado conflito político e religioso por disputa de territórios entre palestinos e judeus.

Jerusalém está localizada em torno de 750 metros acima do nível do mar e entre dois vales: o Hinom, ao oeste e ao sul, e o Cendron, ao leste, que separa a cidade do Monte das Oliveiras.

Da Jerusalém antiga temos poucas informações. Nas cartas de Amarna (sé c. XIV a.C), há uma referência a uma cidade chamada Urusalim, governada pelo rei Abdu-Heba, que escreveu ao faraó pedindo ajuda para combater os Habirus. Gn 14,18-20 faz menção a uma localidade de nome Salem que era governada pelo rei Melquisedec, e que muitos acreditam tratar-se de Jerusalém. A primeira referência segura encontramos no livro de Josué. Ali é relatada a conquista de Jerusalém, quando Josué derrotou uma coligação de cinco reis, entre eles o rei Adonisedec de Jerusalém (cf. Is 10,1-27). Apesar de que, em Is 15,8.63, os Jebuseus continuaram habitando a cidade. Mais tarde, em 2Sm 5,6-10, Davi toma Jerusalém dos Jebuseus e faz dela o centro do seu reinado, prova de que Jerusalém não pertenceu desde sempre a Judá. A aparente fácil conquista de Davi pode indicar a pouca importância que Jerusalém tinha naquela época. De fato, a Jerusalém do tempo de Davi, localizada fora da atual muralha da cidade antiga, era muito pequena, não passava de uma aldeia de três ou quatro hectares. Jerusalém só adquiriu importância depois da destruição da Samaria pelos assírios, em 722 a.C. Nesse período, Jerusalém passou, em pouco tempo, de uma aldeia de mil habitantes a uma cidade de quinze mil. Atualmente, no moderno museu de Jerusalém, junto ao museu dos manuscritos de Qumrã, ou museu do livro, há uma interessante maquete da cidade que auxilia bastante na compreensão da Jerusalém dêsse período. Ela mostra particularmente o surgimento de bairros novos na cidade.

Jerusalém em diferentes épocas[2]

Por volta de 701 a.C., Ezequias, rei de Jerusalém, se rebelou contra o domínio assírio. Foi então que Ezequias construiu a forte muralha (d. Is 22,10; 2Cr 32,5) com pedras que chegam a alcançar sete metros de espessura, como pode ser visto atualmente nas escavações. Para essa época, Ezequias também cavou o túnel de 513 metros a fim de trazer água da fonte de Gion para dentro da muralha da cidade, até o reservatório de Siloé (d. 2Rs 20,20; 2Cr, 32,2-4.30). O túnel foi escavado na rocha em forma de S começando simultaneamente pelas duas extremidades. Uma inscrição encontrada no interior do túnel relata o momento emocionante do encontro dos dois grupos de escavadores. Descoberto por Edward Robson em 1838, o túnel encontra-se aberto, hoje em dia, para visitas.

Em 587 a.C., Jerusalém foi completamente destruída por Nabucodonosor, e sua população, deportada para a Babilônia. A cidade ficou, então, abandonada por um período de cinquenta anos, quando foi novamente reconstruída, juntamente com o templo, pelos judeus que voltaram do exílio. Herodes, o Grande, que reinou de 37-04 a.C., reestruturou a cidade, construiu um templo novo (cf. Jo 2,20), a fortaleza Antônia e um palácio para si, cujo local é hoje identificado com a atual cidadela. Ainda é possível ver com clareza as pedras de estilo herodiano na base da construção.

Durante a guerra judaica (66-73 d.C), Jerusalém foi novamente invadida e saqueada, e o templo, destruído. Dessa vez, pelo general romano Tito, em 70 d.C. Em 132-135 d.C., aconteceu outra rebelião contra os romanos, esta liderada por Bar Kohba, e novamente Jerusalém foi conquistada, e os judeus, então, expulsos da Judeia.

Em 313, o imperador Constantino legalizou o cristianismo, proporcionando a peregrinação em massa de cristãos aos lugares sagrados da terra santa. Igrejas foram construídas por toda parte, mosteiros surgiram nos desertos, e Jerusalém voltou a se expandir como no tempo de Herodes, o Grande. É o chamado período bizantino (324-640). Em 636, a Palestina foi conquistada pelos árabes (640-1099), comandados pelo califa Omar, sucessor de Maomé. Jerusalém se converteu, então, num centro de peregrinação muçulmana. A cidade foi embelezada, e a peregrinação cristã, permitida, até 1009, quando o califa Louco Hakim começou uma perseguição violenta aos cristãos e muitas igrejas foram destruídas. A situação piorou quando, em 1071, os turcos selêucidas tomaram Jerusalém e as peregrinações cristãs foram proibidas. Essa situação resultou num forte apoio da Europa à proclamação da cruzada pelo papa Urbano II, em 1095, para "libertar a terra santa" e recuperar o controle das rotas comerciais do Oriente. Em julho de 1099, os cruzados tomaram Jerusalém com um grande massacre de muçulmanos. Voltaram, então, as peregrinações da Europa e cresceu o investimento na cidade com construções etc. Mas o domínio europeu não durou muito tempo, em 1187, os cruzados foram derrotados por Saladino, cuja dinastia se manteve no poder até 1250, quando a Palestina foi invadida pelo Egito. Os egípcios permaneceram lá até 1517, quando Jerusalém caiu em poder das mãos dos turcos otomanos (1517-1918). Nesse período, Sulimão, o Magnífico (1520-1566), construiu as muralhas que hoje cercam a Jerusalém antiga[3].

Atualmente a cidade está dividida em quatro bairros: o bairro muçulmano, o maior; o bairro cristão; o bairro judeu e o bairro armênio. A muralha, sobre a qual boa parte se pode caminhar, contém sete portões: o portão de Damasco, o portão de Herodes, o portão de Santo Estevão ou portão dos leões, o portão dourado, o portão de Dung ou o portão dos detritos, o portão de Sião, o portão de Iafa e o portão Novo. A área externa, junto ao portão Dung, onde se podem ver muitas escavações antigas, é onde se encontrava a pequena cidade de Davi.

 Cúpula da Rocha ou Mesquita de Omar . O edifício que sobressalta aos olhos, assim que se chega a Jerusalém, é obviamente a Cúpula da Rocha ou Mesquita de Ornar, construída sobre o monte do templo ou o Haram ash-Sharií. Vista do Monte das Oliveiras, à esquerda da Cúpula da Rocha, destaca-se também a mesquita Al-Aqsa.

A Cúpula da Rocha ou Mesquita de Omar foi o primeiro grande santuário do Islam, construído entre os anos 688 e 691 d.C. pelo Califa Omeia Abd al-Malik. Sua construção teria sido em honra à Ascensão de Maomé ao céu, depois de sua viagem noturna a Jerusalém. Porém, com esse fim, foi construído posteriormente a Cúpula da Ascensão bem perto dali. 

Em disputa com os templos bizantinos da época, a Cúpula da Rocha, com sua arquitetura circular matematicamente circunscrita à rocha, impressiona por sua extraordinária beleza. Ela estaria construída sobre as antigas ruínas do Templo judaico que, conforme 2Cr 3,1, estava construído sobre o monte Moriá ali onde em Gn 22,2 Abraão ia sacrificar seu filho Isaac. Aliás, essa seria, conforme a tradição popular, a enorme rocha que se encontra em seu interior e que lhe confere o nome.

Atualmente, devido aos conflitos entre judeus e palestinos, a mesquita tem o acesso restrito, permitido somente aos muçulmanos.

Muro das lamentações  Na parte sudoeste do monte do templo ou Al-Sharif, encontra-se o Muro das lamentações, que leva esse nome porque durante séculos os judeus do bairro vizinho iam para lá rezar e lamentar a destruição do templo. Hoje é possível ver gente do mundo inteiro, e não somente judeus, fazendo suas orações e deixando entre as pedras do muro seus pedidos. Ao visitante, chama a atenção a divisão para se chegar ao muro. A parte sul é restrita às mulheres, que, por sua vez, não podem entrar na praça maior, restrita aos homens.

As grandes pedras na parte inferior do muro trazem o estilo de Herodes, o Grande, que construiu omuro no ano 20 a.C. Originalmente, esse estilo de pedras continuava até em cima, mas a parte superior foi destruída pela invasão romana em 70 d.C. Essa parte foi restaurada pelos Omeias no século VII d.C. com outro estilo de pedras. E, por último, em 1033, o muro superior foi novamente restaurado, depois do grande terremoto de 1033, dessa vez com pedras bem menores.

Com alguma dificuldade, é possível ter acesso às várias e grandes escavações que foram feitas ao redor do monte do templo, incluindo o muro das lamentações. As escavações revelam que o muro segue vários metros abaixo do atual nível, o que prova o quanto a área foi aterrada ao longo dos anos.

Muitas outras escavações de vários períodos da história da Jerusalém antiga, como a muralha asmoneia, podem ser vistas no atual bairro judeu.

Santo Sepulcro. O peregrino fica um tanto desconcertado ao chegar ao santuário mais importante do cristianismo e encontrar um lugar escuro apertado e desorganizado. O local é guardado por seis grupos: católicos romanos, gregos ortodoxos, armêníos, sírios, coptas e etíopes. O exagerado zelo resulta em disputas entre os grupos, que se vigiam mutuamente com o receio de que um infrinja os direitos do outro. Curiosamente, a chave da porta é guardada por uma tradicional família muçulmana.

É difícil saber com segurança se esse é o local da morte e ressurreição de Jesus, uma vez que ficou abandonado por quase três séculos. Para complicar, em 135, o imperador Adriano mandou aterrar o lugar e construir ali um templo a Júpiter e um santuário a Afrodite. Somente depois de 313, quando Constantino oficializou o cristianismo, é que se iniciaram as peregrinações em busca dos lugares sagrados. No entanto, tudo indica que a tradição cristã guardava a memória desse lugar, que no tempo de Jesus ficava fora do muro da cidade, tanto que entre 326 e 335 Constantino mandou destruir o templo construído por Adriano e construir em seu lugar a Igreja da Ressurreição. Era uma Igreja enorme que foi totalmente destruída pelo Califa Hakim em 1009. Parte dela foi reconstruída entre 1042 e 1048 e remodelada pelos cruzados no século XII. Outras reparações e mudanças aconteceram nos séculos subsequentes até chegar a ser o que é hoje. O monumento atual da tumba de Jesus é do século XIX.

Como amostra das controvérsias, saindo da muralha pela porta de Damasco, em direção ao norte, perto da Igreja de Santo Estevão e da École Biblique, encontra-se outro local que se afirma ser o sepulcro de Jesus. O local é conhecido como a tumba do jardim. Pouco popular, os argumentos arqueológicos  são ainda menos convincentes.

Destaca-se ainda, entre outros, na parte superior da Igreja, o que se acredita ser a rocha do calvário onde Jesus foi crucificado. Debaixo do altar grego há um orifício redondo onde é possível tocar a rocha. Outro objeto que chama especial atenção dos peregrinos é o que seria a pedra sobre a qual o corpo de Jesus foi colocado antes de seu enterro (cf. Jo 19,38·40). Ela se encontra logo na entrada da Igreja e foi mencionada pela primeira vez no século XII. A pedra atual é de 1810.

No alto da Igreja do Redentor, que fica um pouco mais ao sul, é possível ter uma boa vista de toda a área. A Igreja do Redentor é uma igreja luterana e é a mais nova construída na Jerusalém  Antiga. Foi construída em 1898 conservando o perfil da Igreja de Santa Maria dos Latinos do século XI. Sob suas bases, há escavações de construções dos primeiros séculos do cristianismo.

Via dolorosa. Para os peregrinos cristãos, faz parte do itinerário conhecer a via-sacra, ou seja, o caminho que Jesus seguiu do momento da sua condenação até o calvário. Atualmente, o caminho percorre boa parte do bairro muçulmano e termina no bairro cristão. No começo, no período bizantino, os peregrinos faziam na quinta-feira Santa uma procissão do Monte das Oliveiras até  o Calvário, sem paradas. Pelo século oitavo, já era comum ter várias paradas no percurso do caminho. No século XIV, os franciscanos organizaram a via-sacra só na cidade, agora já com oito estações. Os peregrinos europeus levaram essa tradição para a Europa e incluíram mais estações, catorze ao todo. Quando chegavam a Jerusalém, esperavam encontrar todas as estações, de forma que com o tempo elas foram incluídas também em Jerusalém. Ou seja, o processo das estações da via dolorosa se deu de modo inverso, da Europa para Jerusalém.

Cidadela . A cidadela é uma das construções mais antigas de Jerusalém. Tudo indica que foi ali que aconteceu o julgamento de Jesus por Pilatos (cf. J o 18,28-19,16). A cidadela fica junto à porta de Jafa, na parte oeste da cidade. Ela já é mencionada durante a dinastia asmoneia de João Hircano (134-104 a.C.), que construiu ali um palácio real, ampliado por Herodes, o Grande (37-04 a.C.). Ainda é possível ver as grandes pedras herodianas na atual construção. Durante o domínio romano, o procurador, que tinha sua sede em Cesareia, costumava estabelecer-se na  cidadela durante as grandes festas em Jerusalém. Parece que esse foi o caso na condenação de Jesus. No ano 70 d.C., após a vitória romana contra os zelotes, o general rito estabeleceu ali a décima legião romana. Nas guerras dos séculos seguintes, a cidadela foi destruída e reconstruída mais de uma vez. A atual forma consta ser do século XVI, sendo obra do sultão otomano Solimão, o Magnífico.

 Assista ao vídeo:

Jerusalém 1ª Parte:  http://youtu.be/8oQ8raH6MQM

Jerusalém 2ª Parte:  http://youtu.be/X8ylYN8reGA

 Bibliografia

1- Kaefer, Ademar José- Arqueologia das terras da Bíblica – Paulus 212

2- Arqueologia Bíblica - Volume 2 -  Verbo Filmes

 


[1] 1- Referencias importantes: Gn 14,18-20; Js 10,1-27; 15,8.63; 25m 5,6-10; 2Rs 20,20; Is  22,10;2Cr 32,2-5.30.

[2] Cf. Jerome MURPHY-O'CONNOR, Tierra Santa - Desde 105 Orígenes hasta 1700. Acento editorial, Madri, 2000, p. 10. As mudanças são nossas. A forma clara é a Jerusalém velha atual. A parte escura, a cidade em diferentes épocas. Note-se o tamanho da Jerusalém de Davi.

[3] Para facilitar a compreensão do tamanho da atual Jerusalém, basta uma hora de caminhada para dar a volta na cidade.