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3ª Aula: Terra, Casa, Família – Mq 2,1-3.6.11
3ª Aula: Terra, Casa, Família – Mq 2,1-3.6.11

A Palavra de Deus sempre aponta novos horizontes para a nossa caminhada. A luz do testemunho do profeta Miqueias, vamos rezar e abrir nosso coração para acolher os apelos do Espírito de Deus para a nossa missão hoje.  

 

Vamos nos preparar para a aula de hoje rezando ao Espírito, com todos os que estão na web participando desta terceira aula:

 

Ó Deus, sempre acompanhastes o povo da Bíblia em todas  suas   dificuldades. Nunca deixastes de socorrê-lo porque o amava. Também somos vosso povo. Olhai para nós e vinde em nosso auxílio. Amem.

 

Na aula anterior, vimos a denúncia do profeta contra as elites dirigentes de Judá: chefes, magistrados, sacerdotes e profetas. No encontro de hoje, vamos aprofundar a realidade de endividamento, exploração, opressão, perda da terra, casa e família, vivida pelos camponeses do século VIII a.C.

 

O tema deste encontro é: Terra, casa e família.

 

A terra era a carteira de identidade das pessoas e essencial para a sobrevivência. Não ter terra era como não ter identidade e, assim, não ter meios para viver dignamente. Vamos pedir a Deus que nos dê a capacidade de nos comprometermos com as pessoas e grupos que sonham com uma vida melhor e buscam seus direitos.

 

Sei que Deus nunca esqueceu dos oprimidos o clamor. E Jesus se fez do pobre companheiro e servidor. Os profetas não se calam, denunciando a opressão, pois a terra é dos irmãos. E, na mesa, igual partilha tem que haver.

 

  1. Motivando a aula de hoje

No dia 5 de novembro de 2015, por volta das 16h, aconteceu o rompimento da barragem do Fundão, em Mariana (MG). Um mar de lama inundou o distrito de Bento Rodrigues, soterrando muitas moradias. É o maior desastre ambiental do Brasil e, nos últimos 30 anos, o maior do mundo. Os 34 milhões de metros cúbicos de rejeitos, com metais pesados, lançados na natureza destruíram vidas humanas, famílias, casas, comunidades, árvores, vegetação, matas ciliares, rios e córregos da região. De acordo com o balanço, 15 pessoas foram mortas, 207 casas soterradas, 663 quilômetros do rio Doce e seus afluentes foram contaminados, 1.469 hectares de terras arrasados, 80 espécies de peixes extintas, e o abastecimento de água ficou comprometido em muitas cidades. Os custos ambientais são incalculáveis. Nos últimos 3 anos, só 6% das 15 mil barragens no país foram vistoriadas, e há risco de rompimento de outras barragens.

 

O acontecimento em Mariana foi provocado pelo desleixo e ambição de grupos econômicos.O desastre é um atentado à vida humana, à terra e à natureza. Os interesses econômicos de alguns grupos continuam provocando muitos males, e, infelizmente, a impunidade prevalece! Em nosso dia a dia, como nos posicionamos diante da vida ameaçada das pesshttps://img.comunidades.net/lei/leituraorante/vale8.jpgoas e da natureza?

 

 

 

 

2. Leitura do texto - Mq 2,1-3.6.11

De acordo com o relato de Gn 2,4b-24, há uma intrínseca relação entre o ser humano e a terra, e a sua missão é cultivar e guardar a natureza em função da vida. A terra é gratuidade do amor de Deus e para o sustento de todas as pessoas. Na história de Israel, durante o período da Monarquia, prevaleceu o interesse de alguns grupos poderosos que promoveram violência, exploração e espoliação contra os camponeses, que perderam terra, casa, família e comunidade.

 

No século VIII a.C., entre os grupos proféticos que denunciam o acúmulo de terras na mão de uma elite, temos o de Isaías (5,8-10) e o de Miqueias (2,1-3.6-11). Na visão de Miqueias, os acumuladores de terra planejam roubar terras e casas e o fazem porque têm o poder nas mãos. É uma denúncia que continua válida em nossos dias.

 

Antes de continuar o estudo, leia Mq 2,1-3.6.11 (Capitulo dois, versículos de um a três + o versículo seis + versículo onze) e responda as seguintes perguntas:  Quem são os inimigos do povo? Como se defendem os exploradores perante as acusações de Miqueias (Mq 2,6-7). De acordo com o texto, qual é a realidade dos explorados e suas famílias?

 

Miqueias critica a busca desenfreada de bens, poder e acúmulo de riquezas nas mãos de um pequeno grupo. Para ele, a terra e a casa são um bem comum que atende às necessidades básicas da família, proporcionando seu bem-estar e sua sobrevivência com dignidade. E em nossa realidade, que tipo de exploração atinge diretamente as famílias? Quem são os profetas que defendem as famílias empobrecidas? Que ações são percebidas em nossa sociedade e em nossa comunidade em favor das pessoas empobrecidas e oprimidas? Quais são as nossas ações e práticas em defesa da vida frágil e ameaçada?

 

2.1 - Situando o texto: Terra, casa e família

Javé Deus plantou um jardim em Éden, no Oriente, e aí colocou o homem que havia modelado. Javé Deus fez brotar do solo todas as espécies de árvores agradáveis de ver e boas para comer, e no centro do jardim a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal. Javé Deus colocou o homem no jardim de Éden para que o cultivasse e o guardasse (Gn 2,8-9.15).

 

O ponto alto, no relato da criação de Gn 2,4b-25, testemunha a missão do ser humano de cultivar e cuidar do universo: terra, água, animais e plantações. Toda a natureza está em função da vida. O ser humano, chamado a ser cocriador com Deus, desfruta, como gratuidade de Deus, da terra, da água, do trabalho. No Sl 65,10-11, lemos: “Visitas a terra e a regas, e a enriqueces com fartura. Os riachos de Deus estão cheios d’água, e irrigas os trigais. Assim os preparas: regas seus sulcos, nivelas os terrões e fazes cair chuviscos afofando a terra, abençoando seus brotos”. Deus criou, cria e criará o mundo para que todas as criaturas tenham a vida plenamente.

 

Conforme o relato da criação, a vida plena do ser humano é marcada e sustentada pela relação íntima e fraterna. O ser humano ('adam) está fortemente ligado com a terra adamah): ele é modelado a partir da terra. Com os animais, o ser humano está em relação íntima, pois ele nomeia todos os seres vivos (Gn 2,20). Dar nome na cultura judaica corresponde a chamar à existência: proximidade e convivência.

 

Enfim, a mulher (ishá), conforme o texto hebraico, é construída a partir do lado do homem (ish). Conforme a crença da época, a costela é o lugar mais íntimo, onde reside o amor (Gn 32,32). Além do mais, a expressão “osso dos meus ossos e carne da minha carne!” (Gn 2,23) indica relação de parentesco íntima e profunda. O homem e a mulher são chamados a construir um relacionamento de reciprocidade (Gn 2,24-25). A terra, a água, as plantações, os animais, os homens, as mulheres, a casa, a família... Tudo isso em harmonia, convivência e vida com a gratuidade do Deus Criador!

 

Todavia, as coisas não estavam acontecendo desta forma no tempo em que o relato de Gn 2,4b-25 foi escrito pelos representantes dos camponeses. Na realidade, esta descrição é uma utopia e, ao mesmo tempo, um protesto contra a destruição da natureza, terra, plantações, animais, humanos, casa e família. Por volta do ano 730 a.C., o profeta Oséias, do reino do Norte, denuncia a situação perversa de sua terra:

 

Ouçam a palavra de Javé, filhos de Israel! Javé abre um processo contra os habitantes da terra, pois não há mais fidelidade, nem amor, nem conhecimento de Deus na terra. Há juramento falso e mentira, assassínio e roubo, adultério e violência, e sangue derramado se ajunta a sangue derramado. Por isso, a terra geme e seus habitantes desfalecem; os animais do campo, as aves do céu e até os peixes do mar estão desaparecendo (Os 4,1-3).

 

Javé move um grande processo contra os crimes de Israel. A acusação é a de que não há fidelidade, amor e conhecimento. Essas palavras expressam as atitudes fundamentais da aliança com Javé, Deus Criador. Na aliança, a fidelidade revela o sentido da responsabilidade do ser humano na relação com a terra e seus habitantes. Entretanto, rei, sacerdotes e elite dirigente pensam apenas em si mesmos, numa luta desenfreada pelos bens e o poder.

 

“Sangue derramado se ajunta a sangue derramado” (Os 4,3). E uma expressão forte para descrever a morte de gente inocente pela ação institucionalizada do Estado, que promove guerras e assassinatos, invade a casa das famílias e confisca filhos, produtos e, muitas vezes, a própria terra... O universo e seus habitantes padecem juntos.

 

A mesma situação ocorre no reino do Sul, Judá. Com a queda da Samaria do reino do Norte, em 722 a.C., os habitantes da capital, principalmente famílias ricas e influentes, migram para Judá. Houve um grande aumento populacional no interior e nas cidades do reino do Sul. Isso foi um dos fatores de florescimento e consolidação de Judá como Estado. Com o desaparecimento do reino do Norte, seu rival, Judá, se desenvolveu e floresceu com mais tributo, aumento do comércio internacional e da indústria. Mas, ao mesmo tempo, a Bíblia registra a realidade muito frequente da cobiça, injustiça e violência contra o povo, já empobrecido pelos tributos para o Estado judeu e o Império Assírio. O progressivo crescimento da população, consumo, comércio e lucro provoca uma corrida pelo produto e pela terra, sobretudo na região fértil e produtiva.

 

O profeta Miqueias, de Morasti, da Shefelá, uma das regiões mais férteis do reino do Sul, defronta-se com os ricos e com os dirigentes do Estado, - acusando-os de roubar casas e campos: "Vocês expulsam da felicidade da casa as mulheres do meu povo, e tiram dos seus filhos a dignidade (herança: casa e terra) que eu lhes tinha dado para sempre” (2,9). Em Mq 2,1-3.6-11, o profeta descreve a realidade de seus irmãos camponeses com suas terras expropriadas e suas famílias e casas destruídas.

 

2.2 - Comentando o texto: 2,1-3.6-11 — “São vocês os inimigos do meu povo”

A proclamação de Miqueias inicia-se com um “ai”, que indica maldição e castigo. O profeta denuncia um grupo que está acumulando terras. Em sua visão, o roubo é um projeto cuidadosamente pensado: “Ai daqueles que, deitados na cama, ficam planejando a injustiça e tramando o mal” (2,1a). Eles planejam e executam porque têm o poder nas mãos.

 

Eles “cobiçam” campos e os roubam! O termo cobiçar, do hebraico hamad, tem o sentido de desejar apaixonadamente a ponto de empregar todos os meios para obter o objeto desejado. Roubar, gazal, tem o sentido de apoderar-se, arrancar, tirar à força. E extorsão e aquisição ilegítima e, ainda por cima, legalizada por juízes corruptos (3,9-11). As terras estão sendo roubadas de seus legítimos proprietários por meio de ações violentas. Não há limites para as ações dos acumuladores: eles tomam a casa e oprimem o homem e a sua herança.

 

Os termos cobiçar, roubar, tomar e oprimir a herança traduzem a realidade de exploração da parte de um grupo contra a população camponesa, que sofre espoliações e desapropriações injustas. Esse problema também foi condenado pelo profeta Isaías, eis a sua proclamação: “Ai daqueles que juntam casa com casa e emendam campo com campo, até que não sobre mais espaço e sejam os únicos a habitarem no meio da terra” (Is 5,8).

 

Os ladrões de terra têm poder para executar o mal e a injustiça. Mas quem são eles? Miqueias responde em seus oráculos: “Escutem bem, chefes de Jacó, governantes da casa de Israel! Por acaso não é obrigação de vocês conhecerem o direito?” (3,1); “Ouçam isto, chefes da casa de Jacó. Prestem atenção, governantes de Israel: vocês têm horror ao direito e entortam tudo o que é reto, que constroem Sião com sangue e Jerusalém com perversidade” (3,9-10).

 

A cobiça e o roubo de terras são praticados pelo grupo do poder, os construtores de Jerusalém e seus aliados fazendeiros, com a política de expansão do rei Ezequias, os governantes necessitam de mais terras e produtos para o comércio, exportação e lucro. Os grandes, então, estão articulando a “grilagem” em grande escala, sobretudo na planície de Shefelá — a terra de Miqueias, a região mais fértil e produtiva do país. Eles não respeitam mais o direito de propriedade familiar e tribal, baseado nas leis da herança: a terra dos antepassados serve para a vida familiar e comunitária dos camponeses e não se vende (lRs 21). “Assim oprimem ao varão e à sua casa, ao homem e à sua herança” (2,2), denuncia Miqueias.

 

Fiel à compreensão mais antiga de Deus, o profeta afirma que este está do lado dos oprimidos: “Vejam! Estou planejando contra essa gente uma desgraça, da qual não poderão esconder o pescoço, nem poderão andar de cabeça erguida. Será um tempo de desgraça” (2,3). “Essa gente” é uma expressão de desprezo. O termo pescoço é uma imagem para jugo e escravidão (Is 10,27). Ou seja, os acumuladores de terras serão humilhados e escravizados. Trata-se de uma forte condenação.

 

Mas os acusados rejeitam a denúncia e tentam calar a voz do profeta: “Não profetizem, não profetizem essas coisas! A desgraça não cairá sobre nós” (2,6). O termo "profetizar”, nataph, em hebraico, significa: gotejar, tagarelar, escorrer, pingar. Para os acusados, Miqueias está falando “bobagem”! As acusações do profeta são um insulto, pois eles se sentem fiéis a Javé oficial e acreditam que Deus está do lado deles, no templo da cidade santa, Jerusalém, e nenhuma desgraça lhes acontecerá. Afinal, acreditam que o rei é “filho de Deus” e a casa davídica do rei Ezequias é abençoada por Javé (cf. Sl 2; 2Sm 7). Ou seja, como eles dizem: “Por acaso Javé não está no meio de nós? Nada de mau nos poderá acontecer!” (3,11).

 

Miqueias responde, apresentando as provas concretas da realidade do povo oprimido: “São vocês os inimigos do meu povo: de cima da túnica, arrancam o manto de quem vive tranquilo ao voltar da guerra. Vocês expulsam da felicidade da casa as mulheres do meu povo, e tiram dos seus filhos a dignidade que eu lhes tinha dado para sempre” (2,8-9).

 

Há vários crimes cometidos pelos governantes: “voltar da guerra”: os camponeses são recrutados constantemente, deixando o cultivo da terra nas mãos de mulheres e crianças. Apesar disso, ainda são obrigados a pagar os tributos pesados; “arrancar o manto”: o direito dos pobres é violado (Dt 24,10-13; Am 2,8); “expulsar as mulheres da casa”: a casa é o espaço central da vida das mulheres no mundo patriarcal (Pr 31,10-31): “tirar dos seus filhos a dignidade”: as crianças têm seu direito à herança negado.

 

Por fim, Miqueias proclama: “Se aparecesse um homem contando estas mentiras. 'Eu lhes profetizo vinho e bebida forte’, este sim seria um profeta para esse povo” (2,11: o v. 10 é um acréscimo posterior, que reflete o exílio da Babilônia). Ele usa o mesmo termo “profetizar”, cujo sentido é gotejar, tagarelar, pingar, do versículo 5, acusando os profetas da corte de proferir um discurso sem sentido. Eles não falam a verdade: os falsos profetas (3,5-8)!

 

Evidentemente, há um conflito com os profetas da corte, que estão do lado dos poderosos, legitimando seus atos. Eles profetizam “vinho e bebida forte”: é uma forma de ironizar com a profecia desses profetas. Na realidade, eles mentem, convidam à vida de alienação e luxo e estão preocupados com seus próprios interesses. Não são profetas do povo!

 

Como podemos perceber, Miqueias foi um profeta corajoso, bel a Javé, defensor dos pobres, e bel no seu compromisso de defender a prática da justiça: "Por acaso não é obrigação de vocês conhecer o direito?” (3,1). Que esse espírito profético reacenda o nosso compromisso profético e o de nossas famílias com a construção do Reino da Vida, no qual as pessoas reunidas em famílias, grupos, comunidades e nações vivam na fraternidade, na solidariedade e na justiça. Ou seja: toda a humanidade, como uma família, deve respirar junto com a terra, a mãe planeta!

 

3 - Aprofundamento: Família e Solidariedade

O salmo 128 entoa a felicidade e a bênção para a vida familiar como o núcleo de solidariedade e partilha nas aldeias de Israel. Segundo a arqueologia, a família de Israel pode ser chamada de “família ampliada’’ ou “grande família”. Nela, viviam aproximadamente 40-50 pessoas, compostas pelos membros de mesmo sangue ou de habitação comum: maridos, esposas, concubinas, filhos e filhas, escravos e escravas, viúvas, órfãos, hóspedes estrangeiros etc. Família, lugar de acolhida, convivência, solidariedade...

 

Na aldeia, o grupo de famílias forma um clã como a base da administração, aparato judicial, defesa e exploração territorial (como pastagem). E, por território comum, as aldeias vizinhas formam uma tribo, normalmente alegando descendência comum. Na tribo, as famílias e os clãs assumem e praticam a troca matrimonial, a relação de hospitalidade, a defesa, a obra comunitária (estradas, pontes), o estabelecimento de percurso de migração periódica de rebanhos etc.

 

Na vida da sociedade tribal e de suas aldeias, o pilar básico de agrupamento, solidariedade e convivência era, sem dúvida, a família ampliada com sua terra familiar e comunitária. Era fundamental defender a família e segurar a permanência da terra: “Honre seu pai e sua mãe. Desse modo você prolongará a vida na terra que Javé, seu Deus, lhe dá” (Ex 20,12). Os principais meios para a defesa da família eram a instituição do levirato e a do go’el:

 

3.1. A solidariedade familiar: o levirato e o go'el

Quando irmãos habitam juntos e um deles morrer sem deixar filhos, a viúva não deve sair para casar-se com um estranho. Um cunhado dela vai se achegar a ela e tomá-la como mulher, cumprindo o dever de cunhado. O primeiro filho que nascer receberá o nome do irmão falecido, para que o nome deste não se apague em Israel (Dt 25,5-6).

 

No mundo patriarcal, a herança passa pela linhagem masculina. Sem filho, a viúva perde sua casa e terra. Com a instituição do levirato, o cunhado, do latim levir, tem o dever de receber, por mulher, a viúva de seu irmão, para evitar a transferência dos bens da família, casa e terra, para outra tribo. A família, por ser a “peça germinal” da sociedade, deve ser preservada a todo custo. No caso da ausência de cunhado, a sociedade tribal estabelece a instituição do go’el.

 

Se um irmão seu cai na miséria e precisa vender algo de sua propriedade, o parente mais próximo dele, que tem o direito de resgate, irá até ele e resgatará aquilo que o irmão tiver vendido (Lv 25,25).

 

O resgatador, ou protetor, go’el em hebraico, é um dos irmãos ou parente mais próximos, que assume um papel importante de ajudar, proteger e resgatar a vida familiar. Além de resgatar um campo vendido em tempos de necessidade, ele resgata um irmão “escravo” que vende a si mesmo no tempo da miséria: Seu irmão terá direito a resgate, mesmo depois de vendido. Será resgatado por um de seus irmãos, ou seu tio paterno, por seu primo, por qualquer um dos membros da sua família, ou poderá resgatar a si mesmo, se conseguir recursos para isso (Lv 25,48-49).

 

De acordo com o livro dos Números 35,19: “Cabe ao Vingador de sangue (go’el) matar o homicida”. Ou seja, o resgatador executa a sentença de morte pela vida perdida de um dos seus irmãos.

 

Como sendo um dos laços mais fortes na solidariedade e convivência social, a família, assim, deve estar aberta aos outros, e seus membros devem ser protegidos. O sentimento de fraternidade e solidariedade se alimenta e cresce nas pessoas do grupo familiar, compostas pelos membros de mesmo sangue ou de habitação comum: maridos, esposas, concubinas, filhos e filhas, escravos e escravas, viúvas, órfãos, estrangeiros etc. Mas, com a consolidação da monarquia, a família perde pouco a pouco seu espaço de proteção e acolhida.

 

3.2. A desintegração da família

Assim diz Javé: “Por três crimes de Israel e por quatro, não voltarei atrás. Porque vendem o justo por dinheiro e o indigente por um par de sandálias. Pisoteiam os fracos no chão e desviam o caminho dos pobres. Pai e filho vão à mesma jovem, profanando assim meu nome santo” (Am 2,6-7).

 

No tempo de Jeroboão II (783-743 a.C.), o profeta Amós denuncia e julga o que está acontecendo no reino de Israel: a injustiça social, corrupção e manipulação religiosa. Aproveitando a crise das grandes potências — Egito e Assíria —, o rei e a elite do Norte aumentam o comércio, o lucro e a mordomia. O Estado importa artigos de luxo e equipamentos militares e exporta produtos agrícolas, especialmente vinho, trigo e óleo. Os produtos importados são bem mais caros e desequilibram a balança comercial, exigindo que o Estado aumente os tributos. Muitas famílias camponesas ficam endividadas e são forçadas a vender suas filhas e suas propriedades. A família é destruída, fica sem espaço de convivência, solidariedade e acolhida! A desintegração, que atinge as famílias do Norte, se reproduz no Sul: São vocês os inimigos do meu povo: de cima da túnica, arrancam o manto de quem vive tranquilo ao voltar da guerra. Vocês expulsam da felicidade da casa as mulheres do meu povo, e tiram dos seus filhos a dignidade que eu lhes tinha dado para sempre (2,8-9).

 

Após a queda da Samaria (722 a.C.), o reino de Judá se transforma em um "Estado completamente desenvolvido” com o aumento da população e da prosperidade. Porém, a riqueza beneficia somente a elite. A maioria da população enfrenta endividamento, perda da casa e da “dignidade” (herança), e crescente escravidão: a desintegração familiar e comunitária! O espaço de solidariedade decresce, e o dever do “resgatador” perde a força. Por isso, por exemplo, os profetas deste período denunciam: “Não fazem justiça ao órfão, e a causa da viúva nem chega até eles” (Is 1,23).

 

Com a consolidação do regime teocrático, ou seja, governado por sacerdotes e escribas de Judá a serviço do Império Persa, por volta de 450 a.C., as famílias fecham cada vez mais suas portas para os pobres.

 

3.3. O fechamento da família

Levam embora o jumento que pertence ao órfão, e penhoram o boi que é da viúva. Eles desviam os indigentes para fora do caminho, e todos os pobres da terra têm de se esconder. Passam a noite nus por falta de roupa, não têm coberta para se proteger contra o frio. Ficam molhados com as chuvas das montanhas e se apertam entre os rochedos por falta de abrigo. Arrancam, o órfão de peito materno e penhoram quem é pobre. Na cidade os mortais gemem e os feridos pedem socorro, mas Deus não dá importância a essa infâmia (Jó 24,3-4.7-9.12).

 

Na sociedade teocrática de Judá, baseada na lei do puro e do impuro, uma pessoa é considerada justa e pura quando consegue cumprir as exigências da Lei. Caso contrário, é considerada impura e excluída da participação do Templo e da vida comunitária. O rito de purificação exige sacrifício e entrega de produtos ao Templo, e, por isso, o Deus oficial do Templo “não dá importância a essa infâmia” dos pobres sem recurso. Mais ainda, segundo a Lei, alguns grupos vivem em situação de impureza permanente — por exemplo, os estrangeiros e os deficientes (Lv 13,45-46; Esd 9,1-10,44).

 

O sentimento de solidariedade decresce, e a pessoa não respeita as tradições das aldeias comunitárias, como afirma Dt 10,18: “Deus faz justiça ao órfão e à viúva e ama o estrangeiro (migrante), dando-lhe pão e roupa”. A família se fecha cada vez mais no interesse e na honra dos membros do mesmo sangue. Nas páginas do Novo Testamento, há uma história que ilustra o fechamento do grupo familiar contra a abertura de Jesus de Nazaré ao próximo: “os parentes de Jesus foram detê-lo” (Mc 3,21).

 

3.4. A família aberta ao próximo e à vida comunitária

Jesus foi para casa. E de novo a multidão se aglomerou, de modo que eles não conseguiam nem comer. Quando souberam disso, os parentes de Jesus foram detê-lo, porque diziam: “Ele ficou louco!... ” Chegaram então a mãe e os irmãos de Jesus. Ficaram do lado de fora e mandaram chamá-lo. Jesus lhes respondeu: “Quem é minha mãe e meus irmãos?” E olhando em volta para os que estavam sentados ao seu redor, Jesus disse: “Eis minha mãe e meus irmãos. Pois quem fizer vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe" (Mc 3,20-21.31.33-35).

 

Os parentes julgam Jesus e dizem: “Enlouqueceu”. O julgamento deve ser causado pela prática de Jesus. Ele vive no meio dos “endemoninhados” (Mc 1,32) — doentes, pobres, forasteiros etc. —, toca o leproso (Mc 1,41), come com os pecadores (Mc 2,15) e acolhe a mulher impura (Mc 5,25-34). O que Jesus está propondo é reincorporar os marginalizados na vida social, em vez de excluí-los pela Lei discriminatória. Devolver-lhes a alegria de viver como gente. Formar uma comunidade. Uma família do Deus da vida.

 

Entretanto, os parentes e familiares de Jesus tentam prender e neutralizar essa ação de Jesus, que compromete e ameaça o interesse, o nome e a vida da sua família e seu clã na sociedade judaica tradicional da Lei e no mundo mediterrâneo da cultura patriarcal de “honra e vergonha”. Para a família empobrecida pelo Império Romano e doutrinada pela lei do puro e do impuro, não há espaço para os pobres e outras categorias de impuros e marginalizados.

 

O dever de um membro de uma aldeia judaica é a fidelidade e a obediência ao chefe (ancião) de seu clã e a seu pai, que controla a família, seu nome e sua herança. A honra e o interesse de uma família estão em primeiro lugar e devem ser mantidos até com a morte. A organização e a tradição familiar são meios importantes de sobrevivência e, ao mesmo tempo, servem, muitas vezes, para manter o interesse do grupo familiar e o sistema do poder na sociedade judaica. Ou seja, o interesse familiar de sangue arranja e cria obstáculos à abertura ao próximo necessitado. Neste contexto, Jesus afirma em Lc 14,26: "Quem vier a mim e não deixar em segundo plano seu próprio pai e mãe, mulher, filhos, irmãos, irmãs e até sua própria vida não pode ser meu discípulo”.

 

3.5. “Família ampliada” nas comunidades da primeira carta de Pedro

Sejam hospitaleiros uns com os outros, sem reclamar. Cada um de vocês coloque a serviço dos outros o dom que tiver recebido, sendo assim bons administradores das muitas formas da graça que Deus concedeu a vocês (1 Pd 4,9-10).

 

A primeira carta de Pedro foi destinada a várias comunidades da Ásia Menor, uma das regiões mais exploradas e controladas pelo Império Romano. Nessas comunidades havia estrangeiros, forasteiros e escravos. Nas cidades greco-romanas, os forasteiros não pertenciam ao povo, nem sequer podiam ter casa no país. Eram estranhos, indesejados e não possuíam direito algum. Os estrangeiros residentes podiam ter moradia, mas também não eram bem aceitos pela população nativa e não tinham direito de cidadania: não podiam votar nem ter terra.

 

Nesse contexto da Ásia Menor, a hospitalidade para os forasteiros era um desabo e também um peso econômico, abnal eram pessoas pobres acolhendo outras pessoas pobres e indesejadas: uma prática de risco. Para motivar as pessoas à prática da hospitalidade, o autor da carta faz a seguinte exortação: “Acima de tudo, conservem vivo o amor mútuo, pois o amor cobre uma multidão de pecado” (lPd 4,8). E o amor entre as pessoas que tem o poder de perdoar os pecados, de eliminar o ódio, a hipocrisia, as calúnias. Ao acolher as pessoas necessitadas e perseguidas, os cristãos formam uma “família ampliada”, lugar de acolhida, convivência, solidariedade, como na sociedade tribal de Israel e no movimento de Jesus.

 

Hoje, convivemos ainda com a realidade injusta e violenta como a de Amós, Miqueias, Jesus de Nazaré e os primeiros cristãos. As pessoas sem terra, casa, família ampliada se espalham pelo mundo afora... São pessoas pobres e indesejadas pela sociedade. Não podemos simplesmente nos acomodar diante dessa realidade. Os camponeses de Israel pregavam: Deus criou o universo e toda a humanidade como uma família. As comunidades cristãs cantam: “Eu vim para que todos tenham vida, que todos tenham vida plenamente”. Fica para nós o desabo: assumindo o projeto do Deus da vida, no hoje de nossa história, quais deveriam ser nossas atitudes?

 

4.Celebrando a vida

O teólogo e poeta Rubem Alves afirma: “Todo jardim começa com uma história de amor; antes que uma árvore seja plantada ou um lago construído, é preciso que eles tenham nascido dentro da alma”. A criação é um gesto da gratuidade do amor de Deus para com a humanidade. Ela está em nossas mãos. Toda a humanidade deve respirar junto com a terra, a mãe planeta. É nossa responsabilidade cultivar e guardar o jardim. Nesse momento, você pode partilhar, na caixa de comentário, qual o sonho que você esta plantando.

 

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Para a próxima aula, ler Mq 3,5-8