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3 - Bodas de Caná: João 2,1-12
3 - Bodas de Caná: João 2,1-12

Uma festa sempre apro­xima as pessoas, faz superar as barreiras que existem entre nós e faz vencer a luta. O que significa para nós organizar ou participar de uma festa?

 

 Hoje vamos ler o texto sobre as bodas de Caná: uma festa de casamento. Esta festa acontece no am­biente familiar, entre amigos, no espaço da casa, onde as pessoas são acolhidas e amadas. E nesse espaço a mulher tem uma atuação decisiva: ela organiza, prepara e cuida de todos os detalhes, para que tudo saia bem e nada falte.

 

No tempo de Jesus, o casamento era um acontecimento muito importante na vida da aldeia, en­volvia a todos. Esta festa tinha a duração de vários dias; era uma ocasião para reunir os parentes e os amigos pró­ximos e distantes. Na festa não podia faltar o vinho. Na re­gião da Palestina se produzia muito vinho, por isso era uma bebida muito comum nas refeições. O vinho era sím­bolo do amor e da alegria, considerado como dom de Deus e sinal de prosperidade (Jz 9,13; Sl 104,15; Zc 10,7). Nas festas o vinho devia ser abundante (1Sm 25,36; Sb 2,7), era considerado como uma bênção de Deus (Dt 7,13; Is 62,2). Se faltasse o vinho, a família ficaria numa situação constrangedora. Seria um vexame! Vamos ler, com muita atenção, a história desta festa: João 2,1-12

 

Situando o texto: Nas bodas de Caná, Jesus foi reconhecido por al­guns como o Messias. Desde o início da dominação ro­mana, Caná da Galiléia, região montanhosa, era o lugar onde viviam as pessoas consideradas como rebeldes, os grupos subversivos contra o regime que dominava em Jerusalém. Situar o princípio dos sinais de Jesus nessa região montanhosa pode ter significado para a comuni­dade joanina, seguidores e seguidoras de Jesus, um in­centivo para continuar resistindo contra os judeus fari­seus e o império romano.

 

A comunidade do Evangelho de João organizou a primeira parte do livro em 7 sinais. Provavelmente, Je­sus deve ter feito muitos outros sinais (Jo 21,25). A co­munidade selecionou alguns para levar as pessoas à fé. Os sinais escolhidos deixam claro a nova proposta de Jesus: um projeto de vida plena que considera as neces­sidades concretas da comunidade. Vejamos as estraté­gias desse projeto:

 

  • Bodas de Caná (2,1-12): comunidade solidária e sensível às pessoas.

 

  • Cura do filho de um funcionário real (4,46-54): uma atenção especial com a saúde.

 

  • Cura do paralítico (5,1-9): uma sociedade em que todos têm direitos iguais. Nela ninguém ficará à margem, perto da porta das ovelhas - lugar re­servado aos animais.

 

  • Multiplicação dos pães (6,1-15): todos terão co­mida.

 

  • Jesus caminha sobre mar (6,16-21): o medo e a insegurança não farão parte da vida da comuni­dade

 

  • - Cura do cego (9,1-41): participação, solidarieda­de e amor: direito e compromisso de todos.

 

  • Ressurreição de Lázaro (11,1-44): todos terão di­reito à vida.

 

Todos os sinais levam as pessoas a se posicionar em relação a Jesus. Os sinais foram confirmados pelo gran­de sinal de Jesus: o amor até o fim (13,1), na doação, no serviço, na perseguição, até a entrega livre e consciente da própria vida (10,18). E a comunidade dos seguidores e seguidoras de Jesus é chamada a fazer o mesmo. O Evangelho de João quer nos ajudar a dar esse passo (20,28-30).

 

Comentando o texto: Um fato corriqueiro: o casamento. Este acontecimen­to era uma imagem muito usada para falar da aliança entre Deus e o seu povo. As bodas de Caná, uma festa onde todos estão celebrando a vida... De repente, o vi­nho começa a faltar. O vinho é sinal do amor e da bênção de Deus (Ct 1,2; 8,2). Eles não têm mais vinho (2,3).

 

O casamento representava a antiga aliança de Deus com o seu povo, transmitida e vivida através da Lei. Nas bodas de Caná, a falta do vinho era uma referência à falta de amor, expressa na incapacidade de realizar a partilha e a solidariedade entre as pessoas. A mãe de Jesus, repre­sentando a comunidade dos pobres de Israel, percebe que a antiga aliança não está trazendo vida para as pessoas. É a sensibilidade de uma mulher que constata que não tem mais vinho. É preciso fazer alguma coisa!

 

Veja bem, em nenhum momento aparece o nome da mãe de Jesus (2,1.3.5.12), o mesmo acontecendo nos outros textos joaninos (6,42; 19,25). Por que será que ela, na visão da comunidade de João, é tratada como mãe, e nas palavras de Jesus como mulher, e não por seu pró­prio nome? Será mero esquecimento? Não. A omissão do nome é para dizer que Maria é representante do Is­rael fiel às promessas de Deus, daqueles/as que reconhe­cem em Jesus o Messias e lhe apresentam a grande difi­culdade: "Eles não têm mais vinho" (2,3). A mãe de Jesus põe seu filho a par da aflição de Israel. Fala da situação de pobreza, sofrimento e vazio dos filhos de Israel.

 

Para realizar os sinais, Jesus conta com colabora­ção das pessoas. Novas personagens entram em cena: os serventes. A mãe de Jesus toma a iniciativa e pede que eles se ponham à disposição do seu filho. Jesus pede aos criados que encham as talhas (2,7). As talhas, que eram usadas para conter a água para a purificação, estão va­zias. Nas sinagogas, era costume ter algumas talhas com água para a purificação ritual. As talhas nos fazem lem­brar a Lei de Moisés, o código da antiga aliança. Havia seis talhas, um número incompleto. O Evangelho apre­senta seis festas judaicas (2,13; 5,1; 6,4; 7,2; 10,22; 11,55). Essas festas, como as talhas, estão vazias. As autorida­des judaicas transformaram essas festas em momento de exploração e opressão justificadas pela Lei.

 

O mestre-sala experimenta o vinho novo, não sabe de onde vem, mas reconhece que é melhor do que o outro. Ele é representante da classe dos dirigentes (2,6). Ele se dirige ao noivo e diz: "Você guardou o vinho bom até ago­ra" (2,10). Além da surpresa, ele admite que a qualidade do vinho novo é melhor. Na fala do mestre-sala, as autorida­des reconhecem que a proposta da comunidade joanina é melhor, ou seja, a sensibilidade, o amor, a solidariedade e o serviço dão sentido à vida das pessoas. E quem articula esse novo jeito de viver, nessa comunidade, são as mu­lheres, que ajudam a construir novas relações.

 

Aprofundamento: Mulheres na liderança?

A comunidade joanina tem um projeto muito con­creto: todos são chamados a ter vida, e vida plena (10,10). Uma comunidade mista, formada por judeus que aderi­ram à proposta cristã, samaritanos, estrangeiros, mulhe­res, doentes, escravos e libertos. Ela procura viver o amor e o acolhimento no concreto do dia-a-dia. E nessa comu­nidade é muito marcante a presença das mulheres, discí­pulas fiéis realizando e construindo a nova aliança. Entre as mulheres, encontramos Maria (2,1-12; 19,25-27), a mulher samaritana (4,1-41), Marta (11,17-27), Maria de Betânia (12,1-8) e Maria Madalena (20,11-18). Essas mu­lheres são apresentadas como modelos de seguimento a Jesus. Vamos ver como foi o discipulado delas?

 

Maria, mãe e mulher solidária: nas bodas de Caná e no calvário, a mãe de Jesus é tratada pelo filho como "mulher" (2,4; 19,26). Isso é um jeito de dizer que, nesses textos, ela não é uma persona­gem individual, mas representa a comunidade de Israel que acolhe Jesus e permanece fiel. Maria é mulher de iniciativa, sensível, solidária e mãe que está a serviço do Reino (12,1-12). Ao pé da cruz (19,25-27), Maria aparece ao lado de outras mu­lheres e do discípulo amado. Ela está ligada à comunidade por ser mãe e discípula.

 

A samaritana, mulher que tem sede: uma mulher marginalizada por sua própria condição de mu­lher, por ter em sua origem judeus e não-judeus (4,7) e por sua crença religiosa (4,9). A samaritana acolhe e anuncia o Salvador e Messias entre o seu povo (4,39). Por causa do testemunho da mulher, muitos samaritanos acreditaram. A sa­maritana é uma mulher aberta, sedenta e disposta a beber da água viva. Essas características são essenciais para o discipulado.

 

Marta, trabalhadora sensível e acolhedora: esta mulher vive um processo de amadurecimento de sua fé. Ela supera sua crença em Jesus como aquele que tem o poder de fazer milagres (11,22), reconhece que a ressurreição está acontecendo no tempo presente: "Eu sou a ressurreição e a vida" (11,25) e acredita em Jesus como o Cristo, o Filho de Deus (11,27). No Evangelho de Mateus (16,16-17) quem faz esse ato de fé é Pedro: "Tu és o Messias, o Filho de Deus". Nos evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas há um reconhecimento da autoridade apostólica. Ao pôr a confissão de fé na boca de Marta, a comunidade joanina está superando a tendência hierárquica presente nas Igrejas apostólicas. Ao mesmo tempo, está afir­mando a sua identidade: uma comunidade de dis­cípulos e discípulas, de homens e mulheres que acreditam em Jesus presente, vivo e atuante na comunidade.

 

Maria de Betânia, a amada: Maria era uma mu­lher conhecida na aldeia (11,1) e era amada por Jesus (11,5). O seu discipulado tem a marca in­confundível do amor. Ela é mulher que ama e se deixa amar. A sua capacidade de amar é expres­sa em gestos: unge os pés de Jesus com perfume e os enxuga com seus cabelos (12,3); mulher dis­ponível para ir ao encontro de Jesus (11,30); chora a morte do irmão (11,31-32). O gesto de ungir os pés de Jesus com perfume é um gesto gratuito de amor e tem uma dimensão profética. É o anún­cio da morte e ressurreição de Jesus. E mais, ela é discípula que, por amor, intui a ordem de Jesus de lavar os pés dos discípulos (13,14).

 

Maria Madalena, que ama, insiste e busca Se­nhor: essa mulher é a primeira testemunha da ressurreição (20,18). Ela recebe a missão de anun­ciar a ressurreição aos discípulos. Ela anuncia e encoraja a comunidade que estava amedronta­da, de portas fechadas (20,19). O seu amor moti­va sua busca e persistência até encontrar o Se­nhor. É discípula fiel porque ama.

 

A imagem da mulher é usada para simbolizar a comunidade por dois motivos:

 

1º) Na comunidade de João, a presença de mu­lheres na liderança é muito significativa. Em meio às dificuldades, elas continuam fiéis, animando as pessoas na caminhada. Elas não desanimam. São mulheres corajosas, capazes de denunciar a situação de opressão vivida por seu povo. Não se calam, nem se acomodam diante do sofrimento.

 

2º) Nesse período, por volta do ano 90, as comu­nidades cristãs, em sua organização, estavam se institucionalizando, com acentuada tendência machista e excludente (1Tm 2,9-15). Portanto, o Evangelho de João é um grito, um protesto con­tra a limitação da participação ativa das mulhe­res na vida e organização das comunidades.

 

A comunidade joanina tem a força para enfrentar a perseguição, a tortura e a morte porque tem uma vivência intensa do amor, de um amor que gera igualdade, uma comunidade de irmãs e irmãos, um ambiente de discí­pulos e discípulas. A caminhada no seguimento a Jesus torna real a vivência do amor: amem-se uns aos outros (15,17). Esse é o mandamento de Jesus. Tema do nosso próximo encontro.