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31- Profetas = Porta vozes da Palavra de Deus
31- Profetas = Porta vozes da Palavra de Deus

Conteúdo Programático
1.Revisão do Projeto de Deus; 2.Abandono do projeto e surgimentos dos Profetas; 3.Os Profetas do Reino do Norte; 4.Os profetas do Reino do Sul; 5.Atividade profética no Exílio e Pós Exílio. 6. Conclusão.

I. Revisão do Projeto de Deus: Nas etapas anteriores foi visto que Deus tem um projeto para seu povo realizar. Descobrimos, então, que Deus libertou os hebreus da escravidão do Egito para fazer deles o seu povo. Um povo que deveria viver de maneira diferente: na igualdade, fraternidade, justiça, uns com os outros, partilhando a mesma fé no único Deus. Esse projeto contratava fortemente com o projeto dos reis e dos faraós dos quais estavam submetidos.

 

Projeto dos reis - Sociedade dividida; Exploração do trabalho; Concentração do poder; Leis que defendiam o sistema; Exército de mercenários; Monopólio do saber; Vários deuses; Sacerdotes latifundiários; Culto de ritos.

 

Projeto de Deus Sociedade igualitária; Autonomia de produção; Poder comunitário; Leis que defendem o povo; União do povo; Escola para todos; Único Deus libertador; Sacerdócio profético; Culto a partir da vida.

 

II - ABANDONO DO PROJETO E O SURGIMENTO DOS PROFETAS

 

Infelizmente, no tempo dos reis, o povo de Deus foi incapaz de levar esse projeto para frente: quebrou o projeto e a aliança feita com Deus. Nessa época, apareceram pessoas para manter viva na memória do povo a lembrança do projeto de Deus. Essas pessoas foram chamadas de profetas. Porém eles não foram escutados. O projeto foi abandonado através da corrupção das lideranças, invasões e individualismo.

 

Durante os duzentos anos do período dos Juízes (1200-1030 a.C.) não há profetas em Israel. O Livro dos Juízes não menciona profetas tais como os conhecemos na história bíblica. Débora é chamada de "profetisa" (Jz 4,4), mas sua atuação é a de uma juíza, a libertadora do povo.

 

Podemos dizer que monarquia e profecia surgem juntas. Nascem e caminham lado a lado. Reis e profetas são figuras complementares, mas contrastantes. Quando surgir o domínio dos impérios estrangeiros, não haverá mais reis. Também não encontraremos mais profetas. Nesta época o povo chamará de "profetas" aqueles que aparecem ao lado dos reis como uma "sombra", como os guardiões da Aliança.

 

O relacionamento entre rei e profeta não é harmônico ou pacífico. A história do povo na época dos reis é a história de um confronto, de uma luta. A origem desta luta está no modelo de sociedade que cada um defendia. De um lado, a política dos reis defendia as cidades, o comércio, a especulação e a venda de terras, o culto oficial centralizado em templos reais, seja para Javé, seja para Baal. Uma política de escravidão, tributos, taxas, saques e pilhagens, armas caras e exércitos fortes.

 

Do outro lado, vemos os profetas defendendo as tribos, as aldeias, a roça, a propriedade familiar da terra, os pequenos santuários rurais, o culto familiar, o trabalho livre. Tudo isso em nome da Aliança e da fidelidade a Javé, o Deus Libertador que escutou o clamor de seu povo escravizado.

 

Evidente que as coisas não eram tão duras assim, com os dois campos bem delimitados. Muitos profetas traem o povo e a Aliança, pondo-se a serviço do rei. Como também percebemos em alguns reis, como Josias (2 Rs 22), um esforço sério na vivência da Aliança e da Lei de Deus.

 

Mas a verdade é que entre rei e profeta há um relacionamento conflitivo. Este conflito acabará escrevendo a maioria dos livros da Bíblia. De um lado reis como Davi, Salomão, Jeroboão, Acab. De outro, Samuel, Elias, Amós, Jeremias, Isaias  e tantos outros. Foi uma luta dura e difícil para os profetas. Há perseguições e mortes. Tudo por fidelidade a Javé, que pede justiça, partilha, igualdade. O profeta busca a "Paz": a presença de Javé no meio do povo fiel (Is 26,12). Só haveria Paz se houvesse fidelidade à Aliança. Os profetas surgem como a consciência do povo e sua luta se resume nisto: fidelidade à Aliança em busca da Paz que vem do alto (Lv 26,3-13).  

 

Quem eram os Profetas? A definição é muito difícil e tem muitas conotações. Chamamos de profeta quem diziam ser: "Vidente", Visionário, Homem de Deus”.

 

Vidente: Antigamente, em Israel, quando alguém ia consultar a Deus, dizia: ‘Vamos ao vidente’(1Sm 9,9). Essas palavras aludem a Samuel, quando se encontra com Saul. O vidente Samuel é apresentado como profeta do rei Saul. Samuel é o exemplo típico do vidente. Ele conhece o que está oculto e pode revelá-lo mediante presentes. O termo vidente, em hebraico ro’eh , aparece no Primeiro Testamento 11 vezes (1Sm 9,9.11.18.19; 2Sm 15,27; 1Cr 9,22; 26,28; 29,29; 2Cr 16,7.10; Is 30,10). Os videntes atuavam nos centros urbanos. Acredita-se que alguns deles pudessem exercer a função de sacerdotes, como Sadoc (2Sm 15,27).

 

Visionário: Gad, o profeta da corte de Davi, recebe uma comunicação de Deus e é chamado de o visionário de Davi (2Sm 24,11). Três outras vezes, a expressão – visionário de Davi – é aplicada a Gad (1Cr 21,9; 29,29; 2Cr 29,25). Além dele, Amós é denominado visionário pelo sacerdote Amasias: “Visionário, vai,  foge para a terra de Judá; come lá o teu pão e profetiza lá”(Am 7,12). Visionário em hebraico se diz hozeh e o termo aparece 16 vezes no Primeiro Testamento.

 

A função do profeta visionário era ter visão ou contemplar. Como vimos em relação a Gad, alguns visionários serviam ao rei com suas visões e palavras, por isso eram conhecidos como “visionários do rei”, o que, por outro lado, não deve levar-nos a afirmar que eles tivessem participação na corte. A visão e contemplação faziam parte da atividade de profetas como Isaías, Amós, Miquéias, Naum, Abdias e Habacuc.

 

Alguns visionários foram chamados de falsos profetas, pelo fato de suas “visões” serem movidas por interesses (Mq 3,5-7). Por outro lado, em razão de suas denúncias corajosas, eram considerados referências importantes para o povo manter-se no caminho de Deus. Eles agiram contra o ímpio rei Manassés (2Cr 33,18).

 

 Homem de Deus: “Agora sei que és um homem de Deus e que o Senhor fala verdadeiramente pela tua boca” (1Rs 17,24). Essas palavras são da viúva de Serepta dirigidas a Elias, quando este ressuscitou o filho dela. Também Eliseu, Samuel, Semeias, Bem-Joanã, assim como Moisés e Davi, são chamados de “homens de Deus”. O termo aparece nada menos que 76 vezes no Primeiro Testamento, sobretudo no  período do século IX.

 

Profeta: Profeta, tradução do hebraico nabî’, é o termo mais usado na Bíblia. São 315 ocorrências que se reportam aos profetas, em especial a partir do final do século VII e durante o VI, antes de Cristo. Notório é o fato de nabî’ser usado tanto para os falsos profetas do Senhor como para os verdadeiros profetas, Isaías, Amós, Miquéias e outros. 

 

O profeta é o intérprete, aquele que comunica a Palavra, seja de Deus, seja de Baal. Ele é uma pessoa escolhida por Deus para transmitir a sua mensagem de denúncia, solução e esperança. Em outras palavras, o profeta é o porta-voz, da aliança. A atuação profética investe contra os opressores do povo de Deus. Quando um povo atacava, invadindo Israel, o profeta denunciava o opressor e o povo de Israel, que permitia a opressão por causa dos próprios erros.

 

O profeta, encarando a crise social, política e econômica de seu povo, torna-se também o homem da crise. Eis alguns exemplos. Jeremias diz: “Meu coração está quebrado dentro de mim, estremeceram todos os meus ossos. Sou como um bêbado, como um homem que o vinho dominou por causa do Senhor e por causa de suas santas palavras” (Jr 23,9). E continua: “Porque a terra está cheia de adúlteros”. Já Elias, agindo de forma violenta contra o rei Acab, que o chama de “flagelo de Israel”, lhe diz: “Não sou eu o flagelo de Israel, mas és tu e tua família, porque abandonaste o Senhor e seguiste os baals”(1Rs 18,18). Amós, por sua vez, denuncia a podridão na Samaria, onde o fraco é oprimido, e o indigente, esmagado (Am 4,1). Ele denuncia ainda o rei de Israel, Jeroboão. Amasias, sacerdote de Betel, entrega Amós para Jeroboão e afirma que a terra não pode mais suportar as palavras desse profeta (Am 7,10).

 

Profeta maior e menor: Encontramos na divisão dos profetas do Primeiro Testamento a distinção entre Profeta Maior e Menor. Essa diferença ocorre não pela importância do profeta, mas pelo tamanho do seu escrito. No século II a.E.C., já era conhecida essa distinção. São quatro os profetas maiores,a saber: Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel. Já os menores formam um grupo de 12, ou seja, Amós, Oséias, Miquéias, Sofonias, Naum, Habacuc, Ageu, Zacarias, Malaquias, Abdias, Joel e Jonas.

 

O livro de Baruc é colocado entre os livros proféticos da Bíblia Grega (LXX). Ele não é propriamente o livro de um profeta. Baruc era secretário e amigo do profeta Jeremias, que lhe teria ditado as palavras proféticas. Nessa mesma linha, o livro das Lamentações é atribuído a Jeremias e, por isso, localiza-se depois do livro de Jeremias. Tal hipótese, no entanto, não é sustentada pelos pesquisadores, pois o teor do livro não condiz com o pensamento de Jeremias.

 

O livro de Daniel é outro que suscita polêmica. Na BH, ele não faz parte dos livros proféticos, mas do bloco dos Escritos. Daniel é reconhecido no ST (Mt 24,15) como profeta; mas, nos estudos mais recentes, é considerado apocalíptico.

 

Profetisas: A única mulher que poderia ser considerada profetisa na Bíblia, no sentido estrito do termo, Hulda (2Rs 22,14), que viveu na época da reforma deuteronomista do rei Josias.  Outras mulheres recebem apenas o título de profetisa, como: Míriam, irmã de Moisés e Aarão (Ex 15,20), Débora (Jz 4,4) e a esposa de Isaías (Is 8,3).

 

Profetismo não é exclusividade de isarel: Quem pensa que a figura dos profetas surge somente em Israel, comente um engano. A Bíblia não tem o monopólio da atividade profética. Outros cultos/religiões também tinham seus profetas (1Rs 18,19). Do mesmo modo a religião não tem o monopólio da profecia. Fazia parte da cultura dos países antigos, nas cortes do oriente Médio, a existência de sábios, videntes, conselheiros, adivinhos e profetas. Qualquer corte que se prezasse, possuía o seu profeta que em geral era utilizado apenas para prever o futuro. Essas previsões iam sempre ao encontro dos desejos dos reis, e contraria a seus inimigos (e muitas vezes  às expectativas do povo).  Esses reis muitas vezes procuravam o apoio desses profetas. O apoio de um profeta significava o apoio de Deus! Com o apoio de um profeta era mais fácil levar o povo a obedecer ao governo e cumprir as ordens do rei.

 

Em Israel, por exemplo, para defender seus interesses os reis tinham a seu serviço os chamados profetas da corte que comia da mesa do rei (1Rs 18,19), ou seja recebiam salários. Esses profetas diziam o que o rei queria dizer, indicavam ao povo que a autoridade do rei tinha origens divinas e, portanto, não podia ser questionada ou contrariada e sempre aparecem em maior numero enfrentando apenas um único profeta de Javé (1Rs 18,20-29; 22,5-9).

 

Profecia em Israel: Em Israel, a profecia começa no tempo do rei Saul. Por ser Israel uma teocracia, isto é, toda a lei civil emanava do religioso, para as grandes investiduras, Javé ungia seus escolhidos, separando-os do meio do povo. Ninguém podia ser rei ou profeta se a unção de Deus não estivesse com ele. Ainda sob o enfoque cultural, é indispensável que se vá buscar nos fenômenos históricos o fato gerador para o surgimento dos profetas. Cansado do regime tribal, quando a autoridade era exercida pelos chefes dos grupos e depois pelos juízes, Israel quis ter um rei (1Sm 8,1-5) sob o protesto do poder religioso, que só admitia a realeza de Javé (1Sm 8,6-22). Mesmo assim foi ungido Saul (1040-1010 a.C.) como primeiro rei de Israel. Sucedeu-lhe Davi (1010-970) e depois Salomão (970-932).

 

Nos reinados de Davi e Salomão, Israel foi uma das nações mais poderosas da terra, à custa da miséria do povo. Com a morte de Salomão (932 a.C.) os interesses políticos se tornaram irreconciliáveis e ocorreu a divisão do reino em Norte e Sul. O Reino do Norte ficou sendo chamado de Israel, com capital na Samaria. O Reino do Sul, Judá, teve como capital Jerusalém. Foi o princípio do fim. Israel experimentava uma sensível decadência, ao inverso dos países vizinhos (Assíria, Egito e Babilônia) que começavam a crescer e consolidar sua hegemonia.

 

Ambos os Reinos se enfraqueceram, tornando-se alvos fáceis para os invasores egípcios, assírios, babilônicos, persas, gregos e romanos, que acabariam por liquidar Israel e Judá. Mesmo em decadência, e talvez até como fruto dela, passou a imperar no país a corrupção, a violência, a prostituição sagrada, o desrespeito com o cidadão, praticados pela monarquia, sacerdotes, senhores de terras e pelos poderosos. Surgiriam aí os profetas denunciando a injustiça e anunciando os castigos de Deus, que culminariam com as invasões, deportações e perda da identidade judaica.

 

III. OS PROFETAS DO REINO DO NORTE

 

Após a divisão da monarquia o reino do norte, Israel (1Rs 12,1 a 2Rs 17) teve 19 reis e nesse período atuaram os profetas: Elias, Eliseu, Amós e Oséias. Todos eles declararam "guerra santa" contra os reis de Israel (1Rs 18-2Rs 10).

 

Segundo a Bíblia, Acab, sétimo rei de Israel (1Rs 16,29-17,1; 18,1-22,40) que reinou aproximadamente entre de 874 a 853 a.C, foi pior que todos os seus seis antecessores. Acab era ambicioso e sem escrúpulos na condução do seu governo. Casou-se com Jezabel, filha do rei dos sidônios e por causa dela trocou Javé por Baal, erigindo-lhe um templo e um altar em Samaria, onde lhe prestava adoração, contrariando Javé (1Rs 16,29-33).  Aí entrou em cena o profeta Elias, que condenou seus desmandos.

 

Elias (Meu Deus é o Senhor) lutou contra todo o tipo de idolatria. Ele não só defendia os pobres, criticando a ganância e o abuso de poder dos reis, mas ainda se afasta do ponto de vista de quem esta no palácio e convive com os pobres, experimenta com eles a penúria da seca e a solidariedade da acolhida, da partilha e da confiança do poder do Senhor. Identifica-se com os perseguidores do poder, sendo ele mesmo perseguido, chegando até a perder a esperança ao não conseguir perceber que não é o “único que sobrou”.[1] É o que aprendemos do confronto com os profetas de Baal no monte Carmelo (2Sm 18 e 19) onde Elias mostrou ao rei e a todo o povo o rosto de Javé como o do Deus único e verdadeiro, condenando toda a idolatria.

 

Do lado dos pobres, Elias experimenta a ação libertadora do Senhor, a fé que brota da partilha e a esperança que vem do horizonte como uma nuvenzinha, e que vai crescendo até se tornar uma chuva de bênçãos para o povo. É a qualidade de “homem do povo” que faz com que as pessoas o reconheçam como “homem de Deus”. É nessa convivência popular que se desenvolve os sentimentos de indignação contra a ambição desmesurada e o governo irresponsável do rei Acab, que o levaram a acusar violentamente o crime do rei, no episodio em que Acab quis tomar a vinha de Nabot (1Rs 21) que era ao lado de seu palácio, para transformá-la em uma horta.

 

Como o camponês, fiel às tradições de seu povo (Nm 36,7) recusasse ceder-lhe a herança de seus pais, Jezabel convocou os anciãos e notáveis da cidade e trouxe duas falsas testemunhas, que depuseram contra Nabot, sendo este condenado à morte e apedrejado. Acab desceu então de seu palácio, feliz, para tomar posse da vinha do vizinho. Elias foi ao seu encontro e predisse-lhe os castigos que Javé faria vir sobre ele, Jezabel e sua família, pela grande injustiça e pelo assassinato que cometeram, movidos por sua cobiça. O profeta mostrou assim a Israel outra face do rosto de Javé: Deus justo, ao lado dos oprimidos, sem voz nem vez. E Acab foi condenado pelo profeta Elias a sofrer a mesma sorte de Nabot e ter a sua casa (descendência) exterminada (1Rs 21,1-29).

 

Elias viveu numa época em que os camponeses reagiam contra os tributos e a corvéia impostos pelos reis. Esta reação aparece na vida do profeta, pela ligação que tinha com o pessoal do campo, do qual era porta-voz. A viúva de Sarepta (1Rs 17, 7-24) confiou nele e lhe preparou uns pãezinhos com o pouco de farinha e de óleo que tinha para si e para seu filho. Javé a recompensou e não lhe faltaram nem o óleo e nem a farinha durante todo o tempo da seca.

 

A reação da viúva quando morreu seu filho foi forte, cobrando do profeta a vida do rapaz e exigindo dele a restituição de sua vida, o que Elias, pela força de Javé, conseguiu fazer. Por trás destes dois episódios está mais uma face do rosto de Javé que Elias revelou: o Deus da Vida, que dá de comer ao pobre que partilha e que ressuscita aquele que seria o único arrimo de uma mãe viúva.

 

Elias experimenta também, como profeta, o sabor da presença calma e refrescante do Senhor "como brisa da tarde", numa das piores crises de sua vida. É o que vemos na passagem da gruta de Horeb (2Sm 19,9-18). Sua trajetória entre o povo deixou as marcas indeléveis de alguém que é "de Deus". Por isso, as narrativas sobre sua vida, recolhidas no "Ciclo de Elias" (lRs17-19; 21; 2Rs1,1-2,18), terminam como que  afirmando: um homem assim não  pode morrer! A tradição popular conta que ele "foi arrebatado ao céu por um carro de fogo" (2Rs 2,11-12).  Sua imagem ficou tão impressa na memória do povo que, séculos mais tarde, o profeta Malaquias disse que Elias voltaria no fim dos tempos, para preparar o povo para o reino messiânico (Ml 3,23-24). Jesus e as comunidades cristãs darão uma nova  interpretação a essa expectativa popular da volta de Elias (Mt 17,9-13).

 

A sua profecia, porém, continua atuante no profeta Eliseu, herdeiro do "espírito" de Elias, isto é, de sua força profética. A passagem dessa "força" se dá simbolicamente na entrega do manto de Elias ao sucessor, quando de seu arrebatamento ao céu (2Rs 2,13s).

 

Eliseu foi sucessor de Elias e era um homem bastante particular dentre os profetas. O conjunto de narrativas a seu respeito encontra-se no 2º livro dos Reis, espalhado entre os capítulos 2 e 13, apesar de já ter sido introduzido em 1Rs 19,19-21, quando ele foi chamado por Elias para segui-la. Boa parte dessa narrativa tem aquele gosto dos "causos" que, por sua forma extraordinária (e às vezes exagerada mesmo), levam a gente a pensar. Encontramos nelas uma predileção pelo milagre ou pelas ações, no mínimo, "esquisitas". Daí a particularidade de Eliseu: suas intervenções nem sempre têm como resultado direto a denúncia de alguma injustiça cometida, ou o prenúncio de um castigo ou uma intervenção divina, como no caso dos profetas anteriores a ele. Às vezes até nos perguntamos o que certas intervenções do profeta têm a ver com sua missão em si.

 

A julgar pelo teor dessas narrativas populares, Eliseu é um especialista em "milagres aquáticos", faz parar de correr as águas do Jordão para passar (2Rs 2,14), toma potável a água de Jericó (2,21), manda o leproso Naamã banhar-se no Jordão para curar-se (5,10), indica o lugar onde afundou um machado que caiu no rio (6,6). Mas encontramos também outras histórias milagrosas de teor popular: os meninos de Betel estraçalhados por duas ursas (2,23-24), a multiplicação do óleo da viúva (4,1-7), a sunarnita e seu filho ressuscitado (4,9-37), a comida envenenada tornada boa (4,38-41), a multiplicação dos pães (4,42-44) e a revitalização de um  morto (13,21).

 

Mas tomemos cuidado. O gosto pelo extraordinário nessas narrativas não nos deve desviar da mensagem mais profunda que elas encerram: "O Senhor agia pela palavra e ações de Eliseu, entre pequenos e grandes, em Israel e fora".  As demais narrativas sobre esse profeta mostram uma  outra característica sua: a de acompanhar e dirigir os movimentos políticos, exercendo uma liderança notável, orientado pelo espírito do  Senhor (Eclo 48,13). Nesse setor, Eliseu foi mais radical do que Elias, chegando, com grande probabilidade, a apoiar a rebelião de Jeú, que pôs fim à dinastia de Arnri.

 

Encontramos Eliseu totalmente envolvido nos eventos políticos que marcaram a primeira metade do século IX a.C.: na guerra de Jorão contra Meshá, rei de Moab (2Rs  3,4-27); na guerra com a Síria, destacando o milagroso (2Rs 6,8-23);  na subida de Hazael ao trono da Síria (2Rs 8,7-15); no assédio a Samaria e na fome na cidade (2Rs  6,24-7,2); na unção de Jeú como rei de Israel (9,1-10); no anúncio da  vitória contra a Síria (13,14-20).  Vai-se confirmando e aprofundando a característica do profetismo  como um movimento político a partir da ótica dos pobres. Aprofundaremos isso no terceiro nível de  nosso projeto de estudo bíblico.

Jeroboão II, foi o décimo terceiro reis do reino do norte, e foi uma época de enriquecimento, mas na qual o luxo dos grandes contrastava com a miséria do povo e o esplendor do culto mascarava uma falsa religião. No seu reinado levantou-se o profeta Amós, um pastor de Técua, rude e incisivo (Am 7,14).  Seu lugar preferido para falar em público era o santuário de Betel, pois lá encontrava sempre muita gente que vinha oferecer seus sacrifícios e trazer suas ofertas, agradecendo a Deus pela prosperidade  que estava concedendo ao povo.

 

Contudo essa prosperidade era falsa, porque, como já vimos, a exploração e a injustiça, o roubo e o suborno permitiam que alguns se deitassem em divãs de marfim e se regalassem em festas intermináveis (Am 6,1-7), enquanto as pessoas  iam ficando cada vez mais pobres e excluídas. O povo não percebia isso. Continuava a acreditar na propaganda enganosa das autoridades governamentais. Deixava-se convencer pela pregação espiritualista dos líderes religiosos, que legitimavam a situação, fazendo perigosas concessões ao baalismo.

 

Amós se propôs a ser a voz dos camponeses, levantando-se contra esse sistema de exploração e injustiça, claramente identificado como idolatria, porque levava ao abandono do Senhor e de seu projeto (Aliança), para servir a outros deuses, ou seja, a outros projetos que escravizam e matam. Esse seu grito em defesa do pobre é para ele um "rugido do Senhor" (1,2), um imperativo ao qual
ele não pode resistir (3,3-8). Essa é a sua vocação profética.

 

Suas intervenções, portanto, são sempre marcadas pela clareza de opção social ao lado dos deserdados, dos excluídos, dos injustiçados (veja-se, por exemplo, Am 2,6-8; 3,13-15; 5,10-13; e especialmente 8,4-6). Tal opção, resultou, é claro, em conflito. E não demorou muito: parece que Amós não atuou mais do que dois anos. A classe dirigente da nação estava conduzindo o país à ruína, mas parece que só Amós conseguiu ver isso. Ele profetizou a morte do rei, a deportação do povo, e até mesmo o avanço das tropas assírias sobre o país.  Era a declaração da falência do sistema apregoado pelos dirigentes políticos e religiosos. Isso custou a Amós sua expulsão de Israel pelo sacerdote de Betel, Amasias (Am  7,10-17).

 

Com Amós teve início uma nova fase no profetismo em Israel, que contribuiu intensamente para o enriquecimento do material bíblico. Suas palavras, sua vida e suas reflexões passam a ser consignadas por escrito, dando-se origem à literatura profética. Inicia-se a "época de ouro" do profetismo bíblico. A partir dele, os profetas não serão apenas questionadores de algumas políticas erradas dos governantes.  Questionarão o próprio sistema monárquico de Israel e Judá, decretando a falência do modelo de sociedade baseado nesse esquema.

 

A profecia de Amós conseguiu despertar a sensibilidade de mais gente para a realidade das coisas  no reino do Norte. Logo depois dele surge Oséias, denunciando com o mesmo vigor os pecados de  Israel, agora identificados como "a  prostituição" do povo, que abandonou o projeto do Senhor para servir ao projeto de Baal (veja-se, por exemplo, Os 4,2.4-10; 6,7-10; 10,4; 12,2.8-9). Essa ótica é reforçada pela experiência pessoal de Oséias (a menos que seja apenas um artifício literário): seu casamento conheceu o fracasso quando sua mulher o abandonou e entregou-se à prostituição (provavelmente a "prostituição sagrada" nos ritos baalísticos de fecundidade). Mas ele a amava e, quando ela voltou para casa, recebeu-a de novo, perdoando-a (Os 1,2-3,5).

 

Essa experiência deu a Oséias a moldura para repensar a relação entre o Senhor e Israel, seu povo.  Diante da infidelidade à Aliança ("prostituição"), que Oséias percebe como sendo a causa central de toda aquela situação difícil do povo, não resta outra saída senão conver-ter-se ao Senhor, que perdoará, porque ama seu povo. Daí a denúncia ao culto idolátrico, que é a principal temática de Oséias.

 

Mas ele não é, nem de longe, um liturgista querendo reformar os ritos, ou um religioso tradicionalista queixando-se do abandono das antigas tradições. A partir da religião, Oséias conseguiu atingir todos os setores da vida de Israel: a política, a economia, a educação, demonstrando com clareza que um projeto de sociedade, que pretende "ter a bênção do Senhor", tem necessariamente de se articular segundo a justiça e o direito, o amor e a ternura (Os 2,21).

 

A pregação de Oséias parece que tampouco deu resultado. Ele também percebe que sua gente caminhava para a ruína. Talvez teve a infeliz sorte de ver acontecer aquilo contra o qual tanto prevenira e  alertara o povo: a chegada do inimigo (a Assíria) e a devastação definitiva do reino, por causa de sua infidelidade. Debaixo dos escombros da sociedade israelita, a mensagem desse profeta infiltra-se e desabrocha como uma teimosa flor, delicada em suas pétalas, mas de cor firme e de perfume forte. Também o amor do  Senhor supera e redime até a infidelidade do seu povo.

 

 IV - OS PROFETAS DO REINO DO SUL

 

Desde quando começou a monarquia com Saul, apareceram também os profetas como reação aos desmandos da monarquia. Inicialmente eles se relacionavam mais com os reis, convivendo com eles no palácio. Mas nem por isso podem ser considerados "profetas da corte", quase como funcionários do Estado. A começar por Samuel, no tempo de Saul e Davi, passando por Natã e Gad, com Davi e depois Aía de Silo com Salomão e Jeroboão I os profetas sempre exerceram um papel crítico perante os monarcas. 

 

Durante a monarquia dividida, os profetas floresceram mai no Norte, onde as tradições javistas do tribalismo foram mais conservadas: e também onde as realidades políticas, social e religiosa exigiam intervenções severas desses "homens de Deus". Então, os profetas foram tomando distância cada vez maior do rei e do palácio e se identificando mais com o povo, com os pobres, os excluídos do sistema. Assim fizeram Elias e Eliseu.

 

No Sul, durante o reinado de Salomão, e depois dele, não se ouve mais falar de profetas, até a segunda metade do século VIII a.C., quando surgiu o eloquente Isaías, no tempo do rei Ozias (740) e seus sucessores.

 

Ainda jovem, Isaías, recebeu a vocação profética um pouco antes da morte de Ozias, em 740 (Is 6,l-8). Exerceu o ministério profético por cerca de 40 anos, até o ano 700 aproximadamente. Sua pregação reflete  a mentalidade de quem vive na cidade (Jerusalém) e conhece bastante a vida política, a corte e as atividades do Templo. Demonstra também muita sensibilidade pelos marginalizados, pelos excluídos daquela sociedade: as viúvas, os órfãos, os sem-teto (Is 1,17.23; 9,16; 10,2).  Além disso, demonstra um conhecimento profundo da situação a sua volta, no cenário internacional. Junto com Miquéias de Jemla atuou com energia, mostrando o rosto verdadeiro de Javé, o Deus que está contra os latifundiários (Mq 2, 1-2, 8 -10), ao lado dos empobrecidos.

 

Os dois colocaram-se contra a classe rica de Judá (Mq 1, 5), constituída pelos grandes proprietários de terra que exploravam constantemente os pobres, até com desonestidade (Is 3,13-15; Mq 2,1ss), despreocupados com a justiça e os direitos dos empobrecidos (ls,3, 16-4, 1; 5, 8ss.). Miquéias sobretudo, homem do campo, atacou os excessos dos latifundiários. É forte sua palavra contra os opressores do povo. Se lermos Mq 3,1-4, veremos como até os chama de "canibais", pois diz que eles "comeram a carne de seu povo". Na verdade, tirar do povo a chance de viver, é alimentar-se de sua carne.

 

Os dois profetas condenaram também os juízes corruptos (Is 1, 21.23; 5, 23; 10, 1-4; Mq 3, 1-4 . 9-11) e o culto que só exige rituais de sacrifícios (Is 10, 10-17). Atacaram os falsos profetas, que se preocupavam somente com seu lucro material (Mq 5-8) e viviam até na luxúria (Mq 2,11; Is 28, 7ss).

 

Miquéias é também o profeta do julgamento de Javé (Mq 2, 3-5; 3,12), pois interpreta a invasão dos assírios como julgamento de Javé contra Jerusalém, o que é um castigo para os latifundiários, que serão expropriados então de seus campos. O profeta mostra ainda um caminho de esperança, pois Javé é justo para salvar o inocente e o que se converte (Mq 7, 19-20). A religião que Ele quer é "praticar o direito, amar a misericórdia, humildemente com seu Deus" (Mq 6, 8). Chega até a dizer que um dia a cidade se tornará um lugar de justiça, quando o povo "de suas espadas fará enxadas e de suas lanças fará foices" (Mq 4, 2 - 4). Isaías e Miquéias têm também profecias messiânicas, que falam da vinda de um rei melhor, que estabelecerá um reino de justiça e paz, realizando as profecias dinásticas (Is 9, 5-7; 11, 1-9; Mq 5, 2-6), Este texto de Isaías 9 que citamos é chamado pelo grande biblista  Fr. Carlos Mesters de "Evangelho do menino", porque anuncia o nascimento de um rei menino, que na verdade é Ezequias o décimo quarto rei de Israel, e não Jesus Cristo.

 

Isaías também investiu contra os grandes e poderosos, mas contrariamente a Miquéias, ele era um homem da cidade, formado no templo (Is 6, 1-12) e atuou como conselheiro do rei Acás (Is 7, 3­9). Coerente com a formação que recebeu, o profeta acreditava que poderia vir um rei justo e bom, que fizesse justiça para todos (Is 8, 23-9, 6; 16, 5). Este profeta foi sempre um grande opositor a qualquer aliança com as potências estrangeiras, pois as considerava como desconfiança em Javé (Is 7,10-17; 10,20). Foi, portanto um profeta da confiança em Javé, o Santo de Israel, que defenderá seu povo (Is 31,8-9).

 

Ao lado dos empobrecidos e oprimidos, que ele chama de  "meu povo", Isaías defende seus direitos (Is 3,15; 1,16 -17.23). Deus para ele é muito próximo, segura-o  pela mão e ensina-lhe o caminho (Is 8, 11-15). Prevê também a destruição de Jerusalém (Is 22,4), mas, como Miquéias, também a vê reconstruída, quando "de suas espadas fabricarão enxadas e de suas lanças farão foices" (Is 2, 4).

 

Manassés, foi o décimo quarto rei do reino do sul, tinha doze anos quando começou a reinar e teve um longo reinado em Jerusalém (687- 642). Foi um rei ímpio, que reconstruiu os lugares de culto idolátrico que Ezequias tinha destruído. Ergueu altares a Baal, prostrou-se diante de todo o exército celeste e lhe prestou culto. Construiu altares para os ídolos no Templo de Javé e nos dois pátios do templo. Imolou aos ídolos seu próprio filho (2Rs 21, 1-6).  

 

Profetas mostraram-lhe o rosto de um Deus que abomina a idolatria e castiga-a. Isaías (Is 34, 9) profetizou um dia da vingança, um ano de retribuição em prol da causa de Sião e o caos e o vazio que se estenderão sobre ela (Is 34, 11). Diz 2Rs 21, 12-13, repetindo o que Amós 7,7-9 fala sobre Israel: "Eis que faço cair sobre Jerusalém e sobre Judá uma desgraça tal, que fará retinir os dois ouvidos de todos que dela ouvirem falar. Passarei sobre Jerusalém o mesmo cordel que passei sobre Samaria. Limparei Jerusalém como se limpa um prato, que se vira para baixo depois de haver limpado."  O autor de Lamentações (Lm 2, 8) insiste também nisso: "Javé tencionou destruir o muro da filha de Sião: estendeu o prumo, não retirou sua mão destruidora, enlutou baluarte e muro: juntos desmoronaram" .

 

Manassés continuou sendo um vassalo fiel da Assíria durante todo o seu reinado. De acordo com 2Cr 33, 11-13, ele foi levado certa vez à força, acorrentado, à presença do rei assírio, provavelmente por suspeita de deslealdade, mas depois foi tratado com brandura e reconduzido ao trono. Sua política representava uma ruptura total com a de Ezequias e uma volta à de Acás.

 

Manassés derramou também o sangue inocente em quantidade tão grande que inundou Jerusalém de um lado a outro, sem falar nos pecados que fez Judá cometer, procedendo mal aos olhos de Javé (2Rs 21, 16). Foi o pior rei de Judá. Fala-se que em seu reinado se deu o martírio de Isaías.

 

O sucessor de Manassés foi assassinado. O "povo da terra" colocou no trono Josias, (décimo sexto rei) que tinha apenas oito anos quando começou a reinar e reinou 31 anos em Jerusalém (604 -609). Seu reinado coincidiu com o declínio e morte do império assírio, que perdeu o controle de seus domínios. Assim, Judá se tornou uma nação praticamente livre. O jovem rei Josias lançou então um programa de reforma do país.

 

Empreendeu uma reforma do Templo de Javé, restaurando-o. O sumo sacerdote Helcias encontrou no Templo o "livro da Lei", chamado de "livro da Aliança" em 2Rs 23, 2. Trata-se do Deuteronômio, ao menos em sua seção legislativa, cujas prescrições vão comandar a reforma que se vai realizar. Este documento estava escondido, ou perdido, ou esquecido no reinado de Manassés.

 

O rei ordenou a Helcias e mais quatro homens importantes do reino que fossem consultar a profetisa Hulda a respeito das palavras deste livro. Hulda era mulher de Selum e morava em Jerusalém, na cidade nova. Ela mandou dizer ao rei, que os enviara, que Javé, Deus de Israel, estava para fazer cair a desgraça sobre Jerusalém e seus habitantes, porque O abandonaram e sacrificaram a outros deuses. Entretanto, porque o coração do rei se comoveu e ele se humilhou e se penitenciou diante de Javé, este o ouviu e ele morrerá em paz, sem ver todos os males que vai mandar sobre a cidade (2 Rs 22, 11-20).  Hulda mostrou assim ao povo o rosto de Deus justo, que quer ser cultuado como único Deus e também é cheio de misericórdia.

 

Josias mandou então reunir todos os anciãos de Judá e de Jerusalém e subiu ao Templo com todos os homens que as habitavam, os sacerdotes, profetas e todo o povo. Leu diante deles o conteúdo do livro da Aliança e renovou, com todo o povo, a promessa de por em prática as cláusulas da Aliança que nele estavam escritas.

 

O rei mandou retirar e destruir todos os ídolos e objetos de culto que estavam no Templo e no território de Judá. Destituiu os falsos sacerdotes. Estendeu esta destruição também ao Reino do Norte, demolindo o altar de Betel e demais templos das cidades da Samaria e ao norte da Galiléia (2Rs 23, 1-25; 2Cr 34, 6), em uma incursão que fez até lá.

 

O profeta Jeremias[2], de origem camponesa, nascido de uma família sacerdotal. Tinha cerca de 18 anos e o primeiro período de sua atividade iniciou-se em 627, sob o reinado de Josias. Jeremias aprovou a reforma de Josias (Jr 11, 1- 6) e reprovou os que a ela não aderiram e continuaram insensíveis como no tempo de Manassés (Jr 11,7-13). Quis assim reforçar o rosto de Javé como Deus da Aliança.

 

Sua missão foi a de repetir frequentemente a Judá que ela estava condenada e esta condenação era o julgamento justo de Javé pela violação da aliança por parte de Judá. Combateu a idolatria e o derramamento de sangue que Manassés havia provocado. Jeremias mostrou assim o rosto de Deus justo juiz, que constata, percorrendo as ruas de Jerusalém, a falsidade (Jr 5, 1-2), a opressão dos grandes sobre os pobres (Jr 5,5), a idolatria (Jr 5,7.11.12) e como consequência o justo castigo de Javé (Jr 5,6.11.14). Este quer a conversão de seu povo (Jr 6, 8.16).

 

Sofreu perseguições e foi rejeitado pelas autoridades. O profeta foi testemunha ocular de toda a tragédia da nação, em 586: presenciou o cerco a Jerusalém, viu o Templo e os palácios serem incendiados, viu a deportação do povo para a Babilônia. Foi nesse contexto que ele passa a ser o porta-voz das esperanças do povo que permaneceu na terra, sem rei nem templo. Sua missão foi fundamental no processo educativo do povo. Ao mesmo tempo em que profere julgamentos e condenações contra o povo, ele também ajudou a despertar no povo a consciência do compromisso da aliança com Deus.

 

Jeremias se recusava a ser profeta, pois pressentia que esse tipo de missão lhe traria problemas. E de fato trouxe! Não se conformava com os abusos praticados no templo e profere pregações contra tais abusos. O povo, desapontado com o reinado de Joaquim (609-598 a.C), encontrou em Jeremias um grande aliado. O profeta critica duramente o rei (Jr 22, 13-19), o que quase lhe custou a vida. Por isso foi condenado à morte, mas escapa por um triz (Jr 26). A narração da sua vocação é uma obra de arte poética: "Antes mesmo de te formar no ventre materno, eu te conheci; antes que saísses do seio, eu te consagrei. Eu te constituí profeta para as nações. A quem eu te enviar, irás, e o que eu te ordenar, falarás" (Jr 1,5s). Em uma de suas "confissões", o profeta diz ser seduzido pelo poder de lahweh: "Tu me seduziste, lahweh, e eu me deixei seduzir; tu te tornaste forte demais para mim, tu me dominaste" (Jr20,7).

 

Enquanto isso, os Babilônios se preparavam para invadir o país sob o comando de Nabucodonosor. Durante o cerco dos babilônios (587 a.C) chegou a ser preso e lançado numa cisterna para morrer. Para sua sorte, foi salvo por um amigo etíope (Jr 38). Foi crítico severo das várias instituições existentes em sua época: Templo, Sacerdócio, Rei e até profetas. Após a destruição de Jerusalém, Jeremias ganha permissão para ficar no país e viver junto do governador da Judéia, Godolias. Diante do assassinato de Godolias, porém, o profeta sente­se forçado a viver exilado no Egito, temendo represálias. Segundo uma lenda, foi no Egito que profeta foi apedrejado e morto por volta do ano 580.

 

Jeremias propõe um novo modelo de relações com Deus, mediado pelo anúncio da Nova Aliança (Jr 31,31-34). Era uma visão renovada por compromissos que exigiam uma religião pessoal, interiorizada pela força da Lei no coração. Com os olhos de hoje, a missão de Jeremias pode ser considerada como um fracasso, mas sua figura jamais deixou de ter influências profundas na fé daqueles que buscavam um novo sentido para a vida. Pode-se dizer que esse profeta representa uma forma de "pai" para o judaísmo pós-exílico, amparado pelo ideal da "Nova Aliança" e centrado na religião da Lei no coração. A fé cristã também não deixou passar em branco o sentido profundo dessa mensagem: "Jesus como a Nova Aliança".

 

Sofonias profetizou nos tempos de Josias (Sf 1, 1), provavelmente durante sua menoridade, entre 640 e 630. Ele condenou, como também já dissemos, toda corrupção e mostrou a seriedade do julgamento de Javé, que ele salientou como o Deus dos pobres, dos quais vem a esperança (Sf 3,9-20). Vejamos os vv. 12 e 13 deste texto: "Deixarei em teu seio um povo pobre e fraco e procurará refúgio no nome de Javé, o Resto de Israel. Eles não praticarão mais a iniquidade, não dirão mentiras, não se encontrará em sua boca língua dolosa". Este livro termina com um salmo de alegria e júbilo em Sião (Sl. 14-20).

 

Joacás (609) tinha 23 anos quando começou a reinar e reinou só 3 meses em Jerusalém. O faraó do Egito, Necao que, com a queda da Assíria, ficara com o domínio sobre a Síria e a Palestina, aprisionou-o em Rebla e impôs pesado tributo ao país. Ele constituiu rei a Eliacim, filho de Josias, mudando seu nome para Joaquim. Levou Joacás para o Egito, onde ele morreu (2Rs 23,31-34).

 

Joaquim reinou 11 anos em Jerusalém (609-598) No seu tempo Nabucodonosor, rei da Babilônia, marchou contra ele. Joaquim ficou seu súdito durante 3 anos e depois se revoltou contra a Babilônia. Nabucodonosor e seus aliados lutaram contra Judá para destruí-la, conforme a predição dos profetas. Foram várias investidas contra o Egito e contra Judá, até que em dezembro de 598 o exército babilônio marchou sobre Jerusalém. Naquele mesmo mês o rei Joaquim morreu. Com toda probabilidade foi assassinado (Jr 22, 18ss; 36, 30). O rei do Egito não veio em seu socorro, pois o rei da Babilônia havia conquistado, desde a torrente do Egito até o rio Eufrates, tudo o que pertencia ao Egito (2Rs 23, 36 - 24, 7).  Sob o governo de Joaquim a reforma perdeu seu vigor. O rei não tinha nenhum interesse por ela, ainda mais que o povo, sobretudo os grandes, se opunham a ela.

 

O desprezo de Jeremias por Joaquim era muito grande, conforme podemos ver em Jr 22, 13 -19, em que ele chega a dizer: "Ai meu irmão! Ai minha irmã! Não o lamentarão! Ai Senhor! Ai Majestade! Ele será sepultado como um jumento! Ele será arrastado e lançado para fora das portas de Jerusalém!". Era realmente o cumprimento da justiça de Javé.

 

O filho de Joaquim, de 18 anos, Joaquim, subiu ao trono (598) e reinou só 3 meses em Jerusalém. Os oficiais de Nabucodonosor, rei da Babilônia, marcharam contra a cidade, que foi sitiada. O rei inimigo em pessoa veio atacar Jerusalém, enquanto seus soldados a sitiavam. Joaquim, rei de Judá, junto com sua mãe, seus oficiais e altos funcionários e servos foram falar com Nabucodonosor, que os fez prisioneiros. O rei da Babilônia levou todos os tesouros do Templo de Jerusalém e do palácio real e os objetos de ouro que Salomão havia fabricado para o Templo de Javé. Levou para o cativeiro a mãe do rei, suas mulheres, seus servos, todos os notáveis, todos os ferreiros e artífices, bem como todos os homens capazes de empunhar armas, só deixando na terra a população mais pobre (2Rs 24, 8-16).

 

Para substituir Joaquim, Nabucodonosor constituiu rei seu tio Matanias, cujo nome mudou para Sedecias (2Rs 24, 17). Sedecias reinou onze anos em Jerusalém (598-587). Ele revoltou­se contra o rei da Babilônia, que atacou Jerusalém, sitiando-a com todo o seu exército. O rei fugiu de noite, com todos os seus guerreiros, abrindo uma brecha nas muralhas da cidade. O exército dos caldeus perseguiu e alcançou-o . O rei da Babilônia mandou degolar os filhos de Sedecias na presença dele, furou-lhe os olhos e conduziu-o a seu país.

 

Jerusalém foi saqueada. O Templo, o palácio real e todas as casas foram incendiadas. Houve uma segunda deportação de seus habitantes, só ficando na terra uma parte do povo pobre, como viticultores e agricultores (2Rs 24, 18-25, 21), o chamado "pequeno resto" de Judá (Is 37, 32; Jr 40, 11; 44, 12.12).

 

Godolias ficou como governador, nomeado pela Babilônia, mas foi morto em Masfa, com os judeus e caldeus que estavam com ele. Com isto todo o povo fugiu para o Egito, porque tinha medo dos caldeus (2Rs 25, 22-26).

 

Assim terminou o Reino de Judá, em 587. A respeito da primeira deportação, "o destino de Judá havia completado um ciclo perfeito: mais uma vez tornava-se súdito de um império mesopotâmico".  Deste modo o povo de Javé, os habitantes dos antigos reinos do Norte e do Sul, da Palestina, se encontraram no exílio onde, sem Templo, sem rei e sem terra, tiveram que criar novas formas para continuarem fiéis a seu Deus, auxiliados pelos profetas, pelos salmistas e escribas, como vamos ver no próximo capítulo.

 

V- A atividade profética no Exílio e pós-Exílio

 

Entre os profetas bíblicos que ficaram imortalizados no período que se estende do Exílio em diante, encontramos: Ezequiel, 2° e 3° Isaías, Ageu, Zacarias, Abdias, Joel, e Malaquias. Falaremos um pouquinho sobre o que cada um deles representou para a história do povo de Deus depois do exílio.

 

EZEQUIEL. Esse profeta exerceu suas atividades entre os anos 593 e 571 a.C. Era sacerdote, e foi exilado na Babilônia juntamente com os seus compatriotas judeus. Diante dos acontecimentos de 586, promove um árduo trabalho de conscientização da comunidade de Judá e da Babilônia. Pede ao povo para ver com realismo a situação. De um lado, Jerusalém estava de fato destruída. Não se podia criar a ilusão de que de uma hora para outra tudo mudaria. Por outro lado, era preciso controlar o desespero e não entrar em pânico. Misturando sentimentos de perda, desânimo, desespero, mas também de esperanças, o profeta propõe um futuro radical: é preciso "renascer" das cinzas (Ez 37). Sua mensagem é dirigida através de visões carregadas de simbolismo vivo (Jr 1-3; 8-11; 40-48); valoriza a dramatização da mensagem através de ações simbólicas: assédio, fome, morte e deportação (Jr 4-5); usa alegorias (Jr 16). Como toda mensagem profética, a de Ezequiel atinge certo grau de polêmico quando diz que o próprio Deus havia abandonado o Templo (Ez 11,22­24). Sua vocação está narrada nos capítulos 1-3. Sua mensagem, por ser dura e direta, se volta para o povo rebelde.

 

Ezequiel descreveu o exílio da Babilônia dando um enfoque profundamente profético. O exílio, nesse sentido, foi um meio necessário para fazer com que um povo rebelde retornasse a Deus. Via no exílio um estímulo pedagógico capaz de provocar no povo o desejo pela busca do "novo coração" (Ez 36,26). Através de símbolos fortes, Ezequiel quer indicar os novos caminhos para a reconstrução da nação. Em primeiro lugar, o sistema antigo corrupto não respondia mais às exigências dos novos tempos. Era preciso assumir esse fracasso; Em segundo lugar, não bastava reformar um sistema corrupto, pois ele já estava contaminado pelos males que levaram o povo à destruição; Finalmente, pede-se a conversão incondicional a Deus, assumindo um projeto concreto de sociedade e comunidade.

 

Assim como Deus abandonou o Templo (11,22-24), Deus voltará a habitar no meio do povo (43,1-7). A condição exigida será a volta do povo a Deus enquanto mediado por um modelo novo de sociedade onde vigora a justiça, a fraternidade e a vida.

 

AGEU (do heb. Hag, "festa"). O profeta Ageu entra em cena no ano de 520 aC. Nesse contexto, buscava encorajar os compatriotas para que retomassem os trabalhos do Templo. Sua reconstrução significaria a recuperação da prosperidade em todos os sentidos, além do sonho de retomar a independência política perdida (Ag 1,6-11; 2,6-8.21-23). A unidade de nação tinha sido seriamente abalada. Muitos se deixaram dominar por sentimentos egoístas, preocupados apenas em recuperar suas perdas pessoais e suas antigas propriedades. É nessa época que aparecem o leigo Zorobabel e o sacerdote Josué, preocupados em apresentar um projeto de interesse coletivo e comunitário. Zorobabel e Josué decidem propor o retorno do povo à terra de Israel motivados pela reconstrução do Templo em Jerusalém.

 

A mensagem do livro de Ageu concentra-se na reconstrução do templo, podendo ser dividido em três partes: 1) 1,2-15; 2,15-19: urgência da reconstrução imediata do templo para que o povo pudesse receber novamente as benções de Deus; 2) 2,1-9.20-23: a reconstrução significa o renascimento de Israel; 3) 2,10-14: apelo para que o povo se mantenha puro diante dos sacerdotes.

 

Ageu não se contenta em estimular o tempo presente, mas procura fazer com que todos vejam no futuro a esperança maior para o povo de Deus. Fala do retorno de Israel à sua grandeza anterior, e o povo terá como chefe um descendente de Davi. Faz duras críticas àqueles que se preocuparam apenas em construir confortáveis habitações em Jerusalém, ignorando a construção da "casa de Deus" (1,4-6). O profeta convida a todos para uma séria reflexão sobre a situação de seu tempo, pedindo discernimento e fé madura. A fé não é alienação, por isso é preciso interpretar as situações concretas da vida á luz da fé. Em Ageu percebemos que os profetas estão a serviço de uma missão, além de estarem inseridos numa realidade concreta. Ageu é um mensageiro de Deus e insiste em que todos sejam agraciados com a proteção de Deus: Eu estou convosco, oráculo do Senhor (1,13).

 

SEGUNDO E TERCEIRO ISAIAS: Entre as lições que o Exílio da Babilônia ensinou encontramos a mensagem do "Segundo" (Cap. 40-55) e do "Terceiro" Isaías (Caps. 56-66). Trata-se de duas partes que, somadas aos capítulos 1-39, formam um único livro, chamado simplesmente de Profeta Isaías.

 

Os capítulos 40 a 55 foram atribuídos a um autor desconhecido que representava um grupo de judeus exilados. Por isso, esse grupo, conhecido por "Segundo Isaías" nos apresenta um projeto de restauração para o povo Israel que se encontrava exilado na Babilônia. O profeta aponta aqui para um tempo de esperanças: todos deverão ter a terra para nela trabalhar; a nova ordem implantada será baseada na justiça e fim da opressão estrangeira; a reconstrução do templo será o sinal visível do retorno dos exilados; Israel é o "servo sofredor" do Senhor, e será guiado pelo próprio Deus da aliança; a restauração da comunidade não depende mais dos reis. Agora é o povo que passa a ser o legítimo herdeiro das promessas feitas a Davi, de cuja linhagem irá surgir o "ungido" (Messias).

 

Para a confusão de muitos leitores, em determinado momento, até o imperador Ciro é interpretado como instrumento desse projeto di­vino. Ele é considerado pelo profeta como Messias, o "ungido de Javé" (Is 41; 44,24; 45). Ciro foi quem publicou o decreto que permitiu aos judeus o retorno a Israel para reconstruir o templo e a nação. Por isso, o profeta viu em Ciro o cumprimento de planos divinos.

 

Uma das maiores descobertas feitas pelos profetas nessa época foi que a libertação de Deus não se faria mais pela intervenção militar de reis poderosos. É o povo humilde, pobre e sofredor que passa a ser o próprio agente da redenção, tendo Deus por guia. Os textos de Isaías 52,13 e 53,4 deixam à nossa imaginação traçar a identidade do "servo sofredor". O profeta quer nos dar pistas para refletir e amadurecer o ideal de salvação que se aproxima. Para o profeta, o salvador pode ser qualquer um, nascido do povo de Israel, chamado de "servo sofredor". Não é preciso mais esperar por um rei grande, forte e poderoso. Ele deve ser humilde. Seu reino será construído na paz e seu poder não mais dependerá, como antes, da força militar de exércitos poderosos. Com o retorno dos exilados, o profeta vê brotar a esperança de um Novo Êxodo, fim da escravidão e começo da libertação (Is 40,1-11).

 

Somos surpreendidos por essa alteração intencional do profeta, algo talvez impensável antes do Exílio. Agora Israel não precisa mais esperar um rei glorioso e cheio de pompa! É do povo eleito, pobre, sofrido e castigado no exílio de onde deverá surgir o verdadeiro "ungido" (=Messias) de Deus. A mensagem profética do Novo Testamento faz paralelos muito semelhantes, ao interpretar o "servo sofredor. 

 

 Bibliografia

1 – Asurmendi, Jesus. O profetismo: das origens à época moderna. São Paulo, Paulus, 1988.

2 – Mesters, Carlos. Deus, onde estás?: Uma introdução prática à Bíblia. Petropólis, Vozes,2008.

3 - Mesters, Carlos. Paraíso Terrestre, saudade ou esperança?, Petropólis, Vozes,1971.

4 – Faria, Jacir de Freitas. Profetas e profetisas na Bíblia. São Paulo, Paulinas,2006. 

5 - Diversos dicionários bíblicos.

6 – Arens, Eduardo. A Bíblia sem mitos: uma introdução crítica. São Paulo, Paulus, 2007.

7 – Stadelmann,Luís I. J. Espiritualidade Bíblica. São Paulo, Loyola, 2009