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4ª Aula: O Exercicio do Poder (Sb 6,1-11)
4ª Aula: O Exercicio do Poder (Sb 6,1-11)

1- Motivação da aula de hoje: O livro da Sabedoria nos ensina que Deus não compactua com a injustiça. Vimos também que os justos são perseguidos porque o seu próprio modo de vida é uma denúncia da vida dos ímpios. Hoje, vamos refletir sobre o exercício do poder.

 

Os governantes injustos pensam uni­camente em seus próprios interesses. A ambição e a ganância deles por riquezas, poder, prazer e honra pro­vocam uma situação de miséria, violência e morte para o povo. O que nós temos a dizer sobre a realidade dos nossos governantes?

 

 “Doze meses na detenção, 72 anos de prisão em três sentenças e a possibilidade de, no mínimo, condenações a três séculos de cadeia em 13 denúncias já ajuizadas. Assim o ex-governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), completa seu primeiro ano preso, enquanto se defende de acusações de crimes por corrup­ção, lavagem de dinheiro, pertencimento a organização criminosa e evasão de divisas”. ("Penas de até 300 anos ameaçam Cabral", em O Estado de São Paulo, A6, col.1,17 de novembro de 2017)

 

"E já que se falou de TCU, que tal o Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ)? Dos sete conselheiros, cinco, inclusive o pre­sidente, Aloysio Neves, são acusados de corrupção pela Operação ‘O Quinto do Ouro’, por aceitarem propinas à época do governo Sérgio Cabral. A eles se junta mais um ex-conselheiro. Enquanto isso, quem sofre é a popu­lação carioca, sem salários, sem décimo terceiro, sem saúde e educação e ameaçada por ladrões e assassinos sanguinários” (Eliane Cantanhêde, "O Rio de Janeiro chora", em O Estado de São Paulo, A6, col.4 e 5, 17 de novembro de 2017).

 

2- Leitura do texto: O apelo aos governantes para que governem segundo o “Espírito de Deus” transpare­ce em diversos textos do Antigo Testamento. E é um importante texto da teologia política do Antigo Testamento. Em Alexandria, somente os homens livres, com cidadania plena, participavam das discussões e das decisões. Os trabalhadores braçais, os camponeses, as mulheres e os escravos não podiam participar das assembleias. Dentre os 150 mil migrantes judeus que viviam em Alexandria, muitos eram pobres, sofriam mais com a exclusão promovida pelos romanos e seus aliados. O autor do livro da Sabedoria acreditava que Deus havia preparado os governantes para governar segundo a sua sabedoria e, por isso, grita pelo exercício justo do poder segundo a vontade de Deus: “O governo que vocês têm nas mãos foi-lhes dado pelo Senhor, e o domínio provém do Altíssimo” (6,3).  O texto que iremos estudar hoje é Sb 6,1-11. Abra a sua bíblia e leia com atenção esses versículos e depois procure responder as seguintes perguntas:

  1. Quais as exigências do exercício do poder?
  2. Como será o julgamento de Deus para os pode­rosos e os pequenos?
  3. Quais as imagens de Deus que aparecem no texto?
  4. Como deve se comportar um ministro do Reino de Deus?

 

3-Situando o texto que acabamos de ler. O exercício do poder segundo o Espírito de Deus. Ao longo da história de Israel, o apelo aos governantes para exercerem o poder com justiça, segundo o “Espírito de Deus”, transparece em diversos textos do Antigo Testamento. O mais conhecido e importante é o primeiro cântico do “servo de Javé”: Vejam meu servo, a quem eu sustento. Ele é o meu escolhido, nele tenho meu agrado. Eu coloquei sobre ele meu espírito, para que promova o direito entre as nações. Eu, Javé, chamei você para a justiça, tomei-o pela mão, e lhe dei forma. E o coloquei como aliança de um povo e luz para as nações, para você abrir os olhos dos cegos, para tirar os presos da cadeia, e do cárcere os que vivem no escuro (1s 42,1.6-7).

 

Como nasce o cântico do servo? Apesar das constantes críticas e exigências para uma política justa, apresentadas pelos profetas (Am 5,14-15; Mq 3,1.9; Is 11,1-9), os governantes de Judá se corrompem, roubam e cometem crimes em busca de lucro e poder (Mq 3,9-12). Entram em guerra contra a Babilônia (Jr 28) e provocam mortes, deportações e o desastre nacional: “Pelos pecados dos profetas e pelos crimes dos sacerdotes é que derramaram sangue inocente dentro da cidade de Jerusalém” (Lm 4,13).

 

O grupo da segunda deportação, de onde surgiu o Segundo Isaías (1s 40-55), não teve a mesma sorte dos primeiros deportados - o grupo do profeta Ezequiel -; foi tratado como escravo e despojo da guerra no exílio da Babilônia (1s 42,22). No sofrimento do exílio, o grupo do Segundo Isaías, em sua maioria, camponeses empobrecidos - “os pobres da terra” -, lança um olhar sobre a história e constata que há muitos anos o povo vem sendo oprimido pela tirania dos grandes impérios e explorado pelos próprios governantes da monarquia. A partir de sua memória das aldeias comunitárias e também de sua experiência de sobrevivência comunitária dos exilados escravos, ele projeta uma nova liderança - “Servo”-, com as seguintes características fundamentais do exercício do poder:

 

a) “Eu coloquei sobre ele meu Espírito.” O poder vem do Espírito de Javé! O servo é escolhido por Deus para exercer o poder segundo a vontade dele: “O Espírito do Senhor Javé está sobre mim, porque Javé me ungiu” (1s 61,1).

 

b) "Eu, Javé, chamei você para a justiça.” O servo governa com justiça, promovendo o direito na terra: “Céus, gotejai lá de cima, e as nuvens chovam a justiça. Que a terra se abra e produza a salvação, e junto com ela brote a justiça. Eu, Javé, eu as criei” (1s 45,8).

 

c) Eu chamei você “para abrir os olhos dos cegos, para tirar os presos da cadeia, e do cárcere os que vivem no escuro”. O servo governa a terra, priorizando os pobres e pequenos, pessoas marginalizadas da sociedade: “Ele me enviou para dar a boa-nova aos pobres, para curar os corações feridos, para proclamar a libertação dos escravos” (1s 61,1b).

 

O princípio do exercício do poder, que deve estar a serviço da justiça do Deus da vida, é reavivado constantemente na história posterior do povo de Israel, em especial nos momentos de crise. No pós-exílio, consolida-se a teocracia em Judá. As elites dirigentes se aliam aos persas na exploração e opressão. O templo e a lei do puro e do impuro se tornam instrumentos eficazes para explorar o povo no comércio e na coleta dos impostos. A maioria da população (camponeses) experimenta fome, miséria, expropriação da terra, morte prematura e escravidão: "Ficam molhados com as chuvas das montanhas e se apertam entre os rochedos por falta de abrigo. Arrancam o órfão do peito materno e penhoram quem é pobre” (Jó 24,8-9).

 

O Terceiro Isaías (1s 56-66), por exemplo, denuncia o ritualismo e o abuso dos cultos no templo, e exorta a prática da justiça com o culto agradável a Javé: “Por acaso o jejum que eu escolhi não é este: romper as amarras da injustiça, desfazer as correntes da canga, pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar qualquer canga? Por acaso não é repartir seu pão com quem passa fome, hospedar em casa os pobres sem abrigo, vestir aquele que se encontra nu, e não se fechar diante daquele que é sua própria carne?” (1s 58,6-7). Há oprimidos, pobres sem casa e sem roupa. E uma realidade muito injusta e opressora, provocada pelos governantes, que exercem o poder sem justiça. A consequência de uma prática religiosa ritualista é a insensibilidade social.

 

No livro dos Provérbios, redigido por volta do ano 400 a.C., os sábios reúnem os ditos sapienciais de instruções de épocas diversas para fornecer orientações para a vida humana, na situação de crise e de perplexidade. Quanto ao exercício do poder, há vários conselhos em nome da Sabedoria, o Espírito de Deus:

 

Eu, a Sabedoria, moro com a sagacidade, tenho o conhecimento e o discernimento. É através de mim que os reis governam e os príncipes decretam leis justas. É através de mim que os governantes governam e os nobres fazem decretos justos (Pr 8,12.15-16).

 

É através de mim, É através de mim... há uma insistência em afirmar que o poder na terra vem da Sabedoria de Deus. Os governantes governam com o espírito e a mão de Javé: “Como canais de água, assim é o coração do rei nas mãos de Javé, o qual, para onde quiser, o encaminha. Todo caminho parece correto aos olhos humanos, mas é Javé quem pesa os corações” (Pr 21,1-2).

 

Ainda lemos outras expressões próximas, como leis justas, decretos justos, reforçando que os governantes devem administrar com justiça. Por quê? A Sabedoria de Deus é o caminho da vida com justiça: “Os reis detestam a prática do mal, porque é na justiça que o trono se firma (Pr 16,12); “Tire a escória da prata, e sairá um jarro para o ourives; tire o malvado da presença do rei, e seu trono se firmará na justiça” (Pr 25,4-5).

 

No livro dos Provérbios, como a exigência do Segundo Isaías, os governantes, no exercício do poder, devem dar primazia aos pobres: “Quem oprime o pobre ofende seu Criador; mas presta-lhe honra quem tem misericórdia do indigente” (Pr 14,31); “Um rei que julga os fracos segundo a verdade terá seu trono firme para sempre” (Pr 29,14).

 

A história dos governantes malvados se repete e agrava a vida do povo. No início do séc. II a.C., os Selêucidas (Síria) derrotam os Ptolomeus (Egito) e começam a dominar a Palestina. Promovem a helenização, impondo ao povo judeu a cultura, a religião e os costumes gregos com o poder do exército (guerras), a urbanização (cidade), o comércio livre e pesados impostos. Com tudo isso, aumenta a exploração interna e externa da vida dos camponeses: pobres, fracos, doentes (cf. Eclo 4,1-4).

 

Diante do avanço da helenização e do sofrimento do povo, Jesus Ben Sirac, um sábio de Jerusalém - mestre da sabedoria (Eclo 50,27) -, contrário à implantação forçada da cultura grega em busca da riqueza e do poder, escreve o livro do Eclesiástico, conhecido também como Sirácida, para mostrar a riqueza da sabedoria tradicional de Israel. No livro, os conselhos e as advertências sobre o exercício do poder são reforçados:

 

Um rei sem instrução destrói o seu povo, e uma cidade terá prosperidade com o bom senso dos chefes. O governo da terra está nas mãos do Senhor, e no momento oportuno ele faz aparecer o homem adequado. O sucesso de um homem está nas mãos do Senhor; é ele quem concede a glória à figura do escriba (Eclo 10,3-5).

 

Jesus Ben Sirac bebe da mesma fonte dos sábios do livro de Provérbios: “O governo da terra está nas mãos do Senhor. Ou seja, na visão do escriba, o poder vem de Javé (Pr 16,9). O governante hei à vontade de Deus seria aquele que procura realizar a justiça na terra segundo a memória e a consciência histórica do povo de Israel: "Que o Senhor conceda ao coração de vocês a sabedoria, para governarem o povo com justiça, a fim de que os bens de Aarão não desapareçam e a glória dele passe para seus descendentes” (Eclo 45,26).

 

O exercício justo do poder é reavivado não só pelos judeus na Palestina, mas também na diáspora. O livro da Sabedoria, conhecido como um importante tratado de teologia política do Antigo Testamento, é escrito em Alexandria, no Egito. Trata-se de uma importante cidade grega, com um sistema escravagista, mercado livre e autonomia política.

 

Na política, somente os homens livres, com cidadania plena, participam das discussões e das decisões. Nelas, os homens trabalhadores, em sua maioria camponeses, as mulheres, os escravos não têm “espaços”. Aí estão os judeus, um grupo muito numeroso e, na maioria, pobre e escravo. Eles sofrem com o exercício injusto do poder dos governantes gregos e romanos, são os “sujeitos” no livro da Sabedoria e gritam por um governo justo, conforme a vontade de Deus.

 

Não é por acaso que o autor abre a primeira parte do livro (1,1-6,21) com uma frase que exorta os governantes a praticarem a justiça, porque o poder vem de Deus: "Amem a justiça, vocês que julgam a terra. Tenham bons pensamentos sobre o Senhor e o busquem na simplicidade do coração” (1,1). E termina com o mesmo tema: "O governo que vocês têm nas mãos foi-lhes dado pelo Senhor, e o domínio provém do Altíssimo” (6,3). Sb 6,1- 11 é um dos importantes textos da teologia política do Antigo Testamento.

 

4 - Comentando o texto: Sb 6,1-11 - O poder é para o serviço da justiça

A cidade de Alexandria, no Egito, berço do livro da Sabedoria, foi fundada por Alexandre, o Grande, em 322.C. Já sob Ptolomeu II e III (285-221 a.C.), a cidade, com o porto artificial voltado ao Mediterrâneo, tinha um grande movimento comercial e cultural, com uma famosa Biblioteca e o Museu. No mundo greco-romano, Alexandria, ao lado de Roma e Antioquia, era uma das três principais cidades do Império. No tempo do livro da Sabedoria (30 a.C.), a cidade alcançou a população de 600.000 habitantes. Por essa razão, não é de estranhar que o autor do livro escreva: “Escutem, portanto, reis, e compreendam! Aprendam, juízes de toda a terra! Prestem atenção, vocês que governam multidões e se orgulham do grande número de súditos!” (6,1-2).

 

Retomando a abertura do livro: “Amem a justiça, vocês que julgam a terra” (1,1), o autor escreve aos man­datários, especialmente para os governantes da grande cidade de Alexandria. E exorta-os ao exercício de sua função: “O governo que vocês têm nas mãos foi-lhes dado pelo Senhor, e o domínio provém do Altíssimo” (6,3).

 

Seguindo os princípios da teologia política do Antigo Testamento (Pr 8,12.15-16; Dn 2,21), o autor ressalta com insistência (“escutem”, “aprendam”, "prestem atenção”): o poder vem de Deus, e não da humanidade. Os reis e os governantes, como "ministros” do Reino de Deus, têm por função principal o exercício do poder segundo a vontade de Deus: "Pois, embora sejam ministros do reino dele, vocês não julgaram corretamente, não observaram a Lei, e não agiram de acordo com a vontade de Deus” (6,4).

 

A “Lei” aqui deve ser entendida como o Pentateuco, conforme a tradição judaica, a Torá. O Pentateuco mostra o caminho da vida a partir da experiência básica de todo ser humano. Para as autoridades, o caminho da vida é “julgar corretamente”, ou seja, a prática da justiça de acordo com a vontade de Deus. Esta é reavivada e exal­tada pela literatura profética e sapiencial: “Eu detesto e desprezo as festas de vocês. Tenho horror dessas reuniões.

 

[...] Nem quero ouvir a música de suas liras. Eu quero, isto sim, é ver brotar o direito como água e correr a justiça como torrente que não seca” (Am 5,21.23-24). O exercício do poder de Deus consiste em seguir o caminho da vida, no direito e na justiça.

 

Paralelamente a Sb 1,6-10, este Deus não é aquele que não vê, não percebe, não escuta, não age, mas sabe, vigia, premia, julga e castiga: “Ele examinará as obras que vocês praticam e sondará em vocês as intenções” (6,3). O Deus da história é aquele que caminha com o povo! E, no julgamento, transparece o outro princípio da teologia política: “Ele virá sobre vocês repentinamente e de modo terrível, porque contra os que têm muito poder cabe um julgamento implacável. Os pequenos serão perdoados com misericórdia, mas contra os poderosos o julgamento será poderoso” (6,5-6).

 

Todos serão julgados diante de suas práticas de justiça: seus atos e suas omissões. Há uma diferença, porém: o julgamento dos governantes será severo porque o próprio Deus terá mais misericórdia com os pobres do que com os poderosos. Na tradição bíblica, Deus Javé libertador se alia aos que são explorados e marginaliza­dos pela sociedade injusta (Ex 3,7-10). Os governantes, ministros de Deus na terra, então, devem priorizar os pobres e pequenos, salvando-os diante da opressão e da injustiça. Com esse princípio de exercício do poder, os governantes injustos serão julgados com mais rigor, de acordo com a repercussão social de sua prática injusta com os pobres.

 

O julgamento será "repentino”, “terrível”, “poderoso”, “implacável”. Nele, Deus não recuará diante dos pode­rosos da terra: “O Senhor de tudo não recuará diante de ninguém, a grandeza não o impressionará; porque ele fez tanto o pequeno como o grande, e ele tem atenção igual para com todos” (6,7). Segundo a tradição do “dia de Javé”, o castigo de Javé é implacável contra a injustiça e a hipocrisia dos poderosos (Am 5,18-20; Sf 1,15).

 

Em Alexandria, a maioria da população na época era pobre e marginalizada. Segundo o historiador grego Diodoro Sículo, que viveu no século I a.C. em Alexandria, havia os milhares de escravos e estrangeiros, como os imigrantes judeus. Os pobres eram vítimas de constante exploração e humilhação. Nessa dura realidade, o autor convoca os governantes para prestarem contas ao Deus da justiça. Seus atos serão julgados: “Os poderosos serão rigorosamente investigados” (6,8). Eles sairão ilesos na investigação?

 

Em Sb 6,9, o autor mostra a solução aos governantes. Sua defesa é aprender a Sabedoria de Deus: "Estas minhas palavras são para vocês, soberanos, para que aprendam a Sabedoria e não venham a cair”. A Palavra de Deus não é apenas a manifestação da sua vontade, mas algo concreto: é a sua ação criadora (Gn 1,3); é o seu agir na história (1s 55,11); é a ação da Sabedoria na história da humanidade e do povo de Israel (10,1-19,22). Na tradição judaica, a Palavra de Deus se identifica com a ação da Sabedoria que conduz o ser humano “no caminho da justiça e nas vias do direito” (Pr 8,20).

 

Ou seja, a Sabedoria é a Palavra de Deus que propicia ao homem o caminho da felicidade e da vida com santi­dade e justiça. Pela Sabedoria, as autoridades políticas devem ser instruídas para governar o mundo: “Deus dos pais e Senhor de misericórdia, que tudo fizeste com tua palavra, e com tua Sabedoria preparaste o ser humano para dominar sobre as criaturas que fizeste existir, e para governar o mundo com santidade e justiça, e para realizar o julgamento com retidão de alma” (9,1-3). Sabedoria e política devem caminhar juntas, para garantir o exercício do poder que serve com justiça e amor (6,12-21). E a exortação para os governantes de todas as nações: “Quem observa santamente as coisas santas será santificado, e quem as aprende encontrará defesa” (6,10).

 

Observa santamente as coisas santas: quem observa e segue religiosamente a vontade (Torá) de Deus será reconhecido "santo” no julgamento (6,3). Quem as aprende encontrará defesa: esta frase pode ser traduzida da seguinte forma: “aqueles que nelas (a Sabedoria, vontade e Lei de Deus) se deixam instruir encontrarão quem os defenda”. Talvez a última seja destinada aos governantes não judeus, sobretudo para os da cidade de Alexandria.

 

No mundo egípcio, havia grande apreço pela Sabe­doria, que se chamava Sophia em grego. Ela estava muito presente na religião e na filosofia grega (filo-sofia = amigo da sabedoria). A deusa Sophia era considerada como a responsável pela criação do mundo e sua organização. O autor do livro da Sabedoria não deixa dúvidas de que Sophia é o Espírito (Palavra e Lei) de Deus Javé que atua na criação e na história do universo.

 

Quer, no livro, levar os gentios ao conhecimento da verdadeira Sabedoria de Deus Javé e mostrar-lhes a su­perioridade da Sabedoria judaica sobre a deusa Sophia e a filosofia grega. Para exercer seu poder com justiça, os governantes de Alexandria devem ser instruídos pela Sabedoria de Javé: “Portanto, desejem e busquem minhas palavras, e vocês serão instruídos” (6,11). Ao contrário, eles continuam executando a política de exploração e exclusão dos pobres e serão investigados e condenados: "Os ímpios terão o castigo adequado aos seus pensamen­tos, já que desprezaram o justo e se afastaram do Senhor. Infeliz de quem despreza a Sabedoria e a educação. Sua esperança é vazia, seus esforços são inúteis e suas obras sem valor" (3,10-11).

 

5 - Iluminando a vida. Na tradição bíblica, o Deus libertador se alia aos que são explorados e marginaliza­dos pela sociedade injusta (Ex 3,7-10). Os governantes, ministros de Deus na terra, devem priorizar os pobres e os pequenos, salvando-os diante da opressão e da in­justiça. A Sabedoria é a Palavra de Deus que propicia ao ser humano o caminho da felicidade e da vida. Pela Sabedoria, as autoridades políticas devem ser instruídas para governar o mundo: “Deus dos pais e Senhor de mi­sericórdia, que tudo fizeste com tua palavra, e com tua Sabedoria preparaste o ser humano para dominar sobre as criaturas que fizeste existir, e para governar o mundo com santidade e justiça, e para realizar o julgamento com retidão de alma” (9,1-3).

  1. O que nós temos a dizer sobre a realidade dos nossos governantes?
  2. Como exercemos o poder em nossa família, co­munidade ou ambiente de trabalho?
  3. Como ajudamos as lideranças na realização de suas funções?

 

6 - Celebrando a vida.  Nesse momento, queremos pedir pelos nossos governantes, para que reconheçam que o poder é dado por Deus e deve ser usado para a defesa e a pro­moção da vida. Pedimos também por nossas lideranças religiosas e por todos nós, para que sejamos sempre ins­trumentos de paz. Rezemos a oração pela Paz.

Senhor, fazei-me um instrumento de vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor; onde houver ofensa, que eu leve o perdão; onde houver discórdia, que eu leve a união; onde houver dúvida, que eu leve a fé; onde houver erro, que eu leve a verdade; onde houver desespero, que eu leve a esperança; onde houver tristeza, que eu leve a alegria; onde houver trevas, que eu leve a luz.

Ó Mestre, fazei que eu procure mais consolar que ser con­solado. Compreender que ser compreendido. Amar que ser amado. Pois é dando que se recebe. É perdoando que se é perdoado. E é morrendo que se vive para a vida eterna.

 

7 - Bênção final: Que Deus nos dê a sua bênção e a graça de exercermos o poder segundo a vontade Dele. Deus Pai e Mãe nos abençoe e conduza a nossa vida. Amém.