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4 - Pois onde dois ou três estiverem reunidos...
4 - Pois onde dois ou três estiverem reunidos...

 

Autor do artigo: Shigeyuki Nakanose, svd *Religioso verbita, padre, assessor do Centro Bíblico Verbo, Leciona no Itesp, em São Paulo e na Faculdade Católica de São José dos Campos, e em Taubaté. E-mail: cbiblicoverbo@uol.com.br

Nasci na ilha de Kaminoshima, em Nagasaki, Japão. É um dos povoa dos onde surgiu a organização dos kakure kirishitans (“cristãos escondidos”), ou seja, os membros da Igreja Católica Apostólica Romana que estiveram na clandestinidade durante a pesada perseguição de 300 anos.

Com a chegada dos padres portugueses, as atividades missionárias católicas se iniciaram no Japão em 1449. Por volta de 1585, o número dos católicos chegou a 200 mil. Mas o crescimento foi bruscamente interrompido, devido à mudança da política dos governantes japoneses diante da intromissão estrangeira. Iniciou-se a perseguição:

Em 1587, o regente Hideyoshi, revertendo a política de seu predecessor, iniciara pavorosa perseguição ao cristianismo. Ela começou quando vinte e seis padres e fiéis foram punidos em Nishizaka, na região de Nagasaki. Em seguida, cristãos de todo o país foram expulsos de suas moradias, torturados e cruelmente mortos. O xógum Ieyasu deu prosseguimento a essa política, ordenando, em 1614, a expulsão de todos os missionários que estivessem em território japonês (ENDO, 2011, p. 27-28).

Entre 1614 e 1640, cerca de 6 mil cristãos foram martirizados. A história registra muita crueldade na execução de cristãos – por exemplo, a tortura em lavas do vulcão Unzen. Apesar de dura e violenta perseguição, os cristãos escondidos, ou kakure kirishitans, conservaram a fé até 1873, quando o Japão voltou a abrir-se para a atividade religiosa. Durante a perseguição, os cristãos se registravam, oficialmente, nos respectivos templos do budismo ou do xintoísmo. Cumpriam a ordem de pisar na imagem sagrada de Jesus ou de Maria para se declararem “não cristãos”. Mas, por meio da organização secreta, com a liderança dos anciãos, os kakure kirishitans ministravam o batismo, a eucaristia, o matrimônio etc. e ensinavam o catecismo, transmitindo a fé. Sua organização e liturgia foram adaptadas à tradição e cultura japonesa. Também foram estabelecidas várias normas internas baseadas na tolerância, solidariedade e misericórdia, para fortalecer a unidade e garantir a sobrevivência do grupo. É um modelo de comunidade cristã em situação de risco numa tradição e cultura específica: kakure kirishitans.

O Novo Testamento também registra vários modelos de comunidades cristãs. Uma das comunidades que teriam fortalecido sua organização devido aos conflitos externos e internos foi a “Igreja” de Mateus  (Mt 18,17). Após o ano 70 d.C., a intensificação da perseguição dos judeus fariseus com o império romano mergulhou as comunidades dos judeo-cristãos em crise profunda. Surgiu então o Evangelho de Mateus, que orientaria a catequese e a vida comunitária. De modo especial, Mateus 18,15-22 aborda ensinamentos para a vida em comunidade.

1. Conflitos nas comunidades de Mateus

Algum tempo depois da destruição do templo de Jerusalém, os grupos de fariseus ligados ao judaísmo oficial iniciaram uma perseguição sistemática contra os dissidentes do judaísmo, chegando a expulsá-los das sinagogas.  Nesse período, uma bênção contra eles, considerados hereges, foi incorporada às 18 bênçãos que os judeus deviam rezar diariamente:

Para os apóstatas, que não haja esperança. O domínio da arrogância elimina rapidamente em nossos dias. E deixa os nazareus e os minim perecer em um momento. Deixa-os ser apagados do livro da vida. E que não sejam escritos junto com os justos (OVERMAN, 1997, p. 59).

A perseguição do grupo de fariseus atinge os judeo-cristãos que reconhecem e confessam Jesus de Nazaré como o Messias. Para eles, Jesus é o novo Moisés e o verdadeiro intérprete da Torá:

Com efeito, eu vos asseguro que, se a vossa justiça não ultrapassar a dos escribas e a dos fariseus, não entrareis no Reino dos Céus. Ouvistes o que foi dito aos antigos: “Não matarás”; aquele que matar terá de responder no tribunal. Eu, porém, vos digo: todo aquele que se encolerizar contra seu irmão terá de responder no tribunal; aquele que chama ao seu irmão "Cretino!" estará sujeito ao julgamento do Sinédrio; aquele que lhe  chamar "renegado" terá de responder na  gema de fogo (Mt 5,20-22).

A insistência que se encontra aqui é para cortar o mal pela raiz. Mais do que norma, a proposta de Jesus, segundo o  Evangelho de Mateus, é fazer da vida  contínuo ato de discernimento da situação em favor dos "pequeninos". As comunidades de Mateus insistem: Jesus veio cumprir toda a justiça (3,15) e não veio revogar a Lei (5,17). A justiça e a Lei somente são sagradas quando vividas na misericórdia e gerarem a vida em  fraternidade.

Nessa perspectiva, escribas e fariseus são acusados de transformar a Lei em  mandamentos humanos a serviço dos grupos dirigentes: "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, que pagais o dízimo  da hortelã, da erva-doce e do cominho,  mas omitis as coisas mais importantes da  Lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade" (23,23) Com as inúmeras observâncias e costumes, escribas e fariseus, como autoridades do povo Judeu, transformavam a Lei em observância mecânica para a promoção pessoal. Ostentavam práticas  ritualistas destinadas somente a aumentar seu prestígio como pessoas religiosas.

Gostavam de dar esmolas aos pobres em público e vangloriavam-se de suas obras  assistenciais e de sua religiosidade.

Após a destruição do templo e o desaparecimento de vários grupos judaicos, como saduceus, essênios, zelotas e sicários, o grupo dos fariseus, ou judeus fariseus, assume a liderança do povo, impõe sua forma de interpretar a Lei, determina aquele que quem é puro ou impuro e persegue os dissidentes. Espalha conflitos e sofrimentos que provocam diferentes reações nas pessoas perseguidas. Eis um dos textos exclusivos de Mateus que expressam tal reação aos judeus fariseus:

Condutores cegos, que coais o mosquito e engolis o camelo! Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Sois semelhantes a sepulcros caiados, que por fora parecem belos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda podridão. Assim também vós: por fora pareceis justos aos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniquidade (Mt 23,24.27-28).

O tom agressivo desse texto testemunha a gravidade do conflito entre os judeo-cristãos eos judeus fariseus. O conflito de irmãos pela interpretação e observância da Lei e da tradição do judaísmo! Sem dúvida, esse conflito obriga os judeo-cristãos a tomar posição cada vez mais forte contra os judeus fariseus, organizar  e fortalecer as comunidades ou Igreja. É o processo de institucionalização (Mt 16,13-20).  Em comparação com o grupo dos fariseus e sua organização,  como a Academia ou o Sinédrio de Jâmnia, reconhecido pelo império romano,  dono do poder,  as comunidades cristãs eram apenas pequena minoria no mundo greco-romano. A ordem é fortalecer sua identidade e unidade, organizar e reorganizar a Igreja.

O conflito com os judeus fariseus não é a única causa para a necessidade urgente da organização e do fortalecimento de uma comunidade de relações sustentadoras. Em busca da sua identidade no judaísmo, os judeo-cristãos enfrentam também conflitos internos. Há vários modos de interpretar a mensagem e a prática de Jesus de Nazaré. São divergências que provocam até escândalos nas comunidades. Eis um texto que confirma essa realidade:

E aquele que recebe uma criança  como esta por causa do meu nome, recebe a mim. Caso alguém escandalize um destes pequeninos que creem em mim, melhor seria que lhe pendurassem ao pescoço uma pesada mó e fosse precipitado nas profundezas do  mar. Ai do mundo por causa dos escândalos! É necessário que haja escândalos, mas ai do homem pelo qual o escândalo vem! (Mt 18,5-7).

Uma das principais causas dos conflitos internos é a tentação de imitar a sociedade greco-romana vigente, onde há competição, busca de acúmulo, prestígio e poder (Mt 4,1-11; 20,20-28).  Isso está expresso na pergunta dos discípulos: “Quem é o maior no Reino dos Céus?” (Mt 18,1). Jesus responde com uma parábola, aproveitando a presença de uma criança – na época, símbolo vivo dos fracos, dos humildes e dos esmagados pela sociedade. Na comunidade cristã, ao  contrário da mentalidade greco-romana, o  maior é aquele que serve.

A outra causa é a entrada, nas comunidades cristãs, de pessoas não judias, ou  estrangeiras, consideradas “gentias”, com  suas tradições e costumes diferentes. A  imposição da circuncisão aos gentios, por  exemplo, gera conflito até entre Pedro, judeo cristão, e Paulo, judeo-cristão helenista (com a influência da cultura grega), na comunidade de Antioquia. No início com as quais convivemos. Perdoar é resgatar a relação com o outro quando o vínculo foi quebrado por alguma ofensa. É um processo difícil, que exige amor, dêsprendimento e liberdade interior. As comunidades de Mateus apresentam algumas orientações sobre a maneira de se relacionar com os membros que estão se  desviando. Vejamos os passos indicados:

a) “Se o teu irmão pecar, vai corrigi-lo a sós. Se ele te ouvir, ganhaste teu irmão” (Mt 18,15). Na comunidade, o vínculo que une os membros entre si  é fazer a vontade do Pai: “aquele que fizer a vontade de meu Pai  que está nos céus, esse é meu irmão, irmã e  mãe” (Mt 12,50). Além  do termo irmão, o  Evangelho de Mateus, de maneira carinhosa,  chama os membros da  comunidade de “criança” e “pequenino”. O  cuidado recíproco é fundamental. É preciso ir ao encontro da pessoa que está se desviando e não ficar esperando de braços cruzados. Quando se trata de restabelecer as relações, não importa se o outro errou, o que importa é a atitude de acolhida e misericórdia. É sair e ir ao encontro da pessoa que errou, para ajudá-la a retomar  o caminho. A atitude de corrigir o irmão em particular demonstra respeito  e compreensão. Ninguém gosta de ver seus defeitos apontados na frente de outras pessoas. Na conversa pessoal, há grande possibilidade de a pessoa que fez a ofensa ouvir. Nesse sentido, ouvir implica a percepção do próprio limite e o arrependimento. A expressão ganhar o irmão pode ter o sentido de trazê-lo de volta para o grupo.  Diante da realidade nascente das primeiras comunidades cristãs e da descrença, muitos membros estavam abandonando o seguimento de Jesus. Portanto, o objetivo é que a pessoa reafirme a sua caminhada e o seu compromisso na comunidade.

b) Conversar com o irmão na presença de testemunhas: se a primeira tentativa de ir ao encontro do irmão for em vão, a pessoa ofendida não deve desistir. Porém, na segunda vez, a recomendação é ir ao encontro dele com a presença de duas ou três testemunhas. Este é um  princípio legal que consta na  Lei judaica: “Uma única testemunha não é suficiente  contra alguém, em qualquer caso de iniquidade ou de pecado que houver cometido.  A causa será estabelecida  pelo depoimento pessoal de duas ou três testemunhas” (Dt 19,15; 17,6-7).

c) “Caso não lhe der ouvido, dize-o à Igreja” (Mt 18,17). As possibilidades de conversão não se esgotam. É mais uma  tentativa de reconciliação sem aplicar  medidas punitivas. E se a pessoa ainda  persistir no erro, deverá ser considera da como “gentia” ou “publicana”.

 Quem eram os gentios e os publicanos? No Evangelho de Mateus, vemos Jesus ao lado desses dois grupos: por exemplo, ele chama um cobrador de impostos para segui-lo (Mt 9,9), come com publicanos e pecadores. E ao ser questionado  sobre o seu comportamento, Jesus responde: “Não são os que têm saúde que  precisam de médico, e sim os doentes. Ide, pois, e aprendei o que significa: ‘Misericórdia é o que eu quero, e não o sacrifício’. Com efeito, eu não vim chamar os justos, mas pecadores” (Mt 9,10.12-13).  Proclama que ele é o servo para todas as nações: “Porei o meu espírito sobre ele e ele anunciará o direito às nações” (Mt 12,18). Tratar o pecador como gentio ou publicano é continuar insistindo para que volte a fazer parte do grupo. A missão de Jesus e da comunidade cristã é voltada para gentios e publicanos.

Ao terminar de apresentar a maneira de agir com o pecador, o texto apresenta duas sentenças introduzidas pela expressão “em verdade”, o que indica o grau de importância do que será dito. A primeira afirma que a ação da comunidade é confirmada por Deus, e a segunda garante a presença do Ressuscitado na comunidade: “Em verdade, vos digo: tudo quanto ligardes na terra será ligado no céu e tudo quanto desligardes na terra será desligado no céu” (Mt 18,18). A autoridade é atribuída à comunidade ou ecclesia, a assembleia das pessoas seguidoras de Jesus  como Messias. Em Mt 16,19, há uma afirmação semelhante referindo-se a Pedro.  Esses versículos dão a máxima autoridade a Pedro e à comunidade. Diante da insegurança e da instabilidade vivenciadas pelas comunidades nos conflitos com a sinagoga e com o império romano, o  Evangelho de Mateus reforça que o poder da comunidade e de seus líderes ultrapassa os poderes existentes.

A autoridade da comunidade vem de Deus e o lugar de sua ação é a comunidade reunida: “Em verdade vos digo ainda: se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que queiram pedir, isso lhes será concedido por meu Pai que está nos céus. Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali eu estou no meio deles” (Mt 18,19-20). A comunidade é o lugar da presença de Jesus. É a prática da oração comum que os une e transmite a certeza de que o Pai atende às suas necessidades.

Qual o limite para perdoar o irmão? Pedro, que sempre aparece como porta voz da comunidade, pergunta a Jesus: “Senhor, quantas vezes devo perdoar ao irmão que pecar contra mim? Até sete vezes?” Jesus respondeu-lhe: “Não te digo até sete, mas até setenta e sete vezes!” (Mt 18,21-22). Não há limites para perdoar o irmão. O esforço para perdoar deve ser constante. O número sete pode indicar plenitude ou totalidade. Portanto, mesmo que as ofensas sejam numerosas, o perdão deve ser maior ainda. A solidariedade, a misericórdia, a inclusão e o compromisso com a reconciliação são exigências para as comunidades cristãs de todos os tempos.

3. Diferentes modelos de  comunidades cristãs

Eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja, e as  portas do Hades nunca prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino  dos Céus e o que ligares na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus  (Mt 16,18-19).

Nesse texto exclusivo desse evangelho, a figura de Pedro ganha supremacia à frente das comunidades de Mateus, oriundas do judaísmo, que estavam em oposição aos judeus fariseus por volta do ano 85 d.C. O conflito severo e até arrasador  talvez tenha induzido as comunidades de Mateus a fortalecer sua unidade e organização: Pedro, com autoridade, tem em  suas mãos as chaves do Reino de Deus.

Ele é apresentado como chefe supremo para ligar e desligar do Reino, ou seja, admitir e excluir das comunidades. No  processo de institucionalização das comunidades cristãs, aconteceu o fortalecimento da autoridade.

Há outros sinais de fortalecimento da organização das comunidades de Mateus.  Por exemplo, entre os evangelhos, somente Mateus utiliza o termo Ecclesia (termo que, no grego, significa assembleia e depois será traduzido como  Igreja: Mt 16,18; 18,17), com certo grau de organização: poder de julgar, perdoar e condenar (Mt 16,19), direito de excluir ou excomungar (Mt 18,17-20), de  se reunir para celebrar a ceia do Senhor (Mt 26,26-29), de batizar (Mt 28,19)  etc. Um modelo mais estruturado de Igreja!

Ao ler o Novo Testamento ou Segundo Testamento, é evidente que encontramos diversidade de realidades, preocupações e modelos de comunidades cristãs.

Eis aqui alguns exemplos:

a) Diversidade e unidade na comunidade cristã de Corinto: Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo; diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo; diversos modos de ação, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. Cada um recebe o dom de manifestar o Espírito para a utilidade de todos (1Cor 12,4-7).

A comunidade cristã de Corinto é formada por pobres e ricos, provenientes de diferentes etnias e culturas. Uma comunidade que enfrenta divisões e rixas  internas nos anos 50 d.C.: “‘Eu sou de Paulo!’, ou ‘Eu sou de Apolo!’, ou ‘Eu sou de Cefas’, ou ‘Eu sou de Cristo!’” (1Cor 1,12; cf. 1Cor 11,17-34). Enfrenta o escândalo, a ostentação e a injustiça: “A caridade é paciente, a caridade é prestativa, não é invejosa, não se ostenta, não se incha de orgulho. Nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse,  não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade” (1Cor 13,4-6; cf. 1Cor 5,1-13; 6,1-11).Diante dessa realidade, Paulo afirma que a Igreja toda é vista como um só corpo de Cristo, onde o poder do Espírito de Cristo atua nos seus membros (1Cor 12,12-30). Qualquer dom ou trabalho de cada membro não é mérito individual ou recompensa, mas gratuidade de Deus.

Deve servir ao bem comum da Igreja para vivenciar e testemunhar as palavras e práticas de Jesus Cristo: “Anunciamos Cristo crucificado, que para os judeus é escândalo, para os gentios é loucura, mas para aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos, é Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus. Pois o que é  loucura de Deus é mais sábio do que os  homens, e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1Cor 1,23-25).

b) A comunidade joanina: Este é meu mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que aquele que  dá a vida por seus amigos. Vós sois meus amigos, se praticais o que vos mando. Já  não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que seu senhor faz; mas vos chamo amigos, porque tudo o que ouvi de meu  Pai vos dei a conhecer (Jo 15,12-15).

A comunidade joanina, por ser aberta aos samaritanos (Jo 4; 8,48), por acolher gregos e gentios (Jo 7,35; 11,53,12,20), por atribuir papéis de liderança  às mulheres (Jo 4,11.27), por aceitar a proposta de Jesus e vivê-la de forma mais profunda e radical depois de ter sido expulsa do judaísmo (Jo 9,22; 12,42; 16,2), viveu uma situação de constante conflito externo e interno. Enfrentou forte perseguição dos judeus fariseus e do império romano, por volta do ano 95 d.C.: “Expulsar-vos-ão das sinagogas. Mais ainda: virá a hora em que aquele que vos matar julgará realizar ato de culto a Deus” (Jo 16,2; cf. Jo 9). Além disso, a diversidade de grupos existentes na comunidade, como ex-fariseus (Jo 3), samaritanos (Jo 4), gregos (Jo 7,35), entre outros, provocou discussões e atritos dentro da própria comunidade, mas também com outras que não viviam de forma tão radical o seguimento de Jesus: “Todo aquele que odeia seu irmão é homicida” (1Jo 3,15); “Se alguém disser: ‘Amo a Deus’, mas odeia o seu irmão, é um mentiroso” (1Jo 4,20).  

Esses conflitos fizeram a comunidade buscar fortalecer, ainda mais, o laço de amor e solidariedade entre as pessoas: “Filhinhos, não amemos com palavras nem com a língua, mas com ações e em verdade” (1Jo 3,18). A comunidade joanina  permaneceu fiel às palavras e práticas de Jesus, porque acreditou nele como a ressurreição e a vida acontecendo no tempo  presente (Jo 11; 20), e, enfim, experimentou que “o Verbo se fez carne e habitou  entre nós” (Jo 1,14; cf. 1Jo 1,1-4).

c) As comunidades na primeira carta de Pedro: Chegai-vos a ele, a pedra viva, rejeitada, é verdade, pelos homens, mas diante de Deus eleita e preciosa. Do  mesmo modo, também vós, como pedras vivas, constituí-vos em edifício espiritual, dedicai-vos a um sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais aceitáveis a Deus por Jesus Cristo (1Pd 2,4-5).

Nas comunidades cristãs de várias regiões da Ásia Menor, que receberam a primeira carta de Pedro por volta do ano 90 d.C., havia estrangeiros residentes, forasteiros, escravos, mulheres de maridos não cristãos etc. A maior parte das pessoas não tinha cidadania plena. Não podiam ter terra, receber ou transferir herança, não tinham direito de votar, nem mesmo podiam casar com cidadãos.

Eram desprezadas e rejeita das pela sociedade e viviam na insegurança. Por isso, a primeira carta de Pedro orienta: “Sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor” (1Pd 2,13). A submissão à autoridade era uma questão de sobrevivência. Não era uma submissão ingênua, mas consciente, com o objetivo de evangelizar por meio da prática do bem e do amor em meio às situações de opressão e insegurança (1Pd 2,13-3,17).

Para a vivência interna da comunidade, a primeira carta de Pedro também relembra que esse grupo de excluídos foi eleito por Deus para formar um “sacerdócio santo”. Agora, o sacrifício será  a oferta da própria vida, que se concretiza no culto, no serviço, na doação, no amor recíproco, na entrega cotidiana.

Nessa nova prática, cada pessoa é chamada a assumir o sacerdócio. O trabalho e o poder são partilhados. Com a honra e o respeito de serem eleitos e abençoa dos por Deus, os excluídos se compro metem na organização da comunidade e na construção de nova sociedade de fraternidade: “Finalmente, sede todos unânimes, compassivos, cheios de amor fraterno, misericordiosos e humildes de espírito. Não pagueis mal por mal, nem injúria por injúria; ao contrário, bendizei, porque para isso fostes chamados,isto é, para serdes herdeiros da bênção”(1Pd 3,8-9).

4. Uma palavra final

Todas essas passagens do Novo Testamento mostram claramente que as comunidades cristãs ou igrejas locais têm seus problemas e suas próprias organizações, devido às suas realidades diferentes. As comunidades cristãs são os meios pelos quais as palavras, as práticas e a vida de Jesus de Nazaré são experimentadas e transmitidas. Em princípio, as comunidades devem ser um dos espaços onde seus membros experimentam a presença viva de Jesus Cristo no seu seio: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim. Minha vida presente na carne, vivo-a pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2,20).

Em 8 de dezembro de 1881, com a presença de um sacerdote francês, primeiro pároco, a igreja foi erguida na ilha de Kaminoshima. Até hoje, às 5 da manhã, o sino da igreja continua tocando, meia hora antes do início da missa. Agora, a celebração dos sacramentos já não está na mão dos leigos, como no tempo dos kakure kirishitans. Porém os leigos,sobretudo os anciãos, são muito ativos na organização da Igreja. Junto com os fiéis das outras religiões, eles animam e orientam a vida no dia a dia da ilha, especialmente por meio da solidariedade alimentada e fortalecida na longa história. O cristianismo fincou raízes no Japão. Continua fincando, pregando e experimentando o mistério do Deus da vida: “Ele está no meio de nós”.