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49 - ATOS DOS APOSTOLOS
49 - ATOS DOS APOSTOLOS

  • INTRODUÇÃO

O livro dos Atos é a continuação do Evangelho de Lucas (compare Lucas 1,1-4 com Atos 1, 1-8). O Evangelho apresenta o caminho de Jesus, Atos apresenta o caminho da Igreja e juntos, formam o caminho da salvação. O que os une é a Ressurreição de Jesus.  No centro de tudo temos a cidade de Jerusalém, ponto de chegada do caminho de Jesus e ponto de partidas do caminho da Igreja, que continua o testemunho de Jesus em todos os tempos e lugares.

 

O mar é o mesmo, mas pode ser visto sob diversos pontos de vista. As pessoas têm diferentes formas de compreender a realidade; depende de sua cultura, de sua história, de suas experiências, de seus costumes, de suas necessidades e valores. Por exemplo: no ano passado (2016) assistimos manifestações, pró e contra o impeachment de Dilma Rousseff.  Para alguns grupos há crime de responsabilidade.  Para outros grupos, não há crime de responsabilidade por parte da presidenta. Sem crime, é um procedimento ilegal e ilegítimo. Se fosse legal, não haveria tantos juristas, intelectuais, acadêmicos e gente de muitos outros setores e lugares que se colocaram contra. O fato é o mesmo, mas os "olhares” são diferentes. A nossa visão de “mundo" depende do lugar em que vivemos. Cada pessoa e cada comunidade têm uma palavra diferente para descrever a realidade.

 

O mesmo se pode observar nas primeiras comunidades cristãs. Eram muitas comunidades! Algumas nos deixaram seu evangelho como herança. Cada evangelho, assim como cada texto bíblico, tem por trás a vivência da comunidade. Os evangelhos de Marcos e Mateus mostram que, após a morte de Jesus, os seus discípulos e discípulas se reuniram na Galiléia (Mt 28,10.16-20; Mc 16,7). No evangelho de Lucas, os discípulos e discípulas permaneceram, conforme a ordem de Jesus, em Jerusalém (Lc 24,44-48). No evangelho de João, a primeira testemunha da ressurreição é uma mulher (Jo 20,16) e Jesus se reúne com os seus discípulos na Galiléia (Jo 21,1). Qual é o evangelho que apresenta a verdadeira história de Jesus e de seus seguidores e seguidoras?

 

É importante lembrar que a história é a interpretação de um fato. E como diz o ditado: “cada ponto de vista é a vista de um ponto"; assim, cada comunidade, de acordo com a sua vivência e o seu contexto social, tem uma história para contar. Por exemplo, para a comunidade de Lucas, Jerusalém era a cidade santa dos judeus e das autoridades judaicas, que se consideravam o verdadeiro Israel e acusavam as comunidades cristãs de infidelidade à Lei de Moisés. Diante disso, nada melhor do que situar a formação do novo povo de Israel em Jerusalém e sob a inspiração do Espírito Santo (Lc 24,47; At 1,4).

 

Após a morte e a ressurreição de Jesus, os seus seguidores e seguidoras se espalharam para as aldeias no interior da Galiléia, Samaria, sul da Ásia, norte da África (Egito, Etiópia, Cirenaica e Líbia), Ásia e Europa... Nesses lugares nasceram pequenos grupos que começaram a se reunir ao redor das diferentes tradições sobre Jesus, como as narrativas dos milagres, de seus pronunciamentos, ensinamentos e ditos. Cada grupo, de acordo com o seu contexto e necessidade, teve o seu próprio desenvolvimento, organização e o seu jeito de contar a história. Essas diversas experiências estão descritas nos livros do Novo Testamento. O livro dos Atos dos Apóstolos, escrito entre os anos 80 e 90, descreve uma parte dessa história.

 

2- ABRINDO O LIVRO DOS ATOS DOS APÓSTOLOS

A história narrada no livro dos Atos dos Apóstolos apresenta a vida das primeiras comunidades entre os anos 30 e 60. O autor inicia situando a comunidade dos seguidores e seguidoras de Jesus em Jerusalém (1,4) e termina com Paulo chegando a Roma (28,14.31). O caminho começa em Jerusalém, na periferia do império romano, atinge toda a Judéia, Samaria, Ásia Menor, Grécia e Europa. É o caminho da periferia para o centro. De Jerusalém para Roma. Mais do que fazer uma crônica histórica, o autor se preocupa em mostrar a ação do Espírito Santo agindo na comunidade. O grupo dos Doze, inspirado pelo Espírito Santo, dirige a comunidade. Esse grupo institui uma nova liderança e mantém a direção das comunidades dentro e fora da Palestina.

 

As formas de dividir o livro dos Atos dos Apóstolos são muitas, mas o importante mesmo é ler o próprio texto... A divisão do livro depende do critério adotado, alguns consideram o aspecto geográfico, começando em Jerusalém, expandindo para a Judéia, Samaria, Antioquia até os confins da terra; outra forma de dividir o texto é seguir as pequenas sínteses apresentadas pelo autor (5,42; 6,7; 9,31; 12,24; 15,35; 19,20; 28,31).

 

A nossa divisão segue a missão das comunidades de Jerusalém (1,12-5,42), a formação e a missão da comunidade dos helenistas (6,1-15,35), a confirmação e a missão da igreja de Antioquia, tendo Paulo como personagem central (15,36-28,31). Logo no início uma pequena introdução (1,1-11).

 

Mas... vamos ao texto olhar parte por parte.

 

 

Organização dos Atos dos Apóstolos

  1. Introdução (1,1-11). O livro começa com um prólogo, ou seja, uma apresentação. A primeira informação é qud o livro dos Atos dos Apóstolos é o segundo escrito do autor. O primeiro - o Evangelho de Lucas - contém os ensinamentos de Jesus (1,1-2), e Atos é a continuação da missão de Jesus por meio dos apóstolos: o grupo dos Doze escolhidos por Jesus. A Palavra de Deus deve-se propagar a partir de Jerusalém até os confins do mundo: do mundo judeu para todos os povos (1,8). E tudo sob a inspiração do Espírito Santo.

 

  1. Os seguidores e seguidoras de Jesus em Jerusalém (1,12-5,42). Esta é a fase inicial, que pode ser situada logo após a morte e a ressurreição de Jesus. A partir desse momento, os seguidores e seguidoras de Jesus, conforme o livro dos Atos, foram para Jerusalém. Quem fazia parte desse grupo? Maria e outras mulheres; os Doze e o grupo de Tiago. O novo povo de Deus nasce a partir da descida do Espírito Santo sobre a comunidade reunida (2,1-13). O Espírito Santo é presença constante na vida da comunidade (2,4.33.38; 4,8.25.31; 5,3). A comunidade, fiel aos ensinamentos dos apóstolos, à oração, à comunhão fraterna e à fração do pão (2,42-47; 4,32-35; 5,12-16), vive o projeto da partilha e da solidariedade. Esta nova maneira de viver é organizada a partir da casa, lugar, por excelência, de acolhida e de solidariedade (4,23).

 

O movimento de Jesus atrai muitas pessoas. "E cada dia, no Templo e pelas casas, não paravam de ensinar e anunciar a Boa Notícia de Jesus Messias” (5,42). O anúncio da boa nova chega aos judeus helenistas, judeus criados fora da Palestina, com uma prática religiosa diferente da dos seus irmãos judeus hebreus criados na Palestina. Os helenistas são mais abertos em relação à observância da Lei. Por isso, eles, que já eram discriminados pelos judeus fariseus, passam agora a ser discriminados pelos judeus cristãos. Assim entramos na segunda parte.

 

3.De Jerusalém para Antioquia (6,1-15,35). Com a chegada dos helenistas estrutura-se uma nova comunidade com seus líderes e sua própria organização. Esse grupo tem uma postura crítica contra o radicalismo da Lei e do Templo. Por isso, é perseguido e expulso de Jerusalém. A expulsão traz como consequência a expansão da boa nova e a formação de várias comunidades, como, por exemplo, Antioquia (8,4; 11,19), que se toma o centro da missão dos helenistas. Os seus líderes são pessoas repletas do Espírito (6,3). É sob a força do Espírito que eles testemunham (6,10; 7,55) e anunciam a boa nova aos estrangeiros (8,26-27). Em Cesaréia, o Espírito Santo desce sobre os estrangeiros (10,44-48). É o Espírito que escolhe os missionários, envia-os em missão e acompanha seus enviados (13,2.4.9.52). Muitos estrangeiros passam a fazer parte do movimento de Jesus, e seus seguidores e seguidoras, em Antioquia, pela primeira vez, são chamados de cristãos (11,26). Surge um novo questionamento: para se tomar cristão seria necessário se tomar judeu como Jesus e seus primeiros seguidores? Para resolver esta questão é convocada uma assembleia, na qual a igreja de Antioquia, com algumas restrições, é confirmada (15,1- 35). Após esse acontecimento, a igreja de Antioquia se organiza, cresce e solidifica as novas comunidades. E assim entramos na última parte: as viagens missionárias de Paulo. Vamos lá!

 

  1. As viagens missionárias de Paulo e seus companheiros (15,36-28,31). Esta parte tem início com a decisão de Paulo de fazer uma viagem às cidades onde eles tinham anunciado a Palavra do Senhor (15,36). Paulo rompe com Barnabé e viaja com Silas. Em Listra encontra Timóteo, filho de pai grego e de mãe judia que se tomara cristã. Timóteo é circuncidado (16,3). Paulo e seus companheiros continuam atuando em comunhão com a igreja de Jerusalém (16,4-40). A sua pregação é feita em primeiro lugar na sinagoga. No capítulo 17, Paulo prega na sinagoga, em praça pública e no Areópago. Paulo é a personagem principal, ele é comparado a Pedro. Paulo é apresentado como um judeu fiel: vai à sinagoga, viaja a Jerusalém para a festa de Pentecostes (20,16), cumpre os ritos de purificação e entra no Templo (21,26-27). E é exatamente no Templo que a multidão quer linchá-lo, mas ele é salvo pelas autoridades romanas (21,32-40). Paulo justifica a sua missão, é interrogado no Sinédrio - conselho supremo dos judeus (22). As autoridades reconhecem a inocência de Paulo (23,29; 25,18-19; 26,31-32), mas o mantém preso para agradar aos judeus. Como as autoridades locais nada resolvem, Paulo apela para César, então é levado preso à Roma, onde permanece por dois anos numa casa, "pregando o Reino de Deus". Paulo e seus companheiros estão sempre a caminho anunciando a boa nova. Percorrem várias cidades: Derbe, Listra, Icônio, Trôade, Neápolis, Filipos, Atenas, Corinto, Cesaréia, Éfeso... até chegar a Roma. E quem conduz a missão é o Espírito Santo (16,6; 20,22). Ele acompanha, passo a passo, os seus enviados (20,23; 21,11).

 

E assim chegamos ao final da história escrita no livro dos Atos dos Apóstolos... O autor reforça alguns fatos do passado que eram importantes para as comunidades do seu tempo, por exemplo: a ação do Espírito Santo, a importância da casa como novo espaço de organização e reunião da comunidade, o espírito missionário e o encontro entre povos de diferentes culturas. Mas ele omite alguns acontecimentos que poderiam prejudicar as comunidades:

 

  1. Sob o domínio do império romano, as guerras pelo poder eram constantes, deixando o povo ainda mais pobre. Com o aumento dos impostos, muitas pessoas ficaram endividadas, perderam suas terras, passaram a trabalhar como arrendatários, escravos, meeiros... Havia uma multidão de não-trabalhadores (Mt 20,1-16). O descontentamento do povo era geral.

 

O imperador Calígula, em 39, intensifica o culto ao imperador e ordena que sua estátua seja colocada no Templo de Jerusalém. Houve muitos protestos.

 

Em 49 o imperador Cláudio expulsa os judeus de Roma. A perseguição aos cristãos torna-se mais forte... Em 64, o imperador Nero coloca fogo em Roma e culpa os cristãos, que passam a ser vistos como inimigos do império.

 

O autor dos Atos termina o seu relato antes da morte de Tiago, por ordem do Sinédrio (62), e da morte de Pedro e Paulo em Roma (64).

 

Entre os anos 66 e 73 acontece a guerra judaica, levando à destruição do Templo e da cidade de Jerusalém, por volta do ano 70.

 

Esses acontecimentos tiveram profundas consequências na vida do povo judeu e na vida das primeiras comunidades cristãs. Por que será que o livro dos Atos, escrito depois desses fatos, com a pretensão de narrar a história das origens das comunidades cristãs, silencia sobre a situação de caos social vivida no império romano e, de maneira especial, na Palestina? É, as perguntas são muitas. Afinal quem escreveu este livro? Para quem e onde foi escrito?

 

  1. AUTOR E DESTINATARIO

A tradição afirma que esse livro foi escrito por Lucas, o companheiro de Paulo (Cl 4,14; Fm 24; 2Tm 4,11). Em algumas passagens o autor narra como se ele estivesse presente nas viagens missionárias de Paulo. Mas terá sido mesmo um companheiro de Paulo? Em primeiro lugar, o livro dos Atos dos Apóstolos apresenta um Paulo conciliador, agindo de acordo com as leis judaicas: frequenta o Templo, faz peregrinações a Jerusalém, cumpre votos, faz rituais de purificação... É uma imagem de Paulo bem diferente das cartas (9,20;13,14;16, 1-3; 20,16; 21,15; 24,11.17-18).

 

Alguns afirmam que o livro dos Atos foi escrito por pessoas que viviam em comunidades que começaram com Paulo, cristãos da segunda geração (70-100), entre os anos 80 e 90. E onde esse livro foi escrito?

 

Pode ter sido na cidade de Antioquia, ou em Éfeso, < ou mesmo numa cidade da Grécia. O importante é que eram comunidades fundadas por Paulo, compostas por estrangeiros/as e judeu-cristãos, ricos e pobres, que enfrentavam problemas por causa desta mistura. Atos foi escrito para comunidades que precisavam de uma confirmação quanto aos ensinamentos recebidos.

 

Para legitimar a doutrina transmitida às comunidades, o autor faz questão de afirmar - e isso ele o faz muitas vezes - que este ensinamento é guiado pela ação do Espírito. E o grupo dos Doze exerce um papel fundamental: é a garantia de que o caminho traçado por Jesus continua por meio dos apóstolos e dos outros enviados pelos Doze. Quando Atos foi escrito, Pedro com os Onze, Paulo, Tiago... os fundadores das primeiras comunidades, já haviam morrido. E falsos mestres estavam aparecendo (At 20,25-31).

 

O livro dos Atos dos Apóstolos é uma cartilha da comunidade, pensada em vista de problemas concretos.

 

É um reforço para os missionários e missionárias continuarem o anúncio da boa nova. Na comunidade o que mais afetava o dia-a-dia era a convivência entre judeus e estrangeiros. Foi difícil para os judeus, ainda apegados às tradições judaicas, acolher os estrangeiros, sentar com eles à mesma mesa (10,28; Lc 14,15-24), partilhar o mesmo modo de vida, comungar dos mesmos ideais... Foi um longo processo.

 

Se era problema interno, em nível externo essas comunidades também eram questionadas pelos judeus fariseus que não admitiam essa mistura. Para reafirmar a autoridade de Paulo, o livro dos Atos o apresenta como alguém reconhecido pelos apóstolos (9,26-28) e como um verdadeiro judeu (22,1-3). Além do conflito com as autoridades judaicas, as comunidades cristãs também precisavam conquistar o direito de cidadania. Era questão de sobrevivência não criar caso com o império romano. Por isso, o autor procura mostrar que era possível ser romano e, ao mesmo tempo, cristão. Para comprovar isto ele apresenta o exemplo de Comélio, um centurião romano (10,1-2) que acolhe a boa nova. E também insiste em mostrar que as autoridades das cidades greco-romanas colaboram com os cristãos (21,31-40).

 

As comunidades que estão por trás dos Atos dos Apóstolos enfrentaram muitas dificuldades e conflitos internos e externos. O livro dos Atos expressa a tentativa da comunidade de fazer uma revisão, de voltar às origens e encontrar motivações para resistir. As nossas comunidades de hoje também passam por momentos difíceis. Olhando o testemunho das comunidades dos Atos podemos encontrar luzes para a nossa caminhada.

 

  1. POR QUE E COMO LER OS ATOS DOS APÓSTOLOS?

Entrando em uma igreja, podemos olhar a decoração, os enfeites, as pinturas das paredes. Ou podemos prestar atenção à sua arquitetura, em particular às pilastras ou colunas que sustentam a estrutura, paredes e tetos. É isso que queremos mostrar: quais os pilares que sustentam a obra de Lucas

 

O livro não é muito conhecido entre os católicos, com exceção dos grupos que se dedicam mais intensamente ao estudo da Bíblia. A liturgia dominical faz pouco uso dele, mas é o único lugar onde grande parte dos católicos escuta os Atos.

 

Este livro aparece apenas nos domingos do Tempo Pascal, como primeira leitura. Possivelmente a grande maioria dos católicos praticamente só conhece bem a rigor, três textos dos Atos: o de At. 1, 1-11, lido todos os anos na festa da Ascensão, o de At. 2, 1-11, que é o famoso relato de Pentecostes, e um trechinho do discurso de Pedro a Cornélio At. 10, 37-43, lido na Missa do dia da Páscoa. Na liturgia dominical, são lidos ao todo 140 versículos, isto é, 14% do total de cerca de 1000 versículos do livro! Pouco não?

 

Por outro lado, não faltam motivos para ler o livro, como mostraremos. Nele não somente está a origem das festas da Ascensão e Pentecostes, como também tem sido ao longo da história do cristianismo, um dos mais poderosos instrumentos de renovação ou de “reforma”.

 

Muitas vezes quando os cristãos tomaram a consciência de que a vida da Igreja se afastava do modelo deixado pelos apóstolos e pelas primeiras gerações de discípulos de Jesus, voltaram a ler os Atos, para reencontrar o caminho certo e o impulso para uma renovação radical.

 

O movimento de Jesus, portanto, foi antes da institucionalização da Igreja, isto é, foi um movimento do Espírito e um movimento missionário.

 

O livro dos Atos constrói assim na perspectiva do Espírito Santo, na perspectiva da missão e das pequenas comunidades.

 

É a partir dessas três perspectivas que nós devemos hoje repensar a Igreja atual. Se Lucas escreveu os Atos com o objetivo de obter uma perspectiva, uma metodologia ou um espírito para institucionalizar em sua época, o movimento de Jesus, nós também hoje podemos com o mesmo propósito confrontar nossa Igreja atual com movimento de Jesus, assim como Lucas o reconstruiu.

 

  1. O PODER POLITICO NA PALESTINA

7.1 Sinédrio: Conselho de judeus presidido pelo sumo sacerdote (papa judeu). Este governava religiosa e politicamente. Era assistido por 71 membros da nobreza e do sacerdócio. Resolvia assuntos internos.

 

7.2 Procurador: (Judéia). Mantinham a ordem, proferiam sentenças capitais e cobravam tributos. Fora isto deixava aos judeus resolver seus próprios assuntos, mas intervinham em épocas de crise, depunham sumos sacerdotes e nomeavam outros. Devido à firmeza monoteísta dos judeus o todo-poderoso império romano teve de fazer concessões a eles:

 

  • Isenção do culto ao imperador;
  • Isenção do serviço militar;
  • Judeu não podia ser intimado a julgamento durante o sábado;
  • Os militares romanos não podiam usar insígnias com figuras proibidas para os judeus;
  • Os judeus podiam receber tributos para o templo.

Em síntese, o Império romano tolerava o judaísmo como religião Lícita “religião lícita”. O povo estava insatisfeito e esperava a restauração da realiza de Israel (At. 1,6). Alguns judeus se organizaram em lutas de resistência e levantes – movimento dos zelotas - (66 d.C). Roma reagiu violentamente em 67 d.C matou 40 mil judeus (este mesmo ano de 67 d.C é considerado ano da morte de Paulo).

 

  1. O LIVRO DOS ATOS DEVE SER LIDO A PARTIR DE 3 CHAVES

 

A) Um movimento animado pelo Espírito Santo;

 

B) Movimento missionário (desde Jerusalém até os confins da Terra = Roma)

 

C) Movimento representado pelas comunidades domésticas (momentos decisivos acontecem nas pequenas comunidades. Todo o livro possui uma dinâmica que parte do Templo e chega a casa. A formação de pequenas comunidades é o que faz com que a Palavra se faça presente nas cidades e nas culturas. A pequena comunidade e o lugar onde se mantém vivo o ensinamento dos apóstolos (a memória de Jesus) e onde se vive a Koinonia (eles tinham tudo em comum), a Diakonia (não havia pobres entre eles) e a eucaristia (At2, 42-47).

 

O povo que compunha a sociedade da época era: • Hebreus: cristãos de origem judaica (fiéis a Lei e ao Templo); • Helenistas (viviam fora da Palestina e liam a Bíblia em grego  (tinham problemas com a Lei) • Prosélitos: pagãos de origem grega (simpatizantes da religião judaica).

 

  1. OS PRINCIPAIS PROLEMAS ENFRENTADOS NA ÉPOCA

 

9.1 O desafio da comunidade de “mesa”: Nas comunidades cristãs conviviam cristão-judeus e não-judeus (prosélitos e tementes a Deus). Os judeus não podem aceitar que pagãos sentem com eles à mesa para a refeição ou eucaristia. Até Pedro é vítima deste preconceito (At. 10,16-28).  Lc, para resolver este problema que diminuía os pagãos, vendo ameaçado seu espírito missionário, mostra que Paulo comia com os pagãos: Lídia (At. 16,14-15), carcereiro (16,34), Justo (18,6b), no navio (27,33-38). Até Pedro comia com eles (10,16SS; 11,1SS e 15,7ss. Se Paulo é acusado de ter introduzido pagãos no templo (21,29), Lc defende dizendo que isto já Pedro e Tiago o permitiram antes dele.  Lc faz com que a prática de Paulo seja legitimada por Pedro e Tiago.

 

9.2 Judeus se distanciando de Israel: Os cristãos vindos do judaísmo se sentem expulsos da sinagoga (Jo 16,2).  Não conseguem conciliar judaísmo e cristianismo. Depois da tragédia de 70 (guerra dos zelotas) os judeus (fariseus) se reorganizam em Jâmnia, uma cidadezinha a 50km de Jerusalém. O centro da vida religiosa será, de agora em diante, não mais o templo nem as funções sacerdotais, mas a Tora escrita e sua interpretação oral. Acentua-se desta forma a ortodoxia e os judeus pressionam os cristãos a voltarem ou seriam traidores. Lucas quer encorajar estes cristãos judeus. Os traidores do AT são os chefes de Israel, os doutores e sacerdotes e não Jesus e seus seguidores. Ele pinta negativamente os lideres judeus. Neste tempo a igreja está em fase de transição. Já não é bem judaísmo, mas também ainda não tem estrutura de igreja.

 

9.3 Os gregos e sua fidelidade ao império: Muitos funcionários do império aderiam à fé. Será possível ser fiel a Jesus e ao império? Como aderir a Jesus e ter Paulo por missionário importante se os dois foram eliminados pelo império? Lucas é muito simpático ao império romano. Assim, ele sempre empurra a culpa pela morte de Jesus e de Paulo aos chefes dos judeus, enquanto os romanos são bons (Lc 23,22; AT 3,13), o centurião romano reconhece que Jesus é justo (Lc 23,47), os chefes romanos protegem a Paulo (13,13; 16,30-34; 18,16). Paulo é perseguido pelos judeus e salvo pelos romanos. Os culpados sempre são os judeus. Lc nem se quer menciona o martírio de Pedro e Paulo em Roma, pois quer atrair a benesses do império.

 

9.4Convivência de Ricos e Pobres: Nas comunidades lucanas convivem ricos e pobres. No mundo grego isto era inimaginável. Havia os bem ricos e os quase mendigos. Lc mostra a convivência, insiste em acabar com a escravidão ao dinheiro (Lc 3,13; 12,33; 14,14). Em atos o dinheiro é visto de forma negativa (Judas 1,18; Ananias e Safira 5,1-11; Simão, o mago 8,20; o lucro dos ourives 19,24). Os apóstolos não têm dinheiro (3,5), Paulo não quer prata (20,33).

 

Em meio a todos estes problemas Lc quer mostrar que a palavra de Jesus, movida pelo espírito santo, avança. O número de fiéis aumenta. Se o evangelho de Lc é o livro de Jesus, o dos atos é o livro do espírito santo. O espírito produz a palavra. Existem muitos obstáculos, mas a palavra vence.

 

  1. UM POUCO DE HISTORIA

Na palestina, a grande maioria das pessoas, cerca de 80% morava em pequenos sítios nas aldeias e povoados do interior. O país todo era do tamanho do estado de Sergipe, com uma população de 600 a 700 mil habitantes.  Era um povo sem terra, trabalhando como diarista nas fazendas que estavam nas mãos de poucos proprietários, vários deles oficiais aposentados do exército romano. O desemprego era grande, inclusive no tempo das safras, quando costumava aparecer mais serviços (Mt 20,1-7). Os que possuíam pequenos pedaços de terra aproveitavam-na ao Máximo, plantando até em terrenos pedregosos, na esperança de colher alguma coisa (Mt 13,4-8). Muitos diaristas e pequenos proprietários de terra viviam endividados, por causa do desemprego e dos altos impostos (60% ia para o imperador e 14% ficava no Templo). Os não pagamentos das dívidas implicava cadeia e escravidão. O sofrimento era tanto que com frequência aconteciam revoltas populares de camponeses desesperados.

 

A situação econômica dos moradores de Jerusalém estava um pouco melhor, por causa do templo que tinha sido iniciado por Erodes 20 anos antes de Jesus nascer. Era o principal meio de vida para os 30 mil habitantes de Jerusalém, que durante as festas religiosas a população da cidade passava de 100 mil pessoas. O mal estar era grande, desemprego, fome e abandono provocavam doenças. Diante de tanta insegurança o povo buscava refúgio na religião, na observância da lei de deus. Mas a religião estava sendo manipulada pelos doutores da lei e pelos fariseus, impondo muitos preceitos e obrigações. Já não era a religião do coração, e sim das leis, dos ritos e gestos exteriores. Jesus não mediu palavras ao denunciar tanta hipocrisia.

 

Diante disso cresceu muito a busca de novas experiências religiosas. Religiões e cultos misteriosos, vindos do oriente e do Egito espalharam-se por todo canto conseguindo muitos adeptos. Nestes cultos buscava-se a proteção divina contra as forças negativas do destino.

 

Foi neste contexto sociopolítico-cultural que chegou a várias partes do império romano a boa noticia de Jesus levado por missionários (as).

 

11 - GRUPOS RELIGIOSOS E SOCIAIS

 

11.1 Os Fariseus. Os Fariseus são pessoas piedosas que vivem dependentes dos cumprimentos escrupuloso da lei, até os mínimos detalhes.  Foi precisamente este formalismo que Jesus não se cansou de denunciar. Nesta perspectiva religiosa foi um grupo radical. Politicamente foi um grupo oportunista, que acabaram por se tornar uma espécie de “diretores de consciência moral”, quando aceitaram serem fieis ao imperador Augusto, por imposição de Erodes Magno. Foi assim que perderão bastante da sua autoridade moral e política junto do povo. Só depois do ano de 70, após a derrocada de Jerusalém, e terminado o poder dos saduceus e dos sacerdotes, é que os fariseus voltaram a dominar o mundo judaico e a salvar Israel de perder a sua identidade religiosa, em confronto com algumas das primeiras comunidades cristãs.

 

11.2 Saduceus. É um grupo dentro do judaísmo e não podemos considerar tanto um grupo político, mas religioso. A sua origem está no período persa ou helenístico (536-170 AC). O nome dos saduceus deriva de Sadoque, sacerdote do tempo de Davi. A doutrina dos saduceus é mal conhecida, pois era um grupo pequeno, um grupo sacerdotal em torno do Sumo Sacerdote. Parecem não reconhecer outra lei que o Pentateuco. Não creem na ressurreição nem nos anjos e colaboram com os romanos para manterem o seu poder. Serão muito duros com Jesus e com o cristianismo nascente, pois foram eles que o entregarão a Pilatos para ser morto por motivos religiosos e políticos. Viram nele um blasfemo e um homem de ideias messiânicas capaz de arrastar multidões e pôr em perigo a estabilidade religiosa e política que sempre defenderam. Todavia, não tinham vitalidade religiosa bastante para sobre viverem ao desastre do ano 70 e desaparecem da história.

 

11.3 Essênios. É uma espécie de monges que viviam em comunidade nas margens do mar morto. Foi um grupo que protestou contra o sacerdócio mundano e imoral do templo de Jerusalém, assim como contra o culto vigente no mesmo templo. Sob a direção de um sacerdote chamado mestre de justiça criticam mordazmente os sumos sacerdotes de Jerusalém como usurpadores do verdadeiro sacerdócio. Invés de sacrifícios reuniu-se para participar de banquetes sagrados comunitários. Não se casavam e viviam no trabalho manual, todas as propriedades eram comuns, fomentando assim um espírito de fraternidade. Vivem na oração e na meditação das escrituras preparando ativamente a vinda do reino de Deus. O seu mosteiro será destruído pelos romanos em 70. São fanáticos e tradicionalistas.

 

11.4 Samaritanos. Eram habitantes da samaria descendentes da população mista (israelita e pagã). Os samaritanos afastaram-se do judaísmo oficial, tem o Pentateuco em comum com os judeus, mas construíram seu próprio templo no monte Gerizim. As relações entre eles e os judeus são muito tensas e o comportamento de Jesus ao seu respeito vai escandalizar seus contemporâneos.

 

11.5 Outros grupos de menor expressão

  1. Zelotas (zelavam pela independência de Israel); b. Herodianos (partidários da dinastia de Herodes); c. Movimentos Batistas (batismo como rito de iniciação).

 

 

1º ENCONTRO

At 2,1-13 – Pentecostes

 

  • Situando o texto

Chegou o dia de Pentecostes, uma festa muito importante para os judeus. O autor dos Atos lembra um momento forte de encontro da comunidade. Devia haver muita gente em Jerusalém. Uma cidade que, naquele tempo, tinha cerca de 60 mil habitantes chegava a receber mais de 125 mil peregrinos nas ocasiões das festas judaicas. A comunidade dos seguidores e seguidoras de Jesus também estava em Jerusalém para celebrar este momento.

 

Entre as principais festas do povo judeu estão as festas da Páscoa e de Pentecostes. A Páscoa era uma festa dos pastores, que acontecia na primavera e tinha como objetivo pedir a bênção da divindade sobre os animais, suas crias e suplicar a proteção na busca de novas pastagens. A festa de Pentecostes, uma festa dos agricultores e agricultoras, era celebrada sete semanas após o início da colheita. As pessoas ofereciam a Javé os primeiros frutos da terra.

 

Era um momento de muita alegria, precedido por vários mutirões. Os agricultores e agricultoras juntavam as forças para fazer a colheita da produção de cada família. A colheita era colocada nas eiras, perto das vilas e das roças. As eiras eram um tipo de terreiro batido, como existem em nossas roças ou sítios, para secar café, trigo, soja, arroz ou feijão. Esse ajuntamento dos vários agricultores e agricultoras era marcado pela solidariedade, semelhante aos mutirões que ainda hoje existem em muitas regiões do Brasil.

 

Com o tempo, a festa da Páscoa foi associada a um acontecimento marcante da história de Israel: passou a lembrar a saída da escravidão do Egito (Dt 16,1-8). E a festa de Pentecostes tomou-se a festa da renovação da aliança de Deus com o povo (Dt 16,9-12). No tempo tribal essas festas eram celebradas nas casas. Mais tarde, passaram a ser celebradas no Templo (2Rs 23,21-23) e foram transformadas em festas de Peregrinação. Todo o povo era obrigado a ir ao Templo para levar ofertas e cumprir os rituais de sacrifício.

 

Foi no período do pós-exílio, sob a influência dos sacerdotes e escribas, que a festa de Pentecostes tomou- se a festa da Aliança e da Lei, celebrada no Templo, tendo como intermediário o sacerdote. Naquele tempo havia um sistema de leis, imposto por sacerdotes e escribas, que dividia as pessoas em puros e impuros.

 

E quem eram os puros? Em primeiro lugar os judeus, que se consideravam escolhidos e abençoados por Deus. Havia também outras exigências, como guardar o sábado, abster-se de comer alimentos impuros, não se misturar com pessoas impuras: não-judeus, pobres, doentes... O simples contato com uma pessoa ou coisa considerada impura era suficiente para deixar o outro impuro. Para a mulher, a situação ainda era mais complicada, pois a menstruação e até mesmo a maternidade a deixavam impura (Lv 12,1-8).

 

Como a festa de Pentecostes tomou-se a festa da Lei, nem todas as pessoas podiam participar. Só os puros. Muita gente ficava de fora. Os estrangeiros não faziam parte do povo eleito por Deus, viviam uma condição permanente de impureza. Os pobres e os doentes eram vistos como pecadores, pessoas castigadas por Deus (Ex 20,5; 34,7; Nm 14,18; Dt 15,16-20). Contudo, havia um jeito de a pessoa se purificar: ela devia levar ofertas ao Templo e pagar o tributo religioso em dia. Os sacrifícios para a purificação tinham um preço muito alto, dificultando aos pobres o cumprimento da Lei (Lv 12,8; Lc 2,24).

 

Na época de Jesus a lei do puro e impuro excluía muitas pessoas da participação no Templo e na sociedade. Jesus rompeu com essa lei. Ele começou a conviver com os pobres, doentes, deficientes físicos, estrangeiros, mulheres excluídas... Jesus, com sua prática, volta ao Espírito original da festa de Pentecostes: o espírito de partilha e de solidariedade (Mc 6,34-44). Ele é O messias dos pobres (Mc 1,32-34), que admitiu entre os seus discípulos e discípulas as pessoas excluídas da sociedade.

 

Após a morte e a ressurreição de Jesus, o seu grupo de seguidores e seguidoras retoma a sua prática de acolher as pessoas rejeitadas pelo sistema oficial do puro e impuro. A comunidade encontra-se numa casa: "Todos eles tinham os mesmos sentimentos e eram assíduos na oração, junto com algumas mulheres, entre as quais Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos de Jesus” (1,14). O clima era de tensão e de expectativa. Como dar continuidade à proposta de Jesus? Era preciso continuar o anúncio da boa nova, mas como? Vejamos qual foi a resposta de Deus.

 

  • Comentando o texto

Chegou o dia de Pentecostes. Na cidade a agitação era grande. Os peregrinos continuavam chegando, vinham de todas as regiões para celebrar esta festa importante. A nova comunidade: os apóstolos (1,5), Maria, outras mulheres e o grupo dos irmãos de Jesus (1,14), também estavam em Jerusalém. Todos se preparavam para a festa da Lei, porém, aconteceu algo extraordinário... “De repente, veio do céu um barulho como o sopro 'de um forte vendaval, e encheu a casa onde eles se encontravam. Apareceram então umas como línguas de fogo, que se espalharam e foram pousar sobre cada um deles. Todos ficaram repletos do Espírito Santo” (2,2-4). Isto aconteceu numa casa, e não no Templo, no espaço oficial dos judeus.

 

Desde o antigo Israel, a vida estava organizada ao redor da casa; que era a base da sociedade. A casa representava o conjunto de pessoas que dela dependia: esposas, filhos, famílias de diferentes gerações, parentes próximos, escravos e outros trabalhadores contratados. É na casa que se estruturavam as relações de poder, as leis, a organização da produção e a vida social. Nesse ambiente comunitário as mulheres também desempenhavam funções importantes. A casa garantia a vida e a proteção de todos os seus membros.

 

Com a chegada da monarquia, pouco a pouco, o sistema tribal, centralizado na casa e na aldeia, foi substituído pela corte e pelo Templo, com a exploração por meio de tributos. Esta tendência aumentou com a dominação de outros impérios - Assíria, Babilônia e Pérsia -, especialmente dos gregos. Com eles, implantou-se o helenismo, um sistema baseado na cidade. A organização da sociedade passou a ter o seu centro na cidade, no comércio, visando sempre mais ao lucro. Isso aumentou a concentração da terra nas mãos de poucos. A grande maioria dos camponesas e camponeses perdeu suas terras e sua liberdade por endividamento (Jó 24; Ecl 5,7-8).

 

Com a dominação do império romano (63 a.C.) aumentou a situação de caos social. No tempo de Jesus a vida de muitas pessoas era insuportável. Crescia dia a dia o número de endividados, empobrecidos e escravizados. As constantes guerras e a luta pelo poder tinham Consequências desastrosas na vida do povo. Como se isso não bastasse, parte das autoridades judaicas fez aliança com os romanos, isso piorou ainda mais a situação. A Lei judaica passou a ser usada para controlar o povo judeu. As festas eram ocasiões para arrecadar tributos. Era preciso resgatar o sentido original da casa e das festas na vida das comunidades.

 

Pois bem, Atos dos Apóstolos faz um retorno à casa. É no espaço da casa que o Espírito de Deus se manifesta. "Todos ficaram repletos do Espírito Santo, e se puseram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem” (2,4). O dom das línguas na festa de Pentecostes, como também em outros textos dos Atos, tem um único objetivo: é para o anúncio profético da boa nova (4,8.31; 19,6).

 

Em seguida, a comunidade deixa o espaço da casa e vai ao encontro da multidão, assumindo assim o sentido original de Pentecostes: a abertura, a partilha e a solidariedade. As reações são diversas: confusão, perplexidade, admiração, “pois cada um os ouvia falar em sua própria língua" (2,6b). O anúncio da boa nova chega às pessoas dentro de sua situação de vida. Todos e todas têm oportunidade de ouvir a boa nova a partir de sua própria realidade. É a Palavra de Deus que faz caminho e se toma vida na vida das pessoas.

 

Nos w. 5-11 há uma lista de 12 povos e três regiões; primeiro apresenta os nativos: partos, medos e elamitas. Em seguida cita os habitantes da Judéia, Capadócia, Ponto, Frigia, Panfília e Egito e as três regiões: Mesopotâmia, Ásia e Líbia. E num terceiro grupo enumera os estrangeiros: romanos, cretenses e árabes. Em Jerusalém encontra-se representantes de muitos povos. Isso deixa bem  claro que o projeto de Deus é para todos/as, não tem fronteiras. Todos e todas são convocados/as para ouvir e viver as maravilhas de Deus.

 

Na festa de Pentecostes, vivida pelas comunidades dos Atos, cada povo preserva a sua cultura e descobre o seu jeito de seguir a prática de Jesus, de conviver no meio dos pobres e oprimidos, vencendo as barreiras que impedem a convivência entre as pessoas. Na convivência solidária e na superação das barreiras entre mulheres e homens de diferentes classes sociais, de vários grupos étnicos, de religião, a comunidade vive a experiência da presença do Espírito Santo.

 

Mas o que é o Espírito Santo?

 

  • Aprofundando: o Espírito Santo

A palavra Espírito, em hebraico ruah, aparece muitas vezes no Antigo Testamento. No Gênesis pode ser traduzida por sopro ou vento, que possui a força criadora: "A terra estava sem forma e vazia; as trevas cobriam o abismo e um vento impetuoso soprava sobre as águas” (Gn 1,2; cf. Sl 33,6; Jó 33,4). E o sopro de Javé tanto possui uma força criadora, como também destruidora: "ele matará o ímpio com o sopro de seus lábios" (Is 11,4; cf. Ex 15,8; 2Sm 22,9; Jó 4,9).

 

Em todas as etapas da história do povo de Deus, o Espírito se fez presente, eis alguns momentos importantes:

— Na criação (Gn 1,2; 2,7);

— Na formação e organização do povo (Jz 3,10; 11,29)        .

— No período dos juízes e da monarquia, o Espírito era dado aos juízes, reis (ISm 11,6), especialmente o rei messiânico (2Sm 23,2; Is 11,2), e profetas (Mq 3,8).

— No exílio e no pós-exílio o povo sente a presença do Espírito de Deus dando vida nova, ajudando a refazer as esperanças (Nm 11,17; Zc 7,12; Ez 37,10- 14).

— No pós-exílio o Espírito não era só para as pessoas que tinham algum cargo especial, mas derramado sobre todo o povo (J13,1-2; Is 59,2; Zc 12,10).

 

Veja que interessante! No Antigo Testamento, a presença do Espírito de Deus tem a função de criar, animar, discernir, profetizar, ressuscitar, libertar e recriar. E estas também são as funções do Espírito no Novo Testamento. O Espírito continua vivo e atuante na vida de Jesus e das comunidades.

 

E Deus age por meio de pessoas concretas. Jesus, com sua maneira de ser e de agir, cria um novo modo de viver. Ele cria novas esperanças de vida para as pessoas, possibilita à pessoa a volta à comunidade; toca o impuro. “Jesus foi aonde ela estava, segurou sua mão e ajudou-a a se levantar" (Mc 1,31). Ele rompe a barreira do isolamento social imposto pela lei do puro e impuro, vive a lei do amor e da solidariedade. Faz a pessoa reviver (Mc 2,5).

 

A ação de Jesus vai além... ele organiza a comunidade. Na multiplicação dos pães “Jesus mandou que todos se sentassem na grama verde, formando grupos de cem e de cinquenta pessoas. Depois Jesus pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu, pronunciou a bênção, partiu os pães e ia dando aos discípulos para que os distribuíssem. Dividiu entre todos também os dois peixes. Todos comeram e ficaram satisfeitos... " (Mc 6,39- 42). Na festa da vida todos podem participar.

 

Jesus, em seu ministério, criou novos espaços para a pessoa viver, restituiu a vida pelo perdão e organizou a partilha. Ele recriou a vida na liberdade (Mc 5,8). Esse modo de agir sem dúvida era inspirado pelo Espírito. O que mais tarde levou os cristãos a dizerem: "Tão humano assim, só Deus". Seu programa de vida foi evangelizar os pobres, proclamar a remissão aos presos e aos cegos a recuperação da vista, restituir a liberdade aos oprimidos e proclamar um ano de graça do Senhor (cf. Lc 4,18).

 

Os seguidores e seguidoras de Jesus, guiados pelo Espírito, percorreram o caminho trilhado pelo Mestre. As primeiras comunidades criam novo espaço para as pessoas: “Pedro pegou a mão direita do homem e o ajudou a se levantar" (3,7). Depois de curado, o homem entrou no Templo. Ele voltou a fazer parte da sociedade. Mas, além de criar novos espaços, a comunidade também precisava de uma nova ordem.

 

As comunidades se organizaram a partir das casas (1,13; 2,2; 9,36-42; 12,12). Numa casa as pessoas estavam unidas por algum laço de parentesco ou por alguma relação de trabalho ou colaboração. Mas nas casas-comunidades cristãs, pela fé em Jesus, todos/as se consideravam irmãos e irmãs (1,15), sentiam-se acolhidos/as e partilhavam o pão (2,42), eram discípulos e discípulas (6,1), cristãos e cristãs (11,26).

 

E no livro dos Atos dos Apóstolos os seguidores e seguidoras de Jesus são enviados para anunciar a boa nova, a fim de que as pessoas se arrependam, e cada uma seja batizada "em nome de Jesus, para o perdão dos pecados; depois elas receberão o dom do Espírito Santo” (2,38; 5,31). Para o movimento de Jesus perdoar os pecados é libertar a pessoa, inclusive da escravidão da Lei. É soltar as amarras impostas pela lei do puro e impuro. Isto só era possível mediante a fé em Jesus Cristo e a presença do Espírito Santo. As comunidades entendiam que a morte e a ressurreição de Jesus era uma “oportunidade ao povo de se arrepender e receber o perdão dos pecados” (5,31b).

 

O movimento de Jesus é um movimento do Espírito: cria, organiza, profetiza, liberta, restaura, produz nova vida... É o Espírito de Jesus que anima e fortalece a vida das primeiras comunidades: "as igrejas gozavam de paz em toda a Judéia, Galiléia e Samaria. Elas se edificavam e andavam no temor do Senhor, repletas da consolação do Espírito Santo” (9,31; 13,52). As comunidades, sob a luz do Espírito, vão ao encontro de todos: judeus e não- judeus (11,15; 10,44-45.47). A presença do Espírito ajuda na busca de solucionar os conflitos existentes (15,8.28), acompanha os que coordenam as comunidades (20,28): os/as apóstolos/as (5,32; 15,28); as diversas lideranças (6,3), os/as missionários/as (13,4).

 

Da convivência solidária nasce uma nova experiência do Espírito. Essa experiência possibilita a compreensão da boa nova (2,6). É uma energia vital que põe as pessoas em sintonia com o projeto de Deus e as impulsiona para a missão (2,42-47; 4,32-35; 5,12-14).

 

Nos dias de hoje, em nossos encontros e momentos de oração, pedimos as luzes do Espírito Santo. Continuamos acreditando na sua força e nos dons que ele nos concede. É na vivência comunitária, vivificada pela força e ação do Espírito Santo, que recebemos forças para enfrentar os desafios e sofrimentos do dia-a-dia. A presença do irmão, da irmã, nos ajuda a viver melhor. O fardo fica mais leve. A solidariedade da comunidade sustenta a missão. Este é o tema que refletiremos no próximo encontro.

 

3.1 - Curiosidade

Torre de Babel e Pentecostes: Deus quer a vida na liberdade

Pentecostes nos faz lembrar da Torre de Babel (Gn 11,1- 9). Aparentemente são duas histórias opostas, mas se olharmos atentamente, vamos ver que a mensagem é parecida. Note bem: a construção da torre de Babel foi impedida porque Javé confundiu as línguas dos construtores. Em Pentecostes, todos entendiam a boa nova em sua própria língua. Qual a semelhança entre essas duas histórias?

 

Era interesse dos dominadores construir um grande império e para isso era necessário unificar a língua, os costumes e a religião. E o povo resistiu, falando em sua língua, e manteve as suas características próprias. E em Pentecostes não houve unidade das línguas, mas sim unidade da compreensão das maravilhas de Deus. Nas duas histórias o povo mantém a sua identidade, língua e cultura. A dominação cultural não faz parte do projeto de Deus. O anúncio da boa nova deve ser vivido dentro da cultura de cada povo.

 

2º Encontro

Situando o texto

Em Atos 4,23-35 temos a descrição de uma reunião da comunidade em tempos de perseguição, e logo em seguida um resumo sobre o ideal de vida das primeiras comunidades cristãs. Para entender esse texto é necessário voltar ao início do capítulo três. O primeiro fato que o autor apresenta é a cura de um aleijado (3,1-10). É um milagre que Pedro realiza fora do Templo. Naquele tempo as pessoas pobres, doentes e estrangeiras, de acordo com a Lei oficial dos judeus fariseus, eram consideradas impuras, não podiam participar do culto no Templo. E quem era barrado no Templo, também não tinha vez na sociedade.

 

A cura do aleijado ajudou o povo a acreditar na força de Jesus de Nazaré. Diante do olhar insistente do homem que pedia esmola, "Pedro lhe disse: ‘Não tenho ouro nem prata, mas o que tenho eu lhe dou: em nome de Jesus, o Nazareu, levante-se e comece a andar!’. Depois Pedro pegou a mão direita do homem e o ajudou a se levantar” (3,7).

 

Esse milagre gerou confusão. De um lado estava o povo, admirado, atônito, de boca aberta. De outro, estavam as autoridades judaicas furiosas. Elas se consideravam as únicas pessoas autorizadas a ensinar e curar. Por isso agiram rapidamente, antes que o poder escapasse do seu controle: prenderam Pedro e João. E eles, de maneira corajosa, enfrentaram os poderosos no Sinédrio. E uma vez soltos, os apóstolos continuaram anunciando a prática de Jesus, homem que viveu com os/as excluídos/as.

 

Essa nova maneira de viver era vista como ameaça à tradição judaica (4,2; 18,13; 21,28). Por isso, nos primórdios do movimento de Jesus nos deparamos com pessoas ou grupos que foram marginalizados e perseguidos até a morte. O livro dos Atos nos apresenta alguns exemplos, entre eles está o apedrejamento de Estêvão (7,55-60), o assassinato de Tiago, por ordem de Herodes (12,1-2) e as muitas vezes que Paulo é perseguido e açoitado (16,16-24).

 

Apesar das perseguições e ameaças, o número das pessoas que aderia à Palavra de Deus crescia dia a dia. Isso aumentou ainda mais as perseguições contra as comunidades cristãs. Na comunidade havia o esforço de acolher a todas as pessoas sem distinção de nação, classe social, idade, sexo e religião. O anúncio do novo reino era dirigido a todos e todas. Essa convivência colocava por terra a lei do puro e impuro. Era uma afronta para as autoridades judaicas. Por isso, os judeus cristãos foram duramente perseguidos pelos dirigentes da sinagoga (13,13-52).

 

As comunidades cristãs também eram perseguidas pelos chefes das cidades do império greco-romano (14,1- 7). Eles se viram ameaçados, pois o anúncio da boa nova não aceitava injustiças e exploração das pessoas. Isso colocava os negócios da elite por água abaixo. Um fato que podemos lembrar é a cura de uma jovem escrava, na cidade de Filipos. Diz o texto que era uma jovem possuída por um Espírito de adivinhação e obtinha muito lucro para seus patrões. Paulo a libertou. Por isso, seus patrões agiram violentamente contra Paulo e Silas (16,19- 22). O livro dos Atos traz ainda outros conflitos com as religiões gregas (19,18-19; 19,23-40).

 

Desde o início as comunidades cristãs foram perseguidas. As dificuldades para continuarem firmes na proposta de Jesus foram muitas. Sempre foi assim. Na história, independente da religião, testemunhamos que as pessoas que lutam em defesa da vida ameaçada são mortas ou silenciadas. Os exemplos são muitos... Dom Romero, Margarida Alves, Chico Mendes, Marçal Tupã, Santo Dias, Dorcelina (prefeita de Mundo Novo/MS, assassinada no ano 2000) e tantos outros e outras que ousaram sonhar e buscar vida digna para todos e todas. Pessoas que não comungaram com as injustiças.

 

Mas, apesar de tudo, as primeiras comunidades cristãs, movidas pela fé em Jesus, não desanimaram. Resistiram.

 

Comentando o texto

Os apóstolos estão a caminho do Templo. Na entrada, provavelmente no pátio de fora - o lugar reservado aos impuros -, encontram um aleijado. Uma pessoa necessitada (3,1-2). Há entre eles um encontro capaz de produzir vida nova: “Em nome de Jesus Cristo, o Nazareu, levante-se e comece a andar!” (3,6). A partir desse fato eles anunciam ao povo a morte e a ressurreição de Jesus. O ensinamento dos apóstolos ameaça o poder das autoridades judaicas, que se consideram os únicos mestres do povo. Por isso, os missionários são presos, interrogados e ameaçados. Porém, eles têm uma convicção: "não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos” (4,20).

 

Os apóstolos se reúnem com a comunidade. Esta reunião, descrita no capítulo 4 do livro dos Atos, tem a seguinte pauta:

 

  1. Análise da realidade: v. 23;
  2. Oração: v. 24 - toda a reunião prossegue em clima de oração;
  3. Leitura da Palavra de Deus: w. 25-26;
  4. Interpretação da Palavra: w. 27-28;
  5. Prece - pedido para continuar pregando a Palavra de Deus: w. 29-30;
  6. Resposta de Deus - Descida do Espírito sobre todos: v. 31a;
  7. Ação - Pregavam a Palavra de Deus com coragem: v. 31b.

Neste encontro, todas as pessoas ficam sabendo dos acontecimentos: prisão, perseguição e ameaças (4,23). A partilha da realidade faz brotar a oração: “Senhor, tu criaste o céu, a terra, o mar, e tudo que existe neles. Por meio do Espírito Santo disseste através do teu servo Davi, nosso pai: ‘Por que se amotinam as nações, e os povos planejam em vão? Os reis da terra se insurgem e os príncipes conspiram unidos contra o Senhor e contra o seu Messias"' (4,24-26). Nesta oração está presente a imagem de Deus como senhor e criador do universo, aquele que tem o poder de conduzir a história (cf. Sl 121,2; 124,8; 146,6-10).

 

A comunidade procura entender a sua situação de sofrimento e perseguição. Ao rezar o Salmo 2 encontra luz para entender a sua realidade. O salmo fala da entronização do rei de Judá. A comunidade compara a aliança dos reis e príncipes da terra contra o Ungido do Senhor (4,26) à aliança de Herodes e Pilatos contra Jesus. Ela acredita no messianismo de Jesus, descendente de Davi, servo de Javé (4,25), não como rei, mas como o servo sofredor (Is 42,6). E como consequência da prática da justiça, ele sofre e entrega a própria vida (Is 42,1-9; 52,13-53,12). Naquele contexto, colocar Jesus como rei- servo é uma denúncia contra a dominação do império romano.

 

À luz da Palavra a comunidade vê os acontecimentos como parte do projeto salifico de Deus (4,28). Consciente de sua missão, a comunidade reza. Pede que Deus lhe conceda coragem e fidelidade para continuar pregando a Palavra de Deus: 4,29-30. E mais uma vez Deus se manifesta na comunidade reunida, não no Templo, mas na casa: "Tendo eles assim orado, tremeu o lugar onde se achavam reunidos. E todos ficaram repletos do Espírito Santo, continuando a anunciar com coragem a Palavra de Deus” (4,31; cf. Sl 68,8-9).

 

O versículo 31 nos lembra o primeiro Pentecostes da comunidade (At 2,1-12), uma forte experiência de Deus vivida por pessoas pobres, marginalizadas e excluídas pelo sistema oficial dos judeus fariseus. Aqui, mais uma vez a comunidade está reunida, rezando a realidade à luz da Palavra de Deus. Pelo testemunho de seus membros, ela volta a vivenciar a força transformadora do Espírito Santo. A comunidade vê a nova sociedade, que já está acontecendo, no esforço de cada pessoa em viver novas relações.

 

Assim, temos a apresentação do sonho da nova comunidade: "uma só alma e um só coração”. Um grupo marcado pela unidade e pela fé (4,24.32; Dt 6,5). O que desencadeou a perseguição foi a cura de uma pessoa necessitada (3,1-10). Na nova comunidade não há necessi- tados/as (4,34). Tudo é colocado em comum. A partilha não é uma lei, mas um gesto espontâneo que nasce da solidariedade de cada pessoa.

 

A nova comunidade era fiel aos ensinamentos de Jesus e dos apóstolos, à comunhão, à partilha e à solidariedade. Tudo era comum, sob a orientação e administração dos apóstolos (4,35). As comunidades, descritas no livro dos Atos dos Apóstolos, era uma realidade histórica ou apenas um sonho? Elas viviam conflitos internos, desentendimentos, nem todos os membros tinham a mesma fé... O que animava e unia as pessoas era o desejo de vivenciar mais profundamente a partilha e a solidariedade. A fé na ressurreição fez acontecer essa nova vivência.

 

Aprofundando: a vida das primeiras comunidades

No livro dos Atos dos Apóstolos há três fotografias sobre a vida das primeiras comunidades cristãs em Jerusalém (2,42-47; 4,32-35; 5,12-16). O modelo comunitário, proposto pelo autor dos Atos, está baseado em alguns elementos fundamentais; o ensinamento dos apóstolos (2,42- 43), a missão (1,8; 4,33; 5,15-16), a comunhão fraterna (2,42.44-45), a fração do pão (2,42.46) e a oração (2,42).

 

— Ensinamento dos apóstolos. É bom lembrar que a comunidade apostólica incluía os Doze, algumas mulheres, entre as quais Maria, e os setenta e dois discípulos e discípulas de Jesus. Mas em que consistia o ensinamento da comunidade apostólica? Na releitura de textos bíblicos à luz de Cristo. A comunidade cristã fazia memória dos ensinamentos de Jesus (1,8). E não só relembrava, mas colocava em prática por meio de sua maneira de viver a partilha, a solidariedade, a acolhida aos rejeitados e impuros (3,7; 4,23; 9,33.41.43). As comunidades cristãs começam a derrubar os muros que separam as pessoas em puras e impuras (10,28.34-35). O testemunho das comunidades e o anúncio da morte e ressurreição (2,22- 24) causam impacto nos ouvintes (4,33; cf. 2,32; 3,15;). Todos - mulheres, homens, crianças, de todas as nações e línguas - são chamados a viver a ressurreição de Jesus, para ter uma vida plena, levantar a cabeça, pois Deus criou o ser humano para a vida. A comunidade apostólica, impulsionada pelo Espírito de Deus, anunciava continua- mente. Todos os/as batizados/as também assumiam a mesma missão.

 

Missão. “O Espírito Santo descerá sobre vocês, e dele receberão força para serem as minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria e até os extremos da terra" (1,8). As primeiras testemunhas de Jesus atuaram com grande dinamismo missionário. O conteúdo da missão era a Palavra de Deus (20,32). Os seguidores e seguidoras de Jesus anunciaram a Palavra, enfrentaram sofrimentos, prisões, torturas e perseguições (4,17; 7.12.58; 12,1-3; 16,19-24). E não desanimaram! Quando o grupo dos cristãos helenistas foi perseguido e expulso de Jerusalém, todos se "espalharam pelas regiões da Judéia e da Samaria” (8,1-2). Aqueles que se dispersaram iam de um lugar para o outro, anunciando a Palavra (8,4). Os missionários e missionárias eram fiéis à pregação da Palavra por que viviam profundos laços de comunhão (4,29; 12,12; 17,10).

 

Comunhão fraterna. “Todos os que abraçaram a fé estavam unidos e tudo partilhavam. Vendiam suas propriedades e os seus bens para repartir o dinheiro apurado entre todos, segundo as necessidades de cada um” (2,44-45); "A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma” (4,32). O livro dos Atos dos Apóstolos insiste na partilha dos bens materiais. A riqueza é associada às situações de injustiça e de pecado. O apego ao dinheiro é oposição ao anúncio da boa nova (1,18; 5,1-11). O dinheiro precisa ser dividido com os pobres e necessitados (4,34-36; 11,29; 20,35).

 

Na tradição grega, entre os cidadãos ricos, havia o ideal de que entre os amigos tudo era comum. Entre os romanos, existia o sistema de clientela: o cidadão rico favorecia uma pessoa que em troca tomaria o nome de seu patrono, de alguma forma, respeitável. As comunidades cristãs tinham como proposta partilhar os bens com os pobres, o que na realidade era uma tentativa de retomar o sonho de uma sociedade igualitária, presente no Antigo Testamento, no período tribal, por volta de 1200 a 1000 a.C. (Dt 15,4). O sonho de ter tudo em comum sempre esteve presente no coração da humanidade. Para realizar esse sonho é necessário a solidariedade e a partilha do pão nas pequenas coisas do dia-a-dia.

 

A fração do pão. O "partir o pão” no ambiente judaico fazia parte do ritual inicial da refeição em comum. O chefe de família tomava nas mãos um pedaço de pão, dava graças a Deus, partia e distribuía às pessoas que estavam à mesa (SI 127,2). Esta refeição acontecia nas casas (2,46b), diferente dos cultos tradicionais, que eram celebrados no Templo. Jesus, como judeu, fez uma última refeição com os seus discípulos e discípulas (Lc 22,14- 20; 24,30; At 20,7), que passou a ser celebrada como um memorial da prática de Jesus. A refeição fraterna dos cristãos possibilitava aos membros mais pobres ter a sua porção diária de alimento (ICor 11,21). Mais tarde, esta celebração recebeu o nome de Eucaristia, tomando-se assim um momento central na vida da comunidade cristã.

 

Celebrar a eucaristia exige comunhão de fé em Jesus Ressuscitado e solidariedade. Há uma frase muito conhecida que diz: “Enquanto houver uma pessoa passando fome é sinal de que nossas eucaristias não estão sendo verdadeiramente celebradas”. Este é um grande desafio para nós cris- tãos/ãs de hoje. Até que ponto estamos realizando a partilha em nossas comunidades? Qual a nossa contribuição para uma sociedade com mais partilha e menos injustiças?

 

— A oração. O ensinamento da comunidade apostólica, a missão, a comunhão fraterna e a fração do pão eram avaliadas e refeitas na oração. Em Jerusalém, os Onze, algumas mulheres e Maria, a mãe de Jesus, e seus irmãos eram constantes na oração (1,14). No início a comunidade cristã participava da oração no Templo. No livro dos Atos 2,46a ficamos sabendo que os cristãos eram assíduos na liturgia do Templo, mas também temos a informação de que a comunidade costumava rezar na casa (2,2).

 

Em Atos 4,23-31, a comunidade reza após a libertação de Pedro e João. Uma oração que brota da vida, baseada na Palavra de Deus lida à luz de Jesus. Nessa oração há um momento de louvor a Deus, marca característica das reuniões comunitárias.

 

A oração era um elemento fundamental na vida da comunidade cristã, especialmente nos momentos importantes e de dificuldades (cf. At 1,24; 4,24-30; 6,4; 7,59-60; 8,15; 9,40; 11,5; 12,5.12; 13,3; 16,25; 20,36; 28,8.15). A vida de oração possibilitou maior união, solidariedade e abertura da comunidade para a missão.

 

Não é fácil viver em comunidade. É preciso a força do Espírito, bem como o testemunho e o apoio de outras pessoas ou comunidades que vivem a partilha e a luta por uma sociedade de iguais. Assim cantam as nossas comunidades: "Viver em comunidade exige decisão; ter responsabilidade em tudo que se faz”. Cada qual tem os seus dons e suas qualidades. Todos são igualmente importantes para o crescimento da comunidade. Este é o tema do próximo encontro, no qual refletiremos sobre os diversos serviços à comunidade. Até lá!