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6 - Jesus não esta morto - Jo 20,11-18
6 - Jesus não esta morto - Jo 20,11-18

A morte de uma pessoa amiga ou de um parente vem acompanhada de dor, de saudade, de ausência, de lem­branças do que a pessoa foi e das coisas que poderiam ser diferentes... Os parentes, num gesto de carinho e pro­fundo amor, fazem de tudo para prestar uma última ho­menagem à pessoa que morreu fazendo o velório e um enterro digno.

Maria Madalena, que representa a comunidade, jun­to ao sepulcro experimentou dor, angústia e sofrimento (20,11-15). No Antigo Testamento, o livro Cântico dos Cânticos conta uma história muito parecida, que fala do amor e da procura pelo amado, uma busca que só termi­na com o encontro (Ct 3,1-4).

Maria quer encontrar Jesus, mas a dor a impede. No diálogo ela insiste, está disposta a enfrentar todas as di­ficuldades para encontrar o seu amado. Vamos acompanhar a leitura desse encontro (Jo 20,11-18) e responder as seguintes perguntas: O que fez Maria Madalena encontrar o Se­nhor? O que Jesus pede para Maria Madalena fazer?

Situando o texto: Maria Madalena é a primeira testemunha da ressur­reição. Esse encontro acontece porque a mulher não arredou o pé. Em meio à situação de morte ela resistiu, permaneceu até encontrar o Senhor. Na comunidade de João há muitas mulheres discípulas fiéis de Jesus que animam os demais a fazer o mesmo.

Esse texto Jo 20,11-18 é a parte final do Livro da Glorificação, que começa com a prática da comunidade (13-17), passa pela paixão e morte de Jesus (18-19) e conclui com as ce­nas da ressurreição (20). A ressurreição nasce da experiên­cia de amor vivida pela comunidade e de seu engaja­mento concreto na luta por vida em abundância (10,10). "No primeiro dia da semana, Maria Madalena vai ao sepulcro, de madrugada, quando ainda estava escuro, e vê que a pedra fora retirada do sepulcro" (20,1).

O túmulo está vazio. Mesmo no escuro, Maria Madalena percebe que Jesus não está no túmulo. A mulher, alarmada, corre e avisa a comunidade. Pedro e o outro discípulo se diri­gem para o sepulcro. Pedro apenas constata o fato, o outro discípulo vai além, ele crê (20,8).

No capítulo 11 vemos que Jesus se dirige ao sepul­cro onde Lázaro fora colocado. Uma pequena informa­ção nos diz que o sepulcro era uma gruta onde fora colo­cada uma pedra (11,38). É a vida que está presa, amarrada, fechada. E Jesus manda remover a pedra: ele liberta de tudo o que impede a vida. Ao ressuscitar Lázaro, Jesus ressuscita a comunidade.

Em Jo 20 temos um movimento contrário: Maria, representando a comunidade que busca superar o medo da morte, vai ao sepulcro onde Jesus fora colocado e en­contra a pedra removida e o local vazio. Isso indica que a morte não é o fim de tudo. A história e a missão de Jesus não terminaram com a morte. Ele continua vivo e atuan­te na comunidade que age em função da missão recebi­da e da presença do Espírito (14,16; 20,17).

Diante da situação de perseguição, de falta de espe­rança em meio ao sofrimento, miséria e desolação que os cristãos estão vivendo, lembrar a experiência da res­surreição de Jesus ajuda a renovar a fé no projeto da partilha. Nesse texto está presente a preocupação da co­munidade em formar uma comunidade de amor, em que todos e todas se sintam amados e façam a experiência de amar. Não me retenhas, pois ainda não subi ao Pai. Isto deixa bem claro que a missão da comunidade ainda não terminou, é preciso construir moradas: Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se não fosse assim, eu vos teria dito, pois vou preparar-vos um lugar... Esse lugar é a co­munidade que age impulsionada pelo Espírito de Deus. É preciso trabalhar, sem se agarrar à história passada: a morte não pode deter a vida (1,5; 20,1).

Comentando o texto: "Maria estava junto ao sepulcro, de fora, chorando" (20,11). Maria é uma figura que representa a comunida­de inconsolada com a morte de seus membros e com di­ficuldade de perceber os sinais de vida. Essa situação é descrita numa linguagem simbólica, inspirada no Cântico dos Cânticos. Nesse livro, a jovem sai ao encontro do amado: "Em meu leito, pela noite, procurei o amado da minha alma. Procurei-o e não o encontrei! Vou levantar­-me, vou rondar pela cidade, pelas ruas, pelas praças, pro­curando o amado da minha alma... Procurei-o e não o encontrei!" (Ct 3,1). Maria vai ao sepulcro chorar a mor­te do Senhor. Ela está presa à idéia da morte como o fim de tudo. De longe, no escuro, Maria Madalena percebe que o túmulo está vazio. Desesperada, vai ao encontro dos discípulos, que constatam o fato e retornam para a sua casa. Maria permanece chorando junto ao sepulcro (20,11).

A mulher, angustiada e ainda chorando, olha para o interior do túmulo e vê dois anjos. No Cântico dos Cânticos, a jovem pergunta para os guardas: "Onde está o meu amado?" (Ct 3,3). No Evangelho de João, são os anjos que perguntam a Maria a razão de sua dor. Na sua resposta: "Levaram o meu Senhor" (20,13) está expressa a dificuldade da comunidade de tomar consciência da ressurreição de Jesus. A dor, o desespero e o medo não deixam a comunidade perceber que a vida é mais forte que a morte.

O objetivo de Maria é encontrar o corpo do Senhor. Jesus se aproxima e lhe pergunta: " 'Mulher, por que cho­ras? A quem procuras?'. Pensando ser ele o jardineiro, ela lhe diz: 'Senhor, se foste tu que o levaste, dize-me onde o puseste e eu o irei buscar!' " (20,15). A mulher continua sem esperança, ainda não conseguiu ver os si­nais de vida, mas, apesar disso, continua persistente em sua busca.

Maria Madalena reconhece Jesus quando ele a cha­ma pelo nome. Ela faz a experiência de ser amada e aco­lhida como discípula: "Não temas, porque eu te resgatei, chamei-te pelo nome: 'tu és meu' " (Is 43,1). Ela é a ove­lha que reconhece a voz do Pastor 00,2-3). Uma situa­ção semelhante é descrita no Cântico dos Cânticos: "Eu dormia, mas meu coração velava e ouvi a voz do meu amado" (Ct 5,2).

É a experiência humana de intimidade, de convivên­cia no amor, que faz a pessoa viver. Quando Maria en­contra o amado, é um momento de grande alegria e emo­ção. Ela quer abraçar e prender o Senhor. No entanto, Jesus lhe diz: "Não me retenhas, pois ainda não subi ao Pai. Vai, porém, a meus irmãos e dize-lhes: subo a meu Pai e vosso Pai; a meu Deus e vosso Deus" (20,17).

Não, a missão ainda não acabou. É preciso continu­ar as obras de Jesus. O Reino de Deus é para todos, por isso é necessário que Maria vá anunciar aos "meus ir­mãos"; e isso, no contexto da comunidade de João, não é apenas para os discípulos e discípulas, mas é anúncio universal. Todos e todas são chamados ao amor, a expe­rimentar o Ressuscitado vivo na comunidade (20,19-31).

Aprofundamento: As mulheres experimentam vida nova! O Cântico dos Cânticos e a descrição do encontro de Maria Madalena com o Ressuscitado têm muitos elemen­tos em comum. Os dois textos falam de uma mulher que procura pelo amado. As duas mulheres são persistentes. Arriscam a própria vida e desafiam as normas prees­tabelecidas pela sociedade. Quando a jovem encontra o seu amado, ela o leva para a casa. Maria Madalena, ape­sar de sua confusão, não se afasta do sepulcro. O seu objetivo é encontrar o Senhor. E, no entanto, é o Senhor que a encontra. Ela também deseja reter o seu amado, porém isso não lhe é possível. Maria é desafiada a anun­ciar a sua experiência de amor, a construir uma nova comunidade.

Por que a comunidade se inspirou no Cântico dos Cânticos para falar de sua experiência de ressurreição? O Cântico dos Cânticos é um poema de amor e, ao mes­mo tempo, um grito de libertação. Um protesto contra a opressão e a exploração do corpo. Esse livro nasceu no pós-exílio, por volta do ano 400 a.C., no tempo de Esdras e Neemias.

Em 539, o império persa dominou o império babi­lônico. Em 538 a.C., os dirigentes exilados, chamados de Golá em hebraico, tiveram permissão para voltar a seus países de origem. Esses dirigentes, desde que pagassem tributos ao império persa e se submetessem politicamen­te, podiam se organizar conforme suas culturas, religiões e costumes.

O povo judeu, sob a liderança desses dirigentes, sa­cerdotes e escribas, começaram a se reestruturar a partir da Lei e do Templo. A Lei de Deus passou a ser a lei do rei: "Todo o que não observar a Lei de teu Deus - que é a lei do rei - será castigado rigorosamente: com a morte ou o desterro, com multa ou prisão" (Esd 7,26). Através da Lei, os dirigentes judaicos controlavam a vida das pes­soas. Eles reforçaram a lei da pureza para evitar a união com estrangeiros (Esd 9,1-10,17). Os casamentos mistos eram proibidos. Isso por dois motivos: para preservar a pureza do grupo e por motivos econômicos.

Para ter acesso ao culto e ao Templo, a pessoa devia estar em dia com as exigências da Lei. Caso contrário, deveria oferecer sacrifícios e ofertas ao Templo. Uma pessoa pobre tinha dificuldade para cumprir a Lei, pois os sacrifícios custavam caro. O corpo era desprezado e controlado pela Lei. A mulher vivia quase sempre impu­ra por causa da menstruação e do ato de dar à luz (Lv 12,1-8). Portanto, a mulher sempre estava em dívida com o Templo.

Nesse contexto, alguns livros nasceram como pro­testo contra a imagem de um Deus opressor, justiceiro e castigador, como, por exemplo, o livro de  e 6 Cântico dos Cânticos. Este livro, ao reforçar a beleza e a im­portância do corpo, ajuda as pessoas a se libertar das exigências da lei do puro e do impuro. Os autores apre­sentam um corpo livre e belo, cheio de vitalidade e desejo, aberto ao amor. E mais ainda, ao contrário de uma sociedade em que a mulher era oprimida e sub­jugada, neste livro a mulher tem iniciativa: ela vai ao encontro do amado.

Assim, temos um grito de libertação das mulheres contra o legalismo que impede uma verdadeira expe­riência de Deus. Não é a Lei que faz a pessoa experimen­tar Deus, mas sim o amor: "O amor é uma faísca de Deus" (Ct 8,6). A verdadeira experiência de amor é capaz de devolver ao outro a alegria de viver. É o amor humano  que ajuda a quebrar as barreiras que as pessoas criam para oprimir e explorar.

A comunidade de João ainda estava no escuro (20,1), buscando, de maneira confusa, enfrentar os desafios diante das perseguições. É a experiência de amor, da pre­sença do Ressuscitado, que lhe traz novo vigor para con­tinuar firme no projeto da partilha e da solidariedade. Esta comunidade, representada por Maria Madalena, é testemunha da ressurreição e é enviada para anunciar que o Ressuscitado continua vivo no seu meio. Ao usar a imagem da mulher, a comunidade joanina valoriza e des­taca a importância dela no seu meio. É um novo protes­to diante das outras comunidades cristãs que estavam assumindo uma tendência patriarcal, hierárquica e androcêntrica, ou seja, centralizada no homem.

No contexto em que vivemos, as mulheres conti­nuam sofrendo exclusão na sociedade, na igreja e na fa­mília. Fica para nós o desafio: quais os gestos e atitudes de exclusão que praticamos contra a mulher que a impe­dem de viver uma verdadeira experiência de ressurrei­ção? O Verbo se encarnou, se fez um de nós para trazer nova luz à vida do ser humano. Esse é o tema que iremos rezar e sobre o qual iremos refletir na próxima reunião.