Translate this Page

Rating: 2.1/5 (338 votos)

ONLINE
1





Partilhe esta Página


7ª Lição: Gn 4,1-6: A autossuficiência rompe ...
7ª Lição: Gn 4,1-6: A autossuficiência rompe ...

1. Motivando a aula de hoje A inveja é um sentimento que pode destruir a vida das pessoas, tanto a de quem inveja como de quem é invejado. Vejamos o diz essa pequena parábola.

Era uma vez uma cobra que começou a perseguir um vaga-lume que só vivia para brilhar. Ele fugia rapidamente, com medo da feroz predadora, e a cobra nem pensava em desistir. Fugiu um dia, e ela não desistia, dois dias e nada... 

No terceiro dia, já sem forças, o vaga-lume parou e disse à cobra:  

- Posso lhe fazer três perguntas?  

- Não costumo abrir esse precedente para ninguém, mas ta que vou comer você mesmo, pode perguntar.  

- Pertenço a sua cadeia alimentar?  

-Não.  

- Eu te fiz alguma coisa? 

- Não.  

- Então, por que você quer me comer? 

- Porque não suporto ver você brilhar1 

A inveja nasce da comparação. Enquanto olhamos para a vida do outro, esquecemos de olhar para o nosso interior, de descobrir a nossa própria luz. É como diz o ditado: “A vida é muito curta para fazermos dela um campo de batalha”. Podemos nos perguntar: qual a origem da violência? 

 

2. Iluminando a vida. Javé, o Deus da vida, é contra a violência. Rivalidade, competição, inveja e ciúmes destroem o relacionamento fraterno. Mas, apesar do pecado, Deus nunca abandona o pecador; ele o convida à mudança de vida, abre seus braços para o perdão e a reconciliação. 

 

1.Quais os motivos que nos fazem romper a amizade com as pessoas com quem convivemos no dia-a-dia?

 

2.Qual é o nosso comportamento diante de situações de violência e injustiça?

 

3. Como superar os conflitos e o desejo de vingança em nossa vida pessoal e em nossa comunidade? 

 

4)  Leitura do texto Gn 4,1-16 

1. “Onde está teu irmão? ” Caim respondeu: “Não sei. Acaso sou guarda de meu irmão? ” Como você entende a resposta de Caim? 

 

2. O que significa dizer: “Ouço o sangue de teu irmão, do solo, clamar para mim”? 

 

3. Qual o castigo de Caim?

 

5- Situando o texto: A violência não está no projeto de Deus A violência está presente em todas as sociedades. Os meios de comunicação constantemente noticiam gestos ou atitudes violentas atingindo vítimas inocentes, especialmente as crianças. O que caracteriza a violência é o uso abusivo da força contra outra pessoa, ser vivo ou objeto. É um comportamento que impede a convivência social, pois é um atentado contra a integridade física e psicológica das pessoas, e atinge outros seres vivos. Pessoas mortas por grupos de extermínio, atentados, ambição, vingança ou descuido das autoridades se tornam fatos corriqueiros.  

 

Como entender a origem da violência? Existem muitos fatores que contribuem para o aumento da violência, por exemplo, a falta do sentido da vida, que atinge todas as classes sociais, o desemprego e o subemprego, as condições subumanas de vida e, especialmente, o preconceito e a desigualdade que estabelecem relações hierárquicas desde o ambiente familiar, como na história de Abel e Caim.  

 

A pergunta pelas causas da violência vem de longe e faz parte de todas as culturas. As primeiras páginas da Bíblia registram uma crescente violência no mundo. Caim, por se sentir desvalorizado diante de seu irmão, elimina-o (Gn 4,8). Em seguida, lemos: "Lamec disse às suas mulheres: 'Ada e Sela, ouvi voz, de Lamec, escutai minha palavra: Eu matei um homem por uma ferida, uma criança por uma contusão. É que Caim é vingado sete vezes, mas Lamec, setenta e sete vezes!" (4,23-24).  

 

Nesse texto, vemos que Lamec proclama a lei da vingança, sem respeitar a lei do talião, lei seguida pela sociedade da época: olho por olho, vingança por vingança, vida por vida. Ele não se sujeita às normas comuns, mas faz a sua própria. Diante de suas duas mulheres, que o ouvem sem replicar, ele conta vantagens. Novamente aparece o pecado do orgulho e da arrogância.  

 

A história de Israel também é marcada pela realidade de violência. No período da monarquia (1030-586 a.C.), muitas vozes proféticas denunciaram o abuso das autoridades. Na profecia de Amós há um grito contra as autoridades e as elites que estão causando danos à vida das pessoas, especialmente dos mais fracos. Em nome de Javé, ele proclama: "Por três crimes de Israel, e por quatro, não o revogarei! Por que vendem o justo por prata e o indigente por um par de sandálias. Eles esmagam sobre o pó da terra a cabeça dos fracos e tornam torto o caminho dos pobres: um homem e seu pai vão à mesma jovem para profanar o meu santo nome" (Am 2,6-7).  

 

Outro profeta que se ergue contra os abusos das autoridades é Isaías, na cidade de Jerusalém. Sem medo, mostra que Deus toma partido dos pobres e injustiçados. Estabelecendo o julgamento, ele afirma: "Javé entra em julgamento com os anciãos e os príncipes de seu povo: 'Fostes vós que pusestes fogo à vinha e o despojo tirado ao pobre está nas vossas casas. Que direito tendes de esmagar o meu povo e moer a face dos pobres?' - Oráculo do Senhor Javé dos Exércitos" (Is 3,14-15).  

 

No interior, vendo a exploração e a expropriação dos camponeses/as, Miquéias acusa os grupos dirigentes. A partir de sua voz percebemos a violência sofrida pelo povo. Eis o que ele diz: "Ouvi, pois, chefes da casa de Jacó e dirigentes da casa de Israel! Por acaso não cabe a vós conhecer o direito, a vós que odiais o bem e amais o mal, que lhes arrancais a pele de seus ossos? Aqueles que comeram a carne de meu povo, arrancaram-lhe a pele, quebraram-lhe os ossos, cortaram-no como carne na panela e como vianda dentro do caldeirão" (Mq 3,1- 3). Deus não compactua com a violência infligida ao seu povo (Mq 3,4).  

 

Em relação à violência externa, o povo judeu sempre enfrentou a política imperialista das grandes potências numa eterna disputa pela posse de Israel: Assíria. Babilônia, Pérsia, Grécia e Roma. O exílio da Babilônia foi um período de grande sofrimento para o povo: mortes, desterro, destruição do templo e da cidade de Jerusalém (586-538). Mas como império algum dura para sempre, o império persa cresce e coloca fim ao domínio babilônico. Depois da Pérsia, chegam os dominadores gregos e, depois, os romanos. Todos eles exploram e massacram o povo (Jt 16,1-4).  

 

Além do sofrimento por causa da violência e da fome, o povo sofreu com a religião oficial: a teologia da retribuição afirmava que a pobreza, a miséria, as doenças e a esterilidade eram castigos de Deus para o pecador. Ao contrário, prosperidade, descendência e vida longa eram bênçãos de Deus para a pessoa justa. As pessoas pobres eram submetidas a uma situação de humilhação e vergonha: cidade sobem os gemidos dos moribundos e, suspirando, os feridos pedem socorro, e Deus não ouve a sua suplica. (Jó 24,12).  

 

O sábio que escreve o livro de Jó não aceita a religião oficial e proclama que Deus está do lado das pessoas que sofrem: "Eu sei que meu Defensor está vivo e que no fim se levantará sobre o pó" (Já 19,25). É Deus que se erguerá em defesa do pobre e do fraco. Ele é o redentor. 

 

Em Israel, sempre houve a crença de que Deus defende o direito das pessoas mais pobres e enfraquecidas. O livro de Judite proclama: "Tua força não está no número, nem tua autoridade nos violentos, mas tu és o Deus dos humildes, o socorro dos oprimidos, o protetor dos fracos, o abrigo dos abandonados, o salvador dos desesperados" (Jt 9,11). No texto de Caim e Abel vamos perceber a presença de um Deus que quer a vida: ele toma partido de Abel, o mais fraco e, ao mesmo tempo, não permite que aumente o círculo da violência.  

 

6. Comentando o texto: Gn 4,1-16. O relato de Caim e Abel é bem conhecido. Uma história contada e recontada de muitas formas para explicar a origem da violência. Esse relato nos faz lembrar de outras histórias de conflitos entre irmãos, por exemplo, Esaú e Jacó (Gn 27), José e seus irmãos (Gn 37), Adonias e Salomão (lRs 1-2) e tantos outros preservados na tradição judaica. O texto cita o nome de Abel sete vezes, o mesmo acontece com a palavra "irmão". A história se passa no âmbito familiar e salienta o rompimento da fraternidade. 

 

O nascimento de Caim é louvado por Eva, ela afirma: "Adquiri um homem com ajuda de Javé" (4,1). Em seguida, o texto narra que ela deu também à luz Abel (4,2). Não há palavra alguma para explicar o seu nome ou mesmo alegria por seu nascimento. Os nascimentos confirmam a presença de Deus protegendo Adão e Eva e dão razão ao nome que Adão colocou na mulher: "Eva, por ser a mãe de todos os viventes!" (3,20).  

 

O próprio texto traduz o significado do nome Caim: o adquirido por Deus, mas também pode ser laminador de metais ou ferreiro. Abel tem o sentido de sopro, frágil ou neblina, algo passageiro, assim como foi a sua vida. Caim é agricultor, vive de maneira mais estável e segura. Abel é pastor, vive na insegurança, mudando de um lugar para o outro em busca de novas pastagens. Caim e Abel fazem sua oferenda a Deus. O primeiro apresenta produtos do solo. O segundo oferece as primícias e a gordura do rebanho (Gn 1,3-4).  

 

"Ora, Javé agradou-se de Abel e de sua oferenda" (Gn 4,4). Por quê? Alguns afirmam que esse texto retrata o conflito entre camponesas/es e pastoras/es, o que devia ser frequente como podemos constatar nas narrativas dos patriarcas e das matriarcas (Gn 12-50). Nesse conflito, Deus toma o partido das pastoras/es, que vivem no campo.

 

Outra possibilidade de interpretação é a observância da Lei que prescrevia a oferta das primeiras crias e o melhor das primeiras colheitas para Javé (Ex 34,19-20). O texto afirma que Abel cumpriu essa Lei. Quanto a Caim, não sabemos. Outra possibilidade ainda é a tentativa de explicar a origem do povo quenita e o seu relacionamento com os israelitas, porque Caim é considerado ancestral desse povo.  

 

Optando por uma explicação ou outra, o mais importante é perceber que Javé faz a sua opção pelas pessoas enfraquecidas. Um Deus que é solidário e vai ao encontro da pessoa em situação de risco. Ele se dirige a Caim para avisá-lo do perigo que ronda a sua vida. Essa advertência é feita numa linguagem simbólica: "Não jaz o pecado à porta, como animal acuado que te espreita: podes acaso dominá-lo?" (4,7). A imagem de um animal acuado, esperando a hora de atacar, lembra o simbolismo da serpente que seduz a mulher. É a primeira vez que a palavra pecado é usada na Bíblia e se refere a um contexto social. 

 

As interrogações de Javé a Caim ficam sem resposta, ao contrário, ele permite que a morte entre pela porta do ódio. O assassinato acontece no campo, longe de testemunhas. O lugar da vida de Abel se toma o lugar de sua morte. Novamente, Javé intervém e se dirige a Caim: "Onde está teu irmão Abel?". Essa pergunta nos faz lembrar da pergunta que Deus fez a Adão: "Onde estás?" (4,9). A resposta de Caim é irônica e descomprometida: “Acaso sou guarda do meu irmão” (Gn 4,9). 

 

Não. Caim não é o guarda, mas o assassino: "Que fizeste! Ouço o sangue de teu irmão, do solo, clamar para mim!" (Gn 4,10). De acordo com a concepção daquele tempo, sangue significa vida (Gn 9,4; Lv 17,11). A vida é dada por Deus, e Caim ousou tirá-la. O sangue de Abel clama por um defensor, e Deus, como um parente próximo, ouve esse clamor. A lei do talião exige vida por vida. Deus sai em defesa da vítima, mas a sua vingança não exige a morte do criminoso, apenas expulsa do solo fértil.  

 

A terra fértil regada com o sangue de Abel não comporta a presença de Caim. Agora a terra toda dará fruto nem mesmo com o suor: "Ainda que cultives o solo, ele não te dará mais seu produto” (Gn4,12). O destino de Caim é ser um fugitivo errante na face da terra. Caim fica com medo de ser morto porque deve afastar-se da sua comunidade e deve andar sozinho. Ele reconhece a sua culpa e se vê num beco sem saída: expulso da terra, ele terá que se esconder da presença de Deus e das pessoas com medo de ser morto. Mais uma vez, Javé intervém e toma a defesa do mais fraco:  "Quem matar Caim será vingado sete vezes" (4,15). Como antes, Deus estava preocupado com Abel, agora está com Caim. A palavra de Javé impede a morte de Caim. Deus é o Deus da vida e sempre escolhe o fraco, o pequeno, a criatura na sombra da morte e o ser humano não tem o direito de tirar a vida de outra pessoa.  

 

Caim recebe um sinal de proteção. Essa marca significa que ele pertence a um clã onde o sistema de vingança é exercido duramente. Como funciona esse sistema? De acordo com as tradições mais antigas do povo judeu, o defensor é o go'el, aquele que tem o direito de vingar sangue derramado é o parente mais próximo (Nm 35,19-27).

 

Outra função do go'el é a obrigação de pagar as dívidas de um parente próximo que cair na miséria ou na escravidão (Lv 25,23-28) ou ainda casar com a viúva sem filhos, suscitando urna descendência para o parente falecido (Gn 38; Rt 2,20). Deus assume a função de go'el: ele é o protetor dos oprimidos (cf. Is 41,14). É exatamente o papel que Caim não assumiu diante do seu irmão.  

 

A proteção de Javé sobre Caim nos ensina que ele cuida amorosamente de todas as pessoas, independentemente de sua condição. O relato começa com a alegre proclamação do nascimento de Caim (4,1) e termina com o seu distanciamento: "Caim se retirou da presença de Javé e foi morar na terra de Nod, a leste de Éden" (4,16). Adão e Eva foram expulsos do jardim para trabalhar o solo. O castigo pelo rompimento da fraternidade é ainda maior: Caim é expulso da terra fértil para viver como errante numa terra distante. Ele vai andando e acaba construindo uma cidade, estrutura que, para o escritor, representa a exploração do homem do campo porque a cidade devora tudo através do imposto e do luxo. 

 

O relato de Caim e Abel é intrigante, levanta muitos questionamentos, mas acima de tudo transmite a idéia de um Deus da vida, próximo das pessoas. A exigência para viver em sua presença é viver a solidariedade com a irmã, o irmão e com todas as criaturas. Ele é o Deus da vida e quer a vida! Sempre!  

 

7.  Aprofundando: Imagens de Deus em Gênesis 1-11 Quem é Deus? É o Criador. A tradição de Deus como criador está presente em muitas narrativas bíblicas judaicas e cristãs, e atravessa séculos de história, chegando até os nossos dias. Em nossas comunidades há muitas orações e hinos que continuam proclamando a fé em Deus pai e criador. Há outras imagens que herdamos de Deus da tradição judaica e algumas podem ser comprovadas a partir dos relatos de Gênesis 1-11: 

 

a) Criador. O verbo ‘bara', criar, é usado sete vezes no primeiro relato da criação (Gn 1,1-2,4a). No título lemos: "No princípio, Deus criou o céu e a terra" (1,1), e cria por meio de sua palavra. O verbo criar é usado uma segunda vez para indicar a criação das serpentes do mar e de todos os seres vivos que rastejam e as aves aladas (Gn 1,21). Na criação do ser humano - mulher e homem - o verbo é utilizado três vezes (Gn 1, 27). E mais duas vezes para mencionar a obra da criação (Gn 2, 3.4). O capítulo 5,1-2 é uma retomada do relato da criação: o dia em que Deus criou Adão, e ainda reforça: homem e mulher ele os criou.

 

b) Deus oleiro e agricultor. No segundo relato da criação (2,4b-3,24), a divindade é chamada por Javé Deus e está mais próxima do ser humano. Não aparece o verbo ‘bara', criar, mas sim 'asah’, fazer: "No tempo em que Javé Deus fez a terra e o céu" (2,4b). Javé Deus trabalha como um oleiro: ele modela o homem e todos os animais do solo (2,7.8.19). Javé Deus planta um jardim (2,8). 

 

c) Deus como construtor. Ao mencionar a criação da mulher, o autor usa o verbo hebraico ‘banah’, construir, edificar, formar. Em geral, esse verbo é usado para construção de cidades, torres e altares (4,17; 8,20; 10,11; 11,4.8). Mas existem somente dois textos que usam esse verbo para falar da criação de Deus: "Da costela que tirara do homem, Javé Deus formou uma mulher e a trouxe ao homem" (2,22). E Judite 16,14: "Por que disseste, e os seres existiram, enviaste teu espírito, e eles foram construídos". 

 

d) Um Deus otimista e pessimista. O narrador comenta o sentimento de Deus diante de suas obras, repetindo várias vezes: "e Deus viu que isso era bom" (1,12.18.21.25). E, na avaliação final de tudo o que ele criou, afirma: "era muito bom" (1,31). O capítulo 6, diante da realidade de injustiça e da maldade humana, descreve o desânimo e a amargura de Javé, a ponto de ele dizer: "Farei desaparecer da superfície do solo os homens que criei" (6,7). 

 

e) Deus irado. Deus passeia no jardim, dialoga com a criatura humana, mas tem um acesso de ira quando se dá conta de que a mulher e o homem comeram do fruto proibido. Em sua fúria, Javé Deus amaldiçoa a serpente; não amaldiçoa a mulher e o homem, mas lhes impõe castigos; e, por causa do homem, Javé Deus amaldiçoa a terra (3,14-19). O relato de Caim e Abel tem uma estrutura semelhante. Deus conversa com Caim como um homem se dirige ao seu semelhante, mas o amaldiçoa por seu crime: "És maldito e expulso do solo fértil. Serás um fugitivo" (4; 11-12). Deus não permanece insensível à conduta do ser humano, mas acompanha os seus passos. De criador ele se torna destruidor: "Deus disse a Noé: 'Chegou o fim de toda carne, eu o decidi, pois, a terra está cheia de violência por causa dos homens, e eu os farei desaparecer da terra" (6,13). Parece que é o fim de tudo, mas ainda resta uma esperança. 

 

f) Deus comunhão. "Não é bom que o homem esteja só" (2,18). Não faz parte do plano de Javé Deus a solidão. A pessoa é chamada a viver em comunhão com as outras pessoas, com toda a natureza e com Deus. Javé Deus está em busca do ser humano: "Onde estás?" (3,9). Mesmo tendo amaldiçoado a mulher e o homem, Deus continua protegendo: para Adão e Eva, ele faz túnicas de pele, um gesto de imensa ternura (2,21). Em Caim, apesar do seu erro, coloca um sinal de proteção (4,15). Javé Deus expulsa o homem e a mulher do jardim, mas continua presente fora do jardim: "Deus me concedeu outra descendência no lugar de Abel, que Caim matou" (4,25). Veja que interessante: um Deus que não abandona aquele que rompe a relação com a fraternidade.

 

g) Deus da aliança. Deus faz aliança com Noé: "Estabelecerei minha aliança contigo e entrarás na arca, tu e teus filhos, tua mulher e as mulheres de teus filhos contigo" (6,18). A aliança é feita com Noé, seus descendentes e os animais. E Deus se lembra de sua aliança (8,1). Após o dilúvio, Deus reitera a sua aliança com Noé, seus descendentes e com todos os seres animados (9,9-10). Uma aliança para sempre: "não haverá mais dilúvio para devastar a terra" (9,11). Deus promete lembrar sempre de sua aliança: "Quando eu reunir as nuvens sobre a terra e o arco aparecer na nuvem, eu me lembrarei da aliança que há entre mim e vós e todos os seres vivos" (9,14-15; 9,16-17). Deus parece conformado com a natureza humana; independentemente de sua infidelidade, Deus se compromete, por meio da aliança, com a vida das pessoas e de todas as criaturas. 

 

h) Deus da bênção. Deus abençoa animais do mar e do ar (1,22). Ao homem e à mulher ele amplia a sua bênção: "Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a; dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que rastejam sobre a terra" (1,28; 5,2). Ele abençoa e santifica o sábado (2,3). Depois do dilúvio, a mesma bênção dispensada à primeira mulher e ao primeiro homem é dada a Noé (9,1.7). Mais à frente, Noé invoca a bênção de Deus sobre seus filhos, Sem e Jafé, e amaldiçoa Cam (9,26). Abençoar alguém tem o sentido concreto de garantir condições dignas de vida. 

 

i) Mulher e homem, imagem de Deus. No primeiro relato da criação lemos: "Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou" (1,27). Mulher e homem são chamados a continuar a obra da criação. Esse mesmo relato é repetido em Gênesis 5,1-2. Depois do dilúvio, lemos: "Quem derrama o sangue do homem, pelo homem terá seu sangue derramado. Pois à imagem de Deus o homem foi feito" (9,6). Os seres humanos são imagens de Deus, portanto profanar a imagem de Deus significa profanar o próprio Deus. É um Deus que, tenha o nome que tiver, quer que a pessoa viva e, para isso, ele se torna o go'el, o redentor, o resgatador de uma vítima inocente: "Ouço o sangue de teu irmão, do solo, clamar para mim!" (4,10).

 

j) Deus libertador. Deus é contra o projeto do opressor. "Ele desce para ver a cidade e a torre que os homens tinham construído" (11,5; cf. Ex 3,7-10). O projeto do grande império é formar um só povo e uma só língua, favorecendo, assim, a dominação. Mas Deus não aceita que o ser humano seja dominado e confunde as línguas, mantendo a identidade e a liberdade de cada povo. As imagens de Deus nascem da vivência de fé e da realidade dos grupos ou das comunidades que deram origem ao texto. Levantamos algumas imagens de Deus que encontramos em Gênesis 1-11, mas o texto está em suas mãos: certamente você poderá encontrar outras imagens de Deus nas linhas e entrelinhas do texto. Dizer quem é Deus está acima de nossa capacidade humana, por isso toda tentativa de definir a essência de Deus será sempre limitada, condicionada pela nossa linguagem, nosso tempo, nossa cultura e nosso contexto. Quais são as suas experiências de Deus?

 

Responda:  

O relato de Caim e Abel é intrigante, levanta muitos questionamentos, mas acima de tudo transmite a idéia de um Deus da vida, próximo das pessoas. A exigência para viver em sua presença é viver a solidariedade com a irmã, o irmão e com todas as criaturas. Ele é o Deus da vida e quer a vida! Sempre! 

 

1)  O que podemos aprender com o relato de Caim e Abel? 

 

2) Como o texto apresenta a relação cidade X campo? 

 

3- Será que o mal tem explicação? 

 

4- Como são resolvidos os conflitos hoje na nossa realidade e família? 

 

5- O que podemos fazer para que diminua a violência na nossa cidade? 

 

Leitura complementar. Leia os seguintes artigos 

 

25 - O que significam as palavras de Deus a Caim: "Se alguém matar Caim, sete vezes sofrerá vingança: https://leituraorante.com.br/25-o-que-significam-as-palavras-de-deus

 

14 - O deserto como resistência: https://leituraorante.com.br/14-o-deserto-como-resistencia