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6 - Tiago um dos Primeiros Apóstolos
6 - Tiago um dos Primeiros Apóstolos

Quem dizem as pessoas que eu sou? (Mc 8,27b)

Certa manhã, eu, Simão e alguns companheiros estávamos na praia do lago da Galiléia limpando as barcas e arrumando as redes. De repente, André, o irmão mais novo de Simão, também pescador como nós, correu em nossa direção feliz e alvoroçado como sempre. Ele dizia ter encontrado o Messias, o libertador, que esperávamos havia muito tempo.

Simão (cujo nome quer dizer "ouvinte" ou "aquele que escuta") era um pescador hábil e corajoso, líder de nossa associação de pescadores. De compleição rude, tinha uma barba revolta e super­cílios grossos, sob os quais os olhos relampejavam nos momentos de ira. Era um homem de poucas palavras; após ouvir o relato do irmão, ele fitou André e sacudiu a cabeça negativamente, apon­tando-lhe o dedo em riste:

 - Pare de sonhar e de pensar que esses agitadores que apare­cem de vez em quando por aqui são o Messias anunciado pelos profetas que, um dia, vai nos libertar do jugo dos romanos. Já estou farto desses impostores! Acho até que vou morrer antes de esse dia chegar. Por isso, venha nos ajudar a desembaraçar as redes; temos muito trabalho pela frente. Com toda certeza, esse  Salvador que você encontrou não vai encher nossas barcas de pei­xes nem matar a fome de nossas mulheres e filhos.

- Meu irmão, não seja cabeça dura! - disse-lhe André. Em seguida, chamando-o de lado, começou a contar como havia en­contrado o Messias.

- Certo dia - disse, e nós paramos de desembaraçar as redes para ouvir suas palavras - ao vê-lo passar, João Batista indicou:  "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. É dele que eu falei. É a ele que devem seguir, não a mim" (cf. Jo 1,29-30).

Naquele momento, o rosto de João Batista estava iluminado. No entanto, suas palavras nos pareceram exageradas e ficamos contrariados, acreditando que fosse alguma brincadeira. Por esses motivos, alguns saíram à procura de mais informações sobre o Messias. Quando descobrimos que se tratava de um carpinteiro pobre e trabalhador como nós, ficamos um pouco decepcionados. Se fosse para seguir alguém, optaríamos por acompanhar João Batista, que era um profeta corajoso e não tinha papas na língua. Quando dizia algo, era como se o profeta Elias falasse por sua boca. Em resumo, ele era o líder de que precisávamos. Por isso, procurávamos mexer com seu amor-próprio, dizendo-lhe:

- João, você é muito mais importante que ele.

Após encarar-nos com grandes olhos flamejantes, ele nos res­pondeu:

- É necessário que ele cresça e que eu diminua.

Então eu e João (irmão de Tiago) fomos atrás do carpinteiro. Quando percebeu que o seguíamos, ele se virou e nos perguntou:

- O que estão procurando?

- Nós... nós... nós somos discípulos de João Batista e queremos saber onde...onde... o Mestre mora? - perguntei-lhe, meio confuso (cf. Jo 1,38).

- As raposas têm tocas, e as aves do céu ninhos, mas eu não tenho onde reclinar a cabeça. Mesmo assim, venham comigo e vocês verão - ­respondeu (cf. Lc 9,58-59a).

No trajeto, ficamos impressionados com o que vimos. Os doen­tes o cercavam pelo caminho à espera de cura, as pessoas de fé aguardavam ansiosas por suas palavras, os céticos dirigiam-lhe perguntas capciosas ou debatiam com ele, os doutores da lei exi­giam que lhes esclarecesse alguma passagem difícil das Escrituras. Ao anoitecer, chegamos a uma cabana de pescadores onde estava hospedado, e ele começou a nos explicar fatos incríveis sobre as Escrituras. Nós gostamos tanto do conteúdo de suas palavras, que não mais queríamos ir embora. Por isso, dormimos lá mesmo. De madrugada, antes do nascer do sol, ele se levantou e foi rezar em um lugar afastado. Em seguida, convidou-nos a segui-lo. Disse que nos faria pescadores de homens.

- Pescadores de homens? O que significa isso? Os homens não são peixes! - exclamei.

- Eu não entendi direito o significado daquelas palavras, afinal eu sou pescador de peixes! Mas isso não importa agora! Venham conhecê-lo. Venha também, Tiago, pois seu irmão João ficou com ele lá na cabana - insistiu André, puxando-nos, a mim e a seu irmão.

Simão caminhava a contragosto; era um homem intransigente e incrédulo. Alguns de nós, pescadores, inclusive eu, os acompanhávamos, pois queríamos saber como iria acabar aquela história. Além disso, estava curioso para descobrir quem era aquele que havia convencido André, João, meu irmão, e ainda fora capaz de arrastar o incrédulo Simão.

Ao aproximar-nos de Jesus, este olhou demoradamente para Simão, que permanecia quieto, quase aborrecido. Então ele lhe disse:

- Você é Simão, filho de João não é? Pois de agora em diante, vai se cha­mar Cefas, que quer dizer Pedro (cf. Jo 1,42).

Nesse momento, ficamos admirados. Para nós, judeus, o nome é a identidade da pessoa. Por isso, muitos dos que estavam por perto não gostaram daquelas palavras. Mudar o nome de um ho­mem como Simão e chamá-lo de pedra era absurdo! Porém, uma coisa não sabíamos até então: Simão Pedro seria o símbolo das pessoas em busca de uma identidade. Naquele instante, ele não disse nenhuma palavra, parecia completamente hipnotizado pelo olhar de Jesus.

A partir daquele dia, apesar do pouco que sabíamos a seu res­peito, nós quatro constituímos uma pequena comunidade a seu redor. Em curto espaço de tempo, outros se juntaram a nós, for­mando doze apóstolos. A todos nós, ele fez o mesmo convite:

- Sigam-me, e eu os farei pescadores de homens (cf. Mt 4,19).

A princípio, muitos não compreenderam o real sentido dessas palavras. Somente mais tarde fomos entender seu significado. Dei­xe-me explicar. Para certos povos antigos, e para nós, pescadores de água doce, o mar era sinônimo de perigo e de algo misterioso, terrível, caótico. Pelo mar, os inimigos invadiam as cidades para saquear e tomar posse de tudo.

Naquela ocasião, Jesus nos disse que nossa missão consistia em amenizar o sofrimento das pessoas, pois era impossível se­gui-lo sem um mínimo daquele espírito profético de João Batista, inconformado com a situação vivida pelo povo.

Com toda certeza, se houvesse outros pescadores por perto, sentiriam vontade de rir por não compreenderem como um pes­cador tão sério como Simão abandonaria as redes para seguir aquele carpinteiro, que, sem dúvida, não entendia nada de pesca.

Por três anos, percorremos cidades e povoados, ensinando nas sinagogas, pregando a Boa-Nova do Reino, expulsando demônios, curando todo tipo de doença e enfermidades. Ao verem essa prá­tica tão diferente de Jesus, as pessoas se perguntavam:

- O que é isso? Eis um ensinamento novo, repleto de autori­dade! Ele manda até nos espíritos impuros, e estes lhe obedecem! Nunca vimos coisa semelhante! Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem? (cf. Mc 1,27; 2,12; 4,41).

Estas e outras perguntas a respeito de Jesus circulavam entre o povo, nas casas dos humildes, nas aldeias, nas sinagogas, pelas estradas e até nos palácios. Realmente, ele atraía, questionava e empolgava. Sua fama logo se espalhou por toda a Galiléia, onde multidões queriam vê-lo e tocá-lo.

No entanto, seu sucesso incomodou os doutores da lei, que diziam:

- Como pode falar desse jeito? Blasfemo! Por que come com os coletores de impostos, as prostitutas e os pecadores? Ele tem Belzebu em si. É pelo chefe dos demônios que expulsa os demô­nios (cf. Mc 2.1.16; 3,22).

- Que sabedoria é essa que lhe foi dada, a ponto de se realiza­rem até milagres por suas mãos? Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, Judas, Joset e Simão? (cf. Mc 6,2-3).

Profundamente impressionado, o ,rei Herodes também tinha sua opinião sobre Jesus:

- Esse é João, que eu mandei decapitar. Ele ressuscitou (Mc 6,16).

O povo era da mesma opinião que o rei:

- É João, o batista, que ressuscitou dos mortos. É um profeta semelhante a um dos nossos profetas (cf. Mc 6,14).

No entanto, entre nós, não havia dúvidas a seu respeito