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Evangelho de João
Evangelho de João

INTRODUÇAO GERAL DO EVANGELHO DE JOÃO

 

Fonte: Este e os demais encontros foram extraidos do livro: Permanecei no meu Amor para dar muitos frutos (15,8-9) Entendendo o Evangelho de João -  Centro Bíblico Verbo - Paulus,2015.

A partir da dominação dos gregos (333 a.C.), as con­dições de vida na Palestina torna o eram-se cada vez mais insuportáveis. As pessoas estavam sendo dominadas, ex­ploradas e escravizadas. Muitos grupos populares resis­tiram à dominação e buscaram uma forma alternativa de viver. No tempo de Jesus e um pouco depois, as revol­tas e os descontentamentos contra a opressão dos roma­nos eram abundantes. Em 66 d.C., quando os romanos saquearam o Templo de Jerusalém, os vários grupos, mesmo tendo posições diferentes, uniram-se para lutar contra os dominadores. Esse movimento ficou conheci­do como a guerra judaica (66-73 d.C.).

Nessa guerra, o povo judeu foi derrotado pelos ro­manos. Jerusalém, a cidade santa, e o Templo foram destruídos. O Templo era uma instituição central na vida do povo, controlava a sua vida em todos os aspectos. Os principais grupos que participaram da guerra, os sa­duceus, os essênios, os zelotas e os sicários, foram desar­ticulados e quase desapareceram. A guerra desestruturou a vida dos habitantes da região da Judéia. Os judeus cris­tãos e os judeus fariseus não assumiram a luta até o fim, por isso conseguiram sobreviver. Após a guerra, esses grupos começaram a reorganizar a vida do povo.

Os fariseus e os escribas, menos dependentes do Tem­plo, desenvolveram uma estrutura alternativa. Fazia tem­po que eles exerciam suas atividades nas sinagogas, atra­vés da função de explicar e interpretar a Lei. No contexto de destruição das instituições judaicas, como o Templo e o sinédrio - conselho supremo dos judeus -, o povo buscou refúgio e segurança no movimento dos fariseus e escribas. Aos poucos, os judeus fariseus foram-se forta­lecendo, a sinagoga passou a ser forte instituição para garantir, proteger e controlar a vida do povo. Assim, os romanos perceberam que seria vantajoso se aliar aos ju­deus fariseus.

A aliança com os romanos favoreceu o desenvolvi­mento dos grupos de linha farisaica. Surgiram muitos grupos, entre eles a Academia de Jâmnia, fundada pelo rabino Iohanan ben-Zakai. O chefe desse grupo, o Pa­triarca, era reconhecido pelo império romano como re­presentante do povo judeu. Como aliado dos romanos, eles tinham o direito de interpretar e aplicar a Lei, utili­zando-a também para cobrar tributos dos judeus. Isso interessava aos romanos.

A principal Lei era a do sábado. Uma lei que nasceu para manter viva a memória da libertação e assegurar o descanso da comunidade, mas que com o tempo se crista­lizou. O cumprimento da Lei foi posto acima da pessoa. Outra Lei igualmente importante era a da pureza. Essa lei dividia as pessoas e as coisas em puras e impuras.

A lei do puro e do impuro definia quem estava mais perto e quem estava mais longe de Deus. Uma pessoa doente ou com alguma deficiência física era considera-o da impura por causa de algum pecado, uma vez que a doença era vista como castigo de Deus. O simples conta­to com pessoas ou coisas impuras já causava impureza. Estar impuro significava"não poder participar do culto e, conseqüentemente, da salvação.

Muitas pessoas viviam em condições quase perma­nentes de impureza. As autoridades judaicas, através da Lei, tinham a pretensão de controlar o corpo do homem e da mulher. Essa situação de opressão tinha maior peso para a mulher, que ficava impura por causa da mens­truação (Lv 15,19), das relações sexuais (Lv 15,18) e do dar à luz (Lv 12,2-5). Para se purificarem, as pessoas de­viam levar ofertas e pagar o tributo religioso em dia. Isso custava muito caro, dificultando para os pobres o cum­primento da Lei.

Os judeus fariseus viam no cumprimento da Lei uma exigência do próprio Deus. Essa crença, unida à crença na ressurreição dos mortos e na teologia da retribuição, com prêmios e castigos para esta vida e a outra era usada para manter o povo na obediência rigorosa às normas impostas pelos dirigentes fariseus. A teologia da retribuição estava ligada à idéia de troca: se a pessoa cumprisse a Lei, seria abençoada com terra, descendência e vida longa. Se não cumprisse receberia o castigo: pobreza, esterilidade e vida breve (Dt 30,15-20).

O ensino da Lei era realizado através da sinagoga. Por volta do ano 85, as sinagogas estavam espalhadas na Ásia Menor. Nessa região, a comunidade judaica era uma cidade dentro da cidade. Por causa da aliança cor romanos, a religião judaica, organizada pelos fariseus era considerada como religião lícita - permitida pelo império romano. Os judeus ligados à sinagoga conquistaram o direito de se reunir, de manter um caixa comum e de ter propriedades. Eram dispensados de prestar culto às divindades do império romano, tinham o direito de observar o sábado, de praticar seu culto e a Lei e participavam do exército - só de judeus - quando necessário. Cada comunidade local tinha suas leis administrativas, estabe1ecia locais para estudo, culto e sepultamentos; oferecia ajuda aos indigentes e mantinha tribunais para julgar disputas entre judeus.

Os judeus fariseus, na tentativa de preservar a identidade como grupo e manter seus interesses, começaram a exigir observância rigorosa da Lei. Havia 613 regras para ser cumpridas. A opressão era muito grande. No interior da sinagoga surgiram alguns grupos, entre eles o grupo dos cristãos, que começaram a relativizar a importância da Lei, pondo em primeiro lugar a vida humana. Isso provocou vários conflitos. Aqueles que não cumpriam a Lei foram perseguidos, torturados e  expulsos da sinagoga, e conseqüentemente estavam sujeitos à perseguição do império romano.

Entre esses grupos, estava a comunidade joanina. Ela teve sua origem entre os judeus que acreditaram que Jesus era o Messias esperado por eles. A guerra dos ju­deus contra os romanos (66 d.C.) provocou a dispersão das comunidades cristãs. Essas comunidades foram para o norte da Palestina e chegaram até a Síria. Em 70 d.C., emigrou para Éfeso.

A comunidade joanina era composta de pessoas po­bres e marginalizadas que começaram a viver de um jei­to novo. Uma comunidade de irmãos e irmãs, unidos não pela Lei, mas pelo amor. Essas pessoas, provavelmente, viviam sob a opressão da Lei. Elas conseguiram ver a proposta cristã como um caminho alternativo. A vivência do amor mútuo e a certeza da presença do Verbo Encar­nado em cada mulher e homem, eram as bases que sus­tentavam e animavam a comunidade joanina. Que for­ça! Que resistência e coragem! Nesta caminhada nasce o evangelho de João.

Estrutura do Evangelho de João: O Evangelho da comunidade de João nasceu do anúncio vivo, da memória de homens e mulheres que guardavam e praticavam os ensinamentos transmitidos por Jesus. É a vida da comunidade, suas lutas e dificuldades, os conflitos vividos com as autoridades judai­cas, com o império romano e com os seus próprios membros em suas diferentes compreensões da mensa­gem de Jesus.

Diante das perseguições e das crises internas e ex­ternas, a comunidade foi sentindo a necessidade de rea­firmar sua própria fé e definir a sua identidade. Para isso, os/as autores/as selecionaram algumas expressões e acon­tecimentos marcantes da vida de Jesus com a finalidade de levar os seus primeiros leitores à fé em Jesus como o Messias, o Filho de Deus presente na história: "E o Ver­bo se fez carne e armou sua tenda entre nós" (1,14).

A situação de perseguição levou a comunidade joanina a usar uma linguagem simbólica, mas que lhe era familiar, com imagens tiradas do cotidiano, da tra­dição judaica e do momento presente. Por exemplo, a apresentação de Jesus é feita através da expressão Eu sou, termo muito conhecido do povo judeu, pois era o nome próprio de Javé (Ex 3,14). A comunidade acres­centa: "Eu sou o pão da vida" (6,35.48.51), "a luz do mundo" (8,12; 9,5), "a porta das ovelhas" (10,7.9), "o bom pastor" (10,11.14), "a ressurreição e a vida" (11,25), "e a verdadeira videira" (15,5). Imagens simbólicas, li­gadas ao cotidiano da vida das pessoas, que revelam o cuidado de Jesus com a vida de seus discípulos e discí­pulas.

 

Ao longo do Evangelho de João há grande variedade de imagens simbólicas. Podemos classificá-las em qua­tro tipos:

  • Símbolos ligados a números: seis talhas de pedras vazias (2,6), uma referência às seis festas judai­cas mencionadas no Evangelho. Os cinco mari­dos da mulher samaritana lembram os cinco po­vos que foram deportados de outras regiões para a Samaria (2Rs 17,24);

 

Objetos: talhas, o poço de Jacó e o cântaro (2,6; 4,12.28) podem ser uma referência à Lei;

  • Natureza: Videira e os ramos (15,1-2), um símbo­lo da comunidade;
  • Personagens: discípulo amado, mulher sama­ritana, Maria de Betânia, Marta e Maria Ma­dalena, representantes da comunidade joanina.

 

O uso de símbolos é uma característica marcante do Evangelho de João. Outra característica importante é o jei­to de os autores e autoras organizarem a estrutura desse li­vro. Pois bem, então vamos ver como esse livro foi planejado.

 

O Evangelho de João pode ser dividido de várias for­mas. Nós escolhemos a estrutura que divide o texto em duas grandes partes: a primeira são os sete sinais reali­zados por Jesus e a segunda o grande sinal: a entrega de Jesus por amor.

 

A primeira (2,1-12,50) e a segunda parte (13,1-20,29) podem ser definidas pelo tema da hora: minha hora não chegou (2,4) versus a minha hora já chegou (13,1). Entre essas duas partes há um texto que marca a passagem de uma para a outra (11,55-12,50), no qual vemos que a hora de Jesus se aproxima.

 

Podemos dividir o Evangelho de João da seguinte forma:

Prólogo -1,1-18: abertura e síntese do livro. No pró­logo encontramos um resumo de todos os temas que se­rão desenvolvidos ao longo do Evangelho.

Seção introdutória - 1,19-51: uma pequena intro­dução na qual aparece João Batista, o seu testemunho a respeito de Jesus e os primeiros discípulos de Jesus.

Primeira parte - 2,1-12,50: na primeira parte a hora de Jesus ainda não chegou (2,4). O Livro dos Sinais apre­senta sete sinais, número que significa perfeição. Os si­nais indicam a realização do tempo messiânico.

1º Sinal (2,1-12): bodas em Caná

2º Sinal (4,46-54): a cura do filho de um funcionário real

3º Sinal (5,1-9): a cura de um paralítico

4º Sinal (6,1-15): a multiplicação dos pães

5º Sinal (6,16-21): Jesus caminha sobre as águas

6º Sinal (9,1-41): a cura de um cego de nascença

7º Sinal (11,1-44): a ressurreição de Lázaro

Passagem -11,55-12,50: a hora de Jesus está se aproximando.

Segunda parte - 13,1-20,29: a hora de Jesus já che­gou: "Sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai" (13,1). Esta parte é conhecida como o Livro da Glorificação. É uma catequese para a comunidade e pode ser subdividida em três unidades:

- Os capítulos 13 a 17 são chamados o livro da co­munidade. Antes de entregar sua vida, Jesus reúne os seus para um jantar de despedida no qual realiza um gesto simbólico e profético: o lava-pés (13,1-20). Nesta ocasião, Jesus faz um discurso de despedida e deixa como heran­ça para a comunidade o novo mandamento do amor mútuo (13,34se 15,12-17); promete que enviará o Espí­rito da Verdade (14,26; 16,12-15), faz uma avaliação de sua vida e missão e reza ao Pai pela unidade (17).

 

Epílogo (20,30-31): a conclusão.

Apêndice (21,1-23): uma nova manifestação de Je­sus aos discípulos.

 conclusão (21,24-25).

Organização do livro

Viver o amor e defender a vida! Um desafio para a comunidade joanina. Um desafio para as comunidades de hoje e para cada pessoa. Este nosso livro também é fruto de uma experiência comunitária. Muitas pessoas se uniram no desejo comum de apresentar às lideranças e assessorias das comunidades alguns roteiros e subsí­dios para a reflexão e oração bíblica nos vários grupos: comunidades, círculos bíblicos, grupos de rua etc.

Quando ouvimos falar de um conflito numa comu­nidade diferente da nossa, logo nos perguntamos: mas qual o problema que essa comunidade está vivendo? E o que ela está fazendo para superar as dificuldades? Junto com as respostas, ficamos sabendo de outras informa­ções, tais como: quem são os membros da comunidade, quem participa, assumindo os compromissos da comu­nidade, e quem apenas é visitante ou turista. Aproximan­do-nos um pouco mais da vida da comunidade, ficamos sabendo como essa comunidade vive e celebra a sua fé, quais são os seus valores, quais os grupos e as pastorais existentes e qual o seu testemunho para o mundo de hoje. Aos poucos, vamos definindo as características desta comunidade.

Adotamos os mesmos passos para conhecer a co­munidade de João. Vamos fazer o seguinte caminho: apresentar as pessoas que fazem parte dessa comunida­de, os seus inimigos, os grupos ou pessoas que assumem a proposta cristã e aqueles que, apesar da simpatia,  preferem continuar no sistema oficial. A reflexão sobre esse tema se dará no primeiro e no segundo encontro (9,1-41; 4,1-30). Em seguida, a prática dessa comunida­de, formada por mulheres e homens que vivem o amor e se unem para lutar por melhores condições de vida. O terceiro e o quarto encontro nos ajudarão a descobrir esse novo jeito de viver (2,1-12; 13,1-17).

A comunidade cristã rompe com o sistema baseado no cumprimento rigoroso da Lei. Isso ameaça a autori­dade dos judeus fariseus. Os cristãos são expulsos da si­nagoga, uma instituição religiosa, política e econômica dos judeus, reconhecida pelo império romano. Com isso, os cristãos passam a ser perseguidos. Em meio a esse sofrimento a comunidade vivencia uma nova relação de comunhão, entendida por nós como a vivência do mistério da Trindade. Esse é o tema do quinto encontro (15,1­17). O amor mútuo é a força que ajuda na resistência, que só se toma possível porque a experiência de Deus, presente e vivo na comunidade é renovada a cada ins­tante. Essa experiência, o seu grupo poderá revivê-la nas reflexões propostas no sexto e sétimo encontro (11,1-44; 20,11-18).

No oitavo encontro (1,1-18) faremos uma reflexão sobre o Prólogo, que apresenta uma síntese de todo o Evangelho, coroando com a mensagem central: "E o Ver­bo se fez carne e habitou entre nós" (1,14). Deus faz morada no meio do povo. Essa certeza motivou a comu­nidade joanina em sua caminhada. Refazer essa mesma experiência nos dá novo ânimo e vigor em nossas buscas e lutas de hoje.

A nossa leitura do Evangelho de João será conduzida pelos seguintes textos:

- 9,1-41: o conflito com os judeus fariseus e a ex­pulsão dos judeus cristãos da sinagoga;

- 4,1-30: os samaritanos participam da comunida­de joanina;

- 2,1-12: as diversas formas de resistência e a pre­sença da mulher como articuladora de uma vida nova;

- 13,1-17: a prática da nova comunidade é o servi­ço, a solidariedade e a partilha;

- 15,1-17: a comunidade precisa de uma mística forte para resistir à perseguição;

- 11,1-44: a mística que une a comunidade é o amor mútuo e a vivência do mistério. É a certeza de que Jesus é o "Cristo, o Filho de Deus que vem ao mundo" (11,27);

- 20,11-18: um dos sinais de ressurreição é a vivência do amor. É a presença do ressuscitado que nos torna capazes de estabelecer relações novas;

- 1,1-18: a nova prática da comunidade não está baseada na Lei, mas na encarnação. "E o Verbo se fez carne e habitou entre nós" (1,14).

A idéia central que perpassa todos os textos do Evan­gelho de João é a certeza de que Deus, o Verbo encarna­do, está entre o seu povo. A sua ordem e a sua herança para a comunidade se resumem nisso: "Amai-vos uns aos outros como eu vos amei" (15,12; 13,34).

 

1 - O CEGO DE NASCENÇA JOAO 9,1-41

 

Situando o texto: De acordo com o ensinamento oficial do Antigo Tes­tamento, as doenças e as desgraças eram consideradas como castigo de Deus por causa do pecado. O fato de as pessoas nascerem com algum tipo de doença era atribuí­do ao pecado dos pais (Ex 20,5; 34,7; Nm 14,18; Jo 9,2.34).

No tempo de Jesus e das primeiras comunidades cristãs, essa crença continuava existindo através das leis dos fariseus e escribas que excluíam os pobres e os doen­tes. Conforme a Lei, interpretada pelos dirigentes da co­munidade judaica, uma pessoa doente era pecadora, con­siderada impura (Mc 7,14-30; 15,25-34) e sua participação na sociedade era limitada; por exemplo, não tinha acesso ao culto. Naquele tempo, havia grande nú­mero de pessoas à margem da sociedade, muitos viviam como mendigos. Vamos ver como esse problema apare­ce na comunidade joanina e responder as seguintes perguntas:

-Por que o cego foi expulso da sinagoga?

-Quais os problemas que a comunidade de João estava vivendo?

Atualização: O cego é uma figura representativa da comunidade joanina. As pessoas que começaram a enxergaraceita­ram a proposta de Jesus. Começaram a viver de um jeito novo. A Lei passou a ser vista e vivida em função da vida. A comunidade cristã tentou não criar divisões entre as pessoas e viver a solidariedade, que se manifesta através dos gestos de Jesus com o cego. Para os cristãos, a vida era maior que a Lei. Isso incomodou as autoridades judai­cas e os cristãos acabaram sendo expulsos da sinagoga.

- Hoje, quais são os preconceitos que nos separam uns dos outros, como, por exemplo, o preconcei­to contra as mulheres?

- De que cegueira precisamos nos libertar para ser­mos verdadeira comunidade de irmãos e irmãs?

- O que fazemos em favor dos deficientes em nos­sa casa e em nossa comunidade?

Situando o texto no contexto: o cego de nascença é figura que representa o gru­po de pessoas que começaram a enxergar, na proposta cristã, um novo jeito de viver: um projeto de vida ba­seado no amor e na solidariedade. Isso provocou uma ruptura no esquema proposto pelos judeus fariseus, que exigiam o cumprimento da Lei. Os judeus fariseus, acusaram os judeus cristãos de ser infiéis às exigên­cias da Lei de Moisés, interpretadas pelos escribas. A vivência dos cristãos acaba afirmando: a vida vale mais do que a lei. E isso provoca uma reviravolta: tira a sus­tentação ideológico-religiosa do cumprimento da Lei e da cobrança de tributos. Por isso, os judeus cristãos passam a ser perseguidos por todos aqueles que viviam do Templo e dos cultos e viam diminuir suas fontes de renda.

Os conflitos aumentaram, culminando com a expul­são dos judeus cristãos da sinagoga. Isso aconteceu por volta do ano 85 d.C. Separados da comunidade judaica, os cristãos ficaram sem proteção, sem trabalho, sem re­lações sociais e comerciais, separados de sua tradição religiosa, dos serviços e ritos religiosos. Portanto, sem a religião judaica farisaica, permitida pela lei do império, os judeus cristãos deveriam assumir outra religião que fosse reconhecida pelos romanos, caso contrário seriam vistos como inimigos.

Roma impunha a sua religião: o culto ao imperador. Não aceitar a religião do Estado significava ir contra ele e ser tachado de subversivo. O culto ao imperador se chocava com a consciência cristã. Os cristãos eram con­siderados inimigos do Estado havia muito tempo. Por isso eram vigiados e tidos como responsáveis por todas as desgraças que aconteciam na cidade. Em Roma, os cristãos estavam fichados nos registros da polícia.

A situação da comunidade era de muita inseguran­ça. De um lado, as autoridades religiosas e do império mantinham sobre ela uma contínua vigilância. O me­nor deslize seria motivo para denúncia, prisão, tortura e apedrejamento. De outro lado, a multidão passou a ver os cristãos como pessoas suspeitas, gente perigosa e imoral.

Naquele tempo, era o Estado que concedia às pes­soas o direito de se reunir em associações. Os cristãos não tinham esse direito. O simples fato de se reunir era motivo de denúncia por perturbar a ordem e a seguran­ça da nação. As pessoas mais pobres tinham o direito de se reunir para ajuntar fundos para os funerais. É possí­vel que muitos cristãos tenham se reunido através des­sas associações, daí o nome de cristãos das catacumbas.

Essa situação de dor e exclusão obrigou o grupo dos judeus cristãos a definir qual era a sua verdadeira identidade, a reconhecer Jesus como o Filho do Homem (9,35-38).

Comentando o texto: Na festa das Tendas, Jesus sobe a Jerusalém e ensi­na no Templo (7,14); entra em choque com os fariseus e escribas e se vê obrigado a se retirar às escondidas (8,59).

Ao sair do Templo, vê um cego de nascença e se aproxi­ma. Além da doença física, o cego sofria de outro mal: o isolamento e a solidão. Com o gesto de se aproximar, Je­sus ultrapassa a Lei e privilegia a vida.

A cura do cego é um dos sinais escolhidos pela co­munidade joanina para mostrar que Jesus é o Filho de Deus (9,1-7). O cego representa a comunidade. Ele não se encontra no Templo, mas no caminho. Conforme a Lei de Moisés, interpretada pelas autoridades judaicas, a doença era conseqüência do pecado. A comunidade cris­tã apresenta uma nova visão: não, a doença não está re­lacionada ao pecado, mas pode servir para a manifesta­ção da obra de Deus (9,3). E a obra de Deus é que o ser humano tenha vida e uma vida saudável, que as pessoas tenham casa, comida, integração social, enfim, que elas vivam plenamente (10,10).

Os vizinhos, acostumados com o cego vivendo na mendicância, estranham. As pessoas dentro do esquema oficial não conseguem entender a transformação daque­les que vivem uma nova proposta de vida (9,8-12). Dian­te dos questionamentos e do conflito, o cego se define e assume a sua própria identidade (9,9). Ele conta como foi a sua cura e o fato de Jesus mandá-lo à piscina de Siloé para se purificar, único local oficial de cura: "Fui, lavei-me e recobrei a vista" (9,11).

As pessoas que vivem o sistema estabelecido pelo judaísmo farisaico e pelo império romano, inconforma­das diante desse novo fato, levam o cego para as autori­dades judaicas (9,13-17). Os mestres e os doutores da Lei não aceitam que a salvação aconteça fora do domínio deles. Isso prejudica sua organização e sua fonte de renda. Como o cego insiste em sua versão sobre a cura, as autoridades convocam os seus pais para um interro­gatório (9,18-23). Os pais não tomam partido, não ex­pressam nem mesmo a alegria diante da cura, porque  aqueles que reconhecessem Jesus como o Cristo seriam expulsos da sinagoga (9,22).

E o julgamento continua. Novamente o cego é con­vocado para um interrogatório (9,24-34). Neste interro­gatório, o cego tem maior autonomia: ele desafia, de maneira irônica, as autoridades: "Por que quereis ouvir novamente? Por acaso quereis tornar-vos seus discípu­los?" (9,27). Tem a ousadia de questionar o conceito de pecador imposto pelos fariseus: "Sabemos que Deus não ouve os pecadores, mas se alguém é temente a Deus e faz a sua vontade, a este Deus escuta" (9,31). O cego vai além, ao afirmar que, se aquele homem não fosse de Deus, nada poderia fazer (9,33). A conseqüência de ter sido curado, de abrir os olhos, é uma maior conscien­tização e não-aceitação da opressão. Isto leva à expul­são (9,34).

A comunidade experimentou, através de Jesus, a gratuidade do amor de Deus, por isso conseguiu perma­necer fiel diante da pressão do sistema dominante: o império romano e os judeus fariseus. Ao ser expulso da sinagoga, o cego reconhece Jesus como o Filho do Ho­mem: "Eu acredito, Senhor" (9,38). É somente após a aceitação e a fidelidade das pessoas que Jesus se revela como o Messias (4,26; 9,37).

Neste Evangelho temos dois grupos bem definidos (9,40-41): de um lado está o ex-cego - o grupo dos ju­deus cristãos. De outro, estão os judeus fariseus, os que se julgam esclarecidos (9,16.22.24.29.34), mas que na realidade são incapazes de reconhecer Jesus presente e vivo na comunidade. Eles permanecem em sua ceguei­ra porque recusam o projeto da partilha e da solidarie­dade. É como diz o povo: "O pior cego é aquele que não quer ver".

Aprofundamento: Quem se opõe à comunidade e a perse­gue?

No Evangelho de João a palavra mundo aparece 78 vezes, com os, seguintes sentidos: planeta como espaço físico (1,10; 3,16), humanidade (3,17) e os inimigos (8,23; 15,18-19; 16,11; 17,6.14.16). O uso mais comum da pala­vra mundo, neste Evangelho, é o de nomear as pessoas que faziam oposição à comunidade: os judeus fariseus e o império romano. O grupo dos fariseus tem sua origem no grupo dos piedosos, homens fiéis à Lei de Moisés. A preocupação deles era com o estudo e o ensino da Lei. Após a destruição do Templo (70 d.C.), os judeus fariseus se tornaram o grupo dominante, aliado dos romanos e perseguidor dos cristãos.

O domínio do império romano, vigente desde 63 a.C. até o século III, foi um período de muita crueldade, tira­nia e opressão. Nesse período, os saques às cidades e as guerras eram constantes. Após o ano 70 d.C., com os im­peradores Tito e Domiciano, seguiu-se um tempo marca­do por perseguições às doutrinas e religiões diferentes da religião do império, caracterizada pelo culto aos impera­dores. No fim do século I, sob o governo de Domiciano, o culto dos cristãos foi declarado como religião ilícita e eles foram perseguidos como inimigos do império. Os cristãos eram torturados, muitos foram mortos.

O medo e a insegurança faziam parte do cotidiano da co­munidade cristã. Muitas pessoas eram simpáticas ao pro­jeto cristão, mas, devido ao estilo de vida dos cristãos, ou por medo das autoridades judaicas, não assumiam essa nova proposta de vida. Nesse grupo encontramos:

- Membros do grupo de João Batista: os primeiros discípulos de Jesus vieram do grupo do Batista. Porém, alguns seguidores desse grupo não acei­taram a comunidade cristã, porque eram apegados à mentalidade judaica e preservavam o con­ceito de judeu como povo escolhido. No Evange­lho de João há muitas descrições que realçam a superioridade de Jesus em relação a João Batis­ta (1,8.15; 3,30-31; 5,33-36; 10,40-42).

Pais do cego: experimentam a gratuidade e o amor de Deus, mas, por medo dos judeus fariseus, não se comprometem (9,20-22).

- Nicodemos e José de Arimatéia: representam pes­soas importantes da comunidade judaica. São simpáticos à comunidade cristã, mas não o sufi­ciente para abrir mão de seus privilégios e status social (3,1; 7,50; 19,38). Nicodemos, por exem­plo, não aceita o batismo na água (3,5-7). Naque­le tempo, ser batizado na água tinha o sentido de uma confissão pública e social da própria fé.

Assumir a proposta cristã nos dias de hoje continua sendo um desafio. Não vivemos num contexto de perse­guição religiosa, mas estamos inseridos e inseri das numa realidade onde impera a morte. A cada dia que passa au­menta o número de excluídos e excluídas, cresce o desem­prego, a exploração e as injustiças. Nosso compromisso como seguidores e seguidoras de Jesus é ouvir e assumir a causa dos pobres, dos oprimidos e oprimidas (Ex 3,7).

A comunidade joanina nasceu com pessoas que es­tavam sofrendo com o império romano e com o judaís­mo farisaico. Elas começaram a buscar uma forma al­ternativa de viver, experimentaram a solidariedade e a partilha. Mas quem eram essas pessoas? A que grupo pertenciam? Quais os conflitos que enfrentaram para le­var avante o projeto cristão? Certamente você tem as suas respostas para essas questões! Que bom, vamos dialogar sobre isto no próximo encontro.  Até lá!

 

3 - Bodas de Caná: João 2,1-12

 

Uma festa sempre apro­xima as pessoas, faz superar as barreiras que existem entre nós e faz vencer a luta. O que significa para nós organizar ou participar de uma festa?

 

Hoje vamos ler o texto sobre as bodas de Caná: uma festa de casamento. Esta festa acontece no am­biente familiar, entre amigos, no espaço da casa, onde as pessoas são acolhidas e amadas. E nesse espaço a mulher tem uma atuação decisiva: ela organiza, prepara e cuida de todos os detalhes, para que tudo saia bem e nada falte.

 

No tempo de Jesus, o casamento era um acontecimento muito importante na vida da aldeia, en­volvia a todos. Esta festa tinha a duração de vários dias; era uma ocasião para reunir os parentes e os amigos pró­ximos e distantes. Na festa não podia faltar o vinho. Na re­gião da Palestina se produzia muito vinho, por isso era uma bebida muito comum nas refeições. O vinho era sím­bolo do amor e da alegria, considerado como dom de Deus e sinal de prosperidade (Jz 9,13; Sl 104,15; Zc 10,7). Nas festas o vinho devia ser abundante (1Sm 25,36; Sb 2,7), era considerado como uma bênção de Deus (Dt 7,13; Is 62,2). Se faltasse o vinho, a família ficaria numa situação constrangedora. Seria um vexame! Vamos ler, com muita atenção, a história desta festa: João 2,1-12

 

Situando o texto: Como é característico no Evangelho de João, a nar­rativa das “bodas de Caná” é carregada de simbolismo e teologia: “casamento”, “vinho”,“mulher”, “minha hora”, “seis talhas de pedra com água para a purificação”, “o mestre da cerimônia” etc. A linguagem simbólica é rica e inesgotável em sua interpretação, mas exige conhe­cimento dos símbolos do contexto cultural do povo no qual o texto é escrito. Em João, os significados de seus símbolos devem ser compreendidos, em grande parte, a partir do Antigo Testamento.

 

O casamento é a festa da relação de amor que, aben­çoada pelas famílias e pelo mesmo Deus, gera alegria e vida. No tempo do Antigo Testamento, o casamento era celebrado durante sete dias com banquetes de confrater­nização, e, nesta ocasião, o noivo pagava o dote ao pai da noiva.

 

A imagem de casamento é o símbolo da aliança en­tre Deus e seu povo. E a restauração da feliz união com Deus, que gera a produção, o fruto, a bênção e a alegria: “Aqueles que colhem o trigo também o comerão, louvan­do a Javé. Aqueles que colhem as uvas também beberão o vinho nos átrios do meu santuário” (Is 62,9). O trigo, o vinho, a vida e a alegria no ato religioso de agradecimento a Deus! Aqui, a imagem do vinho é sinal do dom de Deus para a alegria e a prosperidade das pessoas.

 

No Antigo Testamento, o vinho é símbolo frequente de alegria e de amor (Sl 104,15;  Jz 9,13; Ct 1,4). O vinho é, também, o símbolo do banquete messiânico da salvação de Deus: “Javé dos exércitos vai preparar no alto deste monte, para todos os povos do mundo, um banquete de carnes gordas, um banquete de vinhos finos, de carnes suculentas, de vinhos refinados” (Is 25,6). E mais ainda: “A abundância de vinho é o sinal do tempo messiânico da salvação!” (Am 9,13-15).

 

Nas bodas de Caná é exatamente o vinho, símbolo do amor de Deus e de sua salvação, que está faltando, um relato fortemente simbólico. Acabar o vinho é uma lástima. Falta a alegria, a felicidade e a vida na festa da comunidade. Ou seja: a manifestação do amor e da glória de Deus para o povo estava desaparecendo no tempo da comunidade joanina. A Aliança está quebrada! Então, o que estava acontecendo com o povo? Qual era a causa? No relato das Bodas, há "seis talhas de pedra vazias”, o que pode indicar excessiva preocupação com rituais, dogmas e doutrinas, e descuido do amor e do cuidado mútuo como causas que aprisionam e dificultam o amor e a união de Deus com o povo.

 

No tempo da comunidade joanina, por volta do ano 95 d.C., os judeus fariseus, chefes religiosos judaicos, exigem a observância rigorosa da lei do puro e do impu­ro como meio de obter a bênção e a salvação de Deus, multiplicando os ritos de purificação e as leis. Havia no total 613 leis a serem observadas! As pessoas que não cumpriam as leis eram condenadas como "impuras” diante de Deus, perseguidas (15,20), torturadas e expul­sas da sinagoga, centro comunitário dos judeus (16,2). Consequentemente, elas ficavam sujeitas à perseguição do Império Romano, que reconhecia os judeus fariseus como único grupo representativo do povo judeu. O Evan­gelho de João é o único escrito que teve sua redação final pós a expulsão da sinagoga. Fora da sinagoga, o grupo que segue Jesus não tem sua religião reconhecida pelo Império e perde seus direitos de cidadania. Ser desligado da sinagoga significa ter o nome proscrito, riscado da lista das famílias judias.

 

Na religião oficial, administrada pelos judeus fari­seus, a água em seis talhas de pedra servia para os ritos de purificação dos judeus. Simboliza a observância re­ligiosa das leis do puro e do impuro, transformando a vida do povo numa vida sem alegria. A vivência do amor foi substituída pelo ritualismo, dogmatismo e pelas leis do puro e impuro. A aliança fora rompida, e era preciso restaurar a união de Deus com o povo. O texto, que foi acrescentado ao livro de Oseias na desolação e destruição do exílio, anuncia a nova aliança de Israel com Javé: Naquele dia, farei em favor deles uma aliança com os animais do campo, com as aves do céu e com os répteis da terra. Exterminarei da terra o arco, a espada e a guerra. Então, vou fazê-los dormir na segurança. Eu me casarei com você para sempre. Eu me casarei com você na justiça e no direito, no amor e na ternura (Os 2,20-21).

 

No exílio, o grupo profético propõe a nova aliança com Deus “na justiça e no direito, no amor e na ternura”. Anima e fortalece a esperança do povo. A comunidade joanina, como o povo judeu exilado, vive a mesma situa­ção: tempo de opressão, perseguição e desolação. Qual a proposta da comunidade joanina para animar seus mem­bros? De que forma ela deve restaurar a aliança de Deus com o povo “na justiça e no direito, no amor e na ternura”?

 

A resposta da comunidade está na palavra e na prática de Jesus de Nazaré. A comunidade aponta Jesus, aquele que dá a esperança e a vida. E por isso que o evangelho de João inicia o Livro dos Sinais - primeira parte do Evangelho - apresentando uma releitura da vida de Jesus. O primeiro sinal está no texto das bodas de Caná. Para refletir a prática da comunidade joanina, que transforma a água da purificação em vinho, vamos dialogar com o texto.

 

Comentando o texto: Jo 2,1-11 - As bodas de Caná

Uma festa de casamento numa aldeia é um aconte­cimento que marca o primeiro dos sete sinais, realizados por Jesus. É um sinal importante para entender os demais sinais, bem como todo o Evangelho de João: é a inaugu­ração do tempo messiânico, da nova e definitiva aliança em Jesus Messias: "Este foi o princípio dos sinais, e Jesus o fez em Caná da Galileia e manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele” (2,11).

 

O palco da inauguração do tempo messiânico, de maneira simbólica, é preparado logo na primeira frase da narrativa: "Três dias depois, houve um casamento em Caná da Galileia” (2,1). Na Bíblia, o terceiro dia é o momento da manifestação de Deus: é o dia da entrega da Lei ao povo (Ex 19,11.1546), como também o dia da salvação de Deus (Os 6,2). É no terceiro dia que Deus ressuscitou Jesus (2,18-19). O primeiro sinal em Caná é o começo de um novo tempo: da nova aliança com Deus “na justiça e no direito, no amor e na ternura” (Os 2,21).

 

E mais ainda: o sinal das bodas de Caná acontece três dias após os quatro dias iniciais, ou seja, no sétimo dia do relato de uma semana que abre a atividade de Jesus (1,19-51). Bem como o Gênesis (Gn 1,1-2,4a), com uma semana, a comunidade joanina apresenta também as atividades de Jesus como a realização de uma nova criação: a nova comunidade daqueles que acreditam em Jesus como salvador e que seguem a sua prática de amor, igualdade, serviço, liberdade e fraternidade. Na narrativa das bodas de Caná, a inauguração dessa comunidade com a nova aliança com Deus é apresentada através de vários objetos e personagens simbólicos.

 

A primeira personagem mencionada é a mãe de Jesus: ela estava lá (2,1). Em seguida, ficamos sabendo que Jesus foi convidado, bem como os seus discípulos. A presença da mãe recebe um destaque especial no início e no fim da missão de Jesus (2,1; 19,25-27). A mãe de Jesus não é mencionada pelo nome, pois o interesse principal é a apresentação de quem é Jesus.

 

Nessa festa de casamento falta vinho! Na região da Palestina se produzia muito vinho, por isso era uma bebi­da muito comum e importante nas refeições. O vinho era símbolo do amor e da alegria, considerado como dom e bênção de Deus (Dn 7,13; Jl 2,24). A mãe, como perspecti­va crítica dos limites da religião oficial, toma a iniciativa e avisa Jesus; ela não faz pedido algum, apenas afirma: “Eles não têm mais vinho!” A resposta de Jesus nos causa estranheza: “Mulher, que temos a ver com isso? Minha hora ainda não chegou” (2,4). O termo "mulher” é um tratamento normal para uma senhora (19,26; 20,13.15).

 

A expressão “que queres de mim” mostra que há in­teresses diferentes ou mesmo suspense (2Sm 19,23; Mc 1,24), mas não hostilidade ou desprezo. Com essa frase, Jesus afirma sua plena autonomia diante de sua missão (7,1-13; 11,3-6). Ao afirmar “a minha hora ainda não chegou”, Jesus sugere que esta ação é apenas um sinal, mas não a sua obra final, que acontecerá quando chegar a sua hora: o momento da entrega de sua vida (13,1).

A mãe cheia de confiança afirma: “Façam o que ele acaso disser”. Mesmo não sabendo qual é o projeto de Jesus, ela exorta os serventes para que acolham e sigam as indicações de Jesus. A palavra usada para serventes é "diáconos”, termo que quase não aparece nos escritos, mas era comum nas comunidades cristãs para indicar serviço à comunidade. A presença da “mãe” e dos “ser­vos", com espírito de sensibilidade, abertura e serviço, na narrativa da inauguração do tempo messiânico, é muito significativa. Na história da Bíblia, as mulheres e os homens sensíveis à realidade e abertos ao próximo ajudam a renovar a aliança com Deus.

 

No contexto da renovação da aliança, a recomen­dação da mãe aos servos pode representar uma alusão às palavras do povo no Sinai: "Faremos tudo o que Javé mandou” (Ex 19,8). Nesta cena, a mãe representa o Anti­go Israel fiel ao projeto de Deus. É uma parcela do povo que compreende que a antiga aliança foi desvirtuada, há excesso de leis - muita água - e pouco vinho - pouca vida. A antiga aliança não está trazendo vida para as pessoas; Jesus inaugura a aliança nova com a proposta de vida plena.

 

Da mesma forma que Maria estava lá, também ha­via seis talhas de pedra, de duas ou três medidas, com cerca de oitenta a cem litros cada uma. De acordo com o Talmude (literatura rabínica), as talhas deviam ser de pedra, por causa da pureza. Será que elas estavam aí por causa das purificações rituais tão valorizadas pelo judaís­mo farisaico? Essas talhas estão vazias, sem utilidade, e agora irão servir para uma nova realidade. Jesus manda que eles encham as talhas com água. A água no judaísmo também é um símbolo da Torá, como também as talhas de pedra, que lembram as tábuas de pedra em que foi escrita a Lei (Ex 31,18; 32,15). Água tem bastante, o que falta é o vinho, símbolo da alegria messiânica.

 

Outro elemento interessante é o fato de haver seis talhas de pedras. O número seis significa algo incompleto, por oposição ao número sete, que indica a totalidade. Seis é também o número das festas apresentadas no Evangelho de João, sendo três páscoas: 2,13; 6,4; 11,55; uma festa anônima: 5,1; a festa das tendas: 7,2; a da de­dicação do templo: 10,22. Essas festas, como as talhas, estão vazias. As autoridades judaicas transformaram as festas em momento de exploração e opressão justificadas pela Lei. As festas e a Lei de purificação são imperfeitas, não trazem vida em plenitude. Elas serão substituídas pela Páscoa de Jesus, a festa da vitória do amor sobre a morte (19,42).

 

A água foi levada ao chefe da cerimônia, que ao pro­var exclamou que o vinho bom foi guardado até agora! (2,10). Esse vinho trazido por Jesus é o restabelecimento da relação de amor entre Deus e o povo. A cena de Caná está em oposição à Lei: “A Lei foi dada por Moisés, mas a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo” (1,17). O vinho bom é oferecido ao chefe da cerimônia, representando os dirigentes judaicos que mostram des­conhecimento de onde provém este vinho, ou seja, não reconhecem a Jesus: a Palavra "veio para os que eram seus, mas os seus não a receberam” (1,11).

 

Olhando para a cena de Caná, podemos ver que a Mãe representa o Israel, que sente falta do vinho, enquan­to o chefe da cerimônia representa os judeus que estão preocupados com a água para a purificação. A Mãe é o grupo que é sensível e solidário, que vê a necessidade do povo, que acredita e espera pelo Reino de Deus. Mas o chefe da cerimônia, ou seja, os dirigentes judaicos estão satisfeitos e querem, a todo o custo, manter a antiga aliança, que já está vazia, e não traz vida e alegria.

 

O motivo principal do conflito no episódio das bodas de Caná é a Lei, simbolizada pelas talhas de pedra vazias. A Mãe quer, avisa e ensina uma religião com mais vida e amor em vista de uma sociedade na qual todas as pesso­as tenham vida em abundância (10,10), ao passo que o chefe da cerimônia prefere manter a ordem vigente. Essa posição será encontrada em todo o Evangelho de João e um lado, os judeus que acreditam e aderem ao proje­to de Jesus e, de outro, os grupos que rejeitam qualquer mudança e defendem seu sistema. E nós, qual a posição que assumimos em nossa vida e em nossas comunidades?

 

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4-  Videira e os Ramos: Jo 15,1-17

As seguintes pessoas, santas e mártires de hoje, ligadas à luta pela terra (Margarida Alves), pela ecologia (entre outros, Chico Mendes), pela liberdade (um exem­plo, Zumbi), deram suas vidas em favor da vida. Foram pessoas que tiveram a cora­gem de denunciar as situações de injustiça, de vio­lência, de pobreza e de miséria nas quais vivem mi­lhares de nossos irmãos e irmãs.

- Na família, na comunidade, no trabalho, na ci­dade, nós conhecemos pessoas que sofrem por causa do serviço da justiça e da solidariedade?

Ainda hoje encontramos pessoas corajosas, que as­sumem com garra a luta por condições dignas de vida. A comunidade de João assume o projeto de Jesus.

Os cristãos puseram a vida acima da Lei. Essa atitu­de mexeu no sistema econômico e religioso dos judeus fariseus, por isso os cristãos foram perseguidos e acaba­ram expulsos da sinagoga, uma organização que garan­tia a vida e a proteção das pessoas que estavam a favor do sistema. Dessa forma, a vida para as pessoas ou gru­pos excluídos da sinagoga tornou-se mais difícil: ficavam sem proteção, sem emprego, sem os serviços religiosos, principalmente sem o lugar para ser enterrado, sem di­reito à participação nas decisões da comunidade e ex­postos à perseguição do império romano. Vamos ler Jo 15,1-17 e procurar perceber qual era a fonte de força (a mística) que sustentava a vida da comu­nidade.

Situando o texto: Os capítulos 13 a 17 do Evangelho de João consti­tuem o chamado Livro da Comunidade. São princípios orientações práticas dirigidas aos discípulos e às discí­pulas para desenvolverem uma vivência comunitária ca­paz de sustentar, animar e ajudar a permanecer fiel nas perseguições.

Como já falamos, neste período, por volta do ano 90 d.C., os cristãos estavam sendo perseguidos pelas autori­dades do judaísmo oficial e pelo império romano (11,53; 12,10). Fora da sinagoga, as condições de vida eram muito difíceis. Por uma questão de sobrevivência, muitos esta­vam abandonando a comunidade cristã.

No Livro da Comunidade (13-17) há uma série de discursos que têm como objetivo ajudar as pessoas a per­manecer fiéis ao projeto da justiça e da solidariedade. Daí a insistência na palavra "permanecer" em Jo 15,1-17 (onze vezes). É a convivência na comunidade que sus­tenta a fidelidade. São as pequenas conquistas que aju­dam as pessoas a não desistir do projeto comunitário.

A comunidade joanina estabelece para si alguns prin­cípios, entre eles destacamos: 

- Deus está presente em cada membro da comuni­dade (14,20.23).

- Consciência da igualdade: é uma comunidade sem hierarquia, tanto na realidade vivida em fa­mília como em grupo. Uma comunidade que busca eliminar as diferenças entre patrão e em­pregado, servo e senhor, em que todos são discí­pulos e discípulas de Jesus, chamados a servir e amar até o fim (13,1.14-15;15,12-13).

- Na comunidade ninguém é excluído, nem mes­mo o inimigo (13,26).

- O amor mútuo é a força que cria e unifica a co­munidade: Como eu vos amei, amai-vos uns aos outros. Nisso conhecerão todos que sais meus dis­cípulos, se tiverdes amor uns pelos outros (13,34­35; 15,12; lJo 4,11).

- A prática do serviço e da solidariedade é conse­qüência natural da vivência do amor (13,14-15; 15,13).

- A nova sociedade exige romper com o sistema injusto e não ter medo da perseguição, tortura, exclusão e morte (15,18-16,4). A ordem é resis­tir!

- A comunidade cristã continua a missão de Jesus (17,18-20).

O que une e dá nova vida à comunidade são as novas relações fundadas no amor e no compromisso. No capí­tulo 15,1-17 o símbolo da videira e os ramos é um exem­plo que nos ajuda a compreender melhor o sentido de per­manecer, de continuar, de resistir e de amar até o fim.

Comentário ao texto: No Antigo Testamento, a vinha era uma imagem muito usada para representar o povo de Israel (Os 10,1; Is 5,1-7; Jr 2,21; Sl 80,9). A imagem da videira e os ramos era uma linguagem do cotidiano, fácil de com­preender, pois o cultivo de uvas na região era muito co­mum nos tempos antigos. Todos conheciam os cuidados que se devia ter com uma vinha.

Uma vinha necessita ser protegida (Pr 24,31), capi­nada (Pr 24,30), irrigada (Is 27,3) e podada (Jo 15,2), cuidados que exigem tempo e dedicação. Dizer que o povo de Israel é a vinha significa a experiência de seramado/a por Deus, de um Deus que oferece carinhos especiais, um Deus que é seu aliado na luta pela vida. Um Deus peregrino como o povo e sempre presente. E a comuni­dade joanina renova essa mesma experiência: ela sente, através de Jesus, Deus como parceiro em suas buscas de melhores condições de vida.

A imagem da videira e os ramos nos ajuda a com­preender a origem e a vivência da comunidade. Numa videira, todos os ramos estão ligados ao tronco. É dele que vem a seiva, a essência que garante a vida. Para que o ramo continue vivo, ele depende do tronco. Cada ramo se desenvolve de maneira diferente, porém todos bebem da mesma fonte. O fruto é o resultado da ligação entre as raízes, o tronco, os ramos e as condições necessárias para que a planta se desenvolva. O que faz circular a vida é a seiva.

No Evangelho de João, ao aplicar essa imagem à comunidade, podemos entender o seguinte: a comuni­dade cristã tem a sua origem em Jesus. É ele que convo­ca a comunidade e lhe dá unidade, e faz desse grupo fi­lhos e filhas de Deus (1,12). O amor é que une as pessoas e também é condição para que Deus faça sua morada na comunidade (1,14; 15,10). O único fruto que se espera dessa comunidade é o amor: "Isto vos mando: amai-vos uns aos outros" (15,17;13,34).

A comunidade se constrói na convivência, que se baseia no amor e se expressa no empenho concreto das pessoas para defender a vida. Esse caminhar não é mui­to fácil, não. Há sofrimentos que podemos comparar com as podas. Porém, elas são necessárias para que se produ­zam mais frutos, e frutos de vida. A vivência dos cris­tãos, do projeto de amar até o fim, entra em confronto com a sociedade injusta; portanto, permanecer implica correr risco de vida!

A nova comunidade tem sua prática baseada na nova justiça e em novas relações: "Eu vos chamo de amigos ... eu vos escolhi" (15,15-16). Numa comunidade de amigos e amigas, todos são iguais, ninguém é estrangeiro ou es­trangeira. O sonho da comunidade joanina era viver e construir uma sociedade baseada no amor, na partilha e na solidariedade.

Nesse projeto, Deus se manifesta como Pai-Mãe, aquele que chama a comunidade à vida. O Deus Filho se manifesta no amor presente e atuante no meio da comu­nidade. E quem sustenta, anima e ajuda na resistência é o Espírito de Deus, que é dinamismo, vida nova, seiva que faz circular a vida.

Aprofundamento: O que é a Trindade? Em todo o Evangelho de João é possível perceber uma preocupação concreta com os problemas que a co­munidade está vivendo. A proposta cristã é um projeto voltado para os pobres, doentes, marginalizados e opri­midos. Um projeto cuja essência é o amor vivido de ma­neira plena, no cuidado amoroso de uns para com os outros.

Quem ajuda a comunidade a permanecer firme nes­se novo projeto é o Espírito de Deus, a seiva, aquele que permite a cada membro perceber e intuir as necessida­des concretas da comunidade, de cada pessoa, e entrar na luta pela vida. Uma luta que implica risco de vida. E só aceitamos correr esse risco quando amamos. Portan­to, a comunidade de João procura manter vivo o amor, o único mandamento de Jesus para a comunidade. É no amor que Deus se faz presente: "Se alguém me ama, guar­dará minha palavra e o meu Pai o amará e a ele viremos e nele estabeleceremos morada" (14,23).

Essa experiência é a vivência da Trindade, que só é possível compreender através do amor. Mas o que é viver a Santíssima Trindade? Diante dessa pergunta, uma cri­ança de 9 anos, com os braços abertos, disse: É a gente viver o amor em comunidade, e pronto! Os braços bem abertos complementam as palavras. Na realidade é isso: à medida que abrimos nossa casa e nosso coração para acolher as pessoas é que nos tornamos mais próximos de Deus e vivenciamos a experiência de Deus comunhão: vida, amor e comunidade - Pai, Filho e Espírito Santo.

A comunidade de João também viveu a sua expe­riência da Trindade de maneira muito concreta. Ela apre­endeu que existia uma profunda sintonia entre Jesus e o Pai: Eu estou no Pai e o Pai em mim (14,11); eu e o Pai somos um (10,30). Só conhecemos o Pai através do se­guimento a Jesus (14,6). E a vida de Jesus é doação total de si. Seguir Jesus exige assumir a sua prática: "Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos" (15,13).

Amar até o fim (13,1) era o objetivo da comunidade de João. Assumir esse compromisso tornou-se realidade pela presença do Espírito, aquele que é o doador da vida e que orienta a comunidade em sua prática da justiça (14,26; 16,13). O Espírito é o protetor e defensor, aquele que consola e sustenta na provação (15,26;16,8-10). En­fim, a comunidade viveu a experiência do Espírito como vento que sopra onde quer (3,8), como aquele que prote­ge a comunidade em todas as circunstâncias, como água viva que sempre se renova (7,38), produzindo nova energia, novo vigor, e tornando as pessoas capazes de viver a solidariedade, a partilha e o amor até o fim.

No Evangelho de João, a experiência da Trindade é expressa no novo relacionamento entre as pessoas. Atra­vés do relacionamento com os irmãos e irmãs nos rela­cionamos com Jesus; aproximando-nos de Jesus, nos aproximamos do Pai, que faz surgir em nós uma nova vida: a prática do amor solidário (lJo 4,12.20-21; Mt 25,31-46).

A imagem da videira ajuda-nos a perceber a profun­da unidade que existe na nova comunidade. Ela faz a experiência de Deus que cuida, protege e lhe garante vida nova (10,1-6). Hoje somos chamados e chamadas a refa­zer a nossa experiência da Trindade, a renovar o sentido de viver em comunidade e deixar-nos conduzir pelo amor que possibilita o nosso empenho concreto em favor da vida. No próximo encontro vamos conhecer, mais de per­to, a comunidade de Betânia: Lázaro, Maria e Marta, a comunidade do amor e da vida.


5- A Ressurreição de Lázaro - Jo 11,1-44

O que significa viver em comunidade? Viver em comunidade é...

A comunidade joanina estava passando por um mo­mento muito difícil. Os cristãos estavam sendo persegui­dos, torturados e alguns foram mortos. Outros abando­naram a comunidade. Diante dessa situação, eles relembram a história da família de Lázaro, Marta e Maria, da comunidade de Betânia, que significa "casa do pobre". Nessa comunida­de encontramos Lázaro, cujo nome significa "Deus que ajuda", aquele que não abandona; Maria, aquela que é muito "amada" por Deus; e Marta, "a dona da casa", mu­lher sensível e acolhedora.

A comunidade era formada por pobres, preferidos e amados por Deus; de pessoas que acolhem, amam e ser­vem uns aos outros. Essa vivência é muito importante para resistir às perseguições.

Vamos ver (Ler 11,1-44) como essa comunidade viveu a sua fé e o seu testemunho e depois ver no texto quais são os personagens que aparecem, as palavras que mais se repetem e os gestos que nos falam do amor que havia entre aquelas pessoas.

Situando o texto: A ressurreição de Lázaro  é o maior sinal realizado por Jesus: é a vida que supera a morte (20,11-18). Ao mesmo tempo, é um anúncio do grande sinal: a ressurreição de Jesus. O projeto de Jesus de uma nova sociedade baseada no amor e na partilha continuou vivo nas primeiras comunidades cristãs. E hoje, as comunidades tentam seguir as marcas deixadas pelos primeiros seguidores e seguidoras de Jesus.

Em Jo 11,1-6 a palavra "doença" aparece 5 vezes. A repetição desse termo reflete a situação de sofrimento e morte provocada pela perseguição. Os judeus que abra­çaram a fé cristã foram perseguidos pelo império roma­no e pelas autoridades judaicas, por isso estavam viven­do uma situação de miséria, sem auxílio e sem proteção. De um lado, o sofrimento econômico: muita gente esta­va passando fome. De outro, o sofrimento religioso: os pobres e os doentes se sentiam castigados por Deus.

De acordo com a teologia da retribuição, a pessoa justa, observante da Lei, era abençoada com vida longa, descendência e prosperidade (Dt 8,1). A pobreza, a doença e a morte eram vistas como castigo de Deus. Jesus, com sua prática, rompe com essa mentalidade, e a comuni­dade, baseada na prática de Jesus, afirma: "...a doença não é mortal, mas é para a glória de Deus, para que, por ela, seja glorificado o Filho de Deus" (11,4).

Comentando o texto: Na comunidade joanina muitos membros estão sendo mortos, porém essas mortes ganham um novo sentido: são fontes de vida e comprovam a prática da comunidade. Lázaro, Marta e Maria representam a comunidade de Betânia, comunidade em que circula uma profunda relação de amizade e amor entre os mem­bros (11,3.5.11.35), capaz de gerar vida nova. Uma co­munidade que necessita da presença de Jesus. No capí­tulo 11 do Evangelho de João vemos que, na ausência de Jesus, há doença (11,6), morte (11,17), sofrimento (11,19), desânimo (11,20). Com a presença de Jesus, as pessoas voltam a acreditar na vida (11,25-27), saem de sua inatividade (11,20.29: atitude de Maria antes e de­pois), surge a solidariedade (11,33-35) e a vida nova (11,43-44).

Jesus recebe o recado, enviado por Marta e Maria, de que Lázaro está doente (11,3). Marta e Maria são ir­mãs de Lázaro. O termo irmão era um tratamento muito comum entre os cristãos após a ressurreição de Jesus (11,1; Ef 6,23; Gl 1,2). Outro modo de trata­mento familiar entre eles era amigo (11,11). Lázaro é o único enfermo que recebe nome próprio (4,46b; 5,3; 9,1). Lázaro é discípulo, tem identidade, é amado: "Vede como ele o amava" (11,36).

Apesar da amizade que une Jesus ao grupo de Betânia, ele demora dois dias para atender o chamado das irmãs. Quando Jesus chega, Lázaro - aquele que Deus ajuda - já está morto há quatro dias. De acordo com a crença daquela época, depois do terceiro dia seria impossível voltar à vida. Jesus encontra um ambiente de luto e tristeza.

Marta, ao receber a notícia de que Jesus está che­gando, sai ao seu encontro. A comunidade, na pessoa de Marta, é chamada a crescer na fé, a superar a crença na ressurreição do último dia (11,24) e a acreditar que Je­sus não é apenas alguém que faz milagres (11,22), mas é a ressurreição e a vida (11,25). Para ser discípulo e discí­pula, é preciso superar as crenças antigas. A comunida­de faz o seu ato de fé: "Sim, Senhor, eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus que devia vir ao mundo" (11,27).

Essa confissão de fé é o ponto alto desse texto, é con­dição para reavivar a esperança, fazer renascer a vida e unir as pessoas. Marta, por sua própria iniciativa, avisa a irmã de que Jesus está na região e a chama. O recado é dado em voz baixa (11,28). Isso indica que havia hostili­dade contra Jesus nos meios oficiais. As comunidades, articuladas principalmente pelas mulheres, sobreviviam às escondidas. Com a presença de Jesus, as pessoas são arrancadas do medo, ganham novo ânimo para a ação (11,29).

O encontro de Maria e Jesus é pleno de sentimentos. Ela se prostra, não tem receio de ser ela mesma, de ex­pressar a sua dor e tristeza. Uma cena comovente: de um lado, estão os judeus que se comovem e choram a morte; de outro, Jesus que se compadece e se comove (11,33). Jesus pergunta: onde o puseram? Maria responde: Se­nhor, vem e vê. Ir e ver indica proximidade, convivência. Jesus, à medida que se aproxima do sofrimento da co­munidade, é solidário e chora (11,35). Ele se dirige ao sepulcro, não para chorar a morte, mas para fazer res­surgir uma vida nova.

Jesus manda retirar a pedra, Marta faz uma obje­ção: "Senhor, já cheira mal: é o quarto dia!" (11,39). No­vamente a comunidade é chamada a amadurecer na fé: "Se creres, verás a glória de Deus" (11,40). O Evangelho de João não usa o substantivo fé, mas sim o verbo crer, para mostrar que a fé é um processo dinâmico que se forja na caminhada, nos acontecimentos e nas experiên­cias que a pessoa/comunidade faz no dia-a-dia.

A vida nova depende da ação solidária e amorosa da comunidade. "E Jesus gritou em alta voz: Lázaro vem para fora!" (11,43). Atenção! É a comunidade que ajuda a ressuscitar Lázaro, desatando-lhe as mãos e os pés. É a comunidade que devolve a vida a seus próprios membros, que se ajuda a libertar-se do medo da morte, do medo que paralisa. No grito de Jesus e da comunida­de está o clamor pela vida! Todos e todas são chamados a sair do sepulcro, a assumir o compromisso com a jus­tiça e, se preciso for, entregar a vida livremente: "Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só; mas se morrer, produzirá muito fruto" (12,24; d. 10,18).

Aprofundamento: que é ressurreição? No antigo Israel não existia o conceito de ressurrei­ção. A pessoa tinha de aproveitar bem a vida, usufruir os bens e as riquezas neste mundo. De acordo com a teolo­gia da retribuição, uma pessoa justa, aquela que cum­pria a Lei, era abençoada por Deus com riqueza e vida longa (Dt 5,33; Lv 18,5; Ne 9,29; SI 112,1-6). Quando uma pessoa morria, era colocada no túmulo e daí ia direto para o reino dos mortos, o Xeol. Conforme a concepção da época, o Xeol ficava nas profundezas da terra (J ó 17,13- 16). Onde havia um túmulo, existia um Xeol. A vida era limitada, a morte era vista como castigo e o fim de tudo (Jó 24,19; Sl 55,16).

No Antigo Testamento, a primeira vez que aparece o tema da ressurreição é no livro de Daniel (12,2-3), escri­to por volta de 164 a.C. E essa mesma crença também é confirmada no período dos macabeus (2Mc 7,9.11.23; 14,46). Diante dos justos que estavam sendo mortos por defender a Lei e a tradição judaica contra o domínio dos gregos, a idéia da morte como o fim de tudo foi se tor­nando inaceitável. Dessa forma se fortaleceu o conceito de ressurreição, para dar sentido à morte dos justos e incentivar os judeus na resistência contra os gregos. A idéia de ressurreição caminhou dependente da teologia da retribuição. É o homem justo que ressuscita, e ser justo significava cumprir a Lei. Acreditava-se que os jus­tos ressuscitariam para a vida eterna e os injustos para a vergonha eterna, para o castigo eterno.

Essa mentalidade também fazia parte da comuni­dade joanina (5,29), porém, diante do contexto de vio­lência, perseguição e morte que ela estava enfrentando, o conceito de ressurreição ganhou novo sentido. Basea­da na prática da justiça, do amor e da misericórdia vivi­das por Jesus, a comunidade fez sua releitura. O concei­to de morte na cruz como escândalo foi superado: a cruz passou a ser vista como fonte de vida e conseqüência da prática da justiça e do amor. Aqueles que viviam a prática do amor, solidariedade e misericórdia não mor­reriam jamais.

A comunidade cristã, através da defesa da vida e do sofrimento do inocente, consegue romper com a teolo­gia da retribuição. Ela se fundamenta na teologia do Ser­vo Sofredor, que por sua prática da justiça e do amor é perseguido (Is 42,1-9), assume a missão (Is 49,1-6), rea­liza (Is 50,4-11), sofre, morre e ressuscita (Is 52,13-53,12).

Quem assume o compromisso com a justiça entra em confronto com os poderes opressores. O que ani­ma a luta cotidiana é a relação profunda de amor e de solidariedade existente entre as pessoas. Ainda hoje o testemunho de mulheres e homens continua ressoan­do em nossa vida. Lembramos aqui Margarida Alves, uma líder morta na luta para conquistar a terra, cujo sonho está vivo nas pessoas que continuam nessa mes­ma luta. Santo Dias, líder sindical, morto por sua luta pelos direitos dos trabalhadores... Porém as comunida­des afirmam: Santo, a luta vai continuar, os teus filhos vão ressuscitar...

O sonho de vida digna: terra, trabalho e comida, continua vivo, animando e sustentando a busca de con­dições dignas de vida. As pequenas conquistas do dia-a-­dia, a imensa rede de gestos solidários que nasce e se fortifica nos corações capazes de abrir-se ao amor nos ajudam na fidelidade e no compromisso com a justiça. Na próxima reunião, como num espelho, através de Ma­ria Madalena vamos ver o que sustentava a convivência da comunidade do Evangelho de João.

 

6 - Jesus não esta morto - Jo 20,11-18

A morte de uma pessoa amiga ou de um parente vem acompanhada de dor, de saudade, de ausência, de lem­branças do que a pessoa foi e das coisas que poderiam ser diferentes... Os parentes, num gesto de carinho e pro­fundo amor, fazem de tudo para prestar uma última ho­menagem à pessoa que morreu fazendo o velório e um enterro digno.

Maria Madalena, que representa a comunidade, jun­to ao sepulcro experimentou dor, angústia e sofrimento (20,11-15). No Antigo Testamento, o livro Cântico dos Cânticos conta uma história muito parecida, que fala do amor e da procura pelo amado, uma busca que só termi­na com o encontro (Ct 3,1-4).

Maria quer encontrar Jesus, mas a dor a impede. No diálogo ela insiste, está disposta a enfrentar todas as di­ficuldades para encontrar o seu amado. Vamos acompanhar a leitura desse encontro (Jo 20,11-18) e responder as seguintes perguntas: O que fez Maria Madalena encontrar o Se­nhor? O que Jesus pede para Maria Madalena fazer?

Situando o texto: Maria Madalena é a primeira testemunha da ressur­reição. Esse encontro acontece porque a mulher não arredou o pé. Em meio à situação de morte ela resistiu, permaneceu até encontrar o Senhor. Na comunidade de João há muitas mulheres discípulas fiéis de Jesus que animam os demais a fazer o mesmo.

Esse texto Jo 20,11-18 é a parte final do Livro da Glorificação, que começa com a prática da comunidade (13-17), passa pela paixão e morte de Jesus (18-19) e conclui com as ce­nas da ressurreição (20). A ressurreição nasce da experiên­cia de amor vivida pela comunidade e de seu engaja­mento concreto na luta por vida em abundância (10,10). "No primeiro dia da semana, Maria Madalena vai ao sepulcro, de madrugada, quando ainda estava escuro, e vê que a pedra fora retirada do sepulcro" (20,1).

O túmulo está vazio. Mesmo no escuro, Maria Madalena percebe que Jesus não está no túmulo. A mulher, alarmada, corre e avisa a comunidade. Pedro e o outro discípulo se diri­gem para o sepulcro. Pedro apenas constata o fato, o outro discípulo vai além, ele crê (20,8).

No capítulo 11 vemos que Jesus se dirige ao sepul­cro onde Lázaro fora colocado. Uma pequena informa­ção nos diz que o sepulcro era uma gruta onde fora colo­cada uma pedra (11,38). É a vida que está presa, amarrada, fechada. E Jesus manda remover a pedra: ele liberta de tudo o que impede a vida. Ao ressuscitar Lázaro, Jesus ressuscita a comunidade.

Em Jo 20 temos um movimento contrário: Maria, representando a comunidade que busca superar o medo da morte, vai ao sepulcro onde Jesus fora colocado e en­contra a pedra removida e o local vazio. Isso indica que a morte não é o fim de tudo. A história e a missão de Jesus não terminaram com a morte. Ele continua vivo e atuan­te na comunidade que age em função da missão recebi­da e da presença do Espírito (14,16; 20,17).

Diante da situação de perseguição, de falta de espe­rança em meio ao sofrimento, miséria e desolação que os cristãos estão vivendo, lembrar a experiência da res­surreição de Jesus ajuda a renovar a fé no projeto da partilha. Nesse texto está presente a preocupação da co­munidade em formar uma comunidade de amor, em que todos e todas se sintam amados e façam a experiência de amar. Não me retenhas, pois ainda não subi ao Pai. Isto deixa bem claro que a missão da comunidade ainda não terminou, é preciso construir moradas: Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se não fosse assim, eu vos teria dito, pois vou preparar-vos um lugar... Esse lugar é a co­munidade que age impulsionada pelo Espírito de Deus. É preciso trabalhar, sem se agarrar à história passada: a morte não pode deter a vida (1,5; 20,1).

Comentando o texto: "Maria estava junto ao sepulcro, de fora, chorando" (20,11). Maria é uma figura que representa a comunida­de inconsolada com a morte de seus membros e com di­ficuldade de perceber os sinais de vida. Essa situação é descrita numa linguagem simbólica, inspirada no Cântico dos Cânticos. Nesse livro, a jovem sai ao encontro do amado: "Em meu leito, pela noite, procurei o amado da minha alma. Procurei-o e não o encontrei! Vou levantar­-me, vou rondar pela cidade, pelas ruas, pelas praças, pro­curando o amado da minha alma... Procurei-o e não o encontrei!" (Ct 3,1). Maria vai ao sepulcro chorar a mor­te do Senhor. Ela está presa à idéia da morte como o fim de tudo. De longe, no escuro, Maria Madalena percebe que o túmulo está vazio. Desesperada, vai ao encontro dos discípulos, que constatam o fato e retornam para a sua casa. Maria permanece chorando junto ao sepulcro (20,11).

A mulher, angustiada e ainda chorando, olha para o interior do túmulo e vê dois anjos. No Cântico dos Cânticos, a jovem pergunta para os guardas: "Onde está o meu amado?" (Ct 3,3). No Evangelho de João, são os anjos que perguntam a Maria a razão de sua dor. Na sua resposta: "Levaram o meu Senhor" (20,13) está expressa a dificuldade da comunidade de tomar consciência da ressurreição de Jesus. A dor, o desespero e o medo não deixam a comunidade perceber que a vida é mais forte que a morte.

O objetivo de Maria é encontrar o corpo do Senhor. Jesus se aproxima e lhe pergunta: " 'Mulher, por que cho­ras? A quem procuras?'. Pensando ser ele o jardineiro, ela lhe diz: 'Senhor, se foste tu que o levaste, dize-me onde o puseste e eu o irei buscar!' " (20,15). A mulher continua sem esperança, ainda não conseguiu ver os si­nais de vida, mas, apesar disso, continua persistente em sua busca.

Maria Madalena reconhece Jesus quando ele a cha­ma pelo nome. Ela faz a experiência de ser amada e aco­lhida como discípula: "Não temas, porque eu te resgatei, chamei-te pelo nome: 'tu és meu' " (Is 43,1). Ela é a ove­lha que reconhece a voz do Pastor 00,2-3). Uma situa­ção semelhante é descrita no Cântico dos Cânticos: "Eu dormia, mas meu coração velava e ouvi a voz do meu amado" (Ct 5,2).

É a experiência humana de intimidade, de convivên­cia no amor, que faz a pessoa viver. Quando Maria en­contra o amado, é um momento de grande alegria e emo­ção. Ela quer abraçar e prender o Senhor. No entanto, Jesus lhe diz: "Não me retenhas, pois ainda não subi ao Pai. Vai, porém, a meus irmãos e dize-lhes: subo a meu Pai e vosso Pai; a meu Deus e vosso Deus" (20,17).

Não, a missão ainda não acabou. É preciso continu­ar as obras de Jesus. O Reino de Deus é para todos, por isso é necessário que Maria vá anunciar aos "meus ir­mãos"; e isso, no contexto da comunidade de João, não é apenas para os discípulos e discípulas, mas é anúncio universal. Todos e todas são chamados ao amor, a expe­rimentar o Ressuscitado vivo na comunidade (20,19-31).

Aprofundamento: As mulheres experimentam vida nova! O Cântico dos Cânticos e a descrição do encontro de Maria Madalena com o Ressuscitado têm muitos elemen­tos em comum. Os dois textos falam de uma mulher que procura pelo amado. As duas mulheres são persistentes. Arriscam a própria vida e desafiam as normas prees­tabelecidas pela sociedade. Quando a jovem encontra o seu amado, ela o leva para a casa. Maria Madalena, ape­sar de sua confusão, não se afasta do sepulcro. O seu objetivo é encontrar o Senhor. E, no entanto, é o Senhor que a encontra. Ela também deseja reter o seu amado, porém isso não lhe é possível. Maria é desafiada a anun­ciar a sua experiência de amor, a construir uma nova comunidade.

Por que a comunidade se inspirou no Cântico dos Cânticos para falar de sua experiência de ressurreição? O Cântico dos Cânticos é um poema de amor e, ao mes­mo tempo, um grito de libertação. Um protesto contra a opressão e a exploração do corpo. Esse livro nasceu no pós-exílio, por volta do ano 400 a.C., no tempo de Esdras e Neemias.

Em 539, o império persa dominou o império babi­lônico. Em 538 a.C., os dirigentes exilados, chamados de Golá em hebraico, tiveram permissão para voltar a seus países de origem. Esses dirigentes, desde que pagassem tributos ao império persa e se submetessem politicamen­te, podiam se organizar conforme suas culturas, religiões e costumes.

O povo judeu, sob a liderança desses dirigentes, sa­cerdotes e escribas, começaram a se reestruturar a partir da Lei e do Templo. A Lei de Deus passou a ser a lei do rei: "Todo o que não observar a Lei de teu Deus - que é a lei do rei - será castigado rigorosamente: com a morte ou o desterro, com multa ou prisão" (Esd 7,26). Através da Lei, os dirigentes judaicos controlavam a vida das pes­soas. Eles reforçaram a lei da pureza para evitar a união com estrangeiros (Esd 9,1-10,17). Os casamentos mistos eram proibidos. Isso por dois motivos: para preservar a pureza do grupo e por motivos econômicos.

Para ter acesso ao culto e ao Templo, a pessoa devia estar em dia com as exigências da Lei. Caso contrário, deveria oferecer sacrifícios e ofertas ao Templo. Uma pessoa pobre tinha dificuldade para cumprir a Lei, pois os sacrifícios custavam caro. O corpo era desprezado e controlado pela Lei. A mulher vivia quase sempre impu­ra por causa da menstruação e do ato de dar à luz (Lv 12,1-8). Portanto, a mulher sempre estava em dívida com o Templo.

Nesse contexto, alguns livros nasceram como pro­testo contra a imagem de um Deus opressor, justiceiro e castigador, como, por exemplo, o livro de  e 6 Cântico dos Cânticos. Este livro, ao reforçar a beleza e a im­portância do corpo, ajuda as pessoas a se libertar das exigências da lei do puro e do impuro. Os autores apre­sentam um corpo livre e belo, cheio de vitalidade e desejo, aberto ao amor. E mais ainda, ao contrário de uma sociedade em que a mulher era oprimida e sub­jugada, neste livro a mulher tem iniciativa: ela vai ao encontro do amado.

Assim, temos um grito de libertação das mulheres contra o legalismo que impede uma verdadeira expe­riência de Deus. Não é a Lei que faz a pessoa experimen­tar Deus, mas sim o amor: "O amor é uma faísca de Deus" (Ct 8,6). A verdadeira experiência de amor é capaz de devolver ao outro a alegria de viver. É o amor humano  que ajuda a quebrar as barreiras que as pessoas criam para oprimir e explorar.

A comunidade de João ainda estava no escuro (20,1), buscando, de maneira confusa, enfrentar os desafios diante das perseguições. É a experiência de amor, da pre­sença do Ressuscitado, que lhe traz novo vigor para con­tinuar firme no projeto da partilha e da solidariedade. Esta comunidade, representada por Maria Madalena, é testemunha da ressurreição e é enviada para anunciar que o Ressuscitado continua vivo no seu meio. Ao usar a imagem da mulher, a comunidade joanina valoriza e des­taca a importância dela no seu meio. É um novo protes­to diante das outras comunidades cristãs que estavam assumindo uma tendência patriarcal, hierárquica e androcêntrica, ou seja, centralizada no homem.

No contexto em que vivemos, as mulheres conti­nuam sofrendo exclusão na sociedade, na igreja e na fa­mília. Fica para nós o desafio: quais os gestos e atitudes de exclusão que praticamos contra a mulher que a impe­dem de viver uma verdadeira experiência de ressurrei­ção? O Verbo se encarnou, se fez um de nós para trazer nova luz à vida do ser humano. Esse é o tema que iremos rezar e sobre o qual iremos refletir na próxima reunião.

 

2- https://leituraorante.comunidades.net/2-o-cego-de-nascenca-joao-91-41