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Evangelho de João
Evangelho de João

INTRODUÇAO GERAL DO EVANGELHO DE JOÃO

 

Fonte: Este e os demais encontros foram extraidos do livro: Da comunidade Nasce a Vida! Evangelho de João: Roteiros e subsídio para encontros -  Centro Bíblico Verbo - Paulus,200.

A partir da dominação dos gregos (333 a.C.), as con­dições de vida na Palestina tornaram-se cada vez mais insuportáveis. As pessoas estavam sendo dominadas, ex­ploradas e escravizadas. Muitos grupos populares resis­tiram à dominação e buscaram uma forma alternativa de viver. No tempo de Jesus e um pouco depois, as revol­tas e os descontentamentos contra a opressão dos roma­nos eram abundantes. Em 66 d.C., quando os romanos saquearam o Templo de Jerusalém, os vários grupos, mesmo tendo posições diferentes, uniram-se para lutar contra os dominadores. Esse movimento ficou conheci­do como a guerra judaica (66-73 d.C.).

Nessa guerra, o povo judeu foi derrotado pelos ro­manos. Jerusalém, a cidade santa, e o Templo foram destruídos. O Templo era uma instituição central na vida do povo, controlava a sua vida em todos os aspectos. Os principais grupos que participaram da guerra, os sa­duceus, os essênios, os zelotas e os sicários, foram desar­ticulados e quase desapareceram. A guerra desestruturou a vida dos habitantes da região da Judéia. Os judeus cris­tãos e os judeus fariseus não assumiram a luta até o fim, por isso conseguiram sobreviver. Após a guerra, esses grupos começaram a reorganizar a vida do povo.

Os fariseus e os escribas, menos dependentes do Tem­plo, desenvolveram uma estrutura alternativa. Fazia tem­po que eles exerciam suas atividades nas sinagogas, atra­vés da função de explicar e interpretar a Lei. No contexto de destruição das instituições judaicas, como o Templo e o sinédrio - conselho supremo dos judeus -, o povo buscou refúgio e segurança no movimento dos fariseus e escribas. Aos poucos, os judeus fariseus foram-se forta­lecendo, a sinagoga passou a ser forte instituição para garantir, proteger e controlar a vida do povo. Assim, os romanos perceberam que seria vantajoso se aliar aos ju­deus fariseus.

A aliança com os romanos favoreceu o desenvolvi­mento dos grupos de linha farisaica. Surgiram muitos grupos, entre eles a Academia de Jâmnia, fundada pelo rabino Iohanan ben-Zakai. O chefe desse grupo, o Pa­triarca, era reconhecido pelo império romano como re­presentante do povo judeu. Como aliado dos romanos, eles tinham o direito de interpretar e aplicar a Lei, utili­zando-a também para cobrar tributos dos judeus. Isso interessava aos romanos.

A principal Lei era a do sábado. Uma lei que nasceu para manter viva a memória da libertação e assegurar o descanso da comunidade, mas que com o tempo se crista­lizou. O cumprimento da Lei foi posto acima da pessoa. Outra Lei igualmente importante era a da pureza. Essa lei dividia as pessoas e as coisas em puras e impuras.

A lei do puro e do impuro definia quem estava mais perto e quem estava mais longe de Deus. Uma pessoa doente ou com alguma deficiência física era considera-o da impura por causa de algum pecado, uma vez que a doença era vista como castigo de Deus. O simples conta­to com pessoas ou coisas impuras já causava impureza. Estar impuro significava"não poder participar do culto e, conseqüentemente, da salvação.

Muitas pessoas viviam em condições quase perma­nentes de impureza. As autoridades judaicas, através da Lei, tinham a pretensão de controlar o corpo do homem e da mulher. Essa situação de opressão tinha maior peso para a mulher, que ficava impura por causa da mens­truação (Lv 15,19), das relações sexuais (Lv 15,18) e do dar à luz (Lv 12,2-5). Para se purificarem, as pessoas de­viam levar ofertas e pagar o tributo religioso em dia. Isso custava muito caro, dificultando para os pobres o cum­primento da Lei.

Os judeus fariseus viam no cumprimento da Lei uma exigência do próprio Deus. Essa crença, unida à crença na ressurreição dos mortos e na teologia da retribuição, com prêmios e castigos para esta vida e a outra era usada para manter o povo na obediência rigorosa às normas impostas pelos dirigentes fariseus. A teologia da retribuição estava ligada à idéia de troca: se a pessoa cumprisse a Lei, seria abençoada com terra, descendência e vida longa. Se não cumprisse receberia o castigo: pobreza, esterilidade e vida breve (Dt 30,15-20).

O ensino da Lei era realizado através da sinagoga. Por volta do ano 85, as sinagogas estavam espalhadas na Ásia Menor. Nessa região, a comunidade judaica era uma cidade dentro da cidade. Por causa da aliança cor romanos, a religião judaica, organizada pelos fariseus era considerada como religião lícita - permitida pelo império romano. Os judeus ligados à sinagoga conquistaram o direito de se reunir, de manter um caixa comum e de ter propriedades. Eram dispensados de prestar culto às divindades do império romano, tinham o direito de observar o sábado, de praticar seu culto e a Lei e participavam do exército - só de judeus - quando necessário. Cada comunidade local tinha suas leis administrativas, estabe1ecia locais para estudo, culto e sepultamentos; oferecia ajuda aos indigentes e mantinha tribunais para julgar disputas entre judeus.

Os judeus fariseus, na tentativa de preservar a identidade como grupo e manter seus interesses, começaram a exigir observância rigorosa da Lei. Havia 613 regras para ser cumpridas. A opressão era muito grande. No interior da sinagoga surgiram alguns grupos, entre eles o grupo dos cristãos, que começaram a relativizar a importância da Lei, pondo em primeiro lugar a vida humana. Isso provocou vários conflitos. Aqueles que não cumpriam a Lei foram perseguidos, torturados e  expulsos da sinagoga, e conseqüentemente estavam sujeitos à perseguição do império romano.

Entre esses grupos, estava a comunidade joanina. Ela teve sua origem entre os judeus que acreditaram que Jesus era o Messias esperado por eles. A guerra dos ju­deus contra os romanos (66 d.C.) provocou a dispersão das comunidades cristãs. Essas comunidades foram para o norte da Palestina e chegaram até a Síria. Em 70 d.C., emigrou para Éfeso.

A comunidade joanina era composta de pessoas po­bres e marginalizadas que começaram a viver de um jei­to novo. Uma comunidade de irmãos e irmãs, unidos não pela Lei, mas pelo amor. Essas pessoas, provavelmente, viviam sob a opressão da Lei. Elas conseguiram ver a proposta cristã como um caminho alternativo. A vivência do amor mútuo e a certeza da presença do Verbo Encar­nado em cada mulher e homem, eram as bases que sus­tentavam e animavam a comunidade joanina. Que for­ça! Que resistência e coragem! Nesta caminhada nasce o evangelho de João.

Estrutura do Evangelho de João: O Evangelho da comunidade de João nasceu do anúncio vivo, da memória de homens e mulheres que guardavam e praticavam os ensinamentos transmitidos por Jesus. É a vida da comunidade, suas lutas e dificuldades, os conflitos vividos com as autoridades judai­cas, com o império romano e com os seus próprios membros em suas diferentes compreensões da mensa­gem de Jesus.

Diante das perseguições e das crises internas e ex­ternas, a comunidade foi sentindo a necessidade de rea­firmar sua própria fé e definir a sua identidade. Para isso, os/as autores/as selecionaram algumas expressões e acon­tecimentos marcantes da vida de Jesus com a finalidade de levar os seus primeiros leitores à fé em Jesus como o Messias, o Filho de Deus presente na história: "E o Ver­bo se fez carne e armou sua tenda entre nós" (1,14).

A situação de perseguição levou a comunidade joanina a usar uma linguagem simbólica, mas que lhe era familiar, com imagens tiradas do cotidiano, da tra­dição judaica e do momento presente. Por exemplo, a apresentação de Jesus é feita através da expressão Eu sou, termo muito conhecido do povo judeu, pois era o nome próprio de Javé (Ex 3,14). A comunidade acres­centa: "Eu sou o pão da vida" (6,35.48.51), "a luz do mundo" (8,12; 9,5), "a porta das ovelhas" (10,7.9), "o bom pastor" (10,11.14), "a ressurreição e a vida" (11,25), "e a verdadeira videira" (15,5). Imagens simbólicas, li­gadas ao cotidiano da vida das pessoas, que revelam o cuidado de Jesus com a vida de seus discípulos e discí­pulas.

Ao longo do Evangelho de João há grande variedade de imagens simbólicas. Podemos classificá-las em qua­tro tipos:

- Símbolos ligados a números: seis talhas de pedras vazias (2,6), uma referência às seis festas judai­cas mencionadas no Evangelho. Os cinco mari­dos da mulher samaritana lembram os cinco po­vos que foram deportados de outras regiões para a Samaria (2Rs 17,24);

Objetos: talhas, o poço de Jacó e o cântaro (2,6; 4,12.28) podem ser uma referência à Lei;

- Natureza: Videira e os ramos (15,1-2), um símbo­lo da comunidade;

- Personagens: discípulo amado, mulher sama­ritana, Maria de Betânia, Marta e Maria Ma­dalena, representantes da comunidade joanina.

O uso de símbolos é uma característica marcante do Evangelho de João. Outra característica importante é o jei­to de os autores e autoras organizarem a estrutura desse li­vro. Pois bem, então vamos ver como esse livro foi planejado.

O Evangelho de João pode ser dividido de várias for­mas. Nós escolhemos a estrutura que divide o texto em duas grandes partes: a primeira são os sete sinais reali­zados por Jesus e a segunda o grande sinal: a entrega de Jesus por amor.

A primeira (2,1-12,50) e a segunda parte (13,1-20,29) podem ser definidas pelo tema da hora: minha hora não chegou (2,4) versus a minha hora já chegou (13,1). Entre essas duas partes há um texto que marca a passagem de uma para a outra (11,55-12,50), no qual vemos que a hora de Jesus se aproxima.

Podemos dividir o Evangelho de João da seguinte forma:

Prólogo -1,1-18: abertura e síntese do livro. No pró­logo encontramos um resumo de todos os temas que se­rão desenvolvidos ao longo do Evangelho.

Seção introdutória - 1,19-51: uma pequena intro­dução na qual aparece João Batista, o seu testemunho a respeito de Jesus e os primeiros discípulos de Jesus.

Primeira parte - 2,1-12,50: na primeira parte a hora de Jesus ainda não chegou (2,4). O Livro dos Sinais apre­senta sete sinais, número que significa perfeição. Os si­nais indicam a realização do tempo messiânico.

1º Sinal (2,1-12): bodas em Caná

2º Sinal (4,46-54): a cura do filho de um funcionário real

3º Sinal (5,1-9): a cura de um paralítico

4º Sinal (6,1-15): a multiplicação dos pães

5º Sinal (6,16-21): Jesus caminha sobre as águas

6º Sinal (9,1-41): a cura de um cego de nascença

7º Sinal (11,1-44): a ressurreição de Lázaro

Passagem -11,55-12,50: a hora de Jesus está se aproximando.

Segunda parte - 13,1-20,29: a hora de Jesus já che­gou: "Sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai" (13,1). Esta parte é conhecida como o Livro da Glorificação. É uma catequese para a comunidade e pode ser subdividida em três unidades:

- Os capítulos 13 a 17 são chamados o livro da co­munidade. Antes de entregar sua vida, Jesus reúne os seus para um jantar de despedida no qual realiza um gesto simbólico e profético: o lava-pés (13,1-20). Nesta ocasião, Jesus faz um discurso de despedida e deixa como heran­ça para a comunidade o novo mandamento do amor mútuo (13,34se 15,12-17); promete que enviará o Espí­rito da Verdade (14,26; 16,12-15), faz uma avaliação de sua vida e missão e reza ao Pai pela unidade (17).

Epílogo (20,30-31): a conclusão.

Apêndice (21,1-23): uma nova manifestação de Je­sus aos discípulos.

 conclusão (21,24-25).

Organização do livro

Viver o amor e defender a vida! Um desafio para a comunidade joanina. Um desafio para as comunidades de hoje e para cada pessoa. Este nosso livro também é fruto de uma experiência comunitária. Muitas pessoas se uniram no desejo comum de apresentar às lideranças e assessorias das comunidades alguns roteiros e subsí­dios para a reflexão e oração bíblica nos vários grupos: comunidades, círculos bíblicos, grupos de rua etc.

Quando ouvimos falar de um conflito numa comu­nidade diferente da nossa, logo nos perguntamos: mas qual o problema que essa comunidade está vivendo? E o que ela está fazendo para superar as dificuldades? Junto com as respostas, ficamos sabendo de outras informa­ções, tais como: quem são os membros da comunidade, quem participa, assumindo os compromissos da comu­nidade, e quem apenas é visitante ou turista. Aproximan­do-nos um pouco mais da vida da comunidade, ficamos sabendo como essa comunidade vive e celebra a sua fé, quais são os seus valores, quais os grupos e as pastorais existentes e qual o seu testemunho para o mundo de hoje. Aos poucos, vamos definindo as características desta comunidade.

Adotamos os mesmos passos para conhecer a co­munidade de João. Vamos fazer o seguinte caminho: apresentar as pessoas que fazem parte dessa comunida­de, os seus inimigos, os grupos ou pessoas que assumem a proposta cristã e aqueles que, apesar da simpatia,  preferem continuar no sistema oficial. A reflexão sobre esse tema se dará no primeiro e no segundo encontro (9,1-41; 4,1-30). Em seguida, a prática dessa comunida­de, formada por mulheres e homens que vivem o amor e se unem para lutar por melhores condições de vida. O terceiro e o quarto encontro nos ajudarão a descobrir esse novo jeito de viver (2,1-12; 13,1-17).

A comunidade cristã rompe com o sistema baseado no cumprimento rigoroso da Lei. Isso ameaça a autori­dade dos judeus fariseus. Os cristãos são expulsos da si­nagoga, uma instituição religiosa, política e econômica dos judeus, reconhecida pelo império romano. Com isso, os cristãos passam a ser perseguidos. Em meio a esse sofrimento a comunidade vivencia uma nova relação de comunhão, entendida por nós como a vivência do mistério da Trindade. Esse é o tema do quinto encontro (15,1­17). O amor mútuo é a força que ajuda na resistência, que só se toma possível porque a experiência de Deus, presente e vivo na comunidade é renovada a cada ins­tante. Essa experiência, o seu grupo poderá revivê-la nas reflexões propostas no sexto e sétimo encontro (11,1-44; 20,11-18).

No oitavo encontro (1,1-18) faremos uma reflexão sobre o Prólogo, que apresenta uma síntese de todo o Evangelho, coroando com a mensagem central: "E o Ver­bo se fez carne e habitou entre nós" (1,14). Deus faz morada no meio do povo. Essa certeza motivou a comu­nidade joanina em sua caminhada. Refazer essa mesma experiência nos dá novo ânimo e vigor em nossas buscas e lutas de hoje.

A nossa leitura do Evangelho de João será conduzida pelos seguintes textos:

- 9,1-41: o conflito com os judeus fariseus e a ex­pulsão dos judeus cristãos da sinagoga;

- 4,1-30: os samaritanos participam da comunida­de joanina;

- 2,1-12: as diversas formas de resistência e a pre­sença da mulher como articuladora de uma vida nova;

- 13,1-17: a prática da nova comunidade é o servi­ço, a solidariedade e a partilha;

- 15,1-17: a comunidade precisa de uma mística forte para resistir à perseguição;

- 11,1-44: a mística que une a comunidade é o amor mútuo e a vivência do mistério. É a certeza de que Jesus é o "Cristo, o Filho de Deus que vem ao mundo" (11,27);

- 20,11-18: um dos sinais de ressurreição é a vivência do amor. É a presença do ressuscitado que nos torna capazes de estabelecer relações novas;

- 1,1-18: a nova prática da comunidade não está baseada na Lei, mas na encarnação. "E o Verbo se fez carne e habitou entre nós" (1,14).

A idéia central que perpassa todos os textos do Evan­gelho de João é a certeza de que Deus, o Verbo encarna­do, está entre o seu povo. A sua ordem e a sua herança para a comunidade se resumem nisso: "Amai-vos uns aos outros como eu vos amei" (15,12; 13,34).

 

1 - O CEGO DE NASCENÇA JOAO 9,1-41

 

Situando o texto: De acordo com o ensinamento oficial do Antigo Tes­tamento, as doenças e as desgraças eram consideradas como castigo de Deus por causa do pecado. O fato de as pessoas nascerem com algum tipo de doença era atribuí­do ao pecado dos pais (Ex 20,5; 34,7; Nm 14,18; Jo 9,2.34).

No tempo de Jesus e das primeiras comunidades cristãs, essa crença continuava existindo através das leis dos fariseus e escribas que excluíam os pobres e os doen­tes. Conforme a Lei, interpretada pelos dirigentes da co­munidade judaica, uma pessoa doente era pecadora, con­siderada impura (Mc 7,14-30; 15,25-34) e sua participação na sociedade era limitada; por exemplo, não tinha acesso ao culto. Naquele tempo, havia grande nú­mero de pessoas à margem da sociedade, muitos viviam como mendigos. Vamos ver como esse problema apare­ce na comunidade joanina e responder as seguintes perguntas:

-Por que o cego foi expulso da sinagoga?

-Quais os problemas que a comunidade de João estava vivendo?

Atualização: O cego é uma figura representativa da comunidade joanina. As pessoas que começaram a enxergaraceita­ram a proposta de Jesus. Começaram a viver de um jeito novo. A Lei passou a ser vista e vivida em função da vida. A comunidade cristã tentou não criar divisões entre as pessoas e viver a solidariedade, que se manifesta através dos gestos de Jesus com o cego. Para os cristãos, a vida era maior que a Lei. Isso incomodou as autoridades judai­cas e os cristãos acabaram sendo expulsos da sinagoga.

- Hoje, quais são os preconceitos que nos separam uns dos outros, como, por exemplo, o preconcei­to contra as mulheres?

- De que cegueira precisamos nos libertar para ser­mos verdadeira comunidade de irmãos e irmãs?

- O que fazemos em favor dos deficientes em nos­sa casa e em nossa comunidade?

Situando o texto no contexto: o cego de nascença é figura que representa o gru­po de pessoas que começaram a enxergar, na proposta cristã, um novo jeito de viver: um projeto de vida ba­seado no amor e na solidariedade. Isso provocou uma ruptura no esquema proposto pelos judeus fariseus, que exigiam o cumprimento da Lei. Os judeus fariseus, acusaram os judeus cristãos de ser infiéis às exigên­cias da Lei de Moisés, interpretadas pelos escribas. A vivência dos cristãos acaba afirmando: a vida vale mais do que a lei. E isso provoca uma reviravolta: tira a sus­tentação ideológico-religiosa do cumprimento da Lei e da cobrança de tributos. Por isso, os judeus cristãos passam a ser perseguidos por todos aqueles que viviam do Templo e dos cultos e viam diminuir suas fontes de renda.

Os conflitos aumentaram, culminando com a expul­são dos judeus cristãos da sinagoga. Isso aconteceu por volta do ano 85 d.C. Separados da comunidade judaica, os cristãos ficaram sem proteção, sem trabalho, sem re­lações sociais e comerciais, separados de sua tradição religiosa, dos serviços e ritos religiosos. Portanto, sem a religião judaica farisaica, permitida pela lei do império, os judeus cristãos deveriam assumir outra religião que fosse reconhecida pelos romanos, caso contrário seriam vistos como inimigos.

Roma impunha a sua religião: o culto ao imperador. Não aceitar a religião do Estado significava ir contra ele e ser tachado de subversivo. O culto ao imperador se chocava com a consciência cristã. Os cristãos eram con­siderados inimigos do Estado havia muito tempo. Por isso eram vigiados e tidos como responsáveis por todas as desgraças que aconteciam na cidade. Em Roma, os cristãos estavam fichados nos registros da polícia.

A situação da comunidade era de muita inseguran­ça. De um lado, as autoridades religiosas e do império mantinham sobre ela uma contínua vigilância. O me­nor deslize seria motivo para denúncia, prisão, tortura e apedrejamento. De outro lado, a multidão passou a ver os cristãos como pessoas suspeitas, gente perigosa e imoral.

Naquele tempo, era o Estado que concedia às pes­soas o direito de se reunir em associações. Os cristãos não tinham esse direito. O simples fato de se reunir era motivo de denúncia por perturbar a ordem e a seguran­ça da nação. As pessoas mais pobres tinham o direito de se reunir para ajuntar fundos para os funerais. É possí­vel que muitos cristãos tenham se reunido através des­sas associações, daí o nome de cristãos das catacumbas.

Essa situação de dor e exclusão obrigou o grupo dos judeus cristãos a definir qual era a sua verdadeira identidade, a reconhecer Jesus como o Filho do Homem (9,35-38).

Comentando o texto: Na festa das Tendas, Jesus sobe a Jerusalém e ensi­na no Templo (7,14); entra em choque com os fariseus e escribas e se vê obrigado a se retirar às escondidas (8,59).

Ao sair do Templo, vê um cego de nascença e se aproxi­ma. Além da doença física, o cego sofria de outro mal: o isolamento e a solidão. Com o gesto de se aproximar, Je­sus ultrapassa a Lei e privilegia a vida.

A cura do cego é um dos sinais escolhidos pela co­munidade joanina para mostrar que Jesus é o Filho de Deus (9,1-7). O cego representa a comunidade. Ele não se encontra no Templo, mas no caminho. Conforme a Lei de Moisés, interpretada pelas autoridades judaicas, a doença era conseqüência do pecado. A comunidade cris­tã apresenta uma nova visão: não, a doença não está re­lacionada ao pecado, mas pode servir para a manifesta­ção da obra de Deus (9,3). E a obra de Deus é que o ser humano tenha vida e uma vida saudável, que as pessoas tenham casa, comida, integração social, enfim, que elas vivam plenamente (10,10).

Os vizinhos, acostumados com o cego vivendo na mendicância, estranham. As pessoas dentro do esquema oficial não conseguem entender a transformação daque­les que vivem uma nova proposta de vida (9,8-12). Dian­te dos questionamentos e do conflito, o cego se define e assume a sua própria identidade (9,9). Ele conta como foi a sua cura e o fato de Jesus mandá-lo à piscina de Siloé para se purificar, único local oficial de cura: "Fui, lavei-me e recobrei a vista" (9,11).

As pessoas que vivem o sistema estabelecido pelo judaísmo farisaico e pelo império romano, inconforma­das diante desse novo fato, levam o cego para as autori­dades judaicas (9,13-17). Os mestres e os doutores da Lei não aceitam que a salvação aconteça fora do domínio deles. Isso prejudica sua organização e sua fonte de renda. Como o cego insiste em sua versão sobre a cura, as autoridades convocam os seus pais para um interro­gatório (9,18-23). Os pais não tomam partido, não ex­pressam nem mesmo a alegria diante da cura, porque  aqueles que reconhecessem Jesus como o Cristo seriam expulsos da sinagoga (9,22).

E o julgamento continua. Novamente o cego é con­vocado para um interrogatório (9,24-34). Neste interro­gatório, o cego tem maior autonomia: ele desafia, de maneira irônica, as autoridades: "Por que quereis ouvir novamente? Por acaso quereis tornar-vos seus discípu­los?" (9,27). Tem a ousadia de questionar o conceito de pecador imposto pelos fariseus: "Sabemos que Deus não ouve os pecadores, mas se alguém é temente a Deus e faz a sua vontade, a este Deus escuta" (9,31). O cego vai além, ao afirmar que, se aquele homem não fosse de Deus, nada poderia fazer (9,33). A conseqüência de ter sido curado, de abrir os olhos, é uma maior conscien­tização e não-aceitação da opressão. Isto leva à expul­são (9,34).

A comunidade experimentou, através de Jesus, a gratuidade do amor de Deus, por isso conseguiu perma­necer fiel diante da pressão do sistema dominante: o império romano e os judeus fariseus. Ao ser expulso da sinagoga, o cego reconhece Jesus como o Filho do Ho­mem: "Eu acredito, Senhor" (9,38). É somente após a aceitação e a fidelidade das pessoas que Jesus se revela como o Messias (4,26; 9,37).

Neste Evangelho temos dois grupos bem definidos (9,40-41): de um lado está o ex-cego - o grupo dos ju­deus cristãos. De outro, estão os judeus fariseus, os que se julgam esclarecidos (9,16.22.24.29.34), mas que na realidade são incapazes de reconhecer Jesus presente e vivo na comunidade. Eles permanecem em sua ceguei­ra porque recusam o projeto da partilha e da solidarie­dade. É como diz o povo: "O pior cego é aquele que não quer ver".

Aprofundamento: Quem se opõe à comunidade e a perse­gue?

No Evangelho de João a palavra mundo aparece 78 vezes, com os, seguintes sentidos: planeta como espaço físico (1,10; 3,16), humanidade (3,17) e os inimigos (8,23; 15,18-19; 16,11; 17,6.14.16). O uso mais comum da pala­vra mundo, neste Evangelho, é o de nomear as pessoas que faziam oposição à comunidade: os judeus fariseus e o império romano. O grupo dos fariseus tem sua origem no grupo dos piedosos, homens fiéis à Lei de Moisés. A preocupação deles era com o estudo e o ensino da Lei. Após a destruição do Templo (70 d.C.), os judeus fariseus se tornaram o grupo dominante, aliado dos romanos e perseguidor dos cristãos.

O domínio do império romano, vigente desde 63 a.C. até o século III, foi um período de muita crueldade, tira­nia e opressão. Nesse período, os saques às cidades e as guerras eram constantes. Após o ano 70 d.C., com os im­peradores Tito e Domiciano, seguiu-se um tempo marca­do por perseguições às doutrinas e religiões diferentes da religião do império, caracterizada pelo culto aos impera­dores. No fim do século I, sob o governo de Domiciano, o culto dos cristãos foi declarado como religião ilícita e eles foram perseguidos como inimigos do império. Os cristãos eram torturados, muitos foram mortos.

O medo e a insegurança faziam parte do cotidiano da co­munidade cristã. Muitas pessoas eram simpáticas ao pro­jeto cristão, mas, devido ao estilo de vida dos cristãos, ou por medo das autoridades judaicas, não assumiam essa nova proposta de vida. Nesse grupo encontramos:

- Membros do grupo de João Batista: os primeiros discípulos de Jesus vieram do grupo do Batista. Porém, alguns seguidores desse grupo não acei­taram a comunidade cristã, porque eram apegados à mentalidade judaica e preservavam o con­ceito de judeu como povo escolhido. No Evange­lho de João há muitas descrições que realçam a superioridade de Jesus em relação a João Batis­ta (1,8.15; 3,30-31; 5,33-36; 10,40-42).

Pais do cego: experimentam a gratuidade e o amor de Deus, mas, por medo dos judeus fariseus, não se comprometem (9,20-22).

- Nicodemos e José de Arimatéia: representam pes­soas importantes da comunidade judaica. São simpáticos à comunidade cristã, mas não o sufi­ciente para abrir mão de seus privilégios e status social (3,1; 7,50; 19,38). Nicodemos, por exem­plo, não aceita o batismo na água (3,5-7). Naque­le tempo, ser batizado na água tinha o sentido de uma confissão pública e social da própria fé.

Assumir a proposta cristã nos dias de hoje continua sendo um desafio. Não vivemos num contexto de perse­guição religiosa, mas estamos inseridos e inseri das numa realidade onde impera a morte. A cada dia que passa au­menta o número de excluídos e excluídas, cresce o desem­prego, a exploração e as injustiças. Nosso compromisso como seguidores e seguidoras de Jesus é ouvir e assumir a causa dos pobres, dos oprimidos e oprimidas (Ex 3,7).

A comunidade joanina nasceu com pessoas que es­tavam sofrendo com o império romano e com o judaís­mo farisaico. Elas começaram a buscar uma forma al­ternativa de viver, experimentaram a solidariedade e a partilha. Mas quem eram essas pessoas? A que grupo pertenciam? Quais os conflitos que enfrentaram para le­var avante o projeto cristão? Certamente você tem as suas respostas para essas questões! Que bom, vamos dialogar sobre isto no próximo encontro.  Até lá!

 

3 - Bodas de Caná: João 2,1-12

Uma festa sempre apro­xima as pessoas, faz superar as barreiras que existem entre nós e faz vencer a luta. O que significa para nós organizar ou participar de uma festa?

 Hoje vamos ler o texto sobre as bodas de Caná: uma festa de casamento. Esta festa acontece no am­biente familiar, entre amigos, no espaço da casa, onde as pessoas são acolhidas e amadas. E nesse espaço a mulher tem uma atuação decisiva: ela organiza, prepara e cuida de todos os detalhes, para que tudo saia bem e nada falte.

No tempo de Jesus, o casamento era um acontecimento muito importante na vida da aldeia, en­volvia a todos. Esta festa tinha a duração de vários dias; era uma ocasião para reunir os parentes e os amigos pró­ximos e distantes. Na festa não podia faltar o vinho. Na re­gião da Palestina se produzia muito vinho, por isso era uma bebida muito comum nas refeições. O vinho era sím­bolo do amor e da alegria, considerado como dom de Deus e sinal de prosperidade (Jz 9,13; Sl 104,15; Zc 10,7). Nas festas o vinho devia ser abundante (1Sm 25,36; Sb 2,7), era considerado como uma bênção de Deus (Dt 7,13; Is 62,2). Se faltasse o vinho, a família ficaria numa situação constrangedora. Seria um vexame! Vamos ler, com muita atenção, a história desta festa: João 2,1-12

Situando o texto: Nas bodas de Caná, Jesus foi reconhecido por al­guns como o Messias. Desde o início da dominação ro­mana, Caná da Galiléia, região montanhosa, era o lugar onde viviam as pessoas consideradas como rebeldes, os grupos subversivos contra o regime que dominava em Jerusalém. Situar o princípio dos sinais de Jesus nessa região montanhosa pode ter significado para a comuni­dade joanina, seguidores e seguidoras de Jesus, um in­centivo para continuar resistindo contra os judeus fari­seus e o império romano.

A comunidade do Evangelho de João organizou a primeira parte do livro em 7 sinais. Provavelmente, Je­sus deve ter feito muitos outros sinais (Jo 21,25). A co­munidade selecionou alguns para levar as pessoas à fé. Os sinais escolhidos deixam claro a nova proposta de Jesus: um projeto de vida plena que considera as neces­sidades concretas da comunidade. Vejamos as estraté­gias desse projeto:

- Bodas de Caná (2,1-12): comunidade solidária e sensível às pessoas.

- Cura do filho de um funcionário real (4,46-54): uma atenção especial com a saúde.

-Cura do paralítico (5,1-9): uma sociedade em que todos têm direitos iguais. Nela ninguém ficará à margem, perto da porta das ovelhas - lugar re­servado aos animais.

- Multiplicação dos pães (6,1-15): todos terão co­mida.

- Jesus caminha sobre o mar (6,16-21): o medo e a insegurança não farão parte da vida da comuni­dade

- Cura do cego (9,1-41): participação, solidarieda­de e amor: direito e compromisso de todos.

- Ressurreição de Lázaro (11,1-44): todos terão di­reito à vida.

Todos os sinais levam as pessoas a se posicionar em relação a Jesus. Os sinais foram confirmados pelo gran­de sinal de Jesus: o amor até o fim (13,1), na doação, no serviço, na perseguição, até a entrega livre e consciente da própria vida (10,18). E a comunidade dos seguidores e seguidoras de Jesus é chamada a fazer o mesmo. O Evangelho de João quer nos ajudar a dar esse passo (20,28-30).

Comentando o texto: Um fato corriqueiro: o casamento. Este acontecimen­to era uma imagem muito usada para falar da aliança entre Deus e o seu povo. As bodas de Caná, uma festa onde todos estão celebrando a vida... De repente, o vi­nho começa a faltar. O vinho é sinal do amor e da bênção de Deus (Ct 1,2; 8,2). Eles não têm mais vinho (2,3).

O casamento representava a antiga aliança de Deus com o seu povo, transmitida e vivida através da Lei. Nas bodas de Caná, a falta do vinho era uma referência à falta de amor, expressa na incapacidade de realizar a partilha e a solidariedade entre as pessoas. A mãe de Jesus, repre­sentando a comunidade dos pobres de Israel, percebe que a antiga aliança não está trazendo vida para as pessoas. É a sensibilidade de uma mulher que constata que não tem mais vinho. É preciso fazer alguma coisa!

Veja bem, em nenhum momento aparece o nome da mãe de Jesus (2,1.3.5.12), o mesmo acontecendo nos outros textos joaninos (6,42; 19,25). Por que será que ela, na visão da comunidade de João, é tratada como mãe, e nas palavras de Jesus como mulher, e não por seu pró­prio nome? Será mero esquecimento? Não. A omissão do nome é para dizer que Maria é representante do Is­rael fiel às promessas de Deus, daqueles/as que reconhe­cem em Jesus o Messias e lhe apresentam a grande difi­culdade: "Eles não têm mais vinho" (2,3). A mãe de Jesus põe seu filho a par da aflição de Israel. Fala da situação de pobreza, sofrimento e vazio dos filhos de Israel.

Para realizar os sinais, Jesus conta com colabora­ção das pessoas. Novas personagens entram em cena: os serventes. A mãe de Jesus toma a iniciativa e pede que eles se ponham à disposição do seu filho. Jesus pede aos criados que encham as talhas (2,7). As talhas, que eram usadas para conter a água para a purificação, estão va­zias. Nas sinagogas, era costume ter algumas talhas com água para a purificação ritual. As talhas nos fazem lem­brar a Lei de Moisés, o código da antiga aliança. Havia seis talhas, um número incompleto. O Evangelho apre­senta seis festas judaicas (2,13; 5,1; 6,4; 7,2; 10,22; 11,55). Essas festas, como as talhas, estão vazias. As autorida­des judaicas transformaram essas festas em momento de exploração e opressão justificadas pela Lei.

O mestre-sala experimenta o vinho novo, não sabe de onde vem, mas reconhece que é melhor do que o outro. Ele é representante da classe dos dirigentes (2,6). Ele se dirige ao noivo e diz: "Você guardou o vinho bom até ago­ra" (2,10). Além da surpresa, ele admite que a qualidade do vinho novo é melhor. Na fala do mestre-sala, as autorida­des reconhecem que a proposta da comunidade joanina é melhor, ou seja, a sensibilidade, o amor, a solidariedade e o serviço dão sentido à vida das pessoas. E quem articula esse novo jeito de viver, nessa comunidade, são as mu­lheres, que ajudam a construir novas relações.

Aprofundamento: Mulheres na liderança?

A comunidade joanina tem um projeto muito con­creto: todos são chamados a ter vida, e vida plena (10,10). Uma comunidade mista, formada por judeus que aderi­ram à proposta cristã, samaritanos, estrangeiros, mulhe­res, doentes, escravos e libertos. Ela procura viver o amor e o acolhimento no concreto do dia-a-dia. E nessa comu­nidade é muito marcante a presença das mulheres, discí­pulas fiéis realizando e construindo a nova aliança. Entre as mulheres, encontramos Maria (2,1-12; 19,25-27), a mulher samaritana (4,1-41), Marta (11,17-27), Maria de Betânia (12,1-8) e Maria Madalena (20,11-18). Essas mu­lheres são apresentadas como modelos de seguimento a Jesus. Vamos ver como foi o discipulado delas?

- Maria, mãe e mulher solidária: nas bodas de Caná e no calvário, a mãe de Jesus é tratada pelo filho como "mulher" (2,4; 19,26). Isso é um jeito de dizer que, nesses textos, ela não é uma persona­gem individual, mas representa a comunidade de Israel que acolhe Jesus e permanece fiel. Maria é mulher de iniciativa, sensível, solidária e mãe que está a serviço do Reino (12,1-12). Ao pé da cruz (19,25-27), Maria aparece ao lado de outras mu­lheres e do discípulo amado. Ela está ligada à comunidade por ser mãe e discípula.

- A samaritana, mulher que tem sede: uma mulher marginalizada por sua própria condição de mu­lher, por ter em sua origem judeus e não-judeus (4,7) e por sua crença religiosa (4,9). A samaritana acolhe e anuncia o Salvador e Messias entre o seu povo (4,39). Por causa do testemunho da mulher, muitos samaritanos acreditaram. A sa­maritana é uma mulher aberta, sedenta e disposta a beber da água viva. Essas características são essenciais para o discipulado.

- Marta, trabalhadora sensível e acolhedora: esta mulher vive um processo de amadurecimento de sua fé. Ela supera sua crença em Jesus como aquele que tem o poder de fazer milagres (11,22), reconhece que a ressurreição está acontecendo no tempo presente: "Eu sou a ressurreição e a vida" (11,25) e acredita em Jesus como o Cristo, o Filho de Deus (11,27). No Evangelho de Mateus (16,16-17) quem faz esse ato de fé é Pedro: "Tu és o Messias, o Filho de Deus". Nos evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas há um reconhecimento da autoridade apostólica. Ao pôr a confissão de fé na boca de Marta, a comunidade joanina está superando a tendência hierárquica presente nas Igrejas apostólicas. Ao mesmo tempo, está afir­mando a sua identidade: uma comunidade de dis­cípulos e discípulas, de homens e mulheres que acreditam em Jesus presente, vivo e atuante na comunidade.

Maria de Betânia, a amada: Maria era uma mu­lher conhecida na aldeia (11,1) e era amada por Jesus (11,5). O seu discipulado tem a marca in­confundível do amor. Ela é mulher que ama e se deixa amar. A sua capacidade de amar é expres­sa em gestos: unge os pés de Jesus com perfume e os enxuga com seus cabelos (12,3); mulher dis­ponível para ir ao encontro de Jesus (11,30); chora a morte do irmão (11,31-32). O gesto de ungir os pés de Jesus com perfume é um gesto gratuito de amor e tem uma dimensão profética. É o anún­cio da morte e ressurreição de Jesus. E mais, ela é discípula que, por amor, intui a ordem de Jesus de lavar os pés dos discípulos (13,14).

Maria Madalena, que ama, insiste e busca o Se­nhor: essa mulher é a primeira testemunha da ressurreição (20,18). Ela recebe a missão de anun­ciar a ressurreição aos discípulos. Ela anuncia e encoraja a comunidade que estava amedronta­da, de portas fechadas (20,19). O seu amor moti­va sua busca e persistência até encontrar o Se­nhor. É discípula fiel porque ama.

A imagem da mulher é usada para simbolizar a comunidade por dois motivos:

- 1º) Na comunidade de João, a presença de mu­lheres na liderança é muito significativa. Em meio às dificuldades, elas continuam fiéis, animando as pessoas na caminhada. Elas não desanimam. São mulheres corajosas, capazes de denunciar a situação de opressão vivida por seu povo. Não se calam, nem se acomodam diante do sofrimento.

- 2º) Nesse período, por volta do ano 90, as comu­nidades cristãs, em sua organização, estavam se institucionalizando, com acentuada tendência machista e excludente (1Tm 2,9-15). Portanto, o Evangelho de João é um grito, um protesto con­tra a limitação da participação ativa das mulhe­res na vida e organização das comunidades.

A comunidade joanina tem a força para enfrentar a perseguição, a tortura e a morte porque tem uma vivência intensa do amor, de um amor que gera igualdade, uma comunidade de irmãs e irmãos, um ambiente de discí­pulos e discípulas. A caminhada no seguimento a Jesus torna real a vivência do amor: amem-se uns aos outros (15,17). Esse é o mandamento de Jesus. Tema do nosso próximo encontro.

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4-  Videira e os Ramos: Jo 15,1-17

As seguintes pessoas, santas e mártires de hoje, ligadas à luta pela terra (Margarida Alves), pela ecologia (entre outros, Chico Mendes), pela liberdade (um exem­plo, Zumbi), deram suas vidas em favor da vida. Foram pessoas que tiveram a cora­gem de denunciar as situações de injustiça, de vio­lência, de pobreza e de miséria nas quais vivem mi­lhares de nossos irmãos e irmãs.

- Na família, na comunidade, no trabalho, na ci­dade, nós conhecemos pessoas que sofrem por causa do serviço da justiça e da solidariedade?

Ainda hoje encontramos pessoas corajosas, que as­sumem com garra a luta por condições dignas de vida. A comunidade de João assume o projeto de Jesus.

Os cristãos puseram a vida acima da Lei. Essa atitu­de mexeu no sistema econômico e religioso dos judeus fariseus, por isso os cristãos foram perseguidos e acaba­ram expulsos da sinagoga, uma organização que garan­tia a vida e a proteção das pessoas que estavam a favor do sistema. Dessa forma, a vida para as pessoas ou gru­pos excluídos da sinagoga tornou-se mais difícil: ficavam sem proteção, sem emprego, sem os serviços religiosos, principalmente sem o lugar para ser enterrado, sem di­reito à participação nas decisões da comunidade e ex­postos à perseguição do império romano. Vamos ler Jo 15,1-17 e procurar perceber qual era a fonte de força (a mística) que sustentava a vida da comu­nidade.

Situando o texto: Os capítulos 13 a 17 do Evangelho de João consti­tuem o chamado Livro da Comunidade. São princípios orientações práticas dirigidas aos discípulos e às discí­pulas para desenvolverem uma vivência comunitária ca­paz de sustentar, animar e ajudar a permanecer fiel nas perseguições.

Como já falamos, neste período, por volta do ano 90 d.C., os cristãos estavam sendo perseguidos pelas autori­dades do judaísmo oficial e pelo império romano (11,53; 12,10). Fora da sinagoga, as condições de vida eram muito difíceis. Por uma questão de sobrevivência, muitos esta­vam abandonando a comunidade cristã.

No Livro da Comunidade (13-17) há uma série de discursos que têm como objetivo ajudar as pessoas a per­manecer fiéis ao projeto da justiça e da solidariedade. Daí a insistência na palavra "permanecer" em Jo 15,1-17 (onze vezes). É a convivência na comunidade que sus­tenta a fidelidade. São as pequenas conquistas que aju­dam as pessoas a não desistir do projeto comunitário.

A comunidade joanina estabelece para si alguns prin­cípios, entre eles destacamos: 

- Deus está presente em cada membro da comuni­dade (14,20.23).

- Consciência da igualdade: é uma comunidade sem hierarquia, tanto na realidade vivida em fa­mília como em grupo. Uma comunidade que busca eliminar as diferenças entre patrão e em­pregado, servo e senhor, em que todos são discí­pulos e discípulas de Jesus, chamados a servir e amar até o fim (13,1.14-15;15,12-13).

- Na comunidade ninguém é excluído, nem mes­mo o inimigo (13,26).

- O amor mútuo é a força que cria e unifica a co­munidade: Como eu vos amei, amai-vos uns aos outros. Nisso conhecerão todos que sais meus dis­cípulos, se tiverdes amor uns pelos outros (13,34­35; 15,12; lJo 4,11).

- A prática do serviço e da solidariedade é conse­qüência natural da vivência do amor (13,14-15; 15,13).

- A nova sociedade exige romper com o sistema injusto e não ter medo da perseguição, tortura, exclusão e morte (15,18-16,4). A ordem é resis­tir!

- A comunidade cristã continua a missão de Jesus (17,18-20).

O que une e dá nova vida à comunidade são as novas relações fundadas no amor e no compromisso. No capí­tulo 15,1-17 o símbolo da videira e os ramos é um exem­plo que nos ajuda a compreender melhor o sentido de per­manecer, de continuar, de resistir e de amar até o fim.

Comentário ao texto: No Antigo Testamento, a vinha era uma imagem muito usada para representar o povo de Israel (Os 10,1; Is 5,1-7; Jr 2,21; Sl 80,9). A imagem da videira e os ramos era uma linguagem do cotidiano, fácil de com­preender, pois o cultivo de uvas na região era muito co­mum nos tempos antigos. Todos conheciam os cuidados que se devia ter com uma vinha.

Uma vinha necessita ser protegida (Pr 24,31), capi­nada (Pr 24,30), irrigada (Is 27,3) e podada (Jo 15,2), cuidados que exigem tempo e dedicação. Dizer que o povo de Israel é a vinha significa a experiência de seramado/a por Deus, de um Deus que oferece carinhos especiais, um Deus que é seu aliado na luta pela vida. Um Deus peregrino como o povo e sempre presente. E a comuni­dade joanina renova essa mesma experiência: ela sente, através de Jesus, Deus como parceiro em suas buscas de melhores condições de vida.

A imagem da videira e os ramos nos ajuda a com­preender a origem e a vivência da comunidade. Numa videira, todos os ramos estão ligados ao tronco. É dele que vem a seiva, a essência que garante a vida. Para que o ramo continue vivo, ele depende do tronco. Cada ramo se desenvolve de maneira diferente, porém todos bebem da mesma fonte. O fruto é o resultado da ligação entre as raízes, o tronco, os ramos e as condições necessárias para que a planta se desenvolva. O que faz circular a vida é a seiva.

No Evangelho de João, ao aplicar essa imagem à comunidade, podemos entender o seguinte: a comuni­dade cristã tem a sua origem em Jesus. É ele que convo­ca a comunidade e lhe dá unidade, e faz desse grupo fi­lhos e filhas de Deus (1,12). O amor é que une as pessoas e também é condição para que Deus faça sua morada na comunidade (1,14; 15,10). O único fruto que se espera dessa comunidade é o amor: "Isto vos mando: amai-vos uns aos outros" (15,17;13,34).

A comunidade se constrói na convivência, que se baseia no amor e se expressa no empenho concreto das pessoas para defender a vida. Esse caminhar não é mui­to fácil, não. Há sofrimentos que podemos comparar com as podas. Porém, elas são necessárias para que se produ­zam mais frutos, e frutos de vida. A vivência dos cris­tãos, do projeto de amar até o fim, entra em confronto com a sociedade injusta; portanto, permanecer implica correr risco de vida!

A nova comunidade tem sua prática baseada na nova justiça e em novas relações: "Eu vos chamo de amigos ... eu vos escolhi" (15,15-16). Numa comunidade de amigos e amigas, todos são iguais, ninguém é estrangeiro ou es­trangeira. O sonho da comunidade joanina era viver e construir uma sociedade baseada no amor, na partilha e na solidariedade.

Nesse projeto, Deus se manifesta como Pai-Mãe, aquele que chama a comunidade à vida. O Deus Filho se manifesta no amor presente e atuante no meio da comu­nidade. E quem sustenta, anima e ajuda na resistência é o Espírito de Deus, que é dinamismo, vida nova, seiva que faz circular a vida.

Aprofundamento: O que é a Trindade? Em todo o Evangelho de João é possível perceber uma preocupação concreta com os problemas que a co­munidade está vivendo. A proposta cristã é um projeto voltado para os pobres, doentes, marginalizados e opri­midos. Um projeto cuja essência é o amor vivido de ma­neira plena, no cuidado amoroso de uns para com os outros.

Quem ajuda a comunidade a permanecer firme nes­se novo projeto é o Espírito de Deus, a seiva, aquele que permite a cada membro perceber e intuir as necessida­des concretas da comunidade, de cada pessoa, e entrar na luta pela vida. Uma luta que implica risco de vida. E só aceitamos correr esse risco quando amamos. Portan­to, a comunidade de João procura manter vivo o amor, o único mandamento de Jesus para a comunidade. É no amor que Deus se faz presente: "Se alguém me ama, guar­dará minha palavra e o meu Pai o amará e a ele viremos e nele estabeleceremos morada" (14,23).

Essa experiência é a vivência da Trindade, que só é possível compreender através do amor. Mas o que é viver a Santíssima Trindade? Diante dessa pergunta, uma cri­ança de 9 anos, com os braços abertos, disse: É a gente viver o amor em comunidade, e pronto! Os braços bem abertos complementam as palavras. Na realidade é isso: à medida que abrimos nossa casa e nosso coração para acolher as pessoas é que nos tornamos mais próximos de Deus e vivenciamos a experiência de Deus comunhão: vida, amor e comunidade - Pai, Filho e Espírito Santo.

A comunidade de João também viveu a sua expe­riência da Trindade de maneira muito concreta. Ela apre­endeu que existia uma profunda sintonia entre Jesus e o Pai: Eu estou no Pai e o Pai em mim (14,11); eu e o Pai somos um (10,30). Só conhecemos o Pai através do se­guimento a Jesus (14,6). E a vida de Jesus é doação total de si. Seguir Jesus exige assumir a sua prática: "Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos" (15,13).

Amar até o fim (13,1) era o objetivo da comunidade de João. Assumir esse compromisso tornou-se realidade pela presença do Espírito, aquele que é o doador da vida e que orienta a comunidade em sua prática da justiça (14,26; 16,13). O Espírito é o protetor e defensor, aquele que consola e sustenta na provação (15,26;16,8-10). En­fim, a comunidade viveu a experiência do Espírito como vento que sopra onde quer (3,8), como aquele que prote­ge a comunidade em todas as circunstâncias, como água viva que sempre se renova (7,38), produzindo nova energia, novo vigor, e tornando as pessoas capazes de viver a solidariedade, a partilha e o amor até o fim.

No Evangelho de João, a experiência da Trindade é expressa no novo relacionamento entre as pessoas. Atra­vés do relacionamento com os irmãos e irmãs nos rela­cionamos com Jesus; aproximando-nos de Jesus, nos aproximamos do Pai, que faz surgir em nós uma nova vida: a prática do amor solidário (lJo 4,12.20-21; Mt 25,31-46).

A imagem da videira ajuda-nos a perceber a profun­da unidade que existe na nova comunidade. Ela faz a experiência de Deus que cuida, protege e lhe garante vida nova (10,1-6). Hoje somos chamados e chamadas a refa­zer a nossa experiência da Trindade, a renovar o sentido de viver em comunidade e deixar-nos conduzir pelo amor que possibilita o nosso empenho concreto em favor da vida. No próximo encontro vamos conhecer, mais de per­to, a comunidade de Betânia: Lázaro, Maria e Marta, a comunidade do amor e da vida.


5- A Ressurreição de Lázaro - Jo 11,1-44

O que significa viver em comunidade? Viver em comunidade é...

A comunidade joanina estava passando por um mo­mento muito difícil. Os cristãos estavam sendo persegui­dos, torturados e alguns foram mortos. Outros abando­naram a comunidade. Diante dessa situação, eles relembram a história da família de Lázaro, Marta e Maria, da comunidade de Betânia, que significa "casa do pobre". Nessa comunida­de encontramos Lázaro, cujo nome significa "Deus que ajuda", aquele que não abandona; Maria, aquela que é muito "amada" por Deus; e Marta, "a dona da casa", mu­lher sensível e acolhedora.

A comunidade era formada por pobres, preferidos e amados por Deus; de pessoas que acolhem, amam e ser­vem uns aos outros. Essa vivência é muito importante para resistir às perseguições.

Vamos ver (Ler 11,1-44) como essa comunidade viveu a sua fé e o seu testemunho e depois ver no texto quais são os personagens que aparecem, as palavras que mais se repetem e os gestos que nos falam do amor que havia entre aquelas pessoas.

Situando o texto: A ressurreição de Lázaro  é o maior sinal realizado por Jesus: é a vida que supera a morte (20,11-18). Ao mesmo tempo, é um anúncio do grande sinal: a ressurreição de Jesus. O projeto de Jesus de uma nova sociedade baseada no amor e na partilha continuou vivo nas primeiras comunidades cristãs. E hoje, as comunidades tentam seguir as marcas deixadas pelos primeiros seguidores e seguidoras de Jesus.

Em Jo 11,1-6 a palavra "doença" aparece 5 vezes. A repetição desse termo reflete a situação de sofrimento e morte provocada pela perseguição. Os judeus que abra­çaram a fé cristã foram perseguidos pelo império roma­no e pelas autoridades judaicas, por isso estavam viven­do uma situação de miséria, sem auxílio e sem proteção. De um lado, o sofrimento econômico: muita gente esta­va passando fome. De outro, o sofrimento religioso: os pobres e os doentes se sentiam castigados por Deus.

De acordo com a teologia da retribuição, a pessoa justa, observante da Lei, era abençoada com vida longa, descendência e prosperidade (Dt 8,1). A pobreza, a doença e a morte eram vistas como castigo de Deus. Jesus, com sua prática, rompe com essa mentalidade, e a comuni­dade, baseada na prática de Jesus, afirma: "...a doença não é mortal, mas é para a glória de Deus, para que, por ela, seja glorificado o Filho de Deus" (11,4).

Comentando o texto: Na comunidade joanina muitos membros estão sendo mortos, porém essas mortes ganham um novo sentido: são fontes de vida e comprovam a prática da comunidade. Lázaro, Marta e Maria representam a comunidade de Betânia, comunidade em que circula uma profunda relação de amizade e amor entre os mem­bros (11,3.5.11.35), capaz de gerar vida nova. Uma co­munidade que necessita da presença de Jesus. No capí­tulo 11 do Evangelho de João vemos que, na ausência de Jesus, há doença (11,6), morte (11,17), sofrimento (11,19), desânimo (11,20). Com a presença de Jesus, as pessoas voltam a acreditar na vida (11,25-27), saem de sua inatividade (11,20.29: atitude de Maria antes e de­pois), surge a solidariedade (11,33-35) e a vida nova (11,43-44).

Jesus recebe o recado, enviado por Marta e Maria, de que Lázaro está doente (11,3). Marta e Maria são ir­mãs de Lázaro. O termo irmão era um tratamento muito comum entre os cristãos após a ressurreição de Jesus (11,1; Ef 6,23; Gl 1,2). Outro modo de trata­mento familiar entre eles era amigo (11,11). Lázaro é o único enfermo que recebe nome próprio (4,46b; 5,3; 9,1). Lázaro é discípulo, tem identidade, é amado: "Vede como ele o amava" (11,36).

Apesar da amizade que une Jesus ao grupo de Betânia, ele demora dois dias para atender o chamado das irmãs. Quando Jesus chega, Lázaro - aquele que Deus ajuda - já está morto há quatro dias. De acordo com a crença daquela época, depois do terceiro dia seria impossível voltar à vida. Jesus encontra um ambiente de luto e tristeza.

Marta, ao receber a notícia de que Jesus está che­gando, sai ao seu encontro. A comunidade, na pessoa de Marta, é chamada a crescer na fé, a superar a crença na ressurreição do último dia (11,24) e a acreditar que Je­sus não é apenas alguém que faz milagres (11,22), mas é a ressurreição e a vida (11,25). Para ser discípulo e discí­pula, é preciso superar as crenças antigas. A comunida­de faz o seu ato de fé: "Sim, Senhor, eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus que devia vir ao mundo" (11,27).

Essa confissão de fé é o ponto alto desse texto, é con­dição para reavivar a esperança, fazer renascer a vida e unir as pessoas. Marta, por sua própria iniciativa, avisa a irmã de que Jesus está na região e a chama. O recado é dado em voz baixa (11,28). Isso indica que havia hostili­dade contra Jesus nos meios oficiais. As comunidades, articuladas principalmente pelas mulheres, sobreviviam às escondidas. Com a presença de Jesus, as pessoas são arrancadas do medo, ganham novo ânimo para a ação (11,29).

O encontro de Maria e Jesus é pleno de sentimentos. Ela se prostra, não tem receio de ser ela mesma, de ex­pressar a sua dor e tristeza. Uma cena comovente: de um lado, estão os judeus que se comovem e choram a morte; de outro, Jesus que se compadece e se comove (11,33). Jesus pergunta: onde o puseram? Maria responde: Se­nhor, vem e vê. Ir e ver indica proximidade, convivência. Jesus, à medida que se aproxima do sofrimento da co­munidade, é solidário e chora (11,35). Ele se dirige ao sepulcro, não para chorar a morte, mas para fazer res­surgir uma vida nova.

Jesus manda retirar a pedra, Marta faz uma obje­ção: "Senhor, já cheira mal: é o quarto dia!" (11,39). No­vamente a comunidade é chamada a amadurecer na fé: "Se creres, verás a glória de Deus" (11,40). O Evangelho de João não usa o substantivo fé, mas sim o verbo crer, para mostrar que a fé é um processo dinâmico que se forja na caminhada, nos acontecimentos e nas experiên­cias que a pessoa/comunidade faz no dia-a-dia.

A vida nova depende da ação solidária e amorosa da comunidade. "E Jesus gritou em alta voz: Lázaro vem para fora!" (11,43). Atenção! É a comunidade que ajuda a ressuscitar Lázaro, desatando-lhe as mãos e os pés. É a comunidade que devolve a vida a seus próprios membros, que se ajuda a libertar-se do medo da morte, do medo que paralisa. No grito de Jesus e da comunida­de está o clamor pela vida! Todos e todas são chamados a sair do sepulcro, a assumir o compromisso com a jus­tiça e, se preciso for, entregar a vida livremente: "Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só; mas se morrer, produzirá muito fruto" (12,24; d. 10,18).

Aprofundamento: que é ressurreição? No antigo Israel não existia o conceito de ressurrei­ção. A pessoa tinha de aproveitar bem a vida, usufruir os bens e as riquezas neste mundo. De acordo com a teolo­gia da retribuição, uma pessoa justa, aquela que cum­pria a Lei, era abençoada por Deus com riqueza e vida longa (Dt 5,33; Lv 18,5; Ne 9,29; SI 112,1-6). Quando uma pessoa morria, era colocada no túmulo e daí ia direto para o reino dos mortos, o Xeol. Conforme a concepção da época, o Xeol ficava nas profundezas da terra (J ó 17,13- 16). Onde havia um túmulo, existia um Xeol. A vida era limitada, a morte era vista como castigo e o fim de tudo (Jó 24,19; Sl 55,16).

No Antigo Testamento, a primeira vez que aparece o tema da ressurreição é no livro de Daniel (12,2-3), escri­to por volta de 164 a.C. E essa mesma crença também é confirmada no período dos macabeus (2Mc 7,9.11.23; 14,46). Diante dos justos que estavam sendo mortos por defender a Lei e a tradição judaica contra o domínio dos gregos, a idéia da morte como o fim de tudo foi se tor­nando inaceitável. Dessa forma se fortaleceu o conceito de ressurreição, para dar sentido à morte dos justos e incentivar os judeus na resistência contra os gregos. A idéia de ressurreição caminhou dependente da teologia da retribuição. É o homem justo que ressuscita, e ser justo significava cumprir a Lei. Acreditava-se que os jus­tos ressuscitariam para a vida eterna e os injustos para a vergonha eterna, para o castigo eterno.

Essa mentalidade também fazia parte da comuni­dade joanina (5,29), porém, diante do contexto de vio­lência, perseguição e morte que ela estava enfrentando, o conceito de ressurreição ganhou novo sentido. Basea­da na prática da justiça, do amor e da misericórdia vivi­das por Jesus, a comunidade fez sua releitura. O concei­to de morte na cruz como escândalo foi superado: a cruz passou a ser vista como fonte de vida e conseqüência da prática da justiça e do amor. Aqueles que viviam a prática do amor, solidariedade e misericórdia não mor­reriam jamais.

A comunidade cristã, através da defesa da vida e do sofrimento do inocente, consegue romper com a teolo­gia da retribuição. Ela se fundamenta na teologia do Ser­vo Sofredor, que por sua prática da justiça e do amor é perseguido (Is 42,1-9), assume a missão (Is 49,1-6), rea­liza (Is 50,4-11), sofre, morre e ressuscita (Is 52,13-53,12).

Quem assume o compromisso com a justiça entra em confronto com os poderes opressores. O que ani­ma a luta cotidiana é a relação profunda de amor e de solidariedade existente entre as pessoas. Ainda hoje o testemunho de mulheres e homens continua ressoan­do em nossa vida. Lembramos aqui Margarida Alves, uma líder morta na luta para conquistar a terra, cujo sonho está vivo nas pessoas que continuam nessa mes­ma luta. Santo Dias, líder sindical, morto por sua luta pelos direitos dos trabalhadores... Porém as comunida­des afirmam: Santo, a luta vai continuar, os teus filhos vão ressuscitar...

O sonho de vida digna: terra, trabalho e comida, continua vivo, animando e sustentando a busca de con­dições dignas de vida. As pequenas conquistas do dia-a-­dia, a imensa rede de gestos solidários que nasce e se fortifica nos corações capazes de abrir-se ao amor nos ajudam na fidelidade e no compromisso com a justiça. Na próxima reunião, como num espelho, através de Ma­ria Madalena vamos ver o que sustentava a convivência da comunidade do Evangelho de João.

 

6 - Jesus não esta morto - Jo 20,11-18

A morte de uma pessoa amiga ou de um parente vem acompanhada de dor, de saudade, de ausência, de lem­branças do que a pessoa foi e das coisas que poderiam ser diferentes... Os parentes, num gesto de carinho e pro­fundo amor, fazem de tudo para prestar uma última ho­menagem à pessoa que morreu fazendo o velório e um enterro digno.

Maria Madalena, que representa a comunidade, jun­to ao sepulcro experimentou dor, angústia e sofrimento (20,11-15). No Antigo Testamento, o livro Cântico dos Cânticos conta uma história muito parecida, que fala do amor e da procura pelo amado, uma busca que só termi­na com o encontro (Ct 3,1-4).

Maria quer encontrar Jesus, mas a dor a impede. No diálogo ela insiste, está disposta a enfrentar todas as di­ficuldades para encontrar o seu amado. Vamos acompanhar a leitura desse encontro (Jo 20,11-18) e responder as seguintes perguntas: O que fez Maria Madalena encontrar o Se­nhor? O que Jesus pede para Maria Madalena fazer?

Situando o texto: Maria Madalena é a primeira testemunha da ressur­reição. Esse encontro acontece porque a mulher não arredou o pé. Em meio à situação de morte ela resistiu, permaneceu até encontrar o Senhor. Na comunidade de João há muitas mulheres discípulas fiéis de Jesus que animam os demais a fazer o mesmo.

Esse texto Jo 20,11-18 é a parte final do Livro da Glorificação, que começa com a prática da comunidade (13-17), passa pela paixão e morte de Jesus (18-19) e conclui com as ce­nas da ressurreição (20). A ressurreição nasce da experiên­cia de amor vivida pela comunidade e de seu engaja­mento concreto na luta por vida em abundância (10,10). "No primeiro dia da semana, Maria Madalena vai ao sepulcro, de madrugada, quando ainda estava escuro, e vê que a pedra fora retirada do sepulcro" (20,1).

O túmulo está vazio. Mesmo no escuro, Maria Madalena percebe que Jesus não está no túmulo. A mulher, alarmada, corre e avisa a comunidade. Pedro e o outro discípulo se diri­gem para o sepulcro. Pedro apenas constata o fato, o outro discípulo vai além, ele crê (20,8).

No capítulo 11 vemos que Jesus se dirige ao sepul­cro onde Lázaro fora colocado. Uma pequena informa­ção nos diz que o sepulcro era uma gruta onde fora colo­cada uma pedra (11,38). É a vida que está presa, amarrada, fechada. E Jesus manda remover a pedra: ele liberta de tudo o que impede a vida. Ao ressuscitar Lázaro, Jesus ressuscita a comunidade.

Em Jo 20 temos um movimento contrário: Maria, representando a comunidade que busca superar o medo da morte, vai ao sepulcro onde Jesus fora colocado e en­contra a pedra removida e o local vazio. Isso indica que a morte não é o fim de tudo. A história e a missão de Jesus não terminaram com a morte. Ele continua vivo e atuan­te na comunidade que age em função da missão recebi­da e da presença do Espírito (14,16; 20,17).

Diante da situação de perseguição, de falta de espe­rança em meio ao sofrimento, miséria e desolação que os cristãos estão vivendo, lembrar a experiência da res­surreição de Jesus ajuda a renovar a fé no projeto da partilha. Nesse texto está presente a preocupação da co­munidade em formar uma comunidade de amor, em que todos e todas se sintam amados e façam a experiência de amar. Não me retenhas, pois ainda não subi ao Pai. Isto deixa bem claro que a missão da comunidade ainda não terminou, é preciso construir moradas: Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se não fosse assim, eu vos teria dito, pois vou preparar-vos um lugar... Esse lugar é a co­munidade que age impulsionada pelo Espírito de Deus. É preciso trabalhar, sem se agarrar à história passada: a morte não pode deter a vida (1,5; 20,1).

Comentando o texto: "Maria estava junto ao sepulcro, de fora, chorando" (20,11). Maria é uma figura que representa a comunida­de inconsolada com a morte de seus membros e com di­ficuldade de perceber os sinais de vida. Essa situação é descrita numa linguagem simbólica, inspirada no Cântico dos Cânticos. Nesse livro, a jovem sai ao encontro do amado: "Em meu leito, pela noite, procurei o amado da minha alma. Procurei-o e não o encontrei! Vou levantar­-me, vou rondar pela cidade, pelas ruas, pelas praças, pro­curando o amado da minha alma... Procurei-o e não o encontrei!" (Ct 3,1). Maria vai ao sepulcro chorar a mor­te do Senhor. Ela está presa à idéia da morte como o fim de tudo. De longe, no escuro, Maria Madalena percebe que o túmulo está vazio. Desesperada, vai ao encontro dos discípulos, que constatam o fato e retornam para a sua casa. Maria permanece chorando junto ao sepulcro (20,11).

A mulher, angustiada e ainda chorando, olha para o interior do túmulo e vê dois anjos. No Cântico dos Cânticos, a jovem pergunta para os guardas: "Onde está o meu amado?" (Ct 3,3). No Evangelho de João, são os anjos que perguntam a Maria a razão de sua dor. Na sua resposta: "Levaram o meu Senhor" (20,13) está expressa a dificuldade da comunidade de tomar consciência da ressurreição de Jesus. A dor, o desespero e o medo não deixam a comunidade perceber que a vida é mais forte que a morte.

O objetivo de Maria é encontrar o corpo do Senhor. Jesus se aproxima e lhe pergunta: " 'Mulher, por que cho­ras? A quem procuras?'. Pensando ser ele o jardineiro, ela lhe diz: 'Senhor, se foste tu que o levaste, dize-me onde o puseste e eu o irei buscar!' " (20,15). A mulher continua sem esperança, ainda não conseguiu ver os si­nais de vida, mas, apesar disso, continua persistente em sua busca.

Maria Madalena reconhece Jesus quando ele a cha­ma pelo nome. Ela faz a experiência de ser amada e aco­lhida como discípula: "Não temas, porque eu te resgatei, chamei-te pelo nome: 'tu és meu' " (Is 43,1). Ela é a ove­lha que reconhece a voz do Pastor 00,2-3). Uma situa­ção semelhante é descrita no Cântico dos Cânticos: "Eu dormia, mas meu coração velava e ouvi a voz do meu amado" (Ct 5,2).

É a experiência humana de intimidade, de convivên­cia no amor, que faz a pessoa viver. Quando Maria en­contra o amado, é um momento de grande alegria e emo­ção. Ela quer abraçar e prender o Senhor. No entanto, Jesus lhe diz: "Não me retenhas, pois ainda não subi ao Pai. Vai, porém, a meus irmãos e dize-lhes: subo a meu Pai e vosso Pai; a meu Deus e vosso Deus" (20,17).

Não, a missão ainda não acabou. É preciso continu­ar as obras de Jesus. O Reino de Deus é para todos, por isso é necessário que Maria vá anunciar aos "meus ir­mãos"; e isso, no contexto da comunidade de João, não é apenas para os discípulos e discípulas, mas é anúncio universal. Todos e todas são chamados ao amor, a expe­rimentar o Ressuscitado vivo na comunidade (20,19-31).

Aprofundamento: As mulheres experimentam vida nova! O Cântico dos Cânticos e a descrição do encontro de Maria Madalena com o Ressuscitado têm muitos elemen­tos em comum. Os dois textos falam de uma mulher que procura pelo amado. As duas mulheres são persistentes. Arriscam a própria vida e desafiam as normas prees­tabelecidas pela sociedade. Quando a jovem encontra o seu amado, ela o leva para a casa. Maria Madalena, ape­sar de sua confusão, não se afasta do sepulcro. O seu objetivo é encontrar o Senhor. E, no entanto, é o Senhor que a encontra. Ela também deseja reter o seu amado, porém isso não lhe é possível. Maria é desafiada a anun­ciar a sua experiência de amor, a construir uma nova comunidade.

Por que a comunidade se inspirou no Cântico dos Cânticos para falar de sua experiência de ressurreição? O Cântico dos Cânticos é um poema de amor e, ao mes­mo tempo, um grito de libertação. Um protesto contra a opressão e a exploração do corpo. Esse livro nasceu no pós-exílio, por volta do ano 400 a.C., no tempo de Esdras e Neemias.

Em 539, o império persa dominou o império babi­lônico. Em 538 a.C., os dirigentes exilados, chamados de Golá em hebraico, tiveram permissão para voltar a seus países de origem. Esses dirigentes, desde que pagassem tributos ao império persa e se submetessem politicamen­te, podiam se organizar conforme suas culturas, religiões e costumes.

O povo judeu, sob a liderança desses dirigentes, sa­cerdotes e escribas, começaram a se reestruturar a partir da Lei e do Templo. A Lei de Deus passou a ser a lei do rei: "Todo o que não observar a Lei de teu Deus - que é a lei do rei - será castigado rigorosamente: com a morte ou o desterro, com multa ou prisão" (Esd 7,26). Através da Lei, os dirigentes judaicos controlavam a vida das pes­soas. Eles reforçaram a lei da pureza para evitar a união com estrangeiros (Esd 9,1-10,17). Os casamentos mistos eram proibidos. Isso por dois motivos: para preservar a pureza do grupo e por motivos econômicos.

Para ter acesso ao culto e ao Templo, a pessoa devia estar em dia com as exigências da Lei. Caso contrário, deveria oferecer sacrifícios e ofertas ao Templo. Uma pessoa pobre tinha dificuldade para cumprir a Lei, pois os sacrifícios custavam caro. O corpo era desprezado e controlado pela Lei. A mulher vivia quase sempre impu­ra por causa da menstruação e do ato de dar à luz (Lv 12,1-8). Portanto, a mulher sempre estava em dívida com o Templo.

Nesse contexto, alguns livros nasceram como pro­testo contra a imagem de um Deus opressor, justiceiro e castigador, como, por exemplo, o livro de  e 6 Cântico dos Cânticos. Este livro, ao reforçar a beleza e a im­portância do corpo, ajuda as pessoas a se libertar das exigências da lei do puro e do impuro. Os autores apre­sentam um corpo livre e belo, cheio de vitalidade e desejo, aberto ao amor. E mais ainda, ao contrário de uma sociedade em que a mulher era oprimida e sub­jugada, neste livro a mulher tem iniciativa: ela vai ao encontro do amado.

Assim, temos um grito de libertação das mulheres contra o legalismo que impede uma verdadeira expe­riência de Deus. Não é a Lei que faz a pessoa experimen­tar Deus, mas sim o amor: "O amor é uma faísca de Deus" (Ct 8,6). A verdadeira experiência de amor é capaz de devolver ao outro a alegria de viver. É o amor humano  que ajuda a quebrar as barreiras que as pessoas criam para oprimir e explorar.

A comunidade de João ainda estava no escuro (20,1), buscando, de maneira confusa, enfrentar os desafios diante das perseguições. É a experiência de amor, da pre­sença do Ressuscitado, que lhe traz novo vigor para con­tinuar firme no projeto da partilha e da solidariedade. Esta comunidade, representada por Maria Madalena, é testemunha da ressurreição e é enviada para anunciar que o Ressuscitado continua vivo no seu meio. Ao usar a imagem da mulher, a comunidade joanina valoriza e des­taca a importância dela no seu meio. É um novo protes­to diante das outras comunidades cristãs que estavam assumindo uma tendência patriarcal, hierárquica e androcêntrica, ou seja, centralizada no homem.

No contexto em que vivemos, as mulheres conti­nuam sofrendo exclusão na sociedade, na igreja e na fa­mília. Fica para nós o desafio: quais os gestos e atitudes de exclusão que praticamos contra a mulher que a impe­dem de viver uma verdadeira experiência de ressurrei­ção? O Verbo se encarnou, se fez um de nós para trazer nova luz à vida do ser humano. Esse é o tema que iremos rezar e sobre o qual iremos refletir na próxima reunião.

 

2- https://leituraorante.com.br/2-o-cego-de-nascenca-joao-91-41