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Marcos
Marcos

O Evangelho segundo Marcos foi escrito antes de Mateus, Lucas e João e procura responder a pergunta: quem é Jesus para evitar distorções em seu seguimento. Aparentemente, uma pergunta com resposta evidente. Mas não é tão óbvio assim. Na comunidade do Evangelho, uns diziam que ele era João Batista, outros, que era Elias, um dos profetas ou o Messias (Mc 8, 28s). E dentro da categoria messias cabiam muitas concepções diferentes da proposta de Jesus: poder dominador, glória, triunfalismo, violência. Hoje também, dentro da referência a Jesus e dentro do cristianismo, há muitas concepções diferentes e mesmo díspares: rei triunfante, sacerdote, psicólogo, economista, revolucionário, monge; espiritualidades voltadas apenas para a glória e para o transcendente, sem atenção à realidade social ou vice-versa.

 

Marcos é o único evangelista que intitula sua obra de evangelho, termo que significa "boa nova, boa notícia” (1s). Esse termo era muito usado no império romano para divulgar as notícias de interesse do império e os decretos do imperador. Por exemplo, era usado para anunciar o imperador como "filho divino e salvador" por ter estabelecido a paz sobre a terra. Com esse evangelho o imperador ditava e moldava o cotidiano do povo dominado para impor e legitimar o poder e a dominação como também para a cobrança sistemática de impostos, monopólio do comércio e implantação da religião e cultura. Para Marcos, a Boa-Nova (boa notícia) é o nascimento de Jesus Cristo, sua vida, morte e ressurreição. Essa maravilhosa novidade é tão importante que marca o início de um novo tempo, por meio de Jesus Cristo. A continuidade do Evangelho depende das pessoas que praticam os ensinamentos de Jesus em todo os tempos e lugares. 

 

2- QUEM ESCREVE? QUANDO? ONDE?  Cada evangelho surgiu numa comunidade específica que conhecia quem era o seu autor ou os seus autores. Os nomes dos autores não constavam no texto porque não era preciso. Assim circularam de forma anônima, mais ou menos, até o ano 140 d.C., quando começava-se a definir a lista dos livros considerados inspirados do Novo Testamento. É nesse momento que os evangelhos foram atribuídos a Marcos, Mateus, Lucas e João. O Evangelho de Marcos é, desde o ano 140, atribuído a alguém de nome Marcos por Pápias, bispo de Hierápolis. Ele se refere a “Marcos, intérprete de Pedro”. Segundo Irineu, bispo de Lyon, Marcos teria sido o jovem João Marcos que aparece nos Atos dos Apóstolos como filho de certa Maria, que acolhia uma comunidade cristã em sua casa, na cidade de Jerusalém (At 12,12). Marcos foi colaborador de Paulo e Pedro (At 13,5.13; 15,36-39; 1Pd 5,13).

 

Depois que Jesus passou pelo mundo fazendo o bem e ensinando a Boa Notícia do Reino de Deus, foi morto e no terceiro dia Deus o Ressuscitou, seus seguidores e seguidoras formaram comunidades para viver aquilo que Ele ensinou. Mas Ele não deixou nada por escrito. Havia a tradição oral daquilo que Jesus fez e disse. Passaram-se os anos e muitos dos que viram e ouviram Jesus (as testemunhas oculares) já haviam morrido, e algumas heresias começavam a surgir.

 

Então por volta do ano 65, mais ou menos, período do martírio de Pedro, surgiu a necessidade de deixar por escrito a mensagem de Jesus! Esta data é confirmada pelas alusões do texto à guerra judaica contra Roma (sobretudo no capítulo 13 de Marcos). Tal guerra ocorreu entre os anos 66 e 70, e teve fim com a tomada de Jerusalém pelos romanos e a destruição do Templo, no ano 70. Desse modo, o texto de Marcos deve ter sido escrito entre os anos 65 e 70 passando por mais de uma redação.

 

Para muitos, o evangelho de Marcos surgiu em Roma, após o martírio de Pedro, em 64 ou 67 d.C. Os argumentos se baseiam na tradição de Papias, no início do século II, que atribuiu esse evangelho a Pedro, sendo Marcos o redator. Outros acreditam que esse escrito de acordo com a pesquisa atual, foi escrito na Galileia, principal local da atividade missionária de Jesus. Há algumas informações que aparecem no texto que fortalecem essa afirmação. Por exemplo no evangelho de Marcos, Jesus atua a maior parte de sua vida na Galileia e nos seus arredores. Outro exemplo é que o autor conhece as tensões existentes na Palestina e entre os diversos grupos e regiões. Para ele, os adversários de Jesus na Galileia vêm de Jerusalém (3,32; 7,1). Ele sabe que a Palestina e as regiões limítrofes não estão habitadas somente por judeus (7,24-25).

 

3- PARA QUEM ESCREVE? Embora haja judeus na comunidade de Marcos, os principais destinatários são os pagãos pois o autor explica certos costumes e práticas judaicas, incompreensíveis para seus leitores (Mc 7,3-4): “Ora, os fariseus e os judeus em geral, apegados à tradição dos antigos, não comem sem terem lavado as mãos até o cotovelo e  a lei do puro e do impuro (Mc 7,1-23) ; como também o uso de termos em aramaico e sua tradução em momentos-chaves da narrativa, como: Talitha kum, “menina, levanta--te" (5,41); Effatha, “abre-te” (7,34); Abba, “pai” (14,36); e Eloi, Eloi, lemá sabachtáni?, “meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” (15,34).  E seguem ainda outros costumes que receberam por tradição: a maneira certa de lavar copos, jarras, vasilhas de metal, camas”. Para nós, a região da Galileia é o local de origem do evangelho de Marcos, tendo como destinatários as comunidades situadas na região da Síria, de Tiro e da Decápolis.

 

4- COM QUE FINALIDADE ESCREVE? Marcos escreve sobre Jesus com o objetivo de dar respostas às dificuldades das comunidades que acompanha, tais como as tentações de se desviar do caminho de Jesus diante da perseguição, o retardamento em reconhecer a dimensão profunda da mensagem do Cristo, o medo em avançar na fidelidade à proposta do Filho do Homem, que veio da parte de Deus para instaurar um novo tempo no coração da crise da história. Diante de tais problemas, Marcos lembra o desafio de retomar a missão do Jesus, superando a negligência pessoal ou a falta do compromisso comunitário.

 

5. MARCOS E OS OUTROS EVANGELHOS

a) É o mais curto dos quatro Evangelho. Tem 16 capítulos e 661 versículos, Mateus reproduz 606; Lucas reproduz 31; Tanto Mt e Lc usaram Mc como fonte de pesquisa para a composição dos seus evangelhos. Mas não é um resumo de Mateus como muitas vezes se afirmou.

b) Encontramos também algumas ausências. Em Mc não temos a genealogia e a infância de Jesus, nem o Pai Nosso e as Bem-aventuranças. As tentações estão resumidas (1,13)

 

c) Marcos relata duas multiplicações dos pães. A primeira (6,30-44) é para os judeus e sobram “doze cestos”. Doze é o número das tribos de Israel e dos Doze Apóstolos. A segunda (8,1-9) é para os pagãos e sobram “sete cestos”. Sete é o número do Diáconos gregos de At 6,1-6 e o número das nações pagãs (At 13,19).

 

d) Marcos é mais universalista. A seção de 7,1 a 8,9 é um chamado aos pagãos à salvação.

 

e) Só Marcos usa a palavra “Evangelho” que é uma Boa Notícia da parte de Jesus Cristo e da parte de Deus! A palavra “Evangelho” aparece 7 vezes (1,1.14.15; 8,35; 10,29; 13,10; 14,9).

 

 6- PISANDO NO CHÃO DA COMUNIDADE DE MARCOS. Desde 63 a.C., a Palestina estava sob o domínio do império romano, que explorava violentamente o povo por meio do exército, cobrança abusiva de impostos, pedágios para circulação de pessoas e mercadorias. Nessa época  pagava-se 60% de impostos, sendo que 46 % ia para Roma. Isso gerava um número crescente de pessoas escravizadas, muitas doenças e pessoas empobrecidas vagando pelas praças e mercados, repressão violenta das revoltas, incêndio e destruição de cidades. Frente a tudo isso, uma minoria de cerca de 5% esbanjava luxo e se beneficiava dessa situação. O sistema religioso, além da conivência e do recebimento de impostos 14% destinados ao Templo, pregava a teologia da retribuição; a lei da pureza que segregava e excluía doentes e pobres legitimava a riqueza injusta como bênção de Deus (Dt 28s).

 

Nesse período, aumentou o endividamento e muitas famílias foram obrigadas a vender sua terra, o que significava perder sua casa, identidade e relações sociais. Fome, doença e escravidão se tornaram realidades do cotidiano. Muitas pessoas ficaram sem eira nem beira, perambulando pelas praças e mercados, sem-terra e sem emprego (Mt 20,1-16). E para complicar a situação, as leis da pureza marginalizavam e castigavam os pobres e os doentes. Essa realidade provocou várias revoltas, especialmente na Galileia, a região mais explorada e devastada.

 

No norte da Galileia, por volta do ano 70 d.C., a comunidade de Marcos redigiu o seu livro sobre a vida de Jesus. Trata-se de uma comunidade atingida pela guerra e a fome e a perseguição (Mc 4, 35s). Em meio a essa realidade sofrida surgem muitos movimentos messiânicos voltados à libertação do povo, movimentos violentos, e renasce o nacionalismo judaico, a espera de um messias rei que implante o reinado de Deus pela violência e dominação. Na comunidade de Marcos, também havia atração por esse nacionalismo e pelos movimentos messiânicos. A cura do cego de Betsaida (8,22-26), indica que a comunidade precisa abrir os olhos para compreender que Jesus é o Messias-servo que assumiu a causa da justiça até o fim, por isso foi morto, mas Deus o ressuscitou (8,31; 9,30-31; 10,32--34) e os versículos finais da cura do cego Bartimeu (10,46-52), que uma vez curado, joga o manto, gesto este que significa abandonar essa visão de messias-rei.O Evangelho recolhe as memórias sobre Jesus, mostrando que o messianismo dele é diferente.

 

Como poderemos aprofundar pela leitura dos artigos, o messianismo de Jesus não é o do poder e  da glória; ele é o Messias-servo, que não veio mandar e dominar, mas conviver, solidarizar-se e libertar as pessoas exploradas e excluídas pelo Império e pelo sistema religioso de então; um messianismo que passa pelo sofrimento da cruz por assumir as causas da justiça até o fim e se solidariza com os crucificados da história

 

Mas, apesar das dificuldades, a comunidade procurava resgatar e seguir o projeto de Jesus de Nazaré: a construção do reino de Deus.

 

7- CONHECENDO A PROPOSTA DO EVANGELHO DE MARCOS.  Na tentativa de retomar o caminho de Jesus, a comunidade apresenta Jesus como o Messias-servo e as condições para segui-lo. Entrar nesse discipulado exige “deixar as redes” e ter disposição para aprender de Jesus estratégias para a concretização do reino de Deus. E preciso sair e ultrapassar fronteiras. Só é possível construir o reino a partir de relações tecidas na fraternidade e no serviço.

O evangelho de Marcos nasce da necessidade da comunidade de colocar por escrito suas memórias sobre quem é Jesus, enfatizando que ele não é o messias do poder e da glória, mas o seu messianismo passa pelo sofrimento e a cruz. Eis alguns pontos principais desse texto:

  1. Quem é Jesus de Nazaré: O evangelho apresenta Jesus como o Filho do Homem na figura do servo sofredor, que veio conviver e libertar as pessoas empobrecidas, exploradas e excluídas pelo Império e seus colaboradores/as. Proclamou o reino de Deus para todas as pessoas, independentemente da etnia, da classe social, do gênero e da religião. A sua fidelidade ao projeto do reino da justiça e da fraternidade o levou a um confronto com os poderosos do seu tempo e, consequentemente, à cruz, mas Deus o ressuscitou.

 

2. O seguimento de Jesus: Esse evangelho apresenta mulheres e homens que seguem Jesus desde a Galileia até Jerusalém, convivendo e aprendendo com ele. Dentro de suas limitações, esse grupo assumiu a causa do reino de Deus, que se fundamenta na justiça e na solidariedade, no meio das pessoas que estão à margem da sociedade, como mulheres, pobres, estrangeiros, crianças e doentes (1,31; 6,33; 8,1; 7,28; 10,13.52).

 

8- CONHECENDO A ESTRUTURA DO TEXTO O evangelho não é simplesmente um relato biográfico do que Jesus fez e ensinou, mas tem como objetivo dar continuidade ao seguimento de Jesus e de sua práxis no tempo em que o texto foi escrito. No século I, dominada pelo império romano, a situação da Galileia era de grande opressão, de um crescente empobrecimento e escravidão. Nela surgiram muitos movimentos de resistência, alguns dos quais defendiam a luta armada.

 

O movimento de Jesus era um desses movimentos de resistência, cuja proposta era organizar a multidão, lendo como características a compaixão e a solidariedade (6,34; 8,2; 9,22; 10,47-48). O poder é serviço: “Se alguém quiser seio primeiro, seja o último de todos e o servo de todos” (9,3S; 10,43-44).

 

Há diversas possibilidades de estruturar o evangelho de Marcos. Para uma visão de conjunto, optamos pela divisão em três partes, seguindo o ministério de Jesus na Galileia e nos arredores, em seguida a caminhada para Jerusalém e os últimos acontecimentos em Jerusalém.

 

Eis um breve esquema:

Primeira parte (1,1-8,26): a atividade de Jesus na Galileia e nas regiões vizinhas. Nesta etapa, temos a formação da comunidade que se encontra com Jesus em casa. A comunidade enfrenta vários problemas externos e internos, a saber: fome, doenças, individualismo, preconceito (1,34.44; 3,12; 5,43; 6,30-44; 7,36). Essa parte termina com a cura do cego de Betsaida (8,22-26), indicando que a comunidade precisa abrir os olhos para compreender que Jesus é o Messias-servo.

 

Segunda parte (8,27-10,52): a viagem para Jerusalém a partir da Galileia. É um caminho para compreender e aprofundar Jesus como o servo sofredor com os três anúncios da Paixão (8,31-33; 9,33-37; 10,32-34). É uma catequese sobre o seguimento de Jesus na vida cotidiana da comunidade. Ao anunciar o “caminho da cruz”, Jesus combate e corrige os discípulos que aspiram ao poder e privilégio, que transparecem na figura do messias poderoso como Davi. Os versículos finais apresentam a cura do cego Bartimeu (10,46-52). Uma vez curado, ele joga o manto, gesto que significa abandonar a visão de messias-rei.

 

Terceira parte (11,1-16,8): o ministério de Jesus em Jerusalém, com a sua paixão, morte e ressurreição. A prática libertadora de Jesus está em conflito com os poderes do mundo, por isso ele é condenado e morto como subversivo. Mas Deus não abandona o justo (Sb 2,18) e o ressuscita (SI 22). Essa parte termina com a ordem de voltar para a Galileia, o local onde Jesus começou e exerceu a maior parte de sua prática libertadora.

 

Acréscimo posterior (16,9-20). Os versículos finais foram acrescentados tardiamente e apresentam uma síntese dos relatos das aparições de Jesus ressuscitado. Na origem, o evangelho era uma obra sem conclusão. A conclusão ficava a critério de quem lia esse relato... E preciso ter coragem para voltar à Galileia.

 

Que a leitura e a meditação do evangelho de Marcos sejam para nós e nossas comunidades um convite para renovarmos nossa fé e o nosso seguimento de Jesus na construção do reino de Deus. Que possamos deixar cair na terra do nosso coração a ordem de voltar para a Galileia.

 

Para saber mais sobre Marcos Acesse:

http://xacute1.com