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MARCOS 2,23–3,6
MARCOS 2,23–3,6

Com a retomada do tempo comum, também retomamos a leitura contínua do Evangelho segundo Marcos, como prescreve a liturgia para o ano B. Neste nono domingo, o texto proposto é Mc 2,23 – 3,6, o qual narra duas situações polêmicas de Jesus com os seus tradicionais adversários, os fariseus, e certamente com outros fiéis observantes do judaísmo frequentadores do culto sabático na sinagoga. Se trata de dois episódios envolvendo a interpretação livre e autônoma de Jesus em relação ao sábado com as reações contestadoras dos fariseus.

 

A observância rigorosa do sábado tinha se tornado o traço mais importante da religiosidade praticada pelos fariseus. Havia, inclusive, uma grande vigilância deles em relação a esse preceito, principalmente nas pequenas cidades e aldeias, distantes de Jerusalém e do templo. A vida rural, totalmente dependente das atividades manuais, oferecia bem mais possibilidades de “transgressão”, conforme a mentalidade farisaica. O contexto do texto é o ministério de Jesus na Galileia, marcado por uma série de polêmicas que lhe renderam diversas acusações pelos fiéis observantes das tradições religiosas.

 

Marcos apresenta uma série de polêmicas envolvendo Jesus nos capítulos 2 e 3 do seu Evangelho. Ainda no início do seu ministério, Jesus é acusado de: fazer-se igual a Deus, ao perdoar pecados (cf. Mc 2,1-12); comer com publicanos e pecadores (cf. Mc 2,15-17); não ensinar seus discípulos a praticarem o jejum (cf. 2,18-22); transgredir o sábado junto com os discípulos, como relata o evangelho de hoje: Mc 2,23-28 e 3,1-6. Com duas polêmicas seguidas sobre o sábado, o evangelista evidencia o zelo que os fariseus tinham por esse mandamento e a necessidade de Jesus ressignificá-lo, colocando-o a serviço da vida.

 

O texto de hoje se encontra também nos outros sinóticos, com algumas leves modificações (cf. Mt 12,1-14; Lc 6,1-11). Do primeiro versículo, podemos colher muitas informações importantes para a interpretação de todo o texto: “Jesus estava passando por uns campos de trigo, em dia de sábado. Seus discípulos começaram a arrancar espigas, enquanto caminhavam” (v. 23). Havia um limite de percurso para se caminhar em dia de sábado, o que não deveria ultrapassar os 1.200 metros. O texto faz pensar que esse limite estava sendo desobedecido por Jesus, embora não entre nas acusações posteriores. Enquanto as versões de Mateus e Lucas dizem que os discípulos arrancaram as espigas para comer, Marcos diz que arrancaram para abrir caminho, embora a tradução litúrgica não deixe claro; a tradução mais correta seria: “Seus discípulos começaram a abrir caminho, arrancando as espigas” (v. 23b). Esse diferencial de Marcos acentua ainda mais o grau de transgressão; arrancar espigas para fazer caminho é, literalmente, realizar uma atividade braçal.

 

A reação dos fariseus revela a prática de uma religião caduca, vigilante e punitiva: “Então os fariseus disseram a Jesus: “Olha! Por que eles fazem em dia de sábado o que não é permitido?” (v. 24). Ao invés de estarem cultuando a Deus ou fazendo o bem ao próximo, os fariseus estavam vigiando se Jesus e seus discípulos estavam observando o mandamento. O rigorismo farisaico era tão forte a ponto de espalharem vigilantes para observar se alguém transgredia a lei. É esse tipo de religião que Jesus denuncia com sua interpretação livre e prática libertadora, e o evangelista Marcos faz questão de recordar para sua comunidade. O Reino a ser construído pelos discípulos e discípulas de Jesus não pode seguir os parâmetros daquela religião.

 

Antes, Jesus já tinha sido questionado pelo comportamento dos seus discípulos em relação ao jejum (cf. Mc 2,18-22). Naquela ocasião, usou como a argumento a presença do noivo como sinônimo de alegria, tornando o momento impróprio para o jejum. Dessa vez, a resposta se fundamenta diretamente na Escritura, mostrando que também Davi, quando teve necessidade, transgrediu a lei com seus companheiros, comendo do pão que só era permitido aos sacerdotes (cf. vv. 25-26; 1 Sm 21,2-10). Há um pequeno equívoco do evangelista em relação ao nome do sacerdote no episódio de Davi: ao invés de Abiatar, era seu pai Aquimelec. Porém, o importante não são esses detalhes, mas a mensagem em seu complexo: a obsessão dos fariseus pelo sábado fecha-os completamente, a ponto de não compreenderem a Escritura. 

 

Jesus resolve a primeira polêmica com uma afirmação de caráter sapiencial, e exclusiva do Evangelhos de Marcos: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado” (v. 27); nessa, ele deixa claro o sentido do sábado e de toda a lei: o bem do ser humano. Nenhum aspecto da lei deve ser usado para impedir o bem do ser humano. O sábado e toda a lei foram feitos para o bem da pessoa humana, para sua plena realização e libertação. Com essa interpretação, ao invés de transgredir, Jesus recupera o sentido verdadeiro do sábado como memorial de libertação (cf. Dt 5,12-15), e o faz com plena convicção de que “o Filho do Homem é Senhor também do sábado” (v. 28). Com o título de “Filho do Homem”, ele reivindica sua condição divina e sua missão de reordenar a criação, colocando o ser humano em seu lugar primordial.

 

A segunda parte do texto apresenta a conclusão da série de polêmicas. A cena acontece ainda no sábado, e dentro da sinagoga: “Jesus entrou de novo na sinagoga. Havia ali um homem com a mão seca. (3,1). Ao mencionar a presença de um homem com a mão seca, o evangelista quis enfatizar que se tratava de uma pessoa impossibilitada de trabalhar para o seu sustento e também para fazer o bem. Em uma sociedade basicamente agrícola como aquela, as mãos eram os membros mais valorizados numa pessoa; portanto, aquele homem estava privado de sua dignidade, do respeito, e da capacidade de colaborar com a criação e a sociedade. Para quem praticava uma falsa religião, ou seja, frequentava o culto mas o separava da vida e da prática do bem ao próximo, aquela situação já não preocupava, era vista como normal. Como para Jesus o culto agradável a Deus é sempre o bem do ser humano, a situação daquele homem não poderia lhe passar despercebida.

 

Como a fama de Jesus como transgressor da lei e dos bons costumes já tinha se espalhado, onde ele chegava era bastante observado e vigiado, principalmente nos ambientes religiosos: “Alguns o observavam para ver se haveria de curar em dia de sábado, para poderem acusá-lo” (3,2). Os adversários já estavam prontos para acusá-lo, caso ele intervisse na situação daquele homem. O evangelista mostra o quanto os praticantes da religião já estavam perseguindo Jesus: o vigiavam enquanto caminhava e também quando parava e entrava em algum lugar. Já estava claro que a prática libertadora de Jesus era uma ameaça e um perigo àquela religião. Onde quer que Jesus se encontrasse, havia representantes da religião vigiando.

 

É claro que Jesus não se intimidava com a perseguição e vigilância. O bem do próximo, principalmente dos desvalidos e excluídos, era sempre a sua prioridade maior. Eis, então, a sua atitude: “Jesus disse ao homem da mão seca: levanta-te e fica aqui no meio!” (3,3). O primeiro que Jesus faz é restituir a vida; incapacitado para o trabalho, era como se aquele homem não vivesse. Ao ordenar que se levante, Jesus recupera a vida com o seu sentido de liberdade; para a ordem de levantar, o evangelista emprega, no imperativo, o mesmo verbo que usará para expressar a ressurreição de Jesus (o verbo grego e;geirw – egheiro); ao ordenar que fique no meio, Jesus o torna protagonista e mostra que o centro do verdadeiro culto e da religião, deve ser sempre o bem da pessoa humana. Portanto, Jesus resgatou a vida daquele homem, mandando-o levantar-se, e deslocou o ser humano para o centro do culto, deixando de lado a lei com seus preceitos.

 

Sabendo que estava sendo observado e até mesmo odiado pelas pessoas devotas presentes na sinagoga, Jesus faz uma pergunta decisiva para a compreensão da sua mensagem: “É permitido no sábado fazer o bem ou o mal? Salvar uma vida ou deixá-la morrer?” (3,4). A resposta foi o silêncio. A pergunta evidencia a diferença na maneira de compreender o sentido do sábado entre Jesus e seus adversários. Deixar de fazer o bem já é uma forma de fazer o mal. A omissão e a indiferença não podem ser aceitas na comunidade cristã, recorda o evangelista com essa pergunta de Jesus. Não se pode desperdiçar uma única oportunidade de fazer o bem. O espaço e o momento cultual da cena recordam para a comunidade qual a natureza do verdadeiro culto agradável a Deus: fazer sempre o bem ao necessitado.

 

O agir de Jesus em favor do bem do ser humano não sensibiliza seus adversários que preferem permanecer atacados às tradições e prescrições, preferindo uma religião indiferente à vida: “Jesus, então, olhou ao seu redor, cheio de ira e tristeza, porque eram duros de coração; e disse ao homem: “Estende a mão. Ele a estendeu e a mão ficou curada” (3,5). Antes mesmo de narrar a cura, o evangelista registra a reação de Jesus à dureza de coração dos adversários: “Jesus encheu-se de ira e tristeza”. Marcos é o único evangelista que apresenta Jesus com esses sentimentos de indignação; é a reação de Deus à rejeição do seu amor. A dureza de coração reflete uma religião petrificada, sem a mínima abertura à novidade do Reino de Deus proposto por Jesus. Endurecendo o coração ao ver Jesus fazendo o bem, os seus adversários demonstram a adesão a uma religião excludente, punitiva, legalista e fechada.

 

Com a cura, mais que mostrar um ato extraordinário de Jesus, o evangelista alerta a comunidade a colocar sempre a prática do bem como prioridade. A mão curada daquele homem significa a restauração da sua vida; com sua saúde restituída, ele voltou a ser protagonista da própria história, ou seja, voltou a viver. Certamente, Jesus poderia ter deixado para fazer a cura em um outro momento. Mas o fez no sábado e na sinagoga para desmascarar aquela religião segregadora e hipócrita. Fazendo em outro momento, estaria sendo conivente com aquele culto ultrapassado indiferente à vida das pessoas com seus problemas. Fazendo em um contexto cultual, ele deixou explícita a sua denúncia e a sua indignação com uma religião fechada ao amor que é a essência mesma de Deus.

 

A postura libertadora de Jesus incomoda aos duros de coração; e isso os leva a procurarem uma maneira de eliminá-lo, afinal, Jesus estava sendo um perigo para aquele modelo de sociedade e de religião. Por isso, “Ao saírem, os fariseus com os partidários de Herodes, imediatamente tramaram contra Jesus, a maneira como haveriam de mata-lo” (3,6). A colisão dos fariseus com os partidários de Herodes mostra o quanto a mensagem de Jesus era inquietante, tornando-se uma ameaça para o sistema, e denuncia o máximo de hipocrisia: é o conluio dos covardes, dos opressores, de quem percebe que seus sistemas falharam e, por isso, apelam para a violência. Eram grupos adversários que tinham escolhido Jesus como inimigo comum. Os herodianos constituíam o grupo de apoio público à dominação romana, e reconheciam a divindade do imperador. Já os fariseus, como o mais devoto dos grupos religiosos judaicos, viam a dominação romana como um abomínio, por isso esperavam constantemente pelo envio de um Messias glorioso e guerreiro que ressuscitasse o reino davídico-salomônico. Nesse plano de fariseus e herodianos, está uma antecipação do plano futuro que levará Jesus à morte: a religião e o império romano unidos para pôr fim a um personagem incômodo e indesejado: Jesus de Nazaré.

 

Mesmo não sendo observantes do sábado, as comunidades de hoje devem ser questionadas pelo Evangelho de hoje. São convidadas a refletir sobre quais são suas prioridades cultuais, sobre suas opções preferenciais e, principalmente, sobre a presença de Jesus em seu meio. A presença do Ressuscitado numa comunidade provoca mudanças, abala estruturas, desconstrói paradigmas e concepções. Ao ressignificar o sábado, Jesus mexeu com aquilo que o seu povo considerava mais sagrado. Precisamos aprender com ele a discernir entre o essencial e o periférico, sabendo de antemão que o essencial é sempre a promoção do bem e a libertação do ser humano.