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13.1 - Introdução Geral
13.1 - Introdução Geral

FORMAÇÃO do ANTIGO TESTAMENTO

A Bíblia é um livro diferente de todos os outros livros. 

 

1.Ela não é um livro só, mas uma coleção de pequenos livros. A palavra "Bíblia" vem do grego e significa, literalmente, "livrinhos", pois indica o plural da palavra "biblion" que é o diminutivo de "biblos", livro. 

 

2.Foi escrita em três línguas diferentes: a maior parte está em hebraico, outra em grego e alguns trechos em aramaico. 

 

3.Foi redigida em muitos lugares diferentes: grande parte foi escrita na Palestina, mas outras partes foram escritas na Babilônia, no Egito, na Ásia menor, em Roma e em diversas outras localidades. 

 

4.Começou a ser escrita mais ou menos por volta do ano 1.000 a.C. e só terminou por volta do ano 200 d.C: ou seja, mais ou menos 1.200 anos se passaram até alcançar a forma que tem hoje.

 

5.Teve muitos autores e autoras: não se sabe exatamente quantos, mas foram mais de uma centena. 

 

Mas isto não é tudo. A Bíblia é também um livro diferente de outros por ser um livro sagrado. A parte que chamamos de Antigo Testamento contém livros sagrados do judaísmo. O conjunto do Antigo com o Novo Testamento é o que chamamos de Bíblia, livro sagrado para o cristianismo. 

 

E muitos personagens que figuram neste livro são também sagrados para o islamismo. Mas dizer que é um livro sagrado não quer dizer que ele tenha uma origem fora da história ou que tenha caído do céu. Pelo contrário, a Bíblia tem esse caráter sagrado porque revela o rosto do Deus da vida, que se manifesta na história, nas lutas em favor da vida com dignidade e justiça para todos, principalmente para as pessoas empobrecidas e marginalizadas. É na defesa e na promoção da vida que a Bíblia ganha caráter sagrado e torna-se Palavra de Deus. 

 

Casinha que se tornou casarão 

A história da Bíblia pode ser comparada à história de uma casa, que começou pequenina e pobre, com poucos cômodos, mas ao longo dos anos foi passando por reformas, recebendo o acréscimo de novos cômodos, até tornar-se um casarão. Como vimos, a Bíblia é uma construção  que levou mais de mil anos para ficar do jeito que a vemos hoje. Começou com pequenas histórias de libertação contadas oralmente, que depois foram registradas por escrito, celebradas, recontadas, atualizadas em novos acontecimentos e aumentadas com novas histórias, memórias, cânticos, provérbios, leis e orações, tudo passando por diversas revisões, até formar o livro que hoje temos em mãos. 

 

Seguindo na comparação da casinha que se tornou casarão, o que se vê no final é o casarão pronto, isto é, o resultado da última reforma. Não se vê o processo nem as diferentes fases pelas quais passou até tornar-se um casarão. Assim é a Bíblia. O seu todo apresenta hoje o resultado das últimas grandes reformas pelas quais passou: o Antigo Testamento revela predominantemente as formas que recebeu no período do pós-exílio (cerca de 400 a.C até 200 d.C), ao longo do processo em que se constituía o judaísmo. E o Novo Testamento mostra o rosto que recebeu após a definição do cânon cristão, entre os anos 100 e 400 d.C.

 

O casarão pode assustar e intimidar. É que a casinha inicial era pequena e simples, acessível e acolhedora, principalmente para os mais pobres e necessitados. Mas ela ainda pode ser encontrada no coração da Bíblia, quando esta é usada para a promoção e a defesa da vida. A casinha aparece claramente na história da construção da Bíblia, e é ela que lhe dá sentido sagrado. 

 

O começo de tudo: uma casinha pobre, a casa da defesa da vida dos pobres 

Para compreender como nasceu a Bíblia, temos de voltar até 1300 a.C, mais de 3300 anos atrás, na terra de Canaã, localizada em uma região chamada Crescente Fértil ou Meia Lua Fértil. A região recebeu esse nome por causa dos grandes rios: Nilo, no Egito; Tigre e Eufrates, na Mesopotâmia e Jordão, em Israel. Hoje o Crescente Fértil se estende pelo Iraque, a Siria, o Líbano, a Jordania, o Egito e o Estado de Israel. https://www.youtube.com/watch?v=Js8xxMZcug4

 

Nessa época, nessas regiões, a grande maioria do povo vivia nas planícies férteis em torno de "centros urbanos", pequenas cidades-estado cercadas por muralhas, e estava submetida ao domínio dos reis cananeus e do faraó do Egito. Entretanto, havia também um contingente menor de pessoas habitando nas regiões montanhosas de Canaã (Hebron, Betel e Siquérn) e no deserto ao sul de Judá (Bersabeia).

 

Eram pequenas aldeias camponesas que provavelmente se originaram de assentamentos de famílias de pastores que se fixaram nessas regiões, fora do controle dos centros urbanos. Os hebreus eram  eram apenas uma entre as muitas tribos que chegaram e se fixaram aí depois de fazerem seu êxodo fugindo de situações de sofrimento, de opressão em busca de uma vida melhor. No livro do êxodo, isso aparece na história de Moisés , mas pelo fato que o Êxodo é a principal referencia da fé do povo de Israel, essa história do grupo de Moisés carrega dentro de si as experiências de opressão e libertação de muitos outros grupos que também participaram da formação do povo de Israel.

 

Em cada uma delas venerava-se a memória de seu patriarca fundador: em Hebron veneravam-se Abraão e Sara; em Bersabeia, Isaac e Rebeca; em Betel, Israel e Raquel; e em Siquém venerava-se a memória de Jacó. O povo de Israel nascerá a partir dessas pequenas aldeias. Por isso, sua cultura e seus escritos foram fortemente influenciados por vizinhos como os cananeus, que viviam ali desde o ano 5.000 a.C. E, eles não foram os únicos a influenciar as histórias do livro sagrado.

 

Os grupos urbanos e as aldeias camponesas das montanhas e do sul de Judá possuíam praticamente a mesma cultura: eram cananeus, e os seus deuses e deusas eram as divindades do panteão cananeu: El, Elohim, Aserá, Baal, Astarte, Anat, entre outros. No entanto, a vertente urbana da religião estava associada ao sistema de poder, e funcionava como religião oficial. Ensinava que as deusas e os deuses apoiavam e abençoavam o faraó e os reis, comunicando-se diretamente com eles. Estas divindades não estavam interessadas na vida das pessoas que trabalhavam, das pessoas pobres, marginalizadas ou escravizadas. Somente os reis e faraós eram considerados filhos de Deus (cf Sl 82,6-7). 

 

As outras pessoas deviam reverenciar e obedecer ao faraó e aos reis como se eles fossem os representantes dos deuses na terra, ou os próprios deuses em pessoa. Eram cultuados em grandes celebrações nos templos oficiais, e todo o povo devia trazer-lhes tributos, oferendas, e submeter-se a trabalhar na construção de seus palácios e templos. Dentro das muralhas, na religião oficial, as divindades do panteão cananeu eram postas a serviço da legitimação do poder, da coleta de tributos e do acúmulo de riquezas e poder. 

 

Entre as aldeias camponesas nas montanhas, o culto aos deuses e às deusas estava vinculado aos diversos aspectos fundamentais da vida, como ter filhos, fertilidade dos campos e dos animais, saúde, amor, proteção, veneração aos antepassados etc. Eram os anciãos, os pais e as mães que realizavam o culto, e as oferendas eram praticamente simbólicas e raramente alguém ficava mais rico ou mais pobre na vertente da religião camponesa. Era uma religião geralmente centrada na defesa e na promoção da vida, da identidade e das instituições que possibilitavam a vida nas condições ambientais das aldeias.  Tudo isso, no entanto, se dava no contexto de uma sociedade patriarcal. Na política e na religião as mulheres tinham alguns espaços importantes, tanto nas cidades como nas vilas camponesas. Porém quase sempre esses espaços, e as próprias mulheres, estavam subordinados ao controle dos homens. 

 

A crise dos centros urbanos a partir de 1200 a. C, causada por vários fatores, entre os quais a invasão dos "povos do mar", e o processo de resistência ao sistema de dominação das cidades-estado, fazem com que grupos de pastores, camponeses e gente marginalizada (hapirus) de Canaã, e pessoas escravizadas no Egito, encontrem nessas aldeias a possibilidade de viver longe da dura opressão imposta a eles pelos reis cananeus e pelo faraó. Essas pessoas vão aumentar as populações de Hebron, Bersabeia, Betel e Siquém.

 

Possivelmente a partir de Betel e Siquém formam-se as tribos de Benjamim, Efraim e Manassés, e a partir de Hebron origina-se a tribo de Judá, que mais tarde englobará a Bersabeia. Este é o núcleo inicial de Israel, que se forma nas montanhas centrais da Palestina. Nesse processo, algum povo deve ter trazido o culto a Javé para dentro das aldeias e tribos de Israel. Javé parece ser uma divindade que veio de fora de Canaã (Ex 2,16; 3,1-2; Dt 33,2; Jz 5,4; Hab 3,3).  Javé será integrado ao panteão das tribos e aldeias camponesas, possivelmente como o Deus dos guerreiros e da guerra (cf Ex 15,2-3; 14,14.24-25.27; Jz 4,14-15; lSm 17,47). Mas nas tribos e aldeias estes guerreiros travam apenas guerras defensivas contra saqueadores. Seu culto acontecia no momento em que os camponeses necessitavam transformar seus instrumentos de trabalho em armas (lSm 17,40-43) e formar linhas de guerreiros para defender a vida de suas famílias, suas colheitas, suas terras e sua liberdade. 

 

As tribos de Israel, com mentes e corpos marcados pelas estruturas opressoras cananeias e egípcias, visando eliminar as grandes desigualdades sociais que haviam sofrido, vão desenvolver seus laços de solidariedade e princípios éticos, procurando constituir sociedades sem concentração de terras, de poder e de riqueza. As tribos viviam sem reis, e eram formadas por associações de famílias nas quais deveriam predominar as relações de solidariedade, ajuda mútua e justiça social, uma sociedade de defesa e promoção da vida para todos. Essas organizações sociais que buscavam viver em liberdade e solidariedade são o núcleo inicial do povo de Israel. Os arqueólogos encontraram um monumento erigido por volta de 1210 a.C pelo faraó Mernephtah, em que aparece o nome "Israel", indicando um povo que vivia na região montanhosa de Canaã. 

 

Nesse núcleo inicial das tribos de Israel, formadas por gente de diversas origens, as relações são estabelecidas a partir da luta pela vida contra a opressão e por liberdade, e da experiência das divindades como presença libertadora, uma força aliada nessa luta. Testemunham que conquistaram a liberdade porque um Deus lutou ao lado delas contra os opressores. 

 

O nome "Israel" une o nome do Deus El com o verbo "lutar", como pode ser visto em Gn 32,29, e de fato Significa é Deus quem luta. Porém esses diversos grupos possuíam diferentes tradições religiosas: para os pastores, este Deus é Elohim, o Deus dos pais, o Deus dos antepassados (Ex 3,6; Gn 31,53), ou El Shadai, o Deus das estepes, das montanhas (Ex 6,3, Gn 17,1) ou das mamas (Gn 49,25). Para os escravos, é o Deus dos hebreus (Ex 5,3; 3,18; 7,16), sendo que "hebreu" aqui não tem ainda a conotação racial de descendente de Abraão que terá no pós-exílio, mas é a forma hebraica da palavra "hapiru", que designa a condição social de gente marginalizada. E ainda, para os camponeses, este Deus é El, o Deus supremo do panteão cananeu (Gn 46,3-4; Nm 23,22; 24,8; e Gn 33,20; 35,7). Essa compreensão libertadora das divindades na vertente religiosa das aldeias e tribos envolvia também o culto às deusas e deuses da fertilidade das pessoas, dos campos e dos animais.

 

São as histórias contadas por esses pastores, hebreus, escravos e camponeses que constituem as tradições mais antigas que darão origem à Bíblia. São elas que formam a base do livro do Gênesis e o cerne mais profundo do livro do Êxodo. Assim, por detrás da história que conhecemos como “o êxodo", na verdade existem várias experiências de libertação: o êxodo dos pastores, o êxodo dos hebreus e escravos, e o êxodo dos camponeses cananeus. O povo de Israel e o centro de sua fé brotam dessas diversas experiências de libertação. Porém hoje essas histórias aparecem na Bíblia sintetizadas na grande narrativa do Êxodo. Pois, principalmente nas tribos do norte, a história dos escravos que se libertaram da opressão do faraó tornou-se o paradigma, o modelo bíblico para falar de opressão e libertação. A história do grupo de Moisés acabou sobrepondo-se às outras, talvez pelo caráter espetacular da vitória do grupo de pessoas escravizadas que enfrentou face a face as forças do faraó e conseguiu libertar-se do coração do império opressor. 

 

Partindo de sua experiência de gente oprimida, e de modo coerente com a vertente da religião camponesa, que cultuava as divindades na defesa da vida, importantes setores tribais defendiam a organização das tribos em torno do uso compartilhado da terra e do exercício do poder, com vistas a impedir a concentração de poder, de terras e riquezas. Em várias tribos essa organização era patrocinada por Javé (Jz 8,23,e 1Sm 8,7; 10,19; 12,12 e 19).  Por uns duzentos anos, entre 1250-1050 a.C, Israel será um conjunto de tribos autônomas e independentes entre si, nas quais as associações de famílias viviam mais ou menos solidariamente, procurando evitar o acúmulo de riqueza e a centralização do poder. É esta sociedade que forma o pano de fundo do livro dos Juízes e do início de 1Samuel.

 

A defesa da vida do povo oprimido é a casa simples, porém forte, que dá origem a tudo. Ela é, portanto, o fundamento, o coração e a raiz mais sagrada de toda a Bíblia. E assim que surge Israel, e é aqui também que começa a história da Bíblia. Começa com experiências vividas, celebradas em cultos e transformadas em narrativas contadas pelos avôs, avós, pais e mães para filhos e filhas, netas e netos. Os textos escritos virão somente mais tarde, já no contexto da monarquia, com a primeira das grandes reformas pelas quais a casinha passará. 

 

 

Primeira grande reforma: a monarquia 

Nos cem anos seguintes, entre 1050-950 a.C, o aumento da produção camponesa, propiciado pelo aumento da população, pela introdução do ferro e do boi na agricultura, levará donos de bois, líderes políticos, guerreiros e sacerdotes, seduzidos pelo comércio, a esboçarem tentativas de acumular riquezas e poder (Jz 8,24-26; 9,1-4; 10,3-4; lSm 2,12-16). O desenvolvimento dessas contradições internas, somado aos ataques de inimigos externos (lSm 11,1-2; 13,19-21), enfraqueceram os fundamentos solidários da sociedade tribal israelita. Desse modo, criam-se as condições para a transformação de algumas aldeias camponesas em núcleos urbanos e o surgimento de uma elite que concentra poder econômico, político e militar e institui a monarquia (lSm 9,1; 11,57; 25,2). 

 

Com a monarquia, configura-se uma sociedade em que uns poucos têm muito mais poder e riqueza do que a maioria da população, e o patriarcalismo e o antropocentrismo são reforçados. A monarquia constitui um grupo social dominante que controla o exército e se mantém explorando o trabalho e apropriando-se de grande parte da produção das famílias camponesas, direcionando-a para a rede do comércio internacional. As famílias camponesas, além de serem levadas a entregar parte de sua produção, também devem entregar suas filhas e filhos para trabalhar nas obras  e guerras decididas pelo rei e seus aliados (1Sm 8,11-17). Surge um pequeno grupo muito rico e poderoso, e aparece na sociedade grande número de pobres, sem terra e sem casa, sem os meios necessários para uma vida digna (lSm 22,2; 25,10). Esse processo começou timidamente com Saul (cerca de 1050 a.C) e consolidou-se com  Davi e Salomão (entre 1000 e 930 a.C). 

 

Essas grandes modificações na sociedade exigem uma justificação, uma legitimação. Isso será feito através da elaboração de uma religião oficial, isto é, uma teologia, uma espiritualidade e uma liturgia que favoreçam o rei e a hierarquia social. A religião oficial se concretiza com a construção de um Templo, exclusivamente a serviço da monarquia, uma vez que as aldeias e tribos possuem seus locais de culto e pequenos santuários próprios. Assim, a monarquia de Davi apropria-se do Javé das tribos e o coloca como patrocinador do rei e do seu exército (2Sm 6,1-19), e depois, na antiga cidade-estado cananeia de Jerusalém, Salomão constrói o templo, celebrado como a "casa de Javé" (lRs 8,12-13; Sl 132,5-7.13-14; 134,1; 135, 1.21). 

 

Embora em Jerusalém Javé ocupe espaço central por ser o Deus do rei e da religião oficial (Sl 2; 89), todas as outras divindades do povo de Israel, ou oriundas de alianças ou imposições políticas e econômicas, também serão cultuadas ali (2Rs 23,4-14), integradas na vertente religiosa de legitimação do poder e da riqueza. E, para compreender a Bíblia, é fundamental saber que a monarquia, apesar de ser sinal efetivo da subjugação das aldeias camponesas pelos "centros urbanos" e inspirar-se nos sistemas fenício-cananeu (lRs 5,15-32) e egípcio (lRs 3,1), será instituída em nome de Javé, o Deus libertador dos escravos e camponeses. E os sacerdotes e escribas da religião oficial vão apresentar a monarquia como algo desejado por Javé (lSm 10,1-2; 16,1; 1Rs 3,7), e o rei como o filho escolhido e abençoado de Javé (Sl 2; 110; 132). E também vão assegurar uma aliança eterna entre Javé e a dinastia de Davi em Jerusalém (2Sm 7,8-16; Sl 89).  Enquanto nas tribos as mediações para a realização da vontade de Javé eram as leis de solidariedade e ajuda mútua, na monarquia a vontade de Javé se realizará através do rei e do próprio sistema monárquico. 

 

Mas houve resistência

Sobre os fundamentos sagrados da casa de defesa da vida do povo, são erguidos palácios e templos que defendem os interesses do rei e dos grupos dominantes. Mas o culto a Javé, como o Deus da defesa da vida, como sinal de contradição e de denúncia, resiste e continua vivo nas práticas e organizações solidárias das tribos e aldeias do povo camponês. Assim, daí em diante, Israel terá duas principais vertentes teológicas: uma, a mais antiga, a vertente da religião ligada à vida do povo, presente no culto a Javé que vem da libertação, da solidariedade e da partilha da terra, viva na memória, na profecia e nas práticas mantidas em diversos santuários tribais e organizações camponesas remanescentes do tribalismo; é a teologia do Javé que defende a vida dos camponeses e camponesas. Outra, a teologia difundida na vertente da religião ligada ao poder, nos cultos oficiais do Javé patrocinador da monarquia e do Templo de Jerusalém, elaborada por sacerdotes, escribas e profetas a serviço do rei. Essa ambigüidade nos desafia ao discernimento. Pois nem sempre o que o texto bíblico apresenta como palavra ou mandamento de Javé ou de Elohim estará na defesa e promoção da vida. Divindades condenadas como Baal, Aserá ou Astarte na vertente camponesa da religião de Israel, podem estar mais ligadas à vida dos camponeses do que o Javé que as condena e promove violência contra elas e as pessoas que as seguem. 

 

A consolidação da monarquia demorou mais ou menos 100 anos. Esse tempo indica que houve muita resistência. A resistência das aldeias camponesas, onde Javé e as outras divindades são cultuadas na defesa e na promoção da vida, esteve sempre presente. Essa resistência se manifesta fortemente já no final da vida de Salomão, quando as tribos do norte denunciam a monarquia de Salomão como um "fardo pesado" e "dura escravidão" (lRs 12,4). Não aceitam a imposição de tributos (lRs 4,7-19; 5,2-4.6-8) e trabalhos forçados (lRs 5,27-28; 11,28), e por volta de 930 a.C  formam o  reino de Israel, independente de Judá (lRs 12,18). A resistência camponesa ressoará forte também na voz dos profetas, seja no reino de Judá, dirigido pelos descendentes de Davi, seja no nascente reino de Israel. 

 

É necessário ter sempre tudo isso em mente para que, diante da magnitude e do brilho do casarão, não esqueçamos que o fundamento de tudo, o sagrado, está na pequena casa que guarda o Espírito do Deus da defesa da vida, presente nas funções e no culto prestado pelas famílias camponesas a Javé. E isso é muito importante para a compreensão da Bíblia, porque é somente na monarquia, principalmente com Davi e Salomão (por volta de 1000 a.C), que começarão a ser escritos textos que farão parte da Bíblia. Neles, a teologia que defende a vida do povo trabalhador está entrelaçada com a teologia que defende os interesses dos poderosos, dos palácios, templos e seus rituais. Duas teologias que atravessam toda a história de Israel e chegam até Jesus, que escolherá a primeira delas e será perseguido e morto pelos representantes da outra. E, de certo modo, chegam até nós, convidando-nos também ao discernimento e à opção.

 

Outras reformas aconteceram

Ao ler a Bíblia hoje, podemos ter a impressão de que o povo de Israel era monoteísta desde o começo, ou que adorava somente a Javé e não possuía imagens divinas. Entretanto, as evidências de que dispomos indicam que o monoteísmo foi adotado em Judá somente no período pós-exílico, em uma das reformas mais recentes pelas quais passou a fé de Israel. Pois a arqueologia e os próprios textos bíblicos nos mostram que o povo de Israel levou muitos séculos até tornar-se monoteísta e banir de seu meio o culto e as imagens dessas diversas divindades.

 

Mas, como vimos, Israel nasce dentro da sociedade cananeia, com muitos elementos culturais e religiosos dessa raiz. Assim, nos primeiros tempos, as famílias camponesas e a monarquia de Israel cultuavam diversos deuses e deusas, entre eles Javé, El, Elohim, Baal, Astarte, Asherá ou Aserá (1Rs 15,13; 2Rs 21,7; 23,7.13; Jr 44, 15-19), e possuíam imagens dessas divindades, tanto para uso e funções domésticas (Gn 31,19-35; 15m 19,13-16), quanto para funções e rituais públicos (Jz 6,25-32; 8,27; 17,1-13; 1Rs 12,26-33; 15,13; 2Rs 18,1-4; 23,4-20). 

 

Cada deus ou deusa tinha "jurisdição" sobre determinada área da vida. Havia deuses e deusas da tempestade, da chuva e da fertilidade dos campos, divindades ligadas à fertilidade dos animais, das pessoas, do amor, da guerra, dos antepassados, e de muitos outros aspectos. Essa diversidade também acontecia porque cada tribo tinha seus próprios santuários, e as vilas camponesas tinham vários locais de culto (Jz 6,24.26; 15m 1,3; 7,16-17), bem como os chamados "lugares altos" (lSm 9,12-14; 10,5; 1Rs 3,2-4). Javé era o Deus da defesa da vida dos camponeses e garantidor das relações éticas de justiça e solidariedade (Ex 22,20-26, Dt 10,18-19; 24,10-22; 27,19; 51146,9; Is 1,17; Jr 7,6). Cada dinastia que chegava ao poder tinha seu Deus oficial. Em Judá, dominada pela dinastia de Davi, o Deus oficial será Javé. Porém, outro Javé bem diferente era adorado nas tribos. No reino do norte, Israel, governarão várias dinastias, e aí ocorrerão disputas a respeito do Deus oficial. Adotarão ora El ou Elohim, ora Baal, ora Javé (lRs 18,21).

 

Segunda grande reforma: os reis Ezequias e Josias 

Possivelmente entre o auge do domínio assírio na região (anos 700 a.C) e especialmente com o final do domínio assírio (600 a.C), deu-se um movimento que visava unir as tribos do norte com as do sul, sob o comando da dinastia de Davi instalada em Judá. Este movimento destruiu santuários, aboliu imagens, proibiu todo culto fora de Jerusalém, e também proibiu o culto a qualquer outra divindade que não fosse Javé. Fazendo de Jerusalém, capital de Judá, o único local onde se podia oferecer sacrifício, os israelitas daí em diante deveriam adorar exclusivamente a Javé. Os reis Ezequias e principalmente Josias são os expoentes desse movimento. Para alcançar esses objetivos, impor e firmar essas diretrizes, organiza-se, provavelmente no tempo de Josias, a redação principal da história de Israel, que se encontra nos livros do Deuteronômio, Josué, Juízes, 1 e 2Samuel, e 1 e 2 Reis.

 

  1. 1- Deuteronômio: Um só Deus, Um só Templo, Um só Povo e um só Rei

 O titulo Deuteronômio, ou “Segunda Lei”, provém da Bíblia Grega, a Setenta (ou Septuaginta), que assim traduziu a expressão “cópia da Lei” de Dt 17,18, entendendo que a Primeira Lei teria sido o conjunto dado no Sinai/Horeb (Ex 19-Nm 9). Na Bíblia Hebraica, este livro se chama Debarim, “Palavras”, pois inicia com a frase - “São estas as palavras que Moises dirigiu a todo o Israel...”

 

O Deuteronômio é constituído por uma série de discursos que o autor ou autores põem na boca de Moisés, preparando uma aliança entre Javé e Israel, semelhante às alianças firmadas entre os reis assírios e seus vassalos. Nesta aliança, Javé esco­lhe Israel para ser o seu povo, que deve comprometer-se a obedecer à Lei e prestar culto exclusivamente no santuário que Javé escolheu. Embora posto como conclusão do Pentateuco, o Deuteronômio se diferencia muito dos outros quatro livros. A presença de várias frases introdutórias (1,1; 4,44; 6,1; 12,1), diversas conclusões (28,69; 31,9-13; 34,1-12), discursos dirigidos ora a "vocês” (1,6-5,5), ora a “você” (5,6-21), são sinais de que o livro é fruto de longo e complexo processo de redação.

 

O núcleo mais antigo (12,1-26,19) é provavelmente constituído de normas socio-potico-religiosas das vilas camponesas do norte, retrabalhadas pela monarquia nortista de Israel em meados do séc. VIII a.C. como revisão do Código da Aliança (cf. Ex 20,22-23,19).

 

Com a queda da Samaria e anexação do reino de Israel ao império assírio, em torno de 722 a.C., fugitivos is­raelitas  levaram para Jerusalém estas e outras tradições orais e/ou escritas. Aí, Dt 12,1-26,19 serviu certamente de base para a reforma realizada pelo rei Ezequias, que entre 716 e 701 a.C. preparou Judá para enfrentar a Assíria (2Rs 18,1-7; 20,20). Esta, no entanto, impõe seu domínio político também sobre Judá, e Manassés, sucessor de Ezequias, é totalmente submisso à Assíria.

 

Somente a partir de 640 a.C., com o declínio do poder assírio, o núcleo cen­tral do Dt (possivelmente já ampliado pelos escribas e sacerdotes de Jerusalém, e já contendo 4,44-28,68) emerge como o “Livro da Lei” encontrado no templo na época do rei Josias (2Rs 22,8-20). E será usado pelo rei Josias para integrar as reformas dentro de seu projeto de estender o domínio de Judá sobre Israel, no sonho de ter as doze tribos unidas num só povo, cultuando somente a Javé, no único santuário de Jerusalém, e comandadas por um rei davídico. Para envolver o povo e legitimar esse projeto de dominação, a corte de Josias reelaborará toda a história de Israel, projetando suas próprias perspectivas, seja como desejo de Javé nos inícios da história de Israel (Dt, Js, Jz), seja como passado glorioso vivido no tempo de Davi e Salomão (1 e 2Sm, 1 e 2Rs). Também os textos de Am, Os, Is, Mq, Sf, Jr, entre outros, serão editados com tais perspectivas.

 

O breve exercício imperialista da corte de Jerusalém será brutalmente interrompido pela Babilônia, que ocupará o espaço do antigo império assírio. Judá resistirá, mas será inicialmente submetido (597 a.C.). Tendo-se revoltado novamente, a cidade e o templo de Jerusalém serão arrasados (587 a.C.) e milhares de judaítas serão exilados para a Babilônia. A fim de responder ao contexto do exílio e/ou inícios do pós-exílio, o Dt será finalizado, recebendo nova introdução (1,1-4,43), outra conclusão (28,69-30,20) e mais um apêndice, com a despedida e morte de Moisés (31,1-34,12).

 

A leitura deste livro nos desafia a discernir entre as teologias e práticas coerentes com o Deus libertador do êxodo e dos profetas e as teologias oficiais criadas por impérios em busca de legitimação de sua violência e dominação. Semelhante discernimento, infelizmente, ainda é necessário hoje, quando muitas teologias apresentam práticas e estruturas que, embora falando em nome de Jesus, exercem práticas de dominação, violência e exclusão.

 

2.2- Josué: Identificação, Conquista e Partilha do Território

O esforço empreendido pelas tribos israe­litas na conquista e ocupação das terras é o tema principal do livro de Josué. Até chegar ii sua redação final, antigos relatos nascidos cm ambiente de família, de trabalhadores do campo, de sábios atuantes na corte do rei i dos sacerdotes em seus diversos santuários, sofreram longo processo de contar e montar, escrever e reescrever fatos da his­tória de Israel e dos povos circunvizinhos.

 

A primeira tentativa de reunir essas antigas tradições históricas, na maioria vindas do reino do norte (destruído pela guerra de 722 a.C.), aconteceu durante a reforma empreendida pelo rei Josias (640-609 a.C.). Com base na solene promulgação do livro do Deuteronômio (12-26), na época enten­dido como “Livro da Lei” e “encontrado na Casa de Javé” (cf. 2Rs 22,8), essa reforma  consistiu, segundo a visão dos grupos diri­gentes e proprietários de terras instalados na cidade de Jerusalém, em realizar os desejos de um Deus chamado Javé, venerado por Israel. Tal reforma desencadeou mudanças na vida religiosa e social, entre das a centralização do culto em Jerusalém, a destruição dos santuários em lugares altos, a perseguição e morte dos sacerdo­tes ligados a divindades estrangeiras, e a proibição de imagens e de culto aos deuses familiares, destacando-se a oficialização da Páscoa como festa nacional celebrada na capital Jerusalém (cf. 2Rs 23,4-25).

 

As inúmeras guerras narradas no li­vro de Josué devem ser compreendidas a partir do projeto de Josias, que deseja integrar o reino do sul e o território do an­tigo reino do norte numa unidade política (Israel), em torno de uma única divindade (Javé) e sob um só comandante (descen­dente davídico), tudo para legitimar essas novas fronteiras. À primeira vista, as “guerras de Javé” assustam. Afinal, nunca houve e não existirá nenhuma ação bélica invasora, conquistadora e destruidora que seja aprovada por Deus. Os leitores deparam, isto sim, com relatos fictícios que visam animar, integrar e determinar as ações expansionistas e controladoras da reforma deuteronomista realizada por Josias.

 

Bom exemplo dessa história narrada para exaltar Javé, o Deus de Israel, e o povo residente em Judá, pode ser verifica­do na época em que os hebreus começam a ocupar as terras da região. Em meados do séc. XII a.C., as grandes cidades-estado cananeias já não existem. Jerico, outrora pertencente aos cananeus, por exemplo, não passava de um monte de ruínas. Seu esplendor tinha desaparecido fazia mais de dois séculos (Js 6).

 

As vitórias surpreendentes diante do forte inimigo, que se vê incapaz de vencer um exército pequeno e despreparado que luta em nome de Javé, justificam os esfor­ços na ocupação e expansão das fronteiras durante o governo do rei Josias. Israel não tem nada a temer, porque Javé luta em seu favor (Dt 7,21; Js 1,9). Eis os brados que encorajam e legitimam a monarquia sediada em Jerusalém.

 

Todo o conteúdo do livro de Josué só recebe sua forma definitiva na volta do exílio babilônico (597-536 a.C). Em meados do ano 400 a.C., época da redação final, o controle exclusivo do Templo e da cidade de Jerusalém estava em mãos dos sacerdotes. Estes, por meio de um governo pautado pela teocracia, buscam sustentar os ideais de um povo escolhido e protegido por Javé, agora compreendido como “Deus Único” (Dt 6,4-9). Na ocasião, impul­sionados a seguir fielmente os estatutos apresentados por Javé, esses sacerdotes recolhem e organizam tradições de sábios deuteronomistas escritas no ambiente da reconstrução do Templo, em meio a uma sociedade que vive sob o sistema Templo-Estado.

 

O livro pode ser dividido em cinco partes: I) identificação do território e conquistas (1-12); II) distribuição das terras entre as tribos, segundo a necessidade de cada uma (13-21); III) retorno das tribos e solidifica­ção da aliança entre as doze tribos (22); IV) discurso de despedida, feito por Josué (23);  assembléia de Siquém (24).

 

2.3- Juízes: Responsáveis pelo Direito e pela Justiça

Apresentar a consolidação dos clãs israe­litas, em época anterior ao surgimento da monarquia, é o objetivo do livro dos Juízes. Para garantir estabilidade na posse da ter­ra, Javé faz surgir, revestidos do seu espírito, autênticos juízes e juíza, com a finalidade de estabelecerem o direito e a justiça, e saírem para combater as forças inimigas (cf. 3,10; 6,34; 11,29; 13,25; 14,6.19; 15,14).

 

A garantia do triunfo sobre todos os inimi­gos, proclamada anteriormente no livro de Josué (Js 21,43-45; 24,11-13), não é a reali­dade experimentada pelas tribos neste livro dos Juízes. Ás cidades-estado instaladas em Hasor, Hebron, Betel e Siquém tornam-se constante perigo e afronta para as tribos isra­elitas (4,2; 6,2-6; 13,1). Os autores aqui não apresentam a estabilidade final e total das doze tribos unidas e instaladas, cada qual em seu pedaço de terra. Percebe-se, isto sim, o modo lento e gradual vivenciado por dife­rentes clãs na ocupação de seus territórios.

 

É oportuno compreender o contexto social em que o livro foi composto. Entre os sécs. VIII-VII a.C., as fronteiras do reino de Israel (norte) e do reino de Judá (sul) se depa­ram, pela primeira vez, com os projetos da expansão avassaladora do império assírio. A vida sociorreligiosa estava ameaçada. O risco da guerra não somente ameaçava, mas foi uma realidade, quando no ano 722 a.C. a invasão assíria culminou com a destruição da Samaria pelas forças de Salmanasar V, que exilou os sobreviventes (cf. 2Rs 17,5s).

 

A partir de 597 a.C., foi a vez do reino de Judá sofrer as incursões expansionistas do império babilônico. Nabucodonosor II, monarca de 604-562 a.C., comandou pessoalmente a primeira deportação, que fez reféns o rei Joaquin e sua corte, além de dez mil entre soldados, sacerdotes, eunucos da corte e construtores, todos levados para o exílio (2Rs24,12-16) e instalados nas regiões de Cobar e Tel-Abib (Ez 1,3; 3,15).

 

Entretanto, a situação do reino de Judá se agravaria, dez anos mais tarde. Como desfecho final, em 587 a.C. a cidade de Je­rusalém e seu Templo foram destruídos e a população restante deportada para a cosmo­polita Babilônia (cf. 2Rs 25,8-21), ficando em alguns lugares de Judá “os pobres da terra” (2Rs 25,12). Nessa situação de ruína e descrédito, surge a necessidade de avaliar e reler a história, no desejo de encontrar respostas para a vexatória realidade que se abateu sobre o “povo eleito” de Javé (Ex 9,1; Dt7,6; 14,2). Foi preciso refletir e encontrar as causas de tanto sofrimento.

Na releitura histórica feita pelos sábios deuteronomistas, a prática da idolatria e o abandono da Torá são as causas originais dos males que assolaram Israel e Judá. Os reis não foram capazes de assegurar a in­tegridade diante da proposta de Javé, e por isso os juízes são enviados na esperança de se retornar aos caminhos de Javé (3,7-11; 3,12-15; 4,1-3; 6,1; 8,27b.33-35; 10,6-16; 13,1). O fato de suscitar tais líderes certifica essa releitura em pleno exílio babilônico.

 

Recuperar antigas lendas e epopeias, cujo local exato de origem é impossível identifi­car, foi a resposta encontrada na época da monarquia pelos sábios deuteronomistas, para criticar as realezas que se afastaram do projeto de Javé. Essas “estórias” selecio­nadas dos doze juízes eram conhecidas em épocas anteriores ao exílio babilônico. An­tigas lendas foram relidas e revestidas com uma mensagem legitimadora de Javé. O que antes era simples saga de algum clã fa­miliar, agora se torna ícone em defesa das tribos de Israel (cf. 4,22-24).

 

Ao longo da descrição de todos os juízes, existe a seguinte estrutura literária, em for­ma de espiral: pecado (2,11; 4,1; 6,1), castigo (2,14.20; 3,8; 10,7), conversão (3,9.15; 4,3; 10,10) e salvação (2,16; 3,9.15). Essa dinâ­mica acontece no ciclo de vinte, quarenta e oitenta anos, números que acenam ao período de uma geração (3,11; 5,31; 8,28).

 

A narrativa exalta a prática de doze juízes. São seis maiores: Otoniel, Aod, Débora-Barac, Gedeão, Jefté e Sansão. Sobre esse grupo paira admiração por seus grandes fei­tos para livraras tribos de ameaças iminen­tes. Não lhes falta a coragem na luta contra cananeus, madianitas, moabitas, amonitas e filisteus. Os seis juízes menores, Samgar, Tola, Jair, Abesã, Elon e Abdon (3,31; 10,1-5,12,8-15), são lembrados sem deta­lhar grandes atributos ou façanhas. Não exercem nenhum ato de heroísmo em prol de alguma tribo.

 

Estrutura do livro. Primeira introdução (1,1-2,5): destaca a difícil ocupação das tri­bos de Israel em terras ocupadas pelos cana­neus. Segunda introdução (2,6-3,6): escrita de modo mais catequético, salienta uma alternância entre fidelidade e infidelidade jz tribais, e como Deus intervém para corrigir seu povo. Primeira parte (3,7-16,31): corpo central do livro, apresenta a história dos doze juízes em defesa das tribos de Israel. Segunda parte, primeiro apêndice (17-18): de redação tardia, visa a explicar a origem do santuário instalado em Dã. Terceira parte, segundo apêndice (19-21): narra a guerra de Galaad contra os benjaminitas e a reconciliação final entre as duas tribos irmãs.

 

O apelo constante à proteção de Javé re­vela o desejo de manter-se fiel a seus planos, bem como o incansável propósito de libertar e assegurar paz e segurança para as tribos “até os dias de hoje”.

 

2.4. 1ª e 2º Samuel: Israel e Judá: Luta pelo Poder

Os livros de Samuel fazem parte dos chamados “livros históricos” (Js-2Rs). Na Bíblia Hebraica, pertencem ao bloco dos profetas anteriores. No passado, formavam um único livro, juntamente com os livros dos Reis. Aparecem separados pela primei­ra vez na Setenta, onde o texto é menor, e na qual, seguida pela Vulgata, os livros de Samuel e dos Reis formam um grupo: os quatro livros dos Reis.

 

Em 721 a.C., a Assíria invadiu a Sa­maria, destruindo a cidade e deportando seus habitantes. Muita gente fugiu para o sul e se refugiou em Jerusalém, levando consigo suas tradições. Com isso, Jerusa­lém, que era uma aldeia de pouco mais de mil habitantes, se expandiu. Em poucos anos passou a ser uma cidade de mais de quinze mil habitantes. Com o vazio de poder em Samaria, os reis de Jerusalém arriscam ampliar seu território e domínio na região. A primeira tentativa, com o rei Ezequias (716-687a.C.), não teve sucesso, pois a Assíria não o permitiu (cf. 2Rs 18- 19). Mais tarde, com o enfraquecimento da Assíria, houve uma segunda tentativa, com o rei Josias (640-609 a.C.), que teve êxito, mas acabou sendo morto pelos egípcios em Meguido (cf. 2Rs 23,29). É, portanto, no período do rei Josias que nasce de fato um Estado em Jerusalém. Para dar identidade a esse Estado e respaldar as conquistas de Josias, os escribas de Jerusalém reúnem tradições do norte e do sul, muitas apenas orais, outras já escritas, e compõem um passado glorioso para Judá. Esse contexto histórico e literário é que está por trás dos livros de Samuel. Escrevendo a partir dos interesses de Jerusalém, os escribas enfa­tizam a casa davídica, da qual Josias é remanescente. Portanto, em muitos textos é possível encontrar três níveis de redação: um mais antigo, outro do período de Josias e um terceiro do pós-exílio.

 

Os livros de Samuel podem dividir-se em quatro partes: 1. transição dos juízes para a monarquia (1Sm 1-15); 2. ascen­são de Davi (1Sm 16-2Sm 8); 3. lutas pela sucessão de Davi (2Sm 9-20); 4. apêndices (2Sm 21-24).

 

2.5 - 1º e 2º Reis: Israel e Judá - Auge e Declínio

No passado, os livros de 1 Rs e 2Rs forma­vam uma unidade com os dois de Samuel (cf. Introdução a ISm e 2Sm). Basicamente, seguem uma estrutura cro­nológica desde Davi até Sedecias, primeiro e último reis de Judá, e podem ser divididos em três partes: 1) reinado de Davi/Salomão (lRs 1-11); 2) história de Israel e Judá até a queda da Samaria (lRs 12-2Rs 17; unidade quase toda permeada pelos ciclos de Elias e Eliseu); 3) história de Judá até o exílio (2Rs 18-25).

 

A maior parte (lRs 12-2Rs 17) trata da relação conflituosa entre Israel e Judá. Nesse conflito, é clara a superioridade eco­nômica, política e geográfica de Israel, que domina sobre Judá. No entanto, este tem a preferência do redator, deforma que os reis de Israel são apresentados sempre negativa­mente, e os reis de Judá são elogiados. Jero­boão, primeiro rei de Israel depois da divi­são, é apresentado como o protótipo de rei pecador, aquele que oficializou os santuá­rios de Betei e Dã (cf. ISm 12,29), grandes concorrentes do Templo de Jerusalém. É comum esta referência aos reis de Israel: "Não se afastou dos pecados que Jeroboão tinha feito Israel cometer”. O protótipo para os reis de Judá é Davi, tido como justo e temente a Javé.

 

É provável que os livros dos Reis, como os de Samuel, começaram a se formar no tempo de Ezequias e Josias, quando Judá se torna um Estado desenvolvido e precisa de fundamento histórico para avalizar as pretensões expansionistas desses dois reis. Com a queda da Samaria em 722 a.C., houve grande migração daí para Jerusalém, com diversos escribas que levaram consigo crônicas dos reis de Israel, como se nota na frequente expressão “anais dos reis”. Os escribas da corte de Ezequias e de Josias utilizaram esse material para elaborar sua narrativa a partir da perspectiva de Judá. As afirmações de 2Rs 18,5b: “Tanto antes como depois, não existiu nenhum rei em Judá que pudesse ser comparado a Eze­quias"; e de 2Rs 23,25: “Não houve antes um rei como Josias que se tivesse voltado a Javé com todo o seu coração, com todo o seu ser e com toda a sua força”, são como uma assinatura da primeira versão dos livros dos Reis.

 

Nos dois livros, portanto, misturam-se várias redações. Na base está um material antigo, crônicas do norte que migra­ram para o sul, bem como antigas tra­dições orais de Judá e Israel. Depois, acontece uma primeira redação, possivel­mente inspirada pelos tratados assírios no tempo de Ezequias e Josias. Num terceiro momento, esse conteúdo é amplamente aumentado nos períodos do exílio e pós-exílio.

 

A Reforma continua

Os diversos deuses e deusas até então adorados normalmente em Israel, assim como a diversidade dos locais de culto, não são apagados da história, mas aparecem nesses livros como desvios, como "idolatria" e culto a "outros deuses", como pecado (2Rs 23,4-25). Esses livros nos transmitem uma história em que as tribos de Israel aparecem agindo em conjunto, como se fossem um só povo, sob uma única liderança, que desde o começo as direcionava a adorar somente a Javé e a permanecerem fiéis a ele, obedientes à dinastia de Davi, que estabelecerá o culto exclusivo a Javé em Jerusalém. A instituição da monolatria (culto a um só deus, sem negar a existência de outros deuses; Dt 10,17), nesse período, foi um passo na direção do monoteísmo (culto a um deus considerado o único verdadeiro, o único existente; Is 44,6), que será estabelecido em Judá somente depois do exílio na Babilônia.

 

Ezequias e Josias, com a imposição do culto único a Javé, finalizam dois aspectos de um processo iniciado desde o estabelecimento de Javé como o Deus nacional de Judá:  A identificação de Javé com o Deus do êxodo. Como a história dos hebreus escravos absorve as outras, também as diversas experiências de Deus envolvidas nessas lutas por libertação vão sendo progressivamente identificadas com o Deus Javé. Ezequias e Josias apresentam o Javé de Jerusalém como o Deus que vê a dor, que ouve o clamor, que conhece o sofrimento das pessoas oprimidas e empobrecidas, e que desce para libertá-las (Ex 15,2-3; 6,2-7; 3,13-15; 3,7-8a; 3,18; 7,16). Assim, hoje encontramos na Bíblia muitas confissões semelhantes a esta: "Os egípcios nos maltrataram e humilharam, impondo dura servidão sobre nós. Clamamos então a Javé, o Deus de nossos pais, e Javé ouviu nossa voz. Viu nossa aflição, nosso sofrimento e nossa opressão. E Javé nos tirou do Egito com mão forte e braço estendido" (Dt 26,6-8).

 

A identificação de Javé com Elohim, El, El Shadai, El Elion, e a transferência dos poderes e das "jurisdições" dessas divindades, e também de divindades que são proibidas por Ezequias e Josias, como Baal, Aserá e Astarte, para Javé. Assim, certamente, do mesmo modo como a história da libertação dos escravos tornou-se o paradigma, o modelo, englobando as histórias dos outros grupos, também Javé englobou as outras experiências de Deus e seus respectivos poderes. 

 

Por ocupar parte importante e conhecida da Bíblia, a perspectiva monolátrica dessa reforma muitas vezes impede a compreensão da diversidade existente na origem de Israel e reforça atitudes fundamentalistas, condenatórias e até violentas, realizadas em nome de Deus, contra cultos não judaicos e não cristãos, e contra as pessoas que os seguem. Mas não é esse o espírito sagrado da Bíblia. A teologia dos reis, dos palácios, dos templos e do poder pode ser forte e envolvente, mas não é a única. O caráter sagrado da Bíblia vem da defesa da vida dos pobres e oprimidos, e do empenho por uma sociedade justa e solidária. Defesa e empenho que, apesar de todas as reformas, continuam presentes e podem ser encontrados nas entrelinhas oupor trás das palavras dos textos oficiais, como os do rei Josias. Pois o próprio rosto libertador de Deus, que Josias tenta usar  para justificar seus projetos de dominação, é que denuncia e condena essas teologias e  esse tipo de religião. 

 

Historicamente, de fato, o projeto de Josias não foi muito longe. Em 609 a.C. Josias será morto pelo faraó (2Rs 23,29). Em 589 a.C., Judá será dominada pelo império da Babilônia, e em 587 a.C: após rebelar-se contra a Babilônia, Judá será novamente invadida, e desta vez a capital  Jerusalém será saqueada e terá suas muralhas, palácios e o Templo arrasados pelo  exército babilônico.  Nesses dois eventos, grande parte da classe dominante será morta, e outra parte será levada para o exílio na Babilônia, restando na terra de Judá somente o povo pobre. Os latifúndios dos poderosos exilados foram divididos e entregues a esses pobres, deixados em Judá para serem vinhateiros e agricultores (Jr 39,1-10; 2Rs 23,31-25,26). 

 

Vivendo sem reis, sem o Templo e sem a infraestrutura de uma rede coletora de tributos - pois a capital, o Templo e as principais cidades eram agora somente montões de ruínas - esses camponeses pobres viveram uma experiência semelhante àquela do período anterior à monarquia. Embora existisse algum esquema para a tributação dos persas, experimentaram uma situação parecida com o tribalismo dos inícios de Israel e, além de reforçar suas instituições sociais, tiveram condições também de resgatar suas antigas tradições teológicas e espirituais

 

Terceira grande reforma: as palavras proféticas conquistam espaço 

 Tanto a invasão da Assíria (732 a.C) e a destruição de Samaria, capital de Israel (722 a.C), quanto a destruição de Jerusalém, capital de Judá (598-587 a.C), respectivos centros do poder de Israel e de Judá, provocaram a desarticulação das classes dominantes e possibilitaram o afloramento de teologias marginalizadas pela teologia oficial. A teologia e a ética das aldeias camponesas, fiéis à compreensão do sagrado na defesa e na promoção da vida dos camponeses, identificado em Javé, persistiram nas aldeias camponesas, e de tempos em tempos ecoavam nas cidades na voz dos profetas, mas esta teologia não recebia destaque nos textos oficiais. A teologia, a espiritualidade e a proposta de organização social defendida pelos movimentos proféticos somente conquistarão espaço e maior importância na sociedade após a derrocada da classe dominante e de suas estruturas de dominação. E nesse momento que as palavras dos profetas, mantidas e atualizadas nas famílias e organizações camponesas, serão fixadas em textos e ocuparão espaço, ao lado dos textos oficiais do povo de Israel. 

 

Por isso, encontramos na Bíblia também os livros de profetas como Isaias, Amós, Oseias, Miqueias, Jeremias, Sofonias e outros, que nessa época começam a ser fixados por escrito. Tais escritos proféticos não teriam chegado até nós, se dependessem dos reis e dos sacerdotes oficiais, que fizeram de tudo para tentar calar estas vozes: Amós,foi ameaçado e expulso (Am 7,10-13). Oseias teve de enfrentar armadilhas e hostilidades (Os 9,8); Jeremias foi ameaçado de morte (Jr 26,7,11; 38,4) e preso (Jr 37,15-16; 38,5-6),e seus escritos foram queimados (Jr 36,1-26). As vozes do povo oprimido, que lutava e resistia diante da opressão da monarquia e da religião oficial, ganham espaço e legitimidade com a queda dos opressores e de seus sistemas de opressão política e religiosa. Essa reforma foi diferente das anteriores. Embora os livros dos profetas também tenham sofrido releituras no sentido da religião oficial, eles trazem um conjunto de textos que reflete fortemente a vertente religiosa tribal camponesa, em que brilha fortemente o rosto do Deus da vida.

 

Quarta grande reforma: a resistência dos exilados 

Parte da elite dominante de Jerusalém levada para o exílio na Babilônia foi integrada na corte do império. Outros, porém, foram designados para trabalhar em colônias agrícolas a favor dos babilônios. Principalmente para estes das colônias, a invasão babilônica e o exílio significaram enorme crise. Partidários da teologia dos reis de Judá, acreditavam que o Templo de Jerusalém era a casa de Javé (lRs 8,12-13; Sl 132,5-7.13-14). No entanto, este Templo havia sido profanado, saqueado e destruído pelo exército babilônico. Acreditavam que Deus havia feito uma aliança eterna com a família de Davi, garantindo que sempre haveria um descendente de Davi no trono de Jerusalém (2Sm 7,16). No entanto, além de agora o trono não mais existir, e de palácios e muralhas terem sido destruídos, o próprio rei tinha sido levado em correntes para a Babilônia, depois de ver seus filhos sucessores degolados (2Rs 25,7). E além de verem os exércitos babilônicos massacrarem o exército de Judá e destruírem suas fortalezas, os judaítas viram na Babilônia construções muito maiores que as de Judá. De fato, a Babilônia era uma sociedade mais antiga, mais poderosa e desenvolvida do que Judá. E eles, os adoradores de Javé, agora trabalhavam como colonos semiescravizados para senhores babilônicos. Será que isso não era um indicativo de que os deuses da Babilônia eram mais fortes que o Deus Javé? 

 

Como superar essa crise, manter a fé em Javé, e resistir aos atrativos do império babilônico? Como manter a identidade judaica, resistir à dominação babilônica e manter viva a esperança de voltar para Judá e Jerusalém? Buscando alcançar esses objetivos é que eles, um dia classe dominante e agora experimentando a vida de escravos, buscaram forças em suas escrituras e tradições religiosas. Como oprimidos, releram suas tradições e delas tiraram novidades libertadoras. Parte desse processo pode ser visto no livro do sacerdote profeta Ezequiel. Uma das instituições a ser relida será o sábado. Provavelmente o sábado já era um dia especial para alguns sacerdotes antes do exílio (Lv 19,3.30). Ou até mesmo um dia de descanso com motivação social, para não submeter ninguém a um regime semelhante à escravidão do Egito (Ex 23,10-13). Mas, a partir do exílio, o sábado passará a ser santificado como dia de descanso instituído por Deus. É possível que nessa época a narrativa da criação tenha sido colocada em moldura de seis dias, justamente para destacar o sábado como coroamento do processo da criação (Gn,1-2,4). E o sétimo dia de cada semana será o dia no qual os exilados não aceitarão fazer nenhum trabalho (Ex 20,8- 15). Dedicarão esse dia a reuniões para resgatar suas tradições, ler seus escritos, cantar e falar em sua língua, garantindo sua identidade e cultura, reafirmando sua dignidade e seus direitos. 

 

No espaço conquistado com o sábado, outros aspectos também serão relidos, visando reforçar a identidade judaica dos exilados e rejeitar sua absorção pela religião e cultura do império opressor. A circuncisão passará a ser obrigatória para todos os meninos Judaitas, e será sinal de sua pertença à descendência de Abraão, a qual Deus elegeu para uma aliança perpétua e única (Gn 17). Os exilados cultivarão com afinco a pureza da sua árvore genealógica. Ainda reforçando a união dos exilados oprimidos e a resistência aos dominadores babilônicos, irão desenvolver a noção de puro e impuro, demarcando ainda mais claramente a identidade judaíta. Começam assim a compreender a destruição de Jerusalém e o exílio como uma espécie de provação pela qual teriam de passar (Ez 22). A vitória da Babilônia sobre Judá não significa que Javé foi vencido, mas que Javé entregou seu povo nas mãos da Babilônia para submetê-lo a um processo de purificação. Apesar de tudo, Javé ainda é o Senhor da história. Isso terá conseqüência também na relação com a religião do império: os deuses babilônicos e suas imagens aparentam ser deuses, mas na verdade nada são (Is 44,9-20). É o que aparece fortemente nos escritos do Segundo Isaías (Is 40-55). Na luta contra a opressão imperial, ao afirmar que os deuses babilônicos, que apoiavam e legitimavam a violência, a escravidão e a opressão, não são deuses, começa a estabelecer-se também a concepção monoteísta da fé própria de Israel (Is 43,10-13; 44,6-8; 45,5-6.21; 46,9). Revela-se aqui o coração sagrado do monoteísmo: a única divindade verdadeira é a que está junto aos oprimidos, em luta contra a opressão. Os exilados contam as histórias antigas acrescentando essas releituras, e nelas encontram força para manter acesa a esperança da libertação e do retorno à terra de Judá. 

 

Essas releituras, no entanto, irão consolidar-se nos escritos bíblicos somente após o retorno dos exilados, a partir de 530 a.C, quando o rei Ciro da Pérsia irá derrotar o império babilônico e libertar os exilados. Isso principalmente entre 515-400 a. C, quando os persas apoiarão a reconstrução do Templo, muralhas e da cidade de Jerusalém, com o envio de Neemias e do sacerdote Esdras.  Um conflito se estabelecerá com a volta dos exilados, que encontram os latifúndios de seus antepassados ocupados há mais de 50 anos pelos camponeses remanescentes aos ataques babilônicos. Todas as instituições libertadoras criadas no exílio passarão então a ser usadas pelos exilados para menosprezar, condenar e excluir os camponeses. Os exilados irão organizar-se em torno do novo Templo e, a partir dele, começarão a impor uma nova concepção sobre Deus, o povo de Deus e o pecado. Javé será agora considerado como Deus único (Dt 4,39; 1Rs 8,60). Pertence ao povo de Deus quem é circuncidado e possui uma genealogia, confirmando ser puro descendente de Abraão. E o pecado é agora definido pelas leis de pureza e impureza, conforme o livro do Levítico. E profanar o sábado será considerado crime gravíssimo. É nesse processo, provavelmente, que receberá a forma em que se encontra hoje em nossas Bíblias o Pentateuco (os livros de Gênesis, Êxodo, Levítico, Números Deuteronômio). Serão promulgados como livros sagrados pelas autoridades do segundo Templo e impostos como Lei de Deus, com o apoio dos persas (Esd 7,25-26). 

 

Quinta grande reforma: a canonização dos livros proféticos e sapienciais

Embora a teologia oficial, com o apoio dos persas, se imponha novamente, a linha da teologia camponesa em defesa da vida seguirá manifestando-se no livro de Jó, nas novelas bíblicas como as de Rute, Jonas, e no livro do Cântico dos Cânticos. 

 

Após o fim do domínio persa, com a vitória de Alexandre, o Grande, em 333 a. C, a Judeia passa ao domínio dos gregos. E na luta contra a imposição da cultura grega pelos reis Selêucidas (200-142 a. C), no tempo da revolta dos Macabeus, os escritos dos Profetas serão colocados ao lado do Pentateuco e também considerados como sagrados. Junto com a resistência armada, começa a surgir também nesta época a apocalíptica, uma corrente política, teológica e espiritual de resistência à dominação imperial. A apocalíptica dará luz a uma vasta produção literária, porém a maioria de seus escritos não entrará nos cânones bíblicos. Deles temos no Antigo Testamento o livro de Daniel, e no Novo Testamento o das de João. 

 

Pouco mais tarde, o livro dos Salmos e os demais livros Sapienciais (Provérbios, Lamentações, Eclesiastes, Ester) também alcançarão o status de livros sagrados, completando-se dessa forma o cânon bíblico do Antigo Testamento. Mesmo no processo de canonização, permanecem as duas vertentes, duas leituras possíveis, uma do ponto de vista da justificação do poder, e outra do ponto de vista da defesa e promoção da vida. 

 

Sexta grande reforma: a tradução da Bíblia do hebraico para o grego 

Por volta do ano 280 a.C, iniciou-se um processo de tradução dos livros bíblicos do  hebraico para o grego. A Bíblia grega ficou conhecida como Septuaginta (ou Bíblia dos Setenta, ou LXX), porque uma lenda conta que foi feita por setenta sábios judeus. Nesse processo, incorporaram-se novos livros, sete dos quais foram incluídos na Vulgata, o cânon oficial da Bíblia católica: Judite, Tobias, 1 e 2 Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico e Baruc. São considerados deuterocanônicos e não constam da Bíblia evangélica. Outros livros, considerados apócrifos, não se encontram na Bíblia católica nem na evangélica ou protestante, mas foram aceitos pelas Igrejas Cristãs Ortodoxas: 1 Esdras, 3 e 4 Macabeus. 

 

A tradução grega interfere na estrutura de compreensão da Bíblia Hebraica, reposicionando Rute após Juízes, e colocando Crônicas, Esdras e Neemias logo após Reis. Além disso, acrescenta a diversos livros novas perspectivas de leitura, por exemplo, reforçando a santidade, a pureza de Davi e o messianismo davídico nos Salmos e livros históricos, e ampliando Ester e Daniel com acréscimos importantes.  Essa obra tem como sujeitos os judeus da diáspora, e como interlocutores o povo do império greco-romano. A Septuaginta será a Bíblia usada pelas comunidades cristãs primitivas fora da Palestina, e fornece um gancho importante para se compreender não só o ambiente em que o cristianismo irá desenvolver-se, mas também muitos conflitos que irá enfrentar. 

 

Buscar a fidelidade ao Espírito e não à letra 

A Bíblia é Palavra de Deus quando defende e promove a vida, quando nos faz ser mais solidários, amorosos, humanos, e quando faz o mundo ser um lugar melhor para todos. É fundamental ler e usar a Bíblia de forma a proporcionar e viver experiências de libertação e de resgate da dignidade. Experiências como as vividas pelos escravos do Egito, pelos camponeses e pastores cananeus no ambiente do êxodo, pelas tribos de Israel, e também pelas pessoas que foram acolhidas por Jesus e integradas nas comunidades cristãs primitivas. Seremos fiéis a este Espírito, que habita o núcleo mais sagrado da Bíblia, quando as pessoas empobrecidas, injustiçadas, oprimidas, ou que têm suas vidas ameaçadas e que ainda não experimentam "vida em abundância", reconhecerem, na leitura e no uso da Bíblia, uma Boa-Nova, um evangelho para elas. 

 

 Fonte: Introdução da Nova Bíblia Pastoral- Paulus

 

Questionário.

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