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13.2 - Formação do Povo de Deus 1250 e 1200 a.C
13.2 - Formação do Povo de Deus 1250 e 1200 a.C

Ao longo da história, muitas pessoas têm buscado o sonho de fazer parte de um povo que tenha terra, cidadania e uma vida abençoada. O povo de Israel é um desses povos. Mas como esse povo se formou?

 

Conta a Bíblia que o patriarca Jacó casou-se com duas irmãs: Lia e Raquel. Lia tinha um olhar meigo, mas Raquel era assaz esbelta e formosa (Gn 29,17). De preferência Jacó amava Raquel. Por reveses da vida, a amada, Raquel, era estéril. Por outro lado, Lia começou logo a dar filhos a Jacó. Primeiro nasceu Rúben; em seguida vieram Simeão, Levi e Judá.

 

O sofrimento da pobre Raquel crescia à proporção que aumentava a fecundidade de Lia. Certo dia, à beira do de­sespero, pediu ao marido que tivesse filhos com sua escrava Bala, para que ela os pudesse adotar como filhos próprios. Assim, nasceram Dã e Neftali.

 

Ao saber da atitude de Raquel, Lia, que também tinha uma escrava chamada Zelfa, entregou-a a Jacó para que lhe desse filhos adotivos. Da escrava Zelfa nasceram Gad e Aser. Porém, enquanto isso, Lia continuou procurando suas pró­prias gravidezes com o patriarca e conseguiu gerar mais dois filhos: Issacar e Zabulon.

 

Quando se pensava que Raquel seria vencida e sem filhos naturais, Deus curou-a da esterilidade e ela pôde con­ceber o pequeno José (Gn 29,31-30,24). Algum tempo de­pois, durante uma viagem, Raquel engravidou pela segunda vez e, nessa ocasião, de Benjamim. Mas não pôde conhecê- lo, pois morreu durante o parto (Gn 35,16-20).

 

Foi assim que Jacó tomou-se pai de 12 filhos.

 

Certa vez, devido a uma prolongada estiagem na Pa­lestina, Jacó partiu com os filhos e se estabeleceram no Egi­to. Aí seu filho José tornou-se pai de dois filhos: Efraim e Manassés.

 

Com o tempo, os descendentes de Jacó multiplicaram- se e formaram doze tribos. Mas quando perceberam, os egíp­cios os haviam escravizado para fazer deles mão-de-obra barata em suas construções. Então, uma noite do ano de 1250 a.C., sob as ordens de um caudilho chamado Moisés, resol­veram fugir do país. Cruzaram o Mar Vermelho, atravessa­ram o deserto do Sinai e voltaram a Canaã, a Terra Prometi­da, de onde seus antepassados haviam saído quatro séculos antes.

 

Encontraram-na, porém, ocupada por um povo nume­roso, os cananeus, e não tiveram outro remédio senão recuperá-la militarmente. O livro de Josué conta os detalhes dessa conquista: três brilhantes campanhas, uma no centro (cc. 7-9), uma no sul (c. 10) e outra no norte (c. 11); propor­cionaram aos israelitas o controle de todo o país. Foi uma operação relâmpago. Os cananeus foram totalmente exter­minados e a terra dividida entre as doze tribos (cc. 13-21).

E o que pensar disso tudo? Foi assim mesmo que aconteceu? Quem teria escrito essa grande história?

 

A Bíblia e a arqueologia

Segundo a Bíblia, naquela ocasião, as 12 tribos de Is­rael que partiram para o Egito foram escravizadas, conse­guiram escapar no êxodo, voltaram e conquistaram a Terra Santa. Mas foi assim historicamente? Vários indícios indi­cam que não.

Em primeiro lugar, a mesma Bíblia afirma em vários trechos que a conquista da Palestina foi na realidade um longo processo, realizado por tribos individuais e que jamais o conseguiram totalmente (Js 13,2-6; 15,63; 23,7-13; Jz 1,9- 15; 2,20-23). Em segundo lugar, a arqueologia não encon­trou até hoje nenhum indício seguro que permita atribuir aos israelitas do século XIII, data da chegada, a destruição de nenhuma cidade. Ao contrário, as escavações mostram que se estabeleceram pacificamente e em regiões onde não ha­via cananeus.

Por isso, os arqueólogos e biblistas propuseram uma nova hipótese para explicar a epopéia da conquista da Terra Prometida.

As várias viagens

O primeiro ponto a esclarecer é que não houve uma única viagem dos arameus ao Egito, (como diz Gn 46) mas várias. Desde a época de Abraão, por volta de 1800 a.C., era freqüente o ir e vir entre a Palestina e o Egito. O mesmo Abraão estivera aí com sua esposa Sara (Gn 12,10.20). Seus descendentes seguiram esse exemplo e visitaram, também eles, muitas vezes, o Egito, em temporadas mais ou menos prolongadas.

A chegada desses grupos foi um fenômeno que durou vários séculos e por diferentes motivos. Alguns chegaram como comerciantes; outros se infiltraram em busca de pasto para seu gado. E muitos chegaram como prisioneiros de guer­ra, pois sabemos que os faraós costumavam voltar de suas expedições militares acompanhados de milhares de presos semitas, capturados nas regiões montanhosas da Palestina.

Esses estrangeiros, vindos em sucessivos bandos para o Egito cohttp://img.comunidades.net/lei/leituraorante/img006.jpgmo prisioneiros, comerciantes ou nômades, não se fixaram nas grandes cidades mas na região do delta do Nilo, denominada Gessen (veja no mapa)  

E não constituíam ainda nem tri­bos, nem clãs organizados. Quando Gênesis 46,28 diz, por­tanto, que Jacó e seus filhos chegaram à terra de Gessen, na realidade refere-se aos milhares e milhares de arameus anô­nimos que chegaram ao Egito por diversos motivos e em diferentes épocas. 

Há pelo menos três hipóteses ou suposições que tentam explicar a formação desse povo.

A expulsão

O segundo fato que devemos esclarecer é que na reali­dade o êxodo não foi apenas um, como diz a Bíblia, mas dois.

 

O primeiro ocorreu por volta de 1580 a.C., quando foi expulso do Egito um povo semita chamado Hicsos, que go­vernou o país durante um século e meio. Com eles, foram também expulsos alguns clãs arameus que mais tarde cons­tituiríam as tribos de Rúben, Simeão, Levi e Judá. Por isso os biblistas chamam esse êxodo de “êxodo-expulsão”.

 

O livro do Êxodo registra referências a esse “êxodo- expulsão” em várias passagens: O Senhor disse a Moisés: “O Faraó os expulsará de seu país” (6,1), Deus disse a Moisés: “O Faraó não só vos deixará partir, mas vos expul­sará daqui (11,1). O Faraó chamou Moisés de noite e lhe disse: “levantem-se e saiam do meio do meu povo, tanto vocês como os israelitas” (12,31). Os egípcios pressiona­ram os israelitas, urgindo sua saída do país (12,33). Como não tinham tido tempo de preparar alimentos, pois os egíp­cios os tinham expulsado de seu país, fizeram pães sem fer­mento porque a massa não tivera tempo de fermentar (12,39).

 

Essas tribos araméias expulsas decidiram voltar à Pa­lestina, lugar de origem de seus antepassados; e depois de derrotar as populações locais do sul, três delas ali se instala­ram, enquanto a tribo de Rúben estabeleceu-se a leste do rio Jordão (Jz 1,1-19).

 

A fuga

Mas nem todos os arameus foram expulsos do Egito. Muitos permaneceram no país, foram escravizados pelos egípcios e sujeitos a trabalhos forçados. Então, três séculos depois, por volta do ano 1250 a.C., aconteceu um segundo êxodo. Orientados por Moisés, esses grupos semitas conse­guiram com grande esforço sair do Egito.

 

Esse êxodo é denominado pelos estudiosos “êxodo-fuga”, e também a ele se refere a Bíblia: O Senhor disse a Moisés: “Apresenta-te ao Faraó e dize-lhe: Deixa partir o meu povo” (Ex 7,26; 8,16; 9,1). Mas o Faraó endureceu o coração, ainda desta vez, e não deixou o povo sair (8,28; 9,7.12.35). Quando avisaram o rei do Egito que o povo ti­nha fugido, o coração do Faraó ficou perturbado (14,5).

 

Os que conseguiram fugir não passavam de uns po­bres desvalidos, uma massa de ex-escravos fugitivos em busca de liberdade. Não se trata, como às vezes se acredita, de tribos assentadas, nem muito menos de um exército orga­nizado. A Bíblia chama-os “uma numerosa multidão de pessoas de todo tipo” (Êx 12,38), ou seja, uma caravana de pessoas anônimas, misturada a antigos clãs e grupos que acompanhavam errantes os passos de seu guia Moisés.

 

Essa multidão desorganizada foi aquela que chegou até o monte Sinai, fez um pacto com Javé, que os havia li­bertado e prometeu adorá-lo para sempre. Em seguida, ro­deando o Mar Morto, chegou à Palestina, de onde havia saído seus antepassados, vários séculos antes.

 

As primeiras tribos

Diferentemente das quatro tribos de Rúben, Simeão, Levi e Judá, que trezentos anos antes se estabeleceram no sul do país, esses fugitivos entraram a leste orientados agora por Josué (Moisés tinha morrido no caminho) e se instala­ram no centro da Palestina.

 

A ocupação do território realizou-se parcialmente mediante ações militares (que não passaram de pequenos desentendimentos ou rixas), uma vez que nas áreas despo­voadas houve apenas uma simples invasão pacífica, enquanto noutros casos chegou-se a acordos com as populações lo­cais. Por isso é mais adequado falar de uma “conquista” pa­cífica e não militar.

 

Os recém-chegados eram anônimos. Mas parte daquele grupo errante resolveu estabelecer-se na zona central, ou seja, nas montanhas de Efraim. E pouco a pouco o nome das montanhas passou a ser também o nome desses invasores. Surgiu assim a tribo de Efraim.

 

Outro grupo estabeleceu-se ao sul das montanhas do centro e recebeu o nome de Benjamim (que significa em hebraico “procedentes do sul”).

 

Anos depois, uma família da tribo de Efraim emigrou para o norte da região central a fim de escapar de seus inimi­gos filisteus e, com o decorrer do tempo, constituíram uma nova tribo chamada Manassés, talvez o nome de algum líder ou antepassado ilustre.

 

Assim, as três únicas tribos que saíram do Egito com Moisés fizeram aliança com Javé no Sinai e entraram no país com Josué. São elas: Efraim, Benjamim e Manassés, assentadas no centro da Palestina.

 

A reunião com as novas tribos

Quando Josué percebeu que a hora de sua morte se aproximava, convocou as três tribos para uma assembléia na cidade de Siquém (Js 24). Convidou também outras três tribos vizinhas, que havia séculos viviam estabelecidas no norte da Palestina, para participarem da reunião. Eram as tribos de Zabulon, Issacar e Neftali.

 

Essas três tribos jamais puderam sair do norte, porque uma rede de fortalezas cananéias havia-lhes impedido sem­pre a passagem para a região central. Não haviam estado no Egito, nem tinham participado do êxodo nem da aliança do Sinai, como as três tribos do grupo de Josué. Zabulon e Issacar eram tribos araméias. A de Neftali, não.

 

Naquela memorável assembléia, Josué falou com en­tusiasmo de Javé, um Deus que as tribos convidadas não conheciam. Contou-lhes as maravilhas realizadas por ele no Egito, a milagrosa travessia do Mar Vermelho e os prodí­gios feitos ao longo da jornada. No fim propôs aos reunidos ali que se convertessem e fossem fiéis adoradores de Javé.

 

A resposta foi imediata. Todos gritaram unânimes: “Serviremos ao Senhor nosso Deus e à sua voz obedeceremos” (Js 24,24). Então Josué fez ali mesmo uma aliança entre os lideres das tribos e as unificaram numa só, atribuindo a to­das em conjunto o que elas tinham feito isoladamente. Con­seguiram, assim, reunir todos os súditos do reino em uma só família.

 

Em seguida, atribuíram a paternidade de todas elas a um ilustre antepassado das tribos do centro, chamado Israel (ou Jacó), surgindo assim a história dos 12 filhos de Jacó.

 

Mas essa história, sob a aparência de lembranças de família e de genealogias, narrava as diversas histórias e li­nhagens existentes entre elas. Assim, Rúben, Simeão, Levi e Judá, por serem as primeiras a chegar à Palestina no pri­meiro êxodo, aparecem como os quatro filhos mais velhos. E, como se tratava de tribos araméias, aparecem como des­cendentes de Lia, primeira esposa de Jacó.

 

Issacar e Zabulon, também tribos araméias, mas que jamais estiveram no Egito nem participaram de nenhum dos êxodos, senão que se uniram mais tarde, aparecem também como filhos de Lia, mas como irmãos mais novos. Ao contrário, Dã, Neftali, Gad e Aser, por não serem tribos araméias nem terem participado de nenhum êxodo, as duas primeiras foram consideradas descendentes da escrava Bala, e as duas últimas, da escrava Zelfa.

 

Pela família unida

Finalmente Efraim, Manassés e Benjamim, por serem as tribos araméias do segundo êxodo, aparecem como des­cendentes da segunda esposa de Jacó, Raquel.

 

Mas o autor bíblico não escondeu sua preferência pe­los descendentes de Raquel, uma vez que foram as únicas tribos que viveram o êxodo de Moisés, a aliança com Javé no Sinai e a entrada no país com Josué e escreveu: Lia tinha olhar meigo mas Raquel era assaz esbelta e formosa. Jacó ficou enamorado de Raquel (Gn 29,17-18).

 

As 12 tribos de Israel souberam, cada uma por si, re­nunciar sua história pregressa, seu exclusivismo e integrar- se como se fossem verdadeiras irmãs, um tronco familiar maior: o dos filhos de Jacó. Apesar de suas características particulares e individuais, sentiram-se irmãs e chamadas a um bem comum: a luta por um reino na Palestina, o reino de Deus. Aqueles que lutam pelo novo reino de Cristo na Terra devem também abandonar o orgulho de suas individualida­des próprias e juntar-se na tarefa de fazer de todos, como irmãos, um mundo novo.

 

Para refletir

  1. Quantos êxodos do Egito aconteceram? Quais os textos bíblicos que os mostram?
  2. Quais foram as únicas tribos que viveram o êxodo com Moisés?
  3. Quais foram as tribos que se uniram a elas depois?
  4. Quando foi que se uniram às outras?
  5. Como se chegou a pensar em “as 12 tribos de Israel”?

 

Há pelo menos três hipóteses ou suposições que tentam explicar a formação desse povo.

 

a) Ocupação violenta. A primeira hipótese afirma que a formação de Israel aconteceu através de ocupação violenta, através de três ou quatro campanhas militares, lideradas por Josué (Js 6,1ss)

 

 Essa hipótese é a mais antiga, a mais conhecida e a mais tradicional. Interpretam desse jeito a formação de Israel aquelas pessoas que fazem uma leitura fundamentalista da Bíblia, isto é, uma leitura ao pé da letra, como se o que está escrito fosse uma filmagem dos fatos e testemunho arqueológico. Só que Escrituras não são relatos puramente históricos, embora contenham preciosos elementos históricos. Têm, em primeiro lugar, uma finalidade teológica. São uma forma de descrever, e nesse caso mais de 500 anos depois dos fatos, a presença misteriosa de Deus na história do povo. São testemunhos de fé.

 

Essa hipótese também perde a credibilidade pelas contradições do próprio texto e pelas diferentes versões que aparecem nos livros de Josué e Juízes. Nas narrativas desses dois livros há contradições. Se pode perceber que a conquista não foi tão violenta e tão fácil assim. Vejamos!

 

Leia Js,11, 15ss e 21,43ss! j Lendo essas passagens Bíblicas, você pode perceber que elas dão a entender que todos os reis cananeus já estavam derrotados após a ocupação da terra. Leia também, Js 13,1-6.13; 15,63; 16,10; 17,11-13; Jz 1,19ss! Já nesses textos, você percebe outra realidade. Ao mesmo tempo em que as tribos se articulavam, especialmente nas montanhas, os reinos cananeus continuavam existindo na região.

 

Quando lemos os livros de Juízes e Samuel, percebemos que a própria Bíblia nos mostra que a ocupação da Terra foi um processo longo, lento e difícil, e que só foi concluído no tempo do rei Davi.

 

Como já referimos acima, Jerico é apresentada como a primeira cidade a ser destruída, e por isso mesmo se tornou o exemplo de conquista para todas as demais cidades (Js 6). Ora, segundo as pesquisas da arqueologia, era, há muito tempo, apenas um montão de ruínas.

 

O que sabemos da Jericó bíblica? Jericó, em hebraico yerihõ (cidade da lua), em grego ierichõ, é a cidade mais antiga do mundo, situada na depressão do rio Jordão, 23 quilômetros a nordeste de Jerusalém. O nome deriva provavelmente de um deus pagão: yrh = deu-lua, traduzido como Jericó pelos membros do clã dos binu-yamina (1800 a.C.).

 

O lugar é um grande oásis irrigado por três fontes: a principal, a fonte de Eliseu dos peregrinos (2 Reis 2,19-22); a segunda, alguns quilômetros a noroeste; a terceira, um pouco ao sul. Jericó era ao mesmo tempo um lugar agrícola, comercial e estratégico; daí a notável importância em diversos momentos da história bíblica e cultural da região.

 

Jerusalém, conforme 2Sm 5,6-12, somente foi conquistada por Davi, mais de 200 anos depois. Isso não confere com o que se diz em Js 10,1-27 e 12,10. Se lemos ao pé da letra, também não temos como explicar o seguinte, se todos os reis do norte foram derrotados (Js 11), como é que ainda no tempo da juíza Débora eles existiam (Jz 4-5)?

 

Como se estruturou o relato bíblico da “queda das muralhas”? A ciência bíblica diz que a formação dos livros da Bíblia resulta da complexa convergência de três elementos conhecidos dos biblistas. Comentaremos todos e aplicaremos ao tema das muralhas.

 

1º elemento. Na pesquisa dos acontecimentos “históricos” da multissecular história do povo bíblico, entram conjunturalmente vários aspectos. O que se entende por “história bíblica”? Deve-se entender por experiências pessoais: (personagens, patriarcas, profetas, Jesus, os apóstolos) e coletivas (vida do povo, formas de viver, de se exprimir, batalhas, lutas, doenças, acontecimentos, nações, estados), nas quais se inclui também a cultura (patrimônio jurídico: leis, conjunto de instituições civis e religiosas, monarquias, impérios, governadores, escribas, sacerdotes do templo, fariseus; tradições, lendas, parábolas, narrações míticas etc). Isto é, uma história feita de homens, com tudo o que isso implica de bom e de ruim, de correto e de impreciso.

 

Apliquemos isso ao texto de Josué 6,1-19: o fato narrado no texto deu-se por volta de 1200 a.C., quando os israelitas chegaram à Palestina, a terra prometida. Jericó foi a primeira cidade inimiga com a qual se defrontaram: cidade muito bem organizada, com um rei, com serviços de inteligência (Josué 2,2) e um exército bem apetrechado; os israelitas, pelo contrário, um bando desorganizado de tribos e clãs que vinha fugindo da escravidão do Egito.

 

A respeito “das muralhas”, sabe-se que as múltiplas pesquisas arqueológicas não observam restos de muralhas caídas nesse tempo. A pesquisa mais expressiva, organizada entre 1952-1959 pela arqueóloga Kathleen Kenyon, nada deixou sem averiguação. Graças a essa aprimorada investigação, foi possível traçar quase toda a história e a fisionomia da(s) cidade(s) mais antiga(s) do mundo. Foram descobertas muralhas de defesa, construídas cerca de 8000 a.C. (2 m de largura, uma torre de 9 m de altura e 8 m de diâmetro). Outras interessantes descobertas estabeleceram que, na verdade, existiram “muitas Jericós”, no mínimo 17. Pois aquela região de Jericó foi tomada, saqueada, queimada, destruída e abandonada em inúmeras ocasiões.

 

Foi finalmente destruída em 1550 a.C. para nunca mais voltar a reerguer-se. Então, quando o grupo de Josué chegou à região, aproximadamente no ano de 1200 a.C., havia 350 anos que Jericó “já não existia”. Provavelmente moraram ali pequenos grupos seminômades, empobrecidos, com uma precária organização social e política, e grupos chegados do Egito (o grupo de Josué), acreditando no todo-poderoso Javé, ter-se-iam infiltrado aos poucos na vida desses povoados e, com pouco esforço, os teriam vencido e subjugado.

 

2º elemento. É a interpretação teológica e sapiencial dos fatos ou a mensagem religiosa/ espiritual dos eventos para o bem do povo que culmina normalmente numa “história” que se concretiza, no decorrer do tempo, numa forma concreta de literatura: livros.

 

O que de fato aconteceu, podemos lê-lo no relato bíblico de Josué 6,1-19. O mais importante é que a conquista de Jericó foi um acontecimento militar essencial para afirmar o sentido social e religioso de todo o povo de Israel, já que abriu as portas para a conquista da Palestina. O relato bíblico é uma construção literária montada por motivos religiosos e teológicos (processo muito complexo) para deixar bem manifesto que “as promessas de Javé não falham”: a terra prometida seria posse do povo eleito.

 

Aplicando ao texto: a exegese bíblica diz que a história de Josué foi codificada de modo amplo ao longo de muitos séculos: do século X ao I a.C. A redação definitiva da conquista de Jericó corresponde aos escritos pós-exílicos dos séculos VI e V a.C.

 

3º elemento. A literatura bíblica surge das "histórias” acolhidas como mensagem de amor e amizade que Deus quis comunicar aos homens e mulheres de todos os tempos. Essa literatura plasmada em gêneros literários permite individuar as linhas teológicas dessa história até chegarmos a uma correta percepção da “mensagem” de Deus. É claro que a mensagem permanece o escopo final de uma caminhada que exige tempo, boa vontade e fadiga (BISSOLI, 2002, p. 18-19).

 

Teologicamente, sabe-se que muitos anos depois (no mínimo 700/800) esses relatos da entrada na terra prometida foram escritos. Ao chegar e achar tudo derrubado, veio à tona a pergunta: quem derrubou as muralhas e entregou para nós a cidade? A resposta da teologia diz: tudo isso foi obra de Javé, que abriu o caminho e facilitou a entrada na terra que ele mesmo prometeu; acontecimento jubilosamente festejado liturgicamente com orações e rezas acompanhadas de trombetas e gritarias.

 

Finalmente, o relato ficou imortalizado no capítulo 6º de Josué, inspirando- se provavelmente na procissão que todos os anos o povo realizava desde o santuário vizinho de Guilgal (Guilgal (em hebraico, círculo de pedra): santuário ao noroeste da cidade de Jericó. Naquele tempo, lugar de peregrinações frequentes. Foi nesse santuário que Josué colocou doze pedras tiradas do Jordão como memorial da milagrosa intervenção de Javé (Josué 4,20-24) até as ruínas, para comemorar a “inesquecível” conquista.

 

É Deus quem pede tanta violência? E se lêssemos o texto como descrição dos fatos, seria difícil aceitarmos, por exemplo, um Deus que ordena massacres sangrentos como os narrados em Js 6,20s; 8,1s.20-27; 2Mc 12,16.

 

Antes de lermos esses textos como fatos históricos totalmente reais; convém que nos perguntemos a respeito da intenção teológica de quem os produziu. Antes de nos perguntarmos se foi de fato assim como está escrito, convém que busquemos a intenção dos redatores ao descreverem a realidade daquele jeito.

 

A explicação mais viável para se compreender a razão de tanta violência nos relatos sobre a formação das tribos é a seguinte: todos esses textos foram escritos durante o reinado. Assim sendo, eles já contêm elementos e reinterpretações dos fatos na perspectiva dos reis e de seus teólogos do templo de Jerusalém.

 

O rei Davi construiu um verdadeiro império na região. Para isso, organizou um exército forte e conquistou todos os povos vizinhos, exceto os sidônios a noroeste.

 

Nessa situação, os teólogos da corte fizeram uma retroprojeção das conquistas violentas de Davi para a época da formação das tribos. Com essa releitura, seu objetivo era legitimar a prática sanguinária do rei conquistador. Historicamente, portanto, foi o rei Davi que praticou sem piedade a violência contra outros povos, usando indevidamente o nome do Deus tribal, o Deus da vida.

 

b) Ocupação progressiva e pacífica. Os adeptos da segunda hipótese defendem que a formação das tribos nas montanhas de Canaã foi através de ocupação pacífica, através de uma lenta e progressiva infiltração e imigração de tribos seminômades, vindas de regiões semiáridas ou das estepes, onde apascentavam seus rebanhos, sempre em busca de pastagens melhores.

 

Esses grupos, aos poucos, teriam se sedentarizado, isto é, se estabelecido em terras cultiváveis, passando a ter residência fixa em meio aos cananeus. Seria um exemplo dessas migrações o caso de Abraão e Sara (Gn 12,1-9; 13,1-4).

 

Essa hipótese surgiu pelo ano de 1900 e, ao contrário da teoria anterior, afirma que a ocupação foi lenta e não de um momento para outro. Essa teoria, contudo, não explica suficientemente a formação de Israel como experiência alternativa, no contexto das cidades-estado cananéias. Como também não explica a memória que a Bíblia guarda de que houve dificuldades e lutas.

 

c) Insurreição de excluídos A terceira hipótese propõe a unidade das tribos como resultado de uma rebelião contra os reis de Canaã.

 

Regiões desocupadas, especialmente das montanhas centrais de Canaã, foram ocupadas por camponeses e outros setores excluídos que se revoltaram contra os reis de cananeus. Nas montanhas, refugiavam-se e organizavam-se para poderem melhor resistir. A esses camponeses fugitivos se juntaram outros grupos empobrecidos, vindos das estepes e de fora de Canaã, inclusive o grupo de escravos fugitivos do Egito.

 

Essa hipótese, também chamada de revolução social, é a mais recente. Parece ser a que melhor explica, combina e respeita os dados todos, tanto da Bíblia como da história universal e da arqueologia.

 

Os textos como os temos hoje fazem referências somente à insurreição dos hebreus no Egito. Não há relatos de revoltas de camponeses de Canaã. A explicação para essa ausência é a seguinte: quando a memória da formação de Israel foi redigida, Israel já havia instituído reis. O pessoal da corte não tinha interesse em guardar a memória subversiva de rebeliões populares contra os reis. Ia contra seus interesses. Terá, portanto, apagado essa memória intencionalmente.

 

A hipótese mais aceita é que Israel se formou como povo nas terras de Canaã, onde viviam os povos cananeus, com a participação de grupos de pessoas que vieram de fora de Canaã, mas a maioria era gente pobre e marginalizada dali mesmo.

 

Todos esses grupos, pequenos e pobres, conseguem livrar-se da opressão dos reis e do faraó e se refugiam nas montanhas. Eles são de diferentes regiões, têm seus próprios costumes, enfrentam dificuldades para sobreviver, mas há muita coisa em comum entre eles:

 

1º) São chamados de hebreus, isto é, pessoas excluídas do sistema das cidades-estado;

 

2º) Todos fazem a experiência do êxodo, ou seja, de saída de uma situação de opressão, violência e fome imposta pelos reis e pelo faraó.

 

3º) Todos acreditam na presença de Deus a seu lado conduzindo-os na caminhada de libertação.

 

Aos poucos, esses grupos de tradições diferentes se encontram nas montanhas, conversam e percebem que possuem histórias de vida parecidas, como se formassem um mesmo povo, uma mesma comunidade. Começam, então, a organizar a vida de modo a preservar na base das suas relações a liberdade, a partilha, a solidariedade e a justiça. E estabelecem um acordo de ajuda mútua diante da ameaça de outros grupos que desejassem submetê-los ao pagamento de tributos.

 

Segundo o texto de Josué 24,2-13, a história desse povo começa na migração da família de Taré, pai de Abraão, que saiu de Ur dos caldeus e se deslocou para Harã. Depois da morte do patriarca Taré, a família, liderada por Abrão, migrou para Canaã. Depois de muitas idas e vindas, Abraão se estabelece em Canaã. Devido a um período de seca e de fome, seus descendentes, migram para o Egito. Lá no Egito, eles se transformam num povo grande e numeroso. Os egípcios, temerosos, escravizam os hebreus, obrigando-os a trabalhar na construção civil. Surge, então, um grande líder, chamado Moisés, que, após muitas peripécias, consegue conduzir o povo pelo deserto em direção a Canaã. Comandados por Josué, os hebreus conquistam todo o país de Canaã, numa campanha rápida e fulminante.

 

Esta é a história que encontramos na Bíblia, que nossos país e catequistas nos contaram até hoje. No entanto, vários indícios dentro do próprio texto bíblico mostram que esta narrativa é mais uma visão teológica da história do que propriamente um relato histórico moderno. O povo de Deus não estava preocupado em transmitir história tal como a concebemos em nosso tempo. Hoje consideramos história uma narrativa linear, fundamentada em fatos, datas, personagens e lugares históricos, comprovados pela arqueologia ou por muita documentação escrita. O povo de Deus não tinha esta visão histórica moderna. A preocupação deles era transmitir fatos que comprovassem que Deus era o condutor e o protetor do povo em seu processo histórico.

 

Nós hoje temos um sério problema quando consideramos como verdade apenas aquilo que pode ser comprovado historicamente com dados, fatos e datas. Desta forma, ficamos chocados quando descobrimos que muitos livros bíblicos, considerados como históricos, na verdade são narrativas míticas contando as origens maravilhosas do povo de Israel.

 

A história presente na Bíblia não veio de livros didáticos, mas surgiu nas rodas de conversa, à noite, ao pé do fogo, relembrando os feitos antigos de gente que lutou pela liberdade do povo. Nestas rodas não importavam tanto as datas precisas, mesmo porque o calendário naquela época não era muito preciso. O mais importante era que os feitos mais significativos fossem transmitidos de geração em geração, para que não se perdesse a memória dos fatos e dos personagens antigos (Sl 78,1-8). A grande preocupação do povo de Deus era a fidelidade a Deus e aos antepassados chamados por Deus.

 

Assim, quando buscamos na Bíblia fatos históricos dentro da nossa mentalidade moderna, temos que aprender a ler por trás das palavras, nas entrelinhas. As palavras presentes na Bíblia são frutos de um longo exercício de memória coletiva. Elas não contam tudo! São apenas um começo para lembrar ao historiador como as coisas se passaram. A Bíblia, antes de ser escrita, foi vivida, contada, relembrada, narrada, celebrada. Para eles, a presença do Deus da vida, principal personagem nestas histórias, era muito mais importante do que qualquer exatidão histórica.

 

Por isso mesmo, quando buscamos reconstruir a história a partir dos dados presentes na Bíblia, temos que ter em mente que o texto não caiu pronto do céu. Ele é fruto de um longo processo de elaboração, passando por muitas mãos, antes de ficar como está hoje registrado nos livros.

 

Para que este trabalho de reconstrução da história do Povo de Israel seja possível, temos que entender quem são as pessoas e como chegaram na terra, de onde vieram, quais são seus sonhos, suas buscas suas dificuldades e principalmente como era o país para onde foram. Fazemos a história e a história nos faz. Esse é um desafio para as pessoas e os povos, mas não há desafio sem que a história esteja viva. A memória ajuda a criar a consciência da caminhada.

 

2. O PAÍS DE CANAÃ

O lugar geográfico que deu origem a Israel é Canaã, um cobiçado corredor de passagem entre duas grandes potências da época, sempre em conflito. Do lado ocidental estava a civilização egípcia no vale do Nilo. Uma civilização antiga exuberante e poderosa. Do lado oriental, a civilização Mesopotâmia, ocupando os vales dos rios Tigre e Eufrates, também ela, uma civilização antiga exuberante e poderosa. A ligação entre estas duas potências eram rotas comerciais que atravessavam uma pequena faixa de terra entre o mar Mediterrâneo e o deserto por onde transitavam soldados e caravanas com mercadorias[1].

 

Até 1250 a.C, essa terra era chamada de Terra de Canaã. Aí viviam os cananeus. A partir da organização das tribos, passou a ser chamada Terra de Israel, Terra Prometida ou ainda Terra Santa. Em 931 a.C., após a morte o rei Salomão, houve a divisão do reinado. A parte Norte ficou conhecida como Reino de Israel. E a parte Sul foi chamada de Reino de Judá. No tempo de Jesus, os romanos passaram a chamar toda a região de Palestina. As três províncias mais lembradas no Novo Testamento são: Judéia ao sul, Samaria ao centro e Galiléia ao norte.

 

Hoje em dia, existem três Estados nessa região: um é o Estado Árabe da Jordânia (parte ocupada por Israel desde 1967). O outro é o Estado de Israel, formado por judeus e árabes. O terceiro é o Estado Árabe da Palestina, previsto pela ONU desde 1948 e que está sendo implantado com muitas dificuldades desde 1996.

 

Canaã, ou Palestina nos dias de hoje ocupa uma parcela muito pequena do nosso planeta, 25 mil quilômetros quadrados (340 vezes menor que o Brasil) e está localizado em um lugar estratégico, muito importante, porque liga três grandes continentes: África, Ásia e Europa. Tendo uma localização estratégica, era passagem obrigatória, tanto para o comércio como para soldados, desses três continentes. Era a porta para os europeus que vinha do mar e a ligação terrestre entre o Egito e a Mesopotâmia, que foram o berço das mais antigas civilizações. Qualquer desequilíbrio ou conflito entre essas grandes civilizações repercutia necessariamente na Terra de Israel, com consequências muitas vezes trágicas. Por isso sempre foi objeto de disputa entre as grandes potencias. O Egito foi o primeiro a ocupar Canaã durante muito tempo e a considerava uma província.

 

2.1- As cidades-estados

Em Canaã, na época anterior à formação de Israel, havia vários pequenos reinos, entre eles: cananeus, hititas, amorreus, fereseus, heveus, jebuseus e ainda outros (Ex 3,8). Eram pequenos reinos constituídos por uma cidade cercada por uma muralha, para evitar as invasões dos inimigos, e controlava um conjunto de vilas de camponeses estabelecidas ao seu redor. Esse conjunto formava um pequeno Estado. Por isso, são chamados de "cidade-estado".

 

Os reis exerciam seu poder sobre a cidade em que moravam, bem como sobre os camponeses e suas terras que ficavam nos arredores da cidade. Nessa época, as cidades de maior renome estão situadas nas planícies: Gaza, Meguido, Betsã, Hazor e outras.

 

A cidade não é um fenômeno novo na época do surgimento de Israel. Descobertas arqueológicas nos dão conta de que Jericó já estava habitada pelo ano 6.000 a.C. e que, na época da formação das tribos, já estava totalmente arrasada.

 

Um povo chamado "hicsos", que dominou os egípcios de 1780 a 1580 a.C., havia dado forte impulso para a urbanização, uma vez que as cidades eram importantes para a defesa militar. Na maioria das cidades, havia um duplo cinturão de proteção, isto é, o muro, preferencialmente com um só portão de entrada, e o burgo, uma parte especialmente fortificada em torno do palácio e do templo. Quando uma cidade não tinha muro, ela era chamada de "filha", o que significa dependência de outra cidade mais forte, murada. O tamanho das cidades não era muito expressivo: Hazor (1100 x 654 m), Meguido (300 x 250 m), Jerusalém (400 x 100 m).

 

O rei tinha poder absoluto, era o chefe do exército e tinha poder sobre os sacerdotes e o templo, sobre os juízes e as terras. Inicialmente, os profissionais das armas, os guerreiros, trocavam seu serviço de proteção por alimentos fornecidos por quem contratava seus serviços, inclusive camponeses. É justo pagar tributos quando há retorno em prestação de serviços, como, por exemplo, a construção de estradas ou a defesa militar.

 

Mas as cidades foram se fortalecendo com muros mais altos, exércitos maiores e mais poderosos. Aos poucos, a relação de troca tornou-se relação de exploração. Então, os tributos tornaram-se extorsivos, acima do valor justo, para fins de acúmulo de riquezas e de conquista. A dominação a partir da cidade era efetivamente assegurada por uma casta de profissionais das armas. Eram os herdeiros das modernizações introduzidas pelos hicsos, isto é, os carros de guerra com rodas protegidas por bronze e puxados por cavalos, bem como couraças de bronze para os combatentes. Eram os cavaleiros da corte. Faziam parte dos setores dominantes e ao mesmo tempo os defendiam.

 

A dominação citadina era assegurada pelos sacerdotes, os templos, a religião. A ideologia, isto é, as ideias, os ritos e os símbolos religiosos, explicava o mundo presente como um mundo divino e eterno, consequentemente, imutável. Ao rei estava assegurada uma posição destacada no culto. Era o sacerdote principal. Mais tarde, também no reinado de Israel, os santuários vão ser controlados pelos reis. Veja, por exemplo, Am 7,10-13.

 

Assim, o templo tinha uma função simbólica e ideológica. Além disso, também tinha função decisiva na arrecadação dos tributos. O Estado arrecadava seus tributos e dízimos nas festas de colheita. Já que citamos, há pouco, o profeta Amós, aproveite para olhar em 7,1 e perceba como o tributo devido ao rei era a melhor parte da colheita.

 

No campo, as aldeias não tinham muro e nem burgo ou local fortificado. Situavam-se em torno das cidades, dentro do território de influência e domínio do centro urbano. O campo vivia dependente da cidade, do rei, a quem pagava tributos em troca de promessa de proteção. Com o passar do tempo, a posse e o controle das terras passaram a se concentrar cada vez mais nas mãos de quem morava nas cidades, empobrecendo e diversificando a população camponesa quanto à sua condição social. De pessoas livres, os camponeses passavam a ser meeiros, sem-terra, servos, escravos, isto e, hebreus.

 

Acentuou-se cada vez mais a espoliação da força de trabalho dos camponeses. Para pagar os pesados tributos, precisavam trabalhar dobrado, com muita fadiga e muito suor. As pessoas já não trabalhavam mais para viver, mas viviam para trabalhar.

 

Além dos tributos, havia ainda o trabalho forçado e gratuito nas terras do rei e terras do rei e em obras públicas, como aquedutos, estradas, cidades, armazéns, palácios, templos. É o que conhecemos como "corvéia".

 

Além dos tributos e do trabalho forçado, as aldeias também forneciam os soldados para a guerra. Também as mulheres eram recrutadas para o trabalho forçado (1Sm 8,13.16). Serviam inclusive para a exploração sexual pelos reis e pelo pessoal da corte (Gn 12,10ss; 2Sm 11,1-4; 1Rs 11,1-3; Os 4,14). Um texto que fala da tributação e da corvéia é 1Sm 8,11-17. Antes de continuar seu estudo, leia o texto na sua Bíblia!

 

2.2 Mudanças à vista

Em torno de 1200 a.C., a situação muda de repente. O poder egípcio começa a ser ameaçado. Uma invasão vinda do norte afasta a presença egípcia na Palestina. Eram os “povos do mar”, entre eles os filisteus que ocuparam a região do sul de Canaã e conquistaram várias cidades-estados na costa do Mediterrâneo. Eles se instalaram em cidades importantes na planície litorânea e começaram a controlar e cobrar pedágios nas principais estradas, as rotas comerciais, que ligava Canaã ao Egito. Desse modo conseguiram cortar a passagem do exército egípcio que não pode mais manter o seu domínio sobre as terras de Canaã.

 

Essa invasão funcionou como uma espécie de libertação de Canaã da colonização egípcia, mas por outro lado, criou-se uma confusão geral e um vazio de poder na região. Os reis cananeus rivalizavam entre si, lutando pela liderança regional. A principal consequência dessas guerras foi o aumento do empobrecimento, uma vez que a rivalidade entre os reis não só aumentava a necessidade de tributação, mas ia também dificultando o trabalho no campo, que era, afinal, a fonte onde se abasteciam as cidades e as guerras. Canaã ficou, por assim dizer, entregue à sua própria sorte. Após séculos de exploração os camponeses estavam cansados. Para eles ficava ainda mais difícil plantar e colher, pois, suas terras eram o palco das lutas e ainda tinham suas casas e suas roças queimadas, sua produção saqueada e seus filhos obrigados a lutar no exército do rei.

 

Evidentemente, tal situação de sofrimento e instabilidade geral levava os camponeses a organizar-se e criar resistência ao sistema das cidades-estados que desestruturava seu modo de vida. Aos poucos vão se agrupando, organizando, resistindo aos reis locais e procurando novo modelo de sociedade. Esse contexto estimulou a possibilidade de fuga de muitos camponeses (1Sm 25,10-11). Alguns ocuparam ou conquistaram cidades enfraquecidas e outros se fixaram sobre as montanhas em áreas pouco habitadas. Nas montanhas por serem inacessíveis aos exércitos das cidades, pois seus carros de combate, muito eficazes em terra plana, não subiam os morros pedregosos, começa a surgir uma nova sociedade.

 

O conhecimento e uso de novas “tecnologia” como o ferro e a cal possibilitam o desmatamento das florestas e o plantio da roça. Por exemplo, o ferro permite construir ferramentas mais resistentes para o trabalho; o uso da cal no revestimento de cisternas possibilita armazenar água da chuva; e a técnica de pequenos muros (ou terraços) nas encostas direciona as enxurradas. Tudo isso ajuda a melhorar as condições de vida nas montanhas.

 

Assim nas montanhas de Canaã, com a chegada de vários grupos inconformados com a realidade de escravidão dos reis das cidades-estados e do faraó do Egito, vão chegando, se juntando e cada um contribui do seu jeito para tornar efetiva essa nova sociedade, sem reis, sem exército, sem donos das terras, mas organizada em forma de clãs, grupos de famílias sob um chefe comum, e de tribos, conjunto de clãs. Estas foram às bases dessa nova sociedade.

 

Mas quais são esses grupos? Há dois grupos que nós conhecemos muito bem: o grupo de Abraão e o grupo de Moisés (Êxodo 1,8-14). Vejamos bem cada um desses grupos.

 

3 – Grupo de Abraão

Os descendentes do patriarca Abraão eram pastores nômades que há séculos andavam pelas estepes, entre os desertos e as cidades, em busca de poços e de pastagem para seus rebanhos. Esse grupo não suportando qualquer tipo de opressão deixa a segurança da qual poderiam gozar dentro das cidades, e preferem a vida de liberdade em regiões menos seguras, pois sabem que se ficassem dependentes dos mandões da cidade, teriam que aceitar um jogo de cartas marcadas, e que sempre perderiam e seriam oprimidos. Saem, como migrantes, deslocando-se de um lugar para outro.

 

É difícil dizer com clareza a época e o que provocou para que esses grupos rebeldes e avessos a sistemas opressores, começassem a se movimentar, até chegar na terra de Canaã. Provavelmente foram levas que se deslocaram em períodos diferente resistindo às crises climáticas ou políticas, a falta de alimentos ou do controle sobre as fontes de águas. O povo da Bíblia não se preocupou em marcar datas, talvez nem mesmo soubesse direito. Os historiadores tentam achar uma data varia entre 1950 até 1300 a.C.! o povo simplesmente conta histórias sobre as famílias de Abraão, Isaque e Jacó...

 

Os deuses das cidades ficavam nos templos, e eram adorados porque mantinham a ordem, deixavam as coisas como estavam, sem mudança nenhuma. Quem quisesse adorá-los, deveria aceitar o sistema. Os grupos rebeldes de Abraão, Isaque e Jacó tinham seu próprio Deus. Para mostrar como era diferente dos ídolos das cidades, o povo passou a chamá-lo de "Deus de nossos pais", ou "Deus de Abraão, Isaque e Jacó". Não era um Deus preso num templo; ele estava sempre junto, por toda parte onde iam. Um Deus livre como eles: fora da cidade e sem compromisso com nenhum sistema estabelecido.

 

Esses grupos, quando entram na terra de Canaã, procuram pastagens, uns ao sul, outros ao norte. As "famílias" de Abraão-Isaque escolheram o sul, e a de Jacó ficou mais ao norte. O povo se lembra desses grupos já unidos, mantendo laços de família. Mesmo que, muitas vezes, não fossem do mesmo sangue, tinham o mesmo objetivo, e isso fazia com que se considerassem irmãos.

 

É interessante notar também que, mesmo entre esses grupos, havia separações e brigas. Elas aconteciam quando um grupo queria ficar sob a dependência da cidade (leia a história de Abraão e Ló, em Gn 13); ou quando um grupo queria explorar o outro; então o explorado reagia, aproveitava o que podia e se afastava (cf. a história de Labão e Jacó, em Gn 29-31). Esses grupos moram em tendas e se estabeleciam provisoriamente ao largo das cidades atrativas, mas opressoras, contra as quais procuram se defender mutuamente (Gn 14,1-16). Ficam de fora, só se servindo das cidades quando conseguem tirar algum proveito, sem se submeter.

 

4 - O grupo de Moisés

O grupo de Moisés morava no delta do rio Nilo, na região de Gessen (Gn 45,10; 46,28-29; Ex 1,11b; 8,18; 9,26) em duras condições de vida e com muito trabalho na fabricação de tijolos (Ex 1,14; Ex 5,6-23; Dt 26,6-7). Alguns estavam ali em busca de pastagens para os rebanhos, outros como prisioneiros de guerra, outros ainda eram capturados nos saques e invasões militares efetuados nos territórios de domínio egípcio, como Canaã (Gn 12,10-20; 39,1; 46,1-3). Talvez não tenham chegado todos ao mesmo tempo e nas mesmas condições. Mas no Egito, segundo os textos bíblicos, todos foram congregados para o mesmo trabalho: a construção de silos para armazenar alimentos. De agora em diante a situação de opressão unirá todos os grupos.

 

Para definir este conjunto de trabalhadores escravizados, a Bíblia usa a palavra hebreu (Ex 1,15), e mais adiante em Ex 1,8-14 a própria Bíblia os designa como um grupo de pessoas da mesma condição social e sem origem definida, desordeiros, subversivos, dependentes, sem-terra, oprimidas que buscavam trabalho em troca de comida. O faraó empregava essas pessoas nas construções públicas, cidades e monumentos, portanto, são trabalhadores forçados que prestam serviços pesados, sob muita opressão em obras do faraó.

 

Até que dava para ir tocando a vida aí na terra de Gessen, contanto que se obedecesse ao sistema do Faraó. A ocupação mais comum era cuidar das plantações junto ao rio Nilo. Na época das cheias, quando não dava para plantar, o faraó ocupava a mão de obra para fazer construções públicas ou de interesse: diques, canais, monumentos, pirâmides, armazéns, palácios, etc. tudo funcionava segundo o sistema tributário, isto é, pagando impostos. Grande parte do que era produzido ia para os depósitos do faraó; aqueles que plantavam e colhiam ficavam mais empobrecidos, e a desigualdade era cada vez maior. Os hebreus não suportavam esse sistema, mas qualquer tentativa de revolta seria desobedecer à religião do Faraó.

 

O faraó era intransigente, e começou a exigir trabalhos cada vez mais forçados desse grupo e isso foi a gota d'água para os hebreus, que não suportavam esse sistema de dominação começam a resistir. As mulheres foram as primeiras que resistiram. Em êxodo 1 e 2 é muito importante perceber de um lado o grande projeto do faraó que quer conter o nascimento e o crescimento de hebreus porque são uma grande ameaça, mas quem está contando tudo isso de maneira muito sutil quer focalizar a resistência e como se dá o início dos grupos que vão promover a grande fuga do Egito.

 

E aqui nesses primeiros capítulos temos narrativas populares de um lado, o faraó e do outro lado, as parteiras Sefra (Beleza) e Fuá (Esplendor) que, para defender a vida, se negam a promover a morte, pois temem a Deus[2]. Contudo, o faraó não desiste de seu projeto de matar os filhos dos hebreus.

 

Assim termina essa pericope (Ex 1,15-22): com a vitória das parteiras e com a prepotência do faraó, que não conseguido controlar o corpo das mulheres, almeja eliminar o corpo das crianças ordenando que os meninos sejam atirados no rio. Essas mulheres são mais poderosas do que o faraó. É até irônico, o faraó com todo o seu poder depender de duas parteiras para realizar seu projeto político. Elas têm mais poder do que ele. Essa maneira de contar é narrativa popular de como os pequenos, os fracos enfrentam o poder dos fortes.

 

E junto a esse contexto de perseguição temos o nascimento de Moisés (Ex 2,1-10), onde podemos perceber com muita esperteza, a resistência da mãe e a irmã que salvam a vida de Moisés obedecendo justamente às ordens do faraó (Ex 1,23). Só que ele não disse como deveriam fazer, de modo que, elas impermeabilizaram o cesto de vime com betume para proteger o menino e assim o salvaram. Mais uma vez, as mulheres hebreias demonstram sabedoria! É mais uma ação política e teológica em favor da vida defendida até mesmo pela filha do faraó!

 

Essa também é uma a narrativa popular para poder descrever o nascimento de Moisés como aquele que foi salvo das águas e dizer que toda essa história de Moisés é apresentá-lo como o príncipe dos hebreus aquele que vai trazer a grande libertação.

 

Uma vez crescido, Moisés assumiu a luta em defesa de seus irmãos hebreus que estavam oprimidos pelos capatazes do faraó (Ex 2,11-14). Reagiu de forma individual e violenta. Foi à primeira tentativa de reação diante da violência que Moisés viu sendo praticada contra o seu povo hebreu. Com sua ação violenta, causando uma morte, Moisés não conseguiu nada a não ser a perseguição. Viu-se obrigado a fugir da polícia egípcia. Dirigiu-se para a região de Madiã, a leste do Golfo de Ácaba (Ex 2,15-22).

 

Em Madiã casou com a filha de um sacerdote do Deus cujo nome é YHWH (Ex 2,16; 3,1;18,1-2). Nessa região, se cultuava a Deus sob esse nome. Junto a seu sogro, Moisés recebeu a revelação do Deus YHWH. E aí ficou sempre mais claro para ele que o Deus vivo não é Deus de um lugar ou ligado a forças da natureza. Mas é uma presença misteriosa ligada ao povo e à conquista de vida e liberdade.  

 

A narrativa da sarça ardente Ex 3, 1-10 é a narrativa do Deus que se revela a partir do fraco e junto com o fraco. É aquele que vai promover a elevação do fraco e destituir aquele que está no poder. Essa é a teologia do Êxodo, que começa no capitulo 2,23. É o Deus que vai escutar os clamores, descer para livrar e por isso seu nome é: “Eu serei o que serei” é o Deus acontecendo na história de libertação desse povo.

 

Lendo Ex 3,7-1 se percebe que Moisés acredita num Deus que: vê a opressão de seu povo; ouve os gritos de aflição diante dos opressores; toma conhecimento de seus sofrimentos; desce para libertá-lo das mãos dos egípcios fazendo-o sair desse país para uma terra boa e espaçosa, uma terra onde corre leite e mel; envia Moisés para que liberte seu povo do Egito; está junto (Ex 3,14).

 

O próprio Moisés, que estava livre daquela opressão descobre, de repente, que é necessário deixar além da sua esposa e os seus filhos; aquela vida que construíra com tanto carinho e sacrifício, para se meter de novo naquela fornalha, de onde os próprios filhos de Israel o obrigaram a fugir. Mas é preciso entrar novamente naquela luta, perder a segurança tão duramente conquistada, sacrificar a sua família, a sua paz, a sua vida, pelo risco de libertar um povo, que nem sabia o que era «liberdade», nem o queria saber.

 

Moisés, obediente a Deus e com a união de outros líderes, tentou convencer o Faraó a deixá-los que saíssem, para buscar nova vida em outros lugares. Mas a mão-de-obra era muito importante para o Faraó terminar suas construções. O opressor nunca concede a liberdade. É preciso lutar para consegui-la. Foi o que os hebreus fizeram: forçaram o Faraó de muitas maneiras e realizaram muitos estragos (Ex 7 a 14) para amolecer o coração do Faraó.

 

No nível da fé, essas pragas são, na verdade, uma quebra-de-braço entre o “Deus dos hebreus” e as “divindades do faraó” ou até mesmo entre Deus e o faraó. Não cabe a nós discutir aqui se aconteceu ou não aconteceram esses sinais/milagres do modo como a bíblia narra e sim perceber que quem está produzindo essa narrativa está querendo transmitir e dizer para seus grupos que Deus está com eles. E foi Deus que demarcou o grande confronto com o faraó.

 

Nesse confronto tem três níveis de milagres. No primeiro nível, os sinais são apresentados como magia que cria impacto nos egípcios. É como se Moisés estivesse querendo dizer não mexam conosco, pois, não estamos sozinhos. Temos alguém que pode enfrentar o poder e a força do faraó. Porém eles, os egípcios não se intimidam, não dão o braço a torcer, de modo que os seus magos fazem a mesma coisa. Em primeiro lugar esses sinais querem dizer isso: Nós temos uma força, os outros, os egípcios dizem: nós também temos. Então vamos colocar aqui em público as nossas forças e vença o melhor e o mais forte.

 

No segundo nível temos sinais de oposição, de confronto. E esses sinais vão crescendo. Primeiro criam o incomodo com o aparecimento de sapos, mosquitos, etc... Os magos do faraó vão lá e fazem aparecer muito mais ainda. Em vez de diminuir, aumenta o incomodo mais ainda. Aqui então temos o conflito de estratégias. E nessa descrição dos sinais de incômodos, os magos percebem que a mão de Deus está presente, que ele é poderoso e que o melhor seria deixá-los partir. Os magos querem que o faraó mande os hebreus embora.

 

Nessa segunda parte dos sinais de oposição temos a grande marca dos sinais que mexem na economia do sistema do faraó. São os sinais que estão na outra ponta da narrativa que é a ulcera dos magos, a peste dos animais, a chuva de pedras, o ataque dos gafanhotos. Esses sinais estão criando um grande confronto econômico e, portanto, a destruição do poder político e econômico do faraó, o qual, depois de tudo isso ele virá com negociações: “Eu deixo vocês irem embora”.

 

Esses sinais vão crescendo, ou seja, da contraposição a oposição econômica até que vem o derradeiro sinal, a morte dos primogênitos e a saída do Egito para decretar a derrota, o fim do faraó. Mas essa leitura dos milagres tem um teor teológico por trás e a melhor imagem para mostrar isso é a imagem de uma queda de braços, uma disputa, entre o poder de Deus e o poder do faraó. Por isso o grande tema desses sinais é a mão de Deus que vai aparecendo no texto. E nessa disputa de braço está a grande ação de Deus que coloca o braço do faraó para baixo e o derrota. É a partir dessa imagem que iremos entender a frase que perpassa por todo o texto: “E Deus endureceu o coração do faraó”.

 

É nessa dinâmica de queda de braço onde quanto mais força você faz, mais força se exige que o oponente também faça. A cada sinal que Deus mandava exigia que o faraó também fizesse mais resistência, mais força para não deixar o povo partir. Se uma pessoa entra em uma luta com o braço mole com certeza irá perder a luta. Se não se impuser com força e estratégia certamente se sairá derrotado. Então o povo hebreu com muita estratégia foi aos poucos dominando e minando todo o poder do faraó.

 

A grande derrota do faraó está no seu fracasso econômico. Ele deixa de ter toda a sua produção e armazenamento dessa produção quando a chuva de pedras e os gafanhotos atingi as plantações e os animais destruindo tudo. E o que o Êxodo coloca aí no final desses sinais é de que Deus fez uma distinção entre o lugar onde estão os hebreus e o lugar onde estão os egípcios e o faraó. Por isso, a chuva cai lá e não aqui. Os gafanhotos atacam lá e não aqui.

 

Diante de tudo isso o faraó inconformado, tentou ainda impedir que os hebreus fossem embora, mas eles conseguiram atravessar águas e pântanos e fugir para o deserto. Parece tão simples, mas sabemos como é difícil escapar das garras do opressor! Essa gente um dia havia chegado aí, empurrada pela carestia e fome (Gn 41,50-42.7), mas sempre preservou o ideal de vida livre e igualitária. A escravidão despertou neles esse ideal adormecido: lutaram e escaparam. Isso será lembrado de geração em geração como um fato grandioso.

 

O Egito tinha seus deuses, que mantinham as coisas como o Faraó desejava. Os hebreus não podiam adorar esses deuses, porque não queriam as coisas como estavam. Eles adoravam outro Deus: o Deus dos hebreus (Êx 3,16-20). Ele estava presente e foi o grande vencedor. Nada foi feito sem ele. Realizou coisas maravilhosas, tirando-os da opressão. Tudo foi conseguido com luta, mas essa luta teria dado em nada se o Deus dos hebreus não estendesse seu braço e sua mão forte. Esse Deus é o mesmo que sustentava o ideal de liberdade dos patriarcas. O Deus de Abraão, Isaque e Jacó é o mesmo que o Deus dos hebreus.

 

Dizer o significado do nome Javé é muito difícil. É um segredo guardado a sete chaves. Existem muitas interpretações: "Aquele que é", "Ó Aquele", "Aquele que sou", "Aquele que faz ser", "Aquele que está ou estará", etc., mas nenhuma delas convence. Javé é um nome enigmático! Ninguém consegue decifrar o nome do Deus que une os grupos que lutam contra todo tipo de opressão e que desejam construir uma sociedade fraterna e justa. O Deus que vai sair da montanha e acompanhar o grupo no deserto para a terra de Canaã, será sempre um desafio para aqueles que querem tê-lo nas mãos, a fim de descobrir ou destruir o segredo dos camponeses e pastores que encontraram força suficiente para lutar e vencer os poderosos. Um segredo que ficou escondido lá na "sarça ardente" (Êx 3,2-15). O segredo do nome divino é o segredo da própria liberdade.

 

Os deuses do Faraó sustentavam e aprovavam a situação que vigorava no Egito. Querer mudar o sistema era ofender esses deuses. Portanto, qualquer outro Deus que defendesse a alguém que não obedecia a Faraó devia ser rejeitado (Êx 5,1-4). Javé, Deus dos hebreus, é para o opressor um Deus subversivo que não pode ser admitido.

 

4.1– Páscoa

Uma das questões mais importantes da tradição do Êxodo está no relato da Páscoa. E páscoa entendida dentro desse confronto entre hebreus e faraó. Porém temos que entender a páscoa como uma festa bem mais antiga do que o próprio Êxodo.

 

Essa festa antiguíssima vem de duas tradições enquanto festa de passagem e da mudança do campo e da fertilidade que é festa de pastores que dura uma noite e de agricultores que dura uma semana.

 

Ao abrirmos a nossa bíblia em Ex 12 encontraremos bem isso. Nessa festa de pastores que dura uma noite eles celebravam a passagem de um acampamento antigo para um novo, de uma pastagem velha e já esgotada par uma nova, dentro de seu ritmo de migração no inverno e no verão. Nessa noite a festa era de despedida do acampamento comendo um cordeiro. Antes da refeição, ungia com o sangue do cordeiro as estacas de suas barracas. Acreditavam os pastores que, com esse rito, prendiam os maus espíritos, de modo que não pudessem prejudicá-los na peregrinação em busca de novas pastagens. Era um rito de proteção.

 

Os agricultores, por sua vez, celebravam a páscoa em uma festa de duração de uma semana. É quando ele celebra em comum com os demais agricultores o que colheu com muita alegria e ao mesmo tempo planeja em comum e organiza o próximo plantio.

 

Então páscoa é essa festa da passagem da colheita para o plantio e passagem de um pasto para outro pasto. Essas duas festas de pastores e agricultores vão ser agora utilizadas por esses grupos na grande memória do êxodo. Festa de pastores no êxodo se tornou a festa do cordeiro. Festa dos agricultores no êxodo foi nada mais simbolizada nos pães ázimos.

 

Então pães ázimos e cordeiro na descrição de Ex 12 nada mais é do que a memória de grupo de pastores e grupos de agricultores na grande festa da páscoa. Eles pegam a páscoa de antigamente e fazem a páscoa a partir de agora. Essa páscoa a partir de agora na tradição do êxodo era antigamente a festa de passagem de pasto de plantio, passagem de pasto. Agora ela ganha um novo aspecto que é a história desses grupos que estão lutando contra o faraó. Essa é a páscoa. Passagem da escravidão para a liberdade, da morte para a vida.

 

Na história da tradição do povo isso vai ganhando novas camadas, novas pinturas de modo que a páscoa até hoje é celebrada por vários grupos. Na tradição judaica ela será sempre memorizada com todo o recontar e contar a história que tem a ver com os dramas da história, com o grande enfretamento com o faraó por isso tem as ervas amargas, o vinho, o cordeiro, os pães sem fermento, isso tudo como um grande memorial. Páscoa então é um grande memorial de libertação.

 

Outros grupos como os cristãos vão celebrar a páscoa e vão colocar outro ingrediente dentro da sua tradição que conduz para a morte e ressurreição de Jesus. São uma mesma conotação e uma mesma festa e de uma mesma páscoa, de uma mesma festa que vai transitando e percorrendo a história e assim a páscoa dos judeus é uma, a páscoa dos cristãos é outra, porém essas duas festas têm lá na sua raiz daquilo dos grupos que produziram o êxodo uma festa de agricultores e uma festa de pastores. Estas páscoas como grandes festas de fertilidades se tornam memoriais da grande libertação.

 

4.2 – Travessia no mar

Temos diversos relatos e testemunhos sobre a saída do Egito, oriundos de diversos grupos que têm lembranças históricas diferentes (Ex 13;14;15). Essa saída se deu em forma de fuga. Mas para onde? Quantas pessoas fugiram? Qual caminho a percorrer?

 

Ex 12,37 informa que foram mais de 600 mil pessoas que participaram da fuga do Egito. Sabemos que os números na Bíblia, na maioria das vezes, são simbólicos. Não podem, portanto, ser interpretados de forma quantitativa como se o número em questão fosse de fato a quantidade de 600 mil pessoas.

 

Se o texto fala em muita gente na saída do Egito, mais do que falar na quantidade de pessoas, quer mostrar o quanto foi significativa a presença de Deus na libertação. Do ponto de vista simbólico, teológico, esse número mostra quão significativa foi a ação de Deus em favor de seu povo.

 

Além do mais, pelo menos até hoje, a arqueologia não descobriu nenhum texto egípcio que se referisse a esse fato enquanto fuga de milhares de pessoas. Somente descobriu textos que falam da fuga de grupos pequenos de escravos. Ao "exagerar" nos números, os autores do texto querem mostrar aos leitores de sua época, e também aos de hoje, o quanto foi central em sua fé todo esse processo libertador e, especialmente, a presença de Deus que faz história com seu povo.

 

Por outro lado, as 600 mil pessoas refletem aproximadamente o número de pessoas do reino unido de Israel na época de Salomão, quando o texto foi escrito. Esse número quer, portanto, incluir todo o povo na experiência de libertação do êxodo.

 

Qual caminho a percorrer? A Bíblia fala em dois caminhos de fuga. O mais conhecido e ensinado pelos nossos catequistas ao longo dos anos é o texto de Ex 13,17, porém quem está fugindo procura o caminho mais curto e não o caminho mais longo. Ex 14,2 nos narra um segundo caminho, o caminho percorrido durante a fuga foi entre Magdol e o mar, defronte de Baal Sefon. Isso significa que a fuga foi pela estrada dos filisteus que passava entre Magdol e o lago Sirbônico, próximo ao mar Mediterrâneo. É o caminho mais curto entre as terras de Canaã e o Egito.

 

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Olhando no mapa onde se localiza esses lugares, o mar mediterrâneo e o lago Sirbônico no delta do Rio Nilo se vê que existe um estreito entre o lago e o mar e é justamente por aí que eles passaram. A passagem por esse estreito só se pode ser feito no período da maré baixa. Quando a maré começa a subir e o mar começa a ocupar toda a extensão da praia, ninguém mais passa e quem teima em passar fica atolado e morre afogado. Quando a maré recua aparece novamente um pedaço de praia do estreito e se pode caminhar tranquilamente. Com certeza esses grupos conheciam muito bem essa região e o fenômeno das marés. E é justamente para essa região que eles vão levar as tropas do faraó porque é ali que está a única perspectiva de que, sem poderio militar poderiam fugir do faraó. Entretanto em Ex 15,22s há outra versão para a saída do Egito.

 

Nesse texto temos a descrição de um caminho longo para poder dar toda uma explicação para os 40 anos no deserto. E para o povo ficar 40 anos caminhando no deserto é porque o caminho tem que ser longo.

Tanto no texto antigo como no texto recente não descreve qual é o mar, se é o mar vermelho se é o mar dos juncos[3]. Esses dois textos irão dizer simplesmente que houve um confronto no mar e o faraó com seus carros, cavalos e cavaleiros ficaram atolados. Essa teoria pode ser comprovada através das Cartas de El-Amarna que eram antigas cartas dos reis de Canaã para os faraós onde diziam que carros de guerra ficam atolados nessa região e se perdem. Esse lugar era conhecido como o lugar do atoleiro. Se você não tem poder militar e está enfrentando um poderoso exército você tem que levar o inimigo para uma armadilha. Então temos aqui na discrição da saída um caminho curto entre o Egito e as terras de Canaã. O caminho longo é claro vai ter como toda a discrição dos grupos que vão caminhando pelo deserto e isso vai durar 40 anos. Esse caminho é para dar sentido os 40 anos no deserto.

Antes de continuar o estudo, leia atentamente o relato da derrota final dos egípcios em Ex 14,15-31 e veja se você conseguiu distinguir três versões sobre o mesmo fato. Consegui? Em caso de resposta negativa, leia novamente e tente descobrir!

 

Estudando as diferentes releituras de épocas diferentes e de diversos contextos, os biblistas descobriram que este texto é como um tecido feito com fios de três cores. Uma delas, porém, é a cor dominante. Ressalta-se sobre as demais. Olhando à distância, só se enxerga essa cor.

 

Algo semelhante acontece com o fato narrado nesse texto. Separando os fios do tecido do texto, podemos perceber como os redatores finais costuram os fios de cores diferentes.

 

1ª versão: historicamente, os fatos aconteceram ao redor de 1200 a.C. A partir de então, essa fascinante fuga foi contada oralmente e celebrada durante uns 250 anos. Só então, sob a opressão do rei Salomão, ao redor de 950 a.C., ela foi escrita pela primeira vez. Essa releitura da fuga junto ao mar é descrita como se fosse facilitada por um vento que fez as águas recuarem. A fuga se dá como que na "maré baixa" (leia somente os versos 21a.26-27). No texto, a cor deste fio, desta releitura, fica por trás dos outros, isto é, não aparece com muita evidência.

 

2ª versão: os biblistas situam a segunda releitura no Reino do Norte pelo ano de 850 a.C.Nessa época, o povo está sob a tirania da dinastia inaugurada pelo rei Amri ou Omri (1Rs 16,2128). Já essa segunda interpretação do mesmo fato dá um colorido diferente. Esta versão afirma que Deus, lá de cima das nuvens, atolou na areia as rodas dos carros de guerra do exército faraônico, facilitando a fuga (leia somente os vv. 24s). É como um segundo fio de um mesmo tecido, mas este também fica em segundo plano.

 

3ª versão: ao redor de 550 a.C., durante o exílio na Babilônia, parte dos israelitas são oprimidos longe de sua terra. Mais do que nunca esperam por um novo êxodo. Fazem, então, uma nova releitura dos acontecimentos do êxodo. Esta terceira reinterpretação, distante mais de 600 anos dos fatos, é a mais espetacular de todas. Agora, as águas se abrem em paredes, formando um grande corredor de passagem da escravidão para a liberdade (Ex 21c-22s.28ss).

 

O que fizeram os redatores finais do livro do Êxodo? Eles teceram os fios desse texto com as três versões do mesmo fato, mas de épocas, lugares e realidades diferentes, dando ao tecido um colorido especial. A cor que mais aparece é a da terceira tradição. A um leitor desatento, passam despercebidas as duas outras versões. Todas as três, contudo, são leituras de fé daqueles fatos do passado. Fazem memória da presença de Deus nos acontecimentos de libertação. Nas diferentes épocas em que são feitas essas releituras, o povo sempre está precisando de um novo êxodo, de uma nova saída de situações de sofrimento, de opressão. A memória do passado quer iluminar o presente sem perspectivas.

 

A festa da vitória é organizada pelas mulheres. Segundo a pesquisa, o canto de Miriam e suas companheiras de luta (Ex 15,20s) é a formulação mais antiga do evento do êxodo. Os cânticos de Moisés (Ex 15,1-18) e Miriam celebram a presença libertadora de Deus na história.

 

Ao se integrar aos demais grupos nas montanhas de Canaã, o grupo de Moisés, com seu êxodo "espetacular", foi capaz de absorver os êxodos dos demais grupos. Isso se dá certamente por ter visto de perto a opressão do faraó, por um lado, e sua derrota, por outro. Foi a experiência mais fantástica entre todas. Ela como que se impôs. Nela, Israel viu sua origem, sua fundação enquanto povo de Deus.

 

4.3 A Caminhada no deserto[4]

A caminhada pelo deserto é dura luta para manter-se livre e não ser de novo oprimido. Tomando como modelo o grupo que escapou do Egito, a Bíblia conta como a insegurança, a pressão dos dominadores e a falta de bens de consumo fazem com que muitos queiram desistir. São aqueles que preferem ter a segurança do opressor, mesmo que para isso continuem escravos. Então criticam e procuram desfigurar o processo de liberação (Ef 14 – 17). Em Ex 15 é o problema da água. Em Ex

 

16 o problema é comida. Em Ex 17 volta o problema da água e da organização desse povo. Em Ex 18 aparece a questão da mudança, da organização e das estratégias.

 

A longa caminhada do povo no deserto está atrelada a esses problemas e eles têm que buscar uma nova organização. E isso nos dá a dimensão dos 40 anos. Os 40 anos trabalham dentro do êxodo como a teologia do aprendizado. O povo tem que aprender um projeto diferente. Quem está contando a questão dos problemas da água e da comida quer apontar que é preciso que o povo aprenda os novos preceitos para poder caminhar.

 

Em cima desses novos preceitos que eles têm que aprender esta, sobretudo na partilha. Em todos os momentos e instantes eles estão perguntando o que é isso, se referindo ao maná. E junto vem o grande preceito de que ninguém pode acumular para o dia seguinte por que estraga.

 

Aqui está todo o aprendizado que eles querem transmitir de que o novo projeto frente ao projeto do faraó é que eles têm que aprender a partilhar.

 

No último texto que é o conselho de Jetro, sogro de Moisés, o que eles têm que aprender é descentralizar o poder. Moisés tem que aprender isso e o povo também, visto que no fundo o poder que eles conheciam era o poder do rei e o poder do faraó, são os poderes concentrados. Então, o grande projeto que está aqui nesses grupos de resistências é: nós não podemos exercer o poder como aqueles que nos dominavam exerciam o poder.

 

Então o que nós podemos dizer de toda essa leitura do livro do Êxodo? O Êxodo é o grande livro e a grande tradição que ensina para o povo e para as futuras gerações são três coisas.

 

1ª A grande marca da vitória está na resistência. É a história de resistência de hebreus e hebreias que é a resistência de todos os povos frente aos outros projetos de dominação.

 

2º Reconhecer que Deus está presente. É a teologia do Deus atuante que está nessa luta de levar o povo a um novo projeto.

 

3º O povo só vai sobreviver ser houver estratégias. A estratégia de Moisés e Aarão serão a estratégia de Deus e a estratégia do povo. A vitória do povo de hebreus e hebreias ao celebrar suas festas, ao celebrar sua páscoa, ao celebrar sua libertação dependerá de estratégias. Todos os relatos dos sinais e dos milagres são relatos das estratégias. Esses três pontos são fundamentais para a leitura do Êxodo.

 

O livro do Êxodo é conhecido por todas as tradições como o livro dos nomes e o livro dos sinais porque ele traz para as gerações futuras os nomes importantes na história e os sinais primordiais da ação de Deus nessa história.

 

Assim percebemos que o livro do Êxodo é uma grande colcha de retalhos que foi sendo costurada por quase mil anos. Ele preserva trechos muito antigos, como o hino de Miriam (Ex 15,22), que guarda a memória histórica do processo de saída do Egito, redigido por volta do século XII a.C. Alguns textos, como Ex 29-30, devem ser da época de Esdras, no século IV a.C. Os primeiros capítulos devem ter sido redigidos na época da monarquia (entre os séculos X a VI a.C.). Já outros textos foram elaborados durante a crise do exílio (entre 597 e 538 a.C.), tanto em Judá como na Babilônia. Assim, o livro do Êxodo que temos hoje é fruto de muitos anos de caminhada do Povo de Deus.

 

Os acontecimentos do êxodo original foram guardados e cultivados na memória do povo e recordado nos momentos de crises e sofrimentos. Quando se corria o perigo de perder a missão de povo escolhido por Deus, eles se agarravam à lembranças deste êxodo original, que era recordado e reinterpretado para trazer as luzes e forças necessárias para resistir e retomar a caminhada.

 

Hoje não podemos falar de um só êxodo e sim de vários êxodos, ou seja, saída de vários grupos. E em cada um desses êxodos os grupos foram paulatinamente buscando alternativas diante do domínio tributário e explorador dos reis de Canaã que estavam a serviço do faraó do Egito.

 

O pano de fundo dessas saídas é o inconformismo diante do sistema de arrecadação de tributos e armazenamento de produtos, por parte dos reis e dos faraós, que vai trazer grandes conflitos a um povo faminto e que vive na miséria. Diante desse fato esses vários grupos saem em busca de outros refúgios, outras perspectivas. A grande saída desses grupos é buscar a sobrevivência em espaços distantes do controle do poderio das cidades, dos exércitos, dos faraós e dos reis. Esses grupos vão promover as saídas do controle das cidades e viver nas montanhas de Canaã e formar uma nova sociedade, uma sociedade alternativa (período dos Juízes).

 

Na tradição egípcia esses grupos são chamados de hapirus, fugitivos que se contrapõe ao controle político do faraó e procuram escapar dos tributos (impostos) e à corvéia (trabalho forçado) exigidos pelos reis e pelos faraós. Eram camponeses marginalizados que viviam nas aldeias das cidades-estados de Canaã e não se submetiam ao controle dos reis nem dos faraós egípcios. Eram identificados como bandidos armados, que saqueavam os territórios dos reis. Entre as cartas dirigidas ao faraó de Tell el-Amarna, encontra-se uma do rei de Jerusalém, dizendo: “O hapiru rouba a terra do rei”. Isso mostra que os hapirus constituíam uma ameaça à tranquilidade e o controle econômico do estado dos reis.

 

Na tradição bíblica esses hapirus são nada mais nada menos do que os hebreus, os excluídos aqueles que fizeram enfreamento político e econômico a todo poder dos reis, das cidades-estados e dos faraós.  

 

Temos aqui uma grande história que condensa vários êxodos e vários grupos que viviam as mesmas condições de opressão e o desejo de uma vida nova, o êxodo e os êxodos! Moisés e os outros grupos, os hebreus e as hebreias, formando um grande contingente de pessoas que se rebelam contra as autoridades opressoras.

 

Na pesquisa bíblica em termos de questão sociológica se fala de que a história do êxodo tem a ver com as grandes migrações de grupos de pastores ligados a Abraão, Jacó que foram parar no Egito em busca de novas pastagens para seus rebanhos. Mas temos outra teoria que vai apontar muito mais para a história de resistência e de revolução de grupos que se contrapõem ao regime do faraó. Assim o êxodo não é só a história de migrações, mas sim, história de resistência e revolução. É a história de grupos que se contrapõe ao poderio do faraó.

 

A luta dos hebreus escravizados foi o fator de aglutinação dos vários grupos que formaram Israel. Afinal, todos os grupos sabiam que tinham que enfrentar e vencer o sistema do faraó. Todos tinham que “sair do Egito”! Mesmo os que nunca tinham sido levados como escravos para lá. “Sair do Egito” significava resistir, enfrentar e vencer o sistema opressor que escravizava e matava. Egito passa a ser mais do que uma questão geográfica.

 

Na verdade, representa o sistema opressor contra o qual todos devem lutar e vencer. O grupo de escravos fugitivos ensinava que liberdade não se ganha, mas se conquista! O opressor nunca concede liberdade. É preciso lutar para alcançar a liberdade. Desta forma, “sair do Egito”, ou seja, vencer o sistema opressor, passou a ser a condição básica para se “israelita”.

 

AUTOAVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM

  1. Quais são as principais consequências para Canaã pelo fato de ser o corredor entre os grandes impérios estrangeiros da época
  2. Cite as principais características das cidades na época do surgimento de Israel!
  3. Qual era a situação das aldeias camponesas sob a dependência das cidades?
  4. O texto 1Sm 8,11-17 é conhecido como o "direito do rei". Certamente, ele descreve a prática dos reis em toda a região. Em que consiste essa prática?
  5. Quais as principais razões que levaram os camponeses a fugir das terras sob o controle dos reis?
  6. Quem são hoje os hapirus/hebreus? Como resistem e se organizam?

 

Assista o seguinte vídeo:

                                       Terra Prometida I = http://youtu.be/wrWIRTB3-0Y

 

                                       Terra Prometida II = http://youtu.be/x-GInVqQuwU

 

Notas:

[1] A rota mais importante é a que segue pela planície litorânea. “Carninho do Mar". Há ainda uma estrada pela serra central, passando por Hebron, Jerusalém e Betel, e outra rota na Transjordânia, ligando o porto de Etsion-Gaber ao sul no Golfo de Ácaba, passando por Edom, Moab e Amon, seguindo até Damasco na Síria. É a "Estrada Real".

 

[2] O nome Fuá lembra, em hebraico, a raiz verbal brilhar e o substantive brilho, esplendor. De fato, Beleza e Esplendor, descobrem o rosto de Deus no contexto de dar à luz a uma nova vida. Ou seja: entendem seu projeto de vida e se colocam a serviço dele.

 

[3] Saiba que a Bíblia Sagrada Edição Pastoral e a Bíblia traduzida por João Ferreira de Almeida denominam o mar dos Juncos de mar Vermelho (Ex 13,18;13,4). Mas o texto primitivo menciona apenas que o grupo de Moisés tomou o caminho do deserto para o leste ou sudeste. A denominação do mar é um acréscimo. Portanto, sua designação e localização são incertas. Em todo caso a passagem pelo mar se transforma em um dos emblemas da saída do Egito. Segundo interpretação bíblica a passagem no mar é uma narrativa simbólica. Mar, nesse contexto literário, significa caos, mistério, susto, medo. Sendo assim a passagem pelo Mar pode sinalizar que os hebreus estão vivendo um momento caótico. Contudo acreditam no poder de Javé e na liderança de Moisés (EX 14,31).

 

[4] Futuramente um dos nossos estudos de aprofundamento será: “A caminhada no deserto” Entendendo o livro do Êxodo 15,22-18,27.