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13.8 DOMINAÇÃO GREGA 333 a 301 a.C
13.8 DOMINAÇÃO GREGA 333 a 301 a.C

Esta oitava aula, retrata um período de grande provação e dificuldade para o povo Judeu. Após a volta dos exilados a Jerusalém e a reconstrução da comunidade judaica, a história aparentava estar caminhando muito bem, apesar das dificuldades internas em relação à aplicação das normas de pureza. Mas houve uma reviravolta com a tomada do poder por um novo império, o dos gregos.

 

Em 333 a.C., o rei Alexandre Magno impôs o seu poder na região, começando pela Síria e chegando até o Egito, onde fundou a cidade de Alexandria. Conquistou sem muita dificuldade o território que antes pertencia à Pérsia, inclusive a nação do Povo de Deus e a cidade de Jerusalém. 

 

O imperador Alexandre em pouco tempo conseguiu organizar um dos maiores impérios da antiguidade, tendo como limite, no Oriente, as Índias. Mas com 32 anos adoeceu e deixou um grande império para ser dividido entre seus generais, chamados diádocos. 

 

Para o nosso estudo nos interessa apenas o grupo dos Ptolomeus e dos Selêucidas. Por isso, em um primeiro momento, depois de algumas informações sobre a conquista do Império Persa pelo macedônio Alexandre Magno, veremos o domínio dos gregos sobre a Palestina a partir do Egito (301-198 a.C). Esta é a ocasião para olharmos mais de perto os livros bíblicos dessa época, isto é, Ester, Eclesiastes, Zacarias 9-14 e Tobias. Em seguida, abordaremos o domínio dos gregos sobre a Palestina a partir da Síria, conhecidos por Selêucidas (198-142 a.C). Veremos a imposição à força da cultura grega sobre os judeus, bem como a resistência dos macabeus contra essa imposição. Desse período, são os seguintes livros: Eclesiástico, Daniel, Judite e 2 Macabeus.  Por fim, estudaremos a época de independência dos judeus desde 142 a 63 a.C, período conhecido como dinastia dos asmoneus. Este período descreve o começo da ascensão romana sobre o Oriente Médio. Em Jerusalém, a família sacerdotal assume o poder religioso e também o político, mas os conflitos continuam e sempre com mais sofrimento para o povo.  Os escritos deste período são os últimos do Antigo Testamento e recuperam a confiança em Deus que liberta os justos: livro de Ester - o texto grego, 1 Macabeus, Baruc e Sabedoria. 

 

 2 - A GLOBALIZAÇÃO HELENISTA INVADE A CULTURA DE ISRAEL

De início, todo o Oriente contemplou estupefato, a fulminante entrada em cena de Alexandre Magno. Na terra dos faraós, ele foi recebido como libertador do jugo dos persas. A comunidade judaica, confinada nas montanhas da Judéia, tornou-se um pequeno mundo perdido dentro do grande império de Alexandre Magno. 

 

De todos os impérios e respectivas culturas que o mundo antigo conheceu, os gregos foram os que mais deixaram a sua influência, mesmo após a extinção de seu Império, principalmente com a implantação da língua grega em todas as regiões dominadas.

 

Mas a presença dos gregos não se resumiu ao novo idioma; com o passar do tempo, os novos governantes gregos tentaram impor também a cultura e os deuses gregos. Alguns destes governantes, sobretudo no período dos Seleucidas, empreenderam uma verdadeira campanha de helenização da cultura judaica. O resultado foi muito desastroso. Israel sofreu muito com essa dominação. 

 

Os gregos tinham um modo particular de conceber a vida em família e na sociedade, muito menos marcada pela tradição e pela dimensão comunitária. Tinham diferentes formas de organização social, de tradições culturais e de vivências religiosas. É com essa realidade que o povo de Israel teve de conviver por muitos anos e em constante conflito. 

 

As cidades gregas (pólis)  que foram nascendo dentro do novo Império, além de um jeito diferente de promover o comércio (mais independente da ação dos reis), herdaram templos de divindades gregas, uma vida mais intensa nas praças e locais públicos e teatros. No centro da cidade havia o empórion (isto é, mercado). Ele ficava na praça central, conhecida na língua deles por ágora. Além do mercado, as minas também eram fonte de lucro, normalmente de propriedade do Estado, e arrendadas a pequenas empreiteiras que absorviam a maior parte da mão- de-obra. 

 

Cada cidade tinha sua divindade protetora principal, com seu templo. Ele era provido por uma casta sacerdotal que oficiava as cerimônias religiosas. Os sacerdotes não exerciam grande influência na vida moral e ética do povo.

 

A religião interessava enquanto servia aos interesses dos homens e mulheres que frequentavam o templo, o qual servia não só para o culto da divindade, mas também como oficina de artes, escola de música, aprendizagem dos escritos sagrados (hieróglifos e cuneiformes) e exercia também uma função bancária. 

 

A sociedade grega era dividida, basicamente, em três classes sociais: a dos cidadãos, a dos libertos e a dos escravos.

 

Os cidadãos eram somente os indivíduos do sexo masculino nascidos de pais cidadãos. Eles gozavam de plenos direitos. Alguns, com raras exceções, obtinham a condição de cidadão graças a leis especiais.

 

 

A segunda classe social, a dos libertos, era conhecida em Atenas com o nome de metecos. Era formada, na sua maioria, por estrangeiros que não tinham os mesmos privilégios políticos dos cidadãos, mas podiam possuir terra. 

 

Entretanto, a maior parte da população era constituída por escravos, divididos em escravos urbanos e escravos das minas. Poucos escravos urbanos conseguiam passar para a segunda classe social, a dos libertos. Normalmente melhoravam sua posição pela fidelidade aos serviços prestados. Podiam, então, receber um salário pelo trabalho e possuir propriedades. Alguns chegavam até a ocupar posições respeitáveis como pequenos funcionários públicos e gerentes de banco. Mas aos escravos das minas era reservado tratamento muito cruel e sem nenhum direito. 

 

Apesar das diferenças entre as classes sociais e da desigualdade entre ricos e pobres, não havia desnível social tão gritante como nós conhecemos hoje. Comiam o mesmo tipo de comida, vestiam o mesmo tipo de roupa e participavam do mesmo tipo de divertimentos.  Essa igualdade substancial era criada pelo sistema de serviços que os homens abastados prestavam ao Estado em forma de contribuições para custear o teatro, equipar a marinha e sustentar os pobres.

 

Os gregos estavam habituados a um estilo de vida sem grande conforto e luxo. Professores, escritores, pedreiros, carpinteiros e trabalhadores comuns da população recebiam uma dracma por dia. O salário era o mesmo para todos.

 

Os bolos de cevada, cebola e peixe, regados com vinho, eram a alimentação principal. O vestuário era um pedaço de pano retangular enrolado em tomo do corpo - preso por um alfinete nos ombros e amarrado na cintura com uma corda - e sandálias. 

 

Normalmente a preocupação dos gregos era viver de forma satisfatória, sem grande conforto e sem a preocupação de acumular riquezas como forma de poder e prestígio. Contentavam-se com um pequeno negócio que lhes desse renda razoável. O que os cidadãos desejavam mesmo era tempo livre para se dedicar à política, às fofocas do mercado e às atividades intelectuais e artísticas, quando havia tendência para isso. 

 

A cultura grega distinguiu-se por sua filosofia de vida e pela filosofia clássica, que teve grande influência na cultura universal. Entre os primeiros filósofos helenistas estão os cínicos, que surgiram por volta do ano 350 a.C. Diógenes foi uma das figuras mais representativas desse movimento, tomando-se conhecido pelo seu gesto de procurar, em pleno dia, com uma lanterna acesa, um homem honesto.

 

O objetivo maior de sua vida era o cultivo da autossuficiência; cada um deveria encontrar dentro de si a capacidade de satisfazer suas próprias necessidades.  Nessa mesma época surgiram duas escolas, cada qual com sua filosofia de vida.

 

A primeira foi a escola de Epicuro, surgida por volta de 350 a.C. Ela deu origem ao epicurismo, cujo princípio era a lei do menor esforço. Era um liberalismo total, contanto que a pessoa vivesse sem dor e sem esforço em nenhum sentido.

 

A segunda filosofia de vida da época nasceu como reação aos epicureus; é a escola estóica de Zenão. Esta primava pelo rigorismo na observância da disciplina e das regras do bem-viver.  Trazia listas de virtudes que deviam ser seguidas e de vícios que deveriam ser evitados. Paulo, o apóstolo, sofreu influência da escola estóica. Nos seus escritos encontramos, com uma certa frequência, listas de defeitos e virtudes (Rm 1,29-32; 1Cor 5,10-11; 6,9-10; Gl 5,19-21 e outras).  Contemporaneamente às filosofias de vida, havia a filosofia clássica desenvolvida pelos grandes filósofos Platão, Sócrates, Aristóteles e outros.

 

Os gregos cultivavam também ciências como a matemática, a arquitetura, a náutica, as letras e, sobretudo as artes plásticas. O mundo para eles era dividido em espírito e matéria. O espírito valia mais do que a matéria. Essa mentalidade se reproduziu na apreciação do trabalho e, por conseguinte, nas pessoas: a produção intelectual era mais valorizada, enquanto o trabalho que exigia mais esforço físico era considerado inferior, por isso era reservado aos escravos. Ainda hoje existe uma valorização diferenciada entre o trabalho braçal e o trabalho intelectual. São influências culturais que persistem e pesam sobre os trabalhadores.

 

Com a morte prematura de Alexandre, seu vasto império foi dividido entre seus generais, chamados de diádocos. Quatro deles disputaram a divisão do reino de Alexandre: Seleuco; Lisímaco; Cassandro e os Ptolomeus (lMc 1,7-9; Dn 8,8). 

 

A Palestina, região onde se encontrava a terra do Povo de Deus, inicialmente ficou sob o domínio da dinastia do general Ptolomeu. Depois de 198 a.C., porém, os Selêucidas, como ficaram conhecidos os sucessores do general Seleuco, conquistaram a Palestina e passaram a dominar Israel.  Enquanto isso, a comunidade judaica continuava surpresa, sem poder reagir e mesmo sem compreender o alcance total dos acontecimentos. Seu território, diversas vezes invadido, torna-se agora palco de batalhas entre Ptolomeus e Selêucidas.

 

2 - DOMINAÇÃO DA DINASTIA DOS PTOLOMEUS (323-198 A.C)

 

Depois das lutas entre os generais de Alexandre Magno, a dominação dos gregos sobre a Palestina pode ser dividida em dois grandes períodos. Num primeiro momento, isto é, de 301 a 198 a.C., a Palestina ficou sob o domínio da dinastia do general Ptolomeu a partir de Alexandria no Egito. Depois de 198 a.C., porém, os Selêucidas, como ficaram conhecidos os sucessores do general Seleuco, conquistaram a Palestina dos Ptolomeus e passaram a dominar Israel desde a Antioquia da Síria, a capital de seu império.  Os quatro chifres menores foram os quatro generais de Alexandre que dividiram o poder sobre seu grande império, logo após sua morte.

 

A dinastia dos Ptolomeus é assim chamada porque o nome do primeiro rei dessa dinastia foi Ptolomeu, um dos quatro generais de Alexandre Magno. Como seu pai se chamava Lagos, também é conhecida como a dinastia dos Lágidas. 

 

O primeiro rei desse novo império foi Ptolomeu I Soter (323-285 a.C). Entrou em Jerusalém em 320 a.C., em dia de sábado, com o pretexto de levar oferendas ao Templo, mas o resultado foi o estabelecimento do domínio sobre a cidade e o país de Israel. Prendeu muitos judeus e os levou para Alexandria, no Egito. Ptolomeu I Soter, por outro lado, favoreceu a cultura grega em seu reinado, criando um museu em Alexandria. 

 

O reinado dos Ptolomeus pode ser caracterizado como um estado burocrático, fortemente centralizado e militarmente estruturado, principalmente para controlar e fiscalizar o recolhimento dos impostos. Eles não permitiam que as regiões controladas fossem autônomas, por medo de motins e temiam perder seu poder.

 

Do ponto de vista econômico, foi uma época de muita exploração. Em todas as regiões onde dominavam, estabeleciam oficiais, tropas militares e encarregados das finanças e do recolhimento dos impostos. Cerca de um terço da produção era arrecadado em forma de tributo.

 

Os Ptolomeus arrendavam a famílias ricas o direito de recolher os impostos, dando-lhes liberdade no processo de arrecadação. Com isso, conseguiam lucros financeiros e maior influência política. 

 

O auge do poder dos lágidas foi no reinado de Ptolomeu II, o qual patrocinou algo que passou a influenciar a vida dos judeus da diáspora (os que se encontravam fora da Terra Santa) e depois os cristãos do NT. Como a língua grega tornou-se oficial, ninguém mais conseguia ler os livros sagrados escritos em hebraico. Nasceu então a ideia de traduzir a Sagrada Escritura para o grego. Conta-se que setenta sábios se reuniram para fazer essa tradução na cidade de Alexandria. Por isso chamada de tradução dos Setenta ou Septuaginta. 

                                                          

A comunidade judaica teve muita dificuldade para aceitar a tradução da Bíblia do hebraico para o grego, porque o uso da língua grega representava o domínio do império grego e uma ameaça para a cultura judaica. Essa tradução já representava a assimilação da cultura grega pelos judeus, pois os seus textos sagrados não podiam mais ser lidos na língua original. Para consolar essas comunidades foi contada a história dos setenta (ou setenta e dois) sábios que fizeram uma tradução do texto sagrado de forma idêntica, quando cada qual permanecia na sua cela, sem ter contato um com o outro.

 

Essa história vem amenizar a consciência das comunidades judaicas que recusavam a tradução dos setenta como texto sagrado e quer mostrar que o texto grego é tão sagrado quanto o hebraico e, por isso, é querido por Deus. Pois se duas pessoas não fariam uma tradução igualzinha, quanto mais setenta ou setenta e duas. Isso só pode ser obra de Deus.

 

E a mesma inspiração que agiu na produção do texto original age, agora, na tradução. Essa versão da Bíblia em grego não influenciou somente os judeus daquela época; quase todos  os autores do NT (que foi escrito em grego), ao citarem o AT, o fazem utilizando a versão  em grego da LXX. Observe as Bíblias que utilizamos, os nomes dos livros são da versão em grego, bem como a divisão em dois volumes dos Livros dos Reis e de Samuel. 

 

Os judeus da diáspora, dispersos pelas cidades helenizadas viviam mergulhados na cultura grega. Embora inicialmente pudessem, tal como os judeus da Palestina, viver livremente sua fé em Javé, aos poucos, foram sendo influenciados pela cultura helênica. No entanto, eles não opunham tanta resistência contra o Helenismo. Especialmente em Alexandria, iniciaram um processo de inculturação, conservando, porém, a observância da lei e o culto na sinagoga. 

 

Nesse período da dominação dos Ptolomeus, os Judeus da Palestina se dividiram. De um lado, a classe dirigente e, de outro, os setores mais pobres, encarregado de manter quem estivesse no poder, porém fiéis à lei de Moisés. A classe dirigente, composta pelos chefes dos sacerdotes e por setores da aristocracia, a fim de garantir seus interesses econômicos, apoiou a introdução do modo de vida dos gregos no Judaísmo.  O sumo sacerdote dos judeus continuava desfrutando de pleno poder. Assim também as famílias ricas.

 

Em 2Macabeus 3,11, temos uma referência a uma dessas famílias que tinha muito dinheiro depositado no templo de Jerusalém, sinal de que o templo funcionava ao mesmo tempo como banco. Isso nos revela que as principais famílias judias estavam plenamente integradas no mundo helênico. Mais tarde, quando os Selêucidas venceram os Ptolomeus, elas apoiaram o rei Antíoco III contra Ptolomeu V.

 

A presença dos gregos trouxe outra mudança significativa. A partir de agora não há mais um governador civil ao lado do sumo sacerdote, como no período persa. O próprio sumo sacerdote passa a exercer também o poder civil. A administração não era mais feita por um governador, mas por um conselho de anciãos, composto de sacerdotes e leigos, presidido pelo sumo sacerdote (l Mc 12,6; 2Mc 1,10; 11,27). Mais tarde, na época dos Macabeus, esse conselho seria chamado de Sinédrio.  Com isso, aumentou ainda mais o poder do sumo sacerdote. Além de desempenhar as funções no templo, passou a exercer tarefas políticas, como representante político da comunidade judaica. No entanto, embora tivesse poder para administrar as questões internas do Judaísmo, ele tinha pouca autonomia administrativa. 

                                                         

Diáspora  =  processo de dispersão dos judeus pelo mundo e a consequente formação de comunidades judaicas fora da Palestina. A primeira diáspora iniciou-se em 586 a.C., quando o imperador babilônico Nabucodonosor invadiu Jerusalém e deportou os judeus para a Babilônia. Apesar da libertação de Jerusalém pelo imperador persa Ciro I em 539 a.C. apenas uma parte dos judeus retornou para lá. A maioria optou por permanecer na Babilônia e alguns migraram para vários países do Oriente. O segundo momento da diáspora aconteceu no ano 70, com a destruição de Jerusalém pelos romanos. A partir desse momento, os judeus dirigiram-se a diversos países da Ásia Menor e do sul da Europa, formando comunidades que mantiveram a religião e os hábitos culturais judaicos. As que se estabelecem mais tarde nos países do Leste Europeu ficaram conhecidas como ashkenazi. Empurrados pelo islamismo, os judeus do norte da África (sefardins) migraram para a península Ibérica. Expulsos de lá pela cristandade no século XV, migraram para Holanda (Países Baixos), Bálcãs, Turquia, Palestina e, estimulados pela colonização europeia, chegaram ao continente americano.

 

 Por outro lado, houve resistência do povo da terra contra a exploração econômica e política dos gregos. Para a comunidade judaica fiel à observância da lei e ao culto no templo de Jerusalém, o mais importante de tudo era garantir a pureza de sua identidade, de sua tradição.

 

Por isso, reagiu fortemente contra a helenização dos costumes judaicos.  Quando mais tarde os Selêucidas impuseram na marra a cultura grega, o povo resistiu bravamente ao processo de desintegração de sua identidade. É o que veremos adiante quando estudarmos a vigorosa resistência que deu origem à luta dos macabeus.  É importante ainda lembrar que os lágidas não impuseram à força seu modo de vida, sua cultura. Porém, criaram as condições para que o helenismo fosse mudando aos poucos a mentalidade e os costumes judaicos. 

 

A dinastia dos Lágidas do Egito perdeu a hegemonia sobre a Judéia por volta do ano 198 a.C., na batalha de Panion, e a partir dessa data os Selêucidas da Síria passaram a dominar a região da Judéia. No período dos Ptolomeus grande parte dos antigos escritos ganha redação definitiva: Esdras, Neemias e 1 e 2 Crônicas.  Os dois livros das Crônicas teriam constituído inicialmente uma só obra, igualmente Esdras e Neemias. De fato, são muito semelhantes no estilo e no conteúdo. Tratam dos mesmos temas fundamentais: o Templo, o culto, o clero, o governo de Davi, a restauração da comunidade pós-exilia e surgiram diversos outros escritos que retratam seu contexto histórico e suas problemáticas mais marcantes. 

 

  1. 1 - Literatura de resistência na época dos Ptolomeus Agora, passemos ao estudo da literatura que surge no decorrer do período dos Ptolomeus. Veremos os livros de Ester, Eclesiastes, os capítulos 9-14 de Zacarias e o Livro de Tobias.

 

2.1.1 – Ester. O livro não é historiografia, descrição dos fatos concretos, a narrativa é muito mais uma novela do que uma historia real. Do livro de Ester chegaram até nós duas versões: uma em hebraico e outra em grego. A versão hebraica foi editada em torno de 350 a.C., no final da época persa, pouco antes de os gregos destruírem a grande potência e tem 167 versículos e a versão grega que foi editada entre 114 e 112 a.C., durante o governo de João Hircano e possui um acréscimo de 93 versículos.

 

Nas Bíblias, normalmente, são assinalados os acréscimos dos versículos em grego.  Embora seja uma novela, o texto se refere à vida concreta dos judeus e quer ser uma injeção de ânimo para as comunidades espalhadas em todo o império. Quer ajuda-las a serem fieis a história de seu povo, não se deixando iludir pelo modo de vida do império. Quer desenvolver-lhes a esperança para continuarem fieis aos seus costumes, apesar das dificuldades em meio a povos que, muitas vezes, as humilhavam.

 

 A história básica contada na versão hebraica apresenta Ester com uma beleza tal que a faz chegar ao trono do rei da Pérsia; ele havia destituído sua rainha. Junto ao rei, Ester descobre uma trama armada contra ela e contra os judeus, maquinada pelo primeiro ministro Aman.

 

No ponto alto dos fatos, Ester corajosamente intervém a favor de seus irmãos judeus, desmascarando Aman, que é condenado e enforcado, castigo que ele mesmo havia preparado para Mardoqueu, tio de Ester. Os fatos retratam uma história cujo pano de fundo são banquetes, palácios e poder, de um lado, e de outro, os pobres judeus que poderiam contar somente com a providência divina. Deus age através de Ester, que consegue interceder pelo seu povo. 

 

A mulher, novamente, é colocada como protagonista e, mesmo não se encontrando nas terras de Israel, mas no palácio de um rei pagão, Assuero, é exemplo de fé e piedade judaica. O livro de Ester deve ter sido significativo e importante para os judeus, que, por muito tempo, viveram subjugados por diferentes reis e impérios (persas, gregos, egípcios, sírios e depois os romanos).

 

Esse livro, entre outras pretensões, tem a de apresentar a origem da festa de Purim ou festas das sortes (Est 9,20-32), celebrada ainda hoje pelos judeus, na qual se comemora a derrota de Aman, que pretendia exterminar o povo judeu. 

 

A versão grega preservou: os relatos do sonho de Mardoqueu, a carta de condenação dos judeus, a oração de Mardoqueu e de Ester, a visita de Ester ao rei, a carta de reabilitação dos judeus e a interpretação do sonho de Mardoqueu. É estranho que no texto em hebraico não se mencione nenhuma vez o nome de Deus; talvez isso justifique posteriores acréscimos em grego, nos quais Deus passa a fazer parte da história que se desenrola com seu povo. 

Tudo indica que a versão hebraica seja mais antiga, já conhecida por volta de 160 a.C., pois o livro de 2Mc 15,36 menciona o "dia de Mardoqueu”, e a tradução grega foi feita por volta do ano 114 a.C

 

2.1.2 – Eclesiastes. Eclesiastes vem do grego ekklesiastes, isto é, aquele que convoca a assembleia ou ekklesia, e pode significar também membro da assembleia, que é ao mesmo tempo uma tradução de kohelet, "Coélet, filho de Davi" (1,1; 1,12).

 

Num primeiro momento, o leitor pode achar o livro do Ec1esiastes um tanto pessimista. Mas este escrito traz um profundo senso crítico e realista sobre a condição da população judaica na Palestina, por volta dos anos 330 a 198 a.C. Neste contexto, a Palestina estava sob o controle do império grego. O povo hebreu tinha que pagar pesados impostos que eram cobrados pelas famílias nobres que tinham o controle do comércio, da economia e da política interna.

 

O autor procura descrever o tempo de exploração interna e externa na Palestina, que podava toda esperança de um futuro melhor para o povo, principalmente os pobres, fazendo como que um grande balanço a respeito da situação humana de sua época, e procurando apontar perspectivas de vida para a realidade da comunidade. Para responder às perspectivas da comunidade, aponta alguns passos.

 

Primeiro, procura chamar a comunidade para constatar a realidade, sair do mundo das ilusões que este sistema de sociedade apresenta como ideal de vida feliz: a riqueza, a busca do poder, ciência, trabalho para enriquecer, prazeres, sede pelo status social. Ele questiona: "Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol?" (Ecle 1,3).

 

O autor indica dois caminhos que a comunidade deve percorrer. O primeiro passo é descobrir Deus como Senhor da vida, do mundo e do processo histórico que os envolve, dando a Deus a chance de agir na vida do povo.

 

O segundo passo é outra descoberta, Deus está sempre presente na vida concreta de cada ser humano, a cada instante.  Com isso, leva o ser humano à descoberta de que a realização da vida humana é buscar viver de forma intensa o momento presente na percepção de que Deus está presente, atuando e o ser humano necessita estar em estreita relação com Ele, porque o sentido da vida vem dele.  O livro aponta que se deveria viver de forma intensa aquele momento presente que deveria se tomar uma experiência da eternidade, saciando a sede que o ser humano tem da vida. Num determinado momento, o livro leva a mais um questionamento: mas para de fato viver o presente, aquele povo tinha como condição usufruir o fruto do próprio trabalho (cf. 2,10: 2,24; 3,13. 22; 5,1820; 9,9). Mas que presente de vida sobra para o povo, quando este é impendido de saborear o fruto do trabalho com que se fadiga debaixo do sol? 

 

É mais do que escravidão a realidade do povo. O Eclesiastes procura denunciar as consequências de uma estrutura social injusta, apontando que o povo de Deus não tem vida de qualidade quando é impedido de comer o pão como fruto do próprio trabalho. Consequentemente, ele é impedido da vida, que lhe foi roubada não por uma pessoa, mas por um sistema de sociedade, que privilegia uma minoria que acaba escravizando a maioria ou a nação inteira. Neste contexto, podemos perceber o grande pecado que uma sociedade pode cometer: Deus dá a vida para todos; se ela é roubada, o roubo é um desvio da própria fonte de vida, é um pecado contra Deus e contra o próximo.

 

2.1.3 - Zacarias 9-14. O livro de Zacarias foi escrito em duas épocas diferentes: no período persa, os capítulos 1-8 por volta de 520 e 115 a.C., durante a construção do 2º templo e, no período grego, os capítulos 9-14. 

 

Um tema comum às duas partes é a esperança na vinda de um Messias. É que o povo vivia numa realidade de dura opressão sob sem perspectivas, a curto prazo, de alcançar a libertação. Por isso, olha para o futuro e espera por um Messias pobre, bom pastor e da linhagem de Davi. 

 

Na primeira parte (9-11), merece-destaque a referência à vinda de um rei messiânico pobre, montando um jumentinho. Seu projeto é acabar com a força das armas e estabelecer uma era de paz em todo o planeta (9,9-10). É o messianismo que vai na linha dos antigos profetas. Outra característica do Messias é que ele é apresentado como o bom pastor em oposição aos maus pastores. Leia 11,4-17! Compare esse texto com Ez 37,15-28! 

 

Na segunda parte (12-14), a figura do Messias volta a ser ligada com a descendência de Davi (12,8). É o messianismo centrado em Jerusalém, onde o culto e o templo, vinculados à lei, são as mediações privilegiadas entre Deus e o povo. 

 

Nessa segunda parte, a esperança na libertação está organizada em torno de três figuras-chave da história passada de Israel. São elas: Davi, Elias e Josias. É um texto de esperança dirigido para Jerusalém, para a Judéia e para os descendentes de Davi (12,8). 

 

Em Zc 12, a referência ao "traspassado" (12,10) é uma provável lembrança do assassinato do rei Josias da dinastia de Davi, em 609 a.C., para compreender o sentido do sofrimento pelo qual o povo estava agora passando sob o peso da opressão dos Ptolomeus. O sofrimento tinha um sentido purificador e transformador na vida do povo. Os primeiros cristãos aplicaram essa passagem a Jesus.  

 

Em Zc 13, o acento principal é a luta contra a idolatria. E o personagem principal da história de Israel que serviu de modelo na luta pela libertação dos ídolos é o profeta Elias (lRs 18-19). A libertação plena para o povo somente será possível no momento em que forem vencidos os falsos profetas junto com os ídolos que legitimam sistemas de opressão. Somente então o Deus libertador terá seu nome santificado.  Zacarias14 celebra a manifestação da realeza de YHWH, que será o único rei do mundo (14,9). Serão vencidos todos que se opuserem a Jerusalém, que habitará em segurança. Então todos os povos virão a Jerusalém para celebrar, no templo de YHWH, a festa das Tendas (14,16-21). 

 

3- DOMINAÇÀO DOS SELEUCIDAS (198-142 a.C)

 

O domínio dos Selêucidas sobre a região da Judéia começou em 198 a.C., quando Antíoco III venceu os Lágidas. A troca de domínio dos Lágidas para os Selêucidas não significou apenas uma mudança de poder, mas uma significativa melhora para o povo.  A população de Judá não estava satisfeita sob o domínio dos Ptolomeus. Havia grande descontentamento. Eles eram menos generosos em conceder certos privilégios aos países dominados, pois tinham medo de perder o poder ao dar muita autonomia. Contrariamente, os Selêucidas eram mais generosos, concediam aos países dominados a liberdade de se organizarem à maneira das cidades gregas, com um conselho e as assembleias dos cidadãos, mesmo que essa liberdade não se estendesse a toda a população, como a escravos e libertos. 

 

Antíloco III favoreceu muito os habitantes de Jerusalém, renovando os privilégios para a cidade e o Templo por meio de um decreto especial, no qual ele reconheceu a boa acolhida que os Selêucidas tiveram por parte do Sinédrio, que saiu ao encontro deles, deu comida ao exército e aos elefantes, e ajudou o seu exército a capturar a guarnição egípcia.

 

Em retribuição, ajudou a reconstruir a cidade destruída pelas ações bélicas e permitiu que os habitantes dispersos voltassem para repovoar as cidades; deu liberdade aos prisioneiros; providenciou animais, sal e lenha para os sacrifícios do Templo; ofereceu vinho, azeite, incenso, grãos e farinha para os ritos; proibiu a importação de carnes ritualmente impuras; incentivou o término das obras  do Templo e liberdade para viverem a lei segundo as prescrições dos antepassados; isentou o conselho dos anciãos, sacerdotes e escribas das taxas do Templo sobre os animais e o sal; aos demais cidadãos de Jerusalém concedeu a mesma isenção de impostos durante três anos; dispensou os cidadãos de um terço dos serviços obrigatórios.

 

Antíoco III confirmou o direito dos judeus de se regerem segundo sua lei, a Torá (2Mc 4,11).  Nessa época, começou a destacar-se uma nova potência no cenário internacional: Roma.

 

Antíoco III tratou de garantir as fronteiras ao sul, depois avançou pela Ásia Menor, confrontando-se com Roma, e foi derrotado na batalha de Magnésia (Dn 11,18). Teve de entregar todo o território que já havia conquistado, desarmar o exército, pagar grande indenização e entregar seu filho como refém (lMc 8,6-7). A paz e a "autonomia" custaram-lhe muito caro. 

 

Antíoco III, pressionado pela enorme dívida contraída com Roma, apelava para todos os meios, lícitos ou não, a fim de saldá-la. Foi morto enquanto se apoderava do tesouro do templo de Bel, no ano 187 a.C (Dn 11,19). 

 

Seu filho Seleuco IV (187-175 a.C) sucedeu-o no trono. Procurando sanar as dívidas do seu pai, tentou saquear o Templo de Jerusalém (2Mc 3 e Dn 11,20) mas teve o mesmo fim que ele. Foi morto (2Mc 3) e seu irmão Antioco IV subiu ao trono. 

 

Diferentemente de seu irmão, Antíoco IV, muito pretensioso, usou o nome de uma das divindades mais invocadas na Grécia para se proclamar: “Zeus Epífanes”. Agindo dessa forma desagradou gregos e judeus, e rompeu a promessa feita por seu pai a estes, de respeitar sua autonomia religiosa e impôs o helenismo à força na Palestina desencadeando uma grande perseguição contra os judeus. 

 

Antioco IV, agora com o acréscimo no nome de Epifanes, desestabilizou também a legitimidade da sucessão ao cargo de sumo sacerdote, nomeando ao cargo quem lhe oferecesse maiores vantagens econômicas (2Mc 4,23-29), pois precisava pagar os tributos que Roma lhe impôs.

 

Sua intenção era humilhar a comunidade judaica, proibindo os sacrifícios no Templo, a circuncisão, a observância do sábado, as dietas alimentares e decretou sentenças de morte para quem os praticasse. Mandou oferecer sacrifícios aos deuses (lMc 1,59; 2Mc 10,5; 6,2) no Templo de Jerusalém, e ergueu um altar dedicado à divindade pagã ''Zeus Olímpico" - esse gesto foi interpretado por Daniel como a "abominação da desolação" (Dn 9,27). 

 

Com a conivência do sumo sacerdote Jasão, que corrompeu o rei selêucida para obter o cargo (2Mc 4,7-9), o helenismo entrou de cheio em Jerusalém. Com a nomeação de Jasão para o sumo sacerdócio no lugar de Onias III, foi quebrada a sucessão hereditária dos sadoquitas no cargo de sumo sacerdote.  Os moradores de Jerusalém que aderiram ao Helenismo receberam inclusive o título de "cidadãos antioquenos".

 

Antes de continuar seu estudo leia 1Mc 1,10-64! Como você pôde perceber, até um ginásio para atletismo foi construído na cidadela dentro de Jerusalém (lMc 1,14-15; leia ainda 2Mc 4,7-20). Pior que tudo isso, foi introduzir no próprio templo o culto a Zeus Olímpico, correspondente a Júpiter dos romanos. 

 

Dessa forma Jerusalém ficou dividida, de um lado judeus da classe dirigente, favorável ao helenismo, entre eles os saduceus, e do outro lado, os "hassideus", judeus "piedosos" que resistiam em defesa da tradição judaica, fechando-se cada vez mais dentro dos limites estabelecidos pela lei.  

 

Os saduceus eram um grupo organizado, formado pela classe dirigente. Organizaram-se para defender seus interesses e privilégios. Eram da aristocracia sacerdotal, bem como dos setores leigos e ricos. Eram a elite ligada aos interesses econômicos do governo, do latifúndio, do templo e do grande comércio. Durante a dominação dos gregos, sua posição política era favorável à adoção da cultura helênica e à aliança estratégica com os Selêucidas, que lhes garantia uma situação econômica privilegiada.  Além de serem conservadores, viviam em torno do templo, controlando o poder e o comércio. Os saduceus mantinham sua influência sobre o povo através das alianças com quem detinham o poder. Eles não tinham mentalidade apocalíptica.

 

Consequentemente, não esperavam por um Messias, nem acreditavam na ressurreição. Sobre a teologia apocalíptica, trataremos adiante.  Mais tarde, apoiariam os reis asmoneus abertos à helenização da cultura judaica, como ainda veremos. Alexandre Janeu (103-76 a.C), por exemplo, apoiou-se neles, quando lutou contra os fariseus. Porém, Salomé Alexandra, sua esposa, que o sucedeu no trono (76-67 a.C), admitiu novamente os fariseus no Sinédrio. A partir de então, começou um conflito entre os dois grupos no grande conselho, onde os saduceus continuaram sendo a maioria.  Antíoco IV Epífanes, apesar de encontrar grande resistência, sobretudo por parte dos Macabeus e dos Assideus - comunidades de judeus apegados à Lei (lMc 2,42) -, continuou a perseguição aos judeus, até se confrontar com a resistência armada da família sacerdotal de Matatias (lMc 2,15-28). A oposição crescia cada vez mais, sobretudo no campo. Antíoco morreu como seu pai, enquanto tentava despojar um templo no ano 164 a.C., (lMc 6,1- 17; 2Mc 9; 10,9-13). 

 

3.1 - Literatura na época dos Selêucidas 

 

O primeiro a reagir diante das provocações de Antíoco IV foi Matarias, levita (lMc 2,1; ler 24,7) da aldeia de Modin situada a noroeste de Jerusalém. Ali, matou o representante do rei, bem como um judeu que sacrificava às divindades gregas sobre o altar sob a ordem dos gregos (1Mc 2,24-25). Assim começou a luta contra os judeus que aderiram ao modo de vida helênica e contra a opressão dos Selêucidas.  Durante o exílio babilônico, o 2° Isaías havia iniciado uma abertura de Israel para o mundo. Esdras e Neemias, ao contrário, impuseram um Judaísmo exclusivista. Contra eles reagiram os livros de Rute e de Jonas.

 

Os judeus de Alexandria retomaram o universalismo do 2° Isaías. Nesse sentido, o Helenismo foi um desafio para Israel na retomada da sua missão de ser ''luz para as nações (Is 42,6; 49,6). Porém, os assideus insistiram no Judaísmo legalista e preso a suas tradições. Em boa parte, a literatura bíblica nos dois últimos séculos a.C. reflete, com diferentes ênfases e tendências, esse Judaísmo fechado e que decidiria, mais tarde, o assassinato de Jesus, bem  como a expulsão dos cristãos de origem judaica de suas sinagogas.

 

Agora, passemos ao estudo da literatura que surge durante o período dos Selêucidas. Inicialmente, veremos os Livros do Eclesiástico, Daniel, Judite e do segundo macabeus, os Salmos 44;74;86;91. Depois, analisaremos a revolta dos macabeus, bem como o surgimento dos fariseus e dos essênios a partir dos assideus e finalmente, conheceremos os últimos escritos do Antigo Testamento. 

 

3.1.1 - Livro do Eclesiástico:

 

Este escrito teve sua origem por volta dos anos 190-180 a.C. Seu autor parece ter  sido um certo Jesus Ben Sirac, e provavelmente este livro chegou aos nossos dias por  tradução grega deste escrito, feita pelo seu neto  nos meados do ano 132 a.C. Os selêucidas com a pretensão de unificar o poderio do império exposto a conflitos de caráter interno promoveu uma política de assimilação, e procurou impor aos povos sofridos e escravizados pelos seus domínios, suas culturas, seus costumes e sua religião, isto é, costumes e religião gregos, uma imposição cultural e religiosa que ameaçava destruir a identidade cultural e a experiência religiosa dos povos sofridos e dominados.

 

Entre os israelitas, alguns cederam à pressão e acolheram a imposição grega, buscando adaptar a experiência judaica a certa civilização universal. Em contrapartida, houve também uma forte corrente que buscava preservar a identidade e lutar pela fé dos israelitas, buscando salvar a vocação do povo de Israel, testemunha do Deus  vivo para todas as nações. É neste contexto que o autor escreve sua obra, como uma espécie de longa meditação a  respeito da fidelidade do povo hebreu. Este autor procura reavivar a memória e a consciência histórica da vida do seu povo, buscando apontar sua identidade própria e o valor de suas antigas tradições, sendo que as mesmas não podem ser violadas. 

 

A composição didática do livro é composta por 51 capítulos. A parte central do livro do Eclesiástico é o capítulo 24. Neste capítulo, seu autor procura identificar a sabedoria com a lei da tradição de Moisés (Eclo 24,23). Deixemos claro que lei neste contexto não significa legislação,  mas os cinco livros do Pentateuco, que para os judeus se chamam Torá, que é igual à lei.

 

Do ponto de vista do autor do livro do Eclesiástico, a lei para o povo de Israel constitui a  verdadeira sabedoria para a caminhada do povo.  No entanto, a narração toda do Pentateuco aponta a experiência básica de toda humanidade de qualquer época da história: a sabedoria que nasce de uma experiência concreta e conduz à vida.

 

Podemos entender que a experiência com Deus, que este livro nos aponta, tanto no âmbito pessoal como familiar e comunitário, poder nenhum pode eliminar, nem mesmo valores que são considerados culturais. Assim, os israelitas, que não cederam ao medo, à imposição cultural opressora, aos costumes que desqualificavam a vida do seu povo, podem servir de exemplo e estímulo também para nós. A fidelidade a Deus é fundamental. Nossa fidelidade não deve ser dirigida à lei, mas sim ao seguimento de Jesus que é a plenitude da lei para nós.

 

3.1.2 - Daniel.

 

No livro de Daniel a personagem principal é apresentada como um sábio (1,20; 2,23) que faz uma leitura teológica e apocalíptica da história. A palavra "apocalíptica" vem do grego "apocalipse" e significa "revelação".

 

No tempo dos Selêucidas começaram a surgir escritos de cunho apocalíptico. Em um contexto de conflito, perseguição e brutalidade, em que a vida era ameaçada, esses escritos trazem algumas características comuns: trata-se de fatos escondidos dos olhos da maioria, mas revelados por Deus a uma pessoa. Eles recebem normalmente o nome de uma pessoa importante para sublinhar a relevância da revelação. Os fatos normalmente dizem respeito ao cosmo, à história e ao destino do povo de Deus.

 

A intervenção de Deus se dá no "Dia do Senhor", quando se manifestará o Filho do Homem em sua glória. Na perspectiva profética, a história pode ser transformada; na apocaliptica não, ela sofre um corte radical. É uma visão mais pessimista do mundo, dividido entre bons e maus. Os bons são pouco expressivos e incapazes de agir, mas também não impedem a ação de Deus e são salvos pela sua intervenção. O fim é esperado com ansiedade e descrito com cores muito vivas e catastróficas. Tudo isso é projeção da angústia que esse pequeno grupo vive no seu contexto histórico. 

 

A apocalíptica tem sua manifestação mediante descrições, e não por anúncios, como a mensagem profética. Ela é cheia de símbolos, visões, números e imagens que ninguém pode decifrar, exceto Deus ou o Filho do Homem a quem ele o revelar. Contudo, pode-se atribuir um certo caráter de profecia à apocalíptica, uma vez que ela induz as comunidades a resistir à opressão, e desperta-lhes a esperança. O livro de Daniel traz muitas dessas características. 

 

O Livro de Daniel é escrito em três línguas diferentes: hebraico (1,1-2,4;8-12), aramaico (2,4b.7,28) e grego (3,24-90; 13-14), e pode ser dividida em duas partes: de 1-6 conta a história de Daniel e de seus companheiros na corte da Babilônia; e de 7-12 apresenta as quatro visões, narradas em primeira pessoa e explicadas por um anjo. Ela retrata, de forma viva, o contexto histórico e conflitivo do período dos Selêucidas. 

 

No capítulo 7 as quatro bestas são interpretadas com unanimidade pelos estudiosos como símbolos dos impérios da Babilônia (leão), dos Medos (urso), da Pérsia (leopardo) e da Macedônia (animal com dez chifres). Este último animal (Dn 7,1-28) é identificado com os dez reis da dinastia Selêucida. O chifre normalmente é interpretado como símbolo de força e poder. O autor do livro de Daniel descreve esse quarto animal de forma feroz (Dn 7,7-8).

 

Daniel, nessa obra, é um representante autorizado do pensamento judaico palestino da primeira metade do século II a.C. O autor deve ter-se servido de escritos anteriores e aplicado aos seus contemporâneos. Quer mostrar a eles que um judeu piedoso, mesmo na perseguição, pode ser fiel às suas tradições religiosas e às prescrições alimentares (Dn 1-6). Quer mostrar ainda que as provações podem ser superadas com a ajuda de Deus (Dn 3,2490). 

 

3.1.2 - Livro de Judite. 

Escrito por volta de 198-166 a.C., o livro contém 16 capítulos. A forma literária deste livro é chamada de novela ou conto. O pano de fundo irreal da história narrada faz supor que provavelmente o autor não pretendia registrar fatos históricos.

 

Vejam que Nabucodonosor, rei da Babilônia (605-652 a.C.), neste conto é rei da Assíria e reside em Nínive; entretanto, o império assírio e a cidade de Nínive haviam sido destruídos em 612 a. C. O nome do general Holofernes não é babilônico, mas persa. A cidade de Betúlia é desconhecida pelos relatos históricos, não pode ser identificada com nenhuma cidade palestina; portanto, trata-se de uma criação literária.

 

O nome Judite só aparece em outro escrito como a mulher heteia de Esaú (Gn 26,34), sendo um nome muito improvável para uma mulher judia. Esse nome deve ter sido escolhido em virtude de seu significado: "judia". Sobre as guerras que aparecem no livro, os relatos históricos não trazem nenhuma evidência de que tenha acontecido tudo isso na Palestina. Portanto, o livro de Judite, tanto no seu pano de fundo como pelo jeito que é enredado, apresenta todas as características de um romance histórico inventado.

 

Muitas vezes, o modo de agir de Judite pode ser criticado severamente porque ela assassina e, ainda mais, por meio de uma sedução. Porém, mesmo que ela não tenha, de fato, seduzido Holofemes, quem narra para nós deixa claro que isso foi devido à misericórdia de Deus (Jd 13,16). Judite estava pronta e disposta a fazer tudo para libertar seu povo oprimido, e assim o fez. O livro quer nos dizer que Deus salva o seu povo através da ação dos seres humanos.

 

A fidelidade do povo judaico baseia-se em sua fidelidade à lei. Esse é o núcleo do discurso de Aquior (Jd 5,5-21), das palavras de Judite (Jd 8,17-20) e de seu exemplo como mulher e viúva que vive segundo a lei ( 8,6; 10,5; 12,2.19). Assim, o Deus de Judite é o Deus dos humildes, o socorro dos oprimidos, o protetor dos fracos, o abrigo dos abandonados, o salvador dos desesperados (Jd 9,11). E Judite é um exemplo desse povo e desta fé.

 

3.1.3- 2 Macabeus:

 

2 Macabeus narra acontecimentos que vão de 175 a 160 a.C. O autor parece ter urna sólida formação helenista, mesmo sendo um ardoroso judeu, porque se refere a Deus com muita frequência.

 

Ele narra os atos dos Macabeus, que podem ser apresentados em três partes: 1 as intrigas entre os sumos sacerdotes israelitas e os reis da Síria, a perseguição de Antioco IV Epífanes, o martírio de Eleazar e da mãe com os sete filhos; 8,1-10, 9: a revolta dos Macabeus, as primeiras vitórias, a morte de Antíoco IV Epífanes, a purificação do Templo; e 2Mc 10,10- 15,36: as lutas de Judas Macabeu.

 

O livro conclui com um epílogo em 15,37-39.  Toda a obra é um confronto entre a cultura e as tradições religiosas judaicas e helênicas. A oposição maior foi no período de Antíoco IV Epífanes. Ele foi acusado de ter tentado realizar coisas absurdas como navegar em terra firme e andar a pé sobre o oceano: "Quanto a Antíoco, depois de ter subtraído ao Templo mil e oitocentos talentos, às pressas partiu para Antioquia. Ele imaginava, no seu orgulho, por causa da exaltação meteórica do seu coração, poder tomar navegável a terra firme e transitável a pé o oceano!" (2Mc 5,21).               

 

3.1.3 - Tobias: O livro de Tobias não se encontra na Bíblia hebraica. Ele chegou até nós por meio da Vulgata (Bíblia latina). A história contata pelo livro de Tobias segue um estilo em sintonia com uma longa tradição bíblica de narrativas da interação entre Deus e casais ou pessoas piedosas: Abraão e Sara; Isaac e Rebeca; Jacó e Raquel. 

 

Não é um livro histórico nem se refere aos grandes acontecimentos da história do Povo de Deus. Ele chega a apresentar algumas imprecisões, pois confunde distâncias e localidades. Mas o autor procura somente utilizar alguns dados e informações para contar sua história, que pode ser dividida em quatro partes. 

 

O prólogo (Tb 1,3-3,17) - Situa o leitor sobre a vida de Tobit e de sua família, que, segundo o autor, eram exilados. O drama da vida de Tobit consiste, principalmente, em sua condição de indigente. Paralelamente, o autor relata a história de Sara, uma jovem judia piedosa que tivera sete maridos, mas, antes de consumar o matrimônio, foram mortos por um demônio de nome Asmodeu. Duas histórias cercadas de desgraças e tristeza, cujos personagens chegam ao extremo de pensar na morte como solução. 

 

Nos capítulos 4-9, Tobias é encarregado por seu pai Tobit de ir à cidade de Ecbátana resgatar certa quantia em dinheiro. Acompanha-o, sem que Tobias soubesse, o anjo Rafael (significa "Deus cura"), que se apresenta com o nome de Azarias (como narra o texto de Gn 24,40). O anjo protetor impede que Tobias seja devorado por um peixe e sugere que guarde as vísceras do animal. Em Ecbátana, Tobias conhece e se apaixona por Sara, casa-se com ela e, na noite de núpcias - diferentemente dos outros noivos-, vence o demônio Asmodeu queimando as vísceras do peixe. 

 

Nos capítulos 10-13, Tobias, Sara e Rafael voltam para Nínive. Usando fel do mesmo peixe, Tobias cura a cegueira do pai. O anjo Rafael sai de cena após se revelar. Finaliza-se essa parte com o hino de Tobias louvando a Deus pelas suas grandes obras.  O epílogo (cap. 14) narra a morte de Tobit com idade avançada; da mesma forma que os grandes homens da história do Povo de Deus, antes de sua morte ele instrui Tobias sobre a observância da Lei.  O livro apresenta, em meio a essa trama familiar, alguns ensinamentos básicos do judaísmo: esmola (Tb 1,17; 2,2-4; 4,7-11), piedade para com os mortos e dignidade de ter uma sepultura (Tb 4,4;14,12-13), atenção aos peregrinos (1,6;5,14) e abstenção de alimentos impuros utilizados pelos pagãos (Tb 1,10-12). 

 

O livro quer nos ensinar que Deus não abandona jamais quem nele ensina. Esse homem passou por tantas provocações que pareciam insondáveis e, no entanto, Deus abriu os caminhos e recompensou sua fidelidade. Representa a visão nacionalista da tradição ortodoxa judaica. 

 

4 - Revolta do Povo de Deus: Revolução dos Macabeus (167-142 a.C)

Para não renegarem a fé judaica, muitos judeus fugiram para cidades estrangeiras, engrossando as fileiras dos judeus na diáspora (1Mc 15,22s). Outros foram martirizados, mas não abandonaram a fé e seus costumes (2Mc 6,18-7,42).

 

Quando tudo parecia estar anunciando o fim do Povo de Deus e de sua religião, entrou em cena a família sacerdotal de Matatias e seus filhos (1Mc 2,15-28).  Como em outros tempos, tudo começou a mudar a partir de uma pessoa ou família que permaneceu fiel à proposta de Deus. A história do Povo de Deus era a sua maior segurança; dava-lhe a certeza de que seu Deus não o abandonaria à própria sorte nem deixaria os seus filhos lutarem sozinhos e desamparados.

 

Os judeus tinham aprendido a lição do exílio na Babilônia: se as pessoas permanecem fiéis à Aliança, sendo zelosas e observantes da lei, Deus faz sua parte e age através de seus filhos e juntamente com eles.  Tudo começou a mudar quando delegados do governo selêucida tentaram impor aos judeus que oferecessem sacrifícios aos deuses gregos, no povoado onde moravam Matatias e seus filhos. Zeloso pela lei de Deus, pelos costumes do povo judeu e cheio de fúria por estar vendo seus conterrâneos aderirem a essa prática pagã, Matatias avançou contra o delegado do rei e um judeu apóstata e os liquidou (1Mc 2,lss).

 

Tal atitude tornou Matatias e seus filhos um perigo para o estado grego. O resultado foi o ataque do exército do rei contra essa família e todos os judeus que aderiram à causa dela. Conhecendo os costumes judaicos, os gregos atacaram em dia de sábado (sabiam ser o dia sagrado dos judeus). Morreram muitas pessoas por se negarem a lutar no dia santo (lMc 2,38). Após esse desastre, muitos outros judeus piedosos e zelosos pela lei de Deus se uniram contra a opressão do império e decidiram nada fazer em dia de sábado, mas, se fossem atacados, iriam se defender. A revolta começou perto de Jerusalém e logo se espalhou pela região. 

 

Matatias foi líder de seu povo por pouco tempo. Morreu no ano 166 a.C.,  e foi enterrado em Modin (lMc 2,70), mas deixou aos seus filhos o exemplo e o zelo pela Lei de Deus.  Judas, filho de Matatias, continuou a obra iniciada pelo seu pai.

 

Como tinha o sobrenome de Maccabaeus, "Macabeus" (de significado incerto, parece derivar de maqqabah = martelo), acabou dando nome à revolta. Judas Macabeu (166 a 160 a.C), como passou a ser conhecido, obteve várias vitórias contra o exército de Antíoco IV. 

 

O rei grego não ficou passivo diante dessa nova revolta na Judeia. Ele "se encheu de ira" (lMc 3,27), fez novos empréstimos na Pérsia para afrontar a rebelião. Preparando-se para uma guerra santa, Judas e seus companheiros se reuniram em assembleia em Mispá (lMc 3,42-60), rezaram e escutaram o livro da Lei, preparando-se para defender seu país e sua religião, conforme as orientações de Dt 20,5-9.

 

Assim, venceram o exército grego conduzido por Nicanor e Górgias em Emaús.  Sobre as vitórias de Judas, tudo é narrado como uma guerra, cuja principal motivação são as leis e os costumes religiosos dos judeus. Por isso, tão logo se conquistam a cidade de Jerusalém e o Templo, providencia-se a sua purificação.

 

A cerimônia aconteceu no dia 25 do mês de Kisleu (dezembro), do ano 164 a.C. Durou oito dias (lMc 4,42-51) e até os dias de hoje é celebrada entre os judeus; trata-se da festa de chanuká8 ou festa das luzes. Quando Judas morreu, seu irmão Jônatas recebeu o legado de continuar a luta pela libertação do Povo de Deus.

 

 Foi nesse tempo que morreu um dos maiores tiranos que o Povo de Deus conheceu. Antíoco IV Epífanes, como seu pai, foi morto enquanto tentava despojar um templo iraniano no ano 164 a.C. (1Mc 6,17; 2Mc 9; 10,9-13).  Jônatas (160 a 143 a.C.) não manteve as mesmas motivações de seu irmão Judas e de seu pai Matatias. Lutou por três anos no deserto de Técoa e pretendeu julgar as pessoas, fazendo desaparecer os ímpios de Israel (1Mc 9,73). Aproveitando as disputas entre Demétrio e Alexandre Balas, pretendentes ao império grego, conseguiu de Balas a nomeação como "sumo sacerdote da sua nação [...], e amigo do rei" (lMc 10,20) e chegou a celebrar ilegitimamente, no mesmo ano de 152 a.C., a festa dos Tabernáculos ou Tendas (1Mc 10,21).

 

Jônatas, vítima de suas próprias intrigas, foi executado por Trifon, general de Alexandre Balas (13,14-24). Seu irmão Simão o sepultou em Modin e o sucedeu:  Simão (143-134 a.C), o último dos filhos de Matatias, conseguiu grande autonomia para a Judeia, mas continuou usando os títulos conseguidos por seu irmão Jônatas: "sumo sacerdote e amigo do rei" (1Mc 13,36).

 

Os judeus aparentemente aceitaram a situação "até que aparecesse um profeta digno de fé" (1Mc 14,41).  Foi no tempo de Simão que o antigo reino de Israel conseguiu certa autonomia e estabilidade política. Ele estendeu as fronteiras do país (1Mc 13,43-48), tomou Acra, a cidadela grega próxima ao Templo, reduto dos gregos em Jerusalém em 141 a.C., transformando-a no palácio dos Macabeus (1Mc 13,49-52). Mas seu reino durou pouco; foi assassinado pelo seu genro Ptolomeu de maneira trágica, no transcurso de um banquete com todos os seus filhos, exceto João Hircano (1Mc 16,11-17), que substituiu o pai.  João Hircano deu início a um reino e uma dinastia mais estáveis, mas não diferentes das dos reis que procuraram sobrepujar o Povo de Deus. 

 

4.1 - DINASTIA ASMONEIA (142-63 AC) 

Com a morte de Simão encerra-se a saga dos irmãos macabeus, que, a seu modo, procuraram libertar seu povo da opressão dos gregos selêucidas. Com João Hircano, filho de Simão, Israel volta a ter um rei e uma monarquia; começa assim a dinastia asmoneia. Desde a queda do último rei legítimo de Judá, em 598 a.C., com a invasão dos babilônios, o Povo de Deus sonhava ter de volta um rei que o governasse conforme o grande rei Davi. 

 

João Hircano (134-104 a.C), que sucede a seu pai, vinga-se imediatamente daqueles que o assassinaram. O livro de 1Mc termina apresentando o início das proezas e alguns feitos de João Hircano ( 16,24).  No seu reinado, os gregos, através de Antíoco VII, conseguem cercar Jerusalém (133 a.C) e obrigam João Hircano, então rei de Israel, a lhes pagar tributo e a fazer uma parceria com eles, contra os persas. Para se livrar da tutela dos selêucidas, Israel apela aos romanos, com quem renova alianças conforme seus antepassados (126 a.C), Roma socorre o país somente alguns anos depois, e mais tarde impõe sobre o Povo de Deus seu domínio imperial. 

 

Durante seu reinado, Hircano procurou extirpar do meio do Povo de Deus todos os sinais da cultura grega: destruiu o templo no monte Garizim, cidade helenizada da Samaria, obrigou os idumeus e ituneus a adotar a circuncisão, entre outras iniciativas. Implantou uma política de intolerância contra qualquer cultura que não fosse a judaica.  Os hasidins, que lutaram ao lado dos macabeus desde o início, não ficaram contentes com a forma pela qual o rei João Hircano estava conduzindo seu reino, conjugando o poder político com o poder religioso. Depois de conflitos e mortes, os hasidins se separaram do rei e se constituíram um forte opositor ao reino dos asmoneus.

 

Esse grupo são os descendentes dos fariseus, muito conhecidos no tempo de Jesus. A história que começou com os macabeus teve um novo momento com a dinastia asmoneia, da qual fez parte Herodes, que governou no tempo de Jesus. 

Nesse período formou-se um grupo de judeus piedosos, chamado de Qumrã, que se distanciou de Jerusalém e foi viver no deserto, perto do Mar Morto. Esse grupo deu origem aos essênios (eram como os atuais monges), que viviam em comunidades isoladas, procurando cumprir todos os preceitos de pureza ritual e dedicando-se principalmente ao estudo e à multiplicação das Sagradas Escrituras. Em 1947 foram descobertos, nesse local, perto de Jericó, vários textos sagrados que datam de períodos até anteriores a Jesus Cristo. 

 

A história da pequena nação de Israel com uma nova dinastia não foi muito feliz. Os descendentes de João Hircano, por meio de golpes e assassinatos, se revezaram no poder, seguindo o modelo dos povos vizinhos. Governaram o país subjugando o povo com impostos, fizeram alianças com estrangeiros e até montaram um exército de mercenários mantidos pelo povo judeu. Tudo tem um fim com a entrada e a imposição do domínio romano; com Pompeu, no ano 63 a.C.  A presença dos romanos na região dá início a numa nova era de progressos em algumas áreas; em outras perdura a forma de impor e manter o poder.

 

5.1 - Escritos da época dos Asmoneus.

No período dos Asmoneus surgiram alguns escritos que mostram todo o conflito enfrentado pelos judeus arraigados às tradições religiosas e culturais, em confronto com a helenização. São os livros de Daniel e 1 e 2 Macabeus. No livro do profeta Isaías, os capítulos 24-27 e 34-35 já apresentam uma perspectiva apocalíptica, provavelmente desse período. 

 

5.1.1 - 1 Macabeus.

1 Macabeus começa com uma rápida menção a Alexandre (Magno), às suas conquistas, à sua morte e à divisão de seu reino. A seguir, narra os fatos da coroação de Antíoco IV Epífanes, no ano 175 a.C., e vai até a morte de Simão Macabeu, no ano 134 a.C. Depois de falar da situação da Judéia (1-2), apresenta Matatias, a deflagração da luta de resistência e a continuidade da mesma, sucessivamente, por seus filhos: Judas (lMc 3,1-9,22), Jônatas (9,23-12,54) e Simão (1316). 

 

O autor do livro acredita que a felicidade só é possível pela observância fiel da Lei. Para isso, é necessário rejeitar os costumes pagãos. Só dessa forma os judeus irão desfrutar dos benefícios da Aliança, e podem esperar a intervenção de Deus a seu favor contra os inimigos, pois serão vitoriosos. 

 

6- ÚLTIMOS ESCRITOS DO ANTIGO TESTAMENTO

O contato com a cultura grega, principalmente com a língua grega, não significou apenas dominação e tristeza para o Povo de Deus. Da mesma forma que do contato com a cultura e o mundo persa (cultura muita rica em conhecimentos e sabedoria) nasceram escritos mostrando a cultura dos judeus, o mesmo aconteceu com o contato com o rico mundo dos gregos. 

 

Estes consideravam os judeus um povo ignorante, com costumes e cultura ultrapassados. Menosprezavam igualmente sua língua. Judeus piedosos e sábios procuraram então demonstrar, através de escritos voltados para seu povo, a riqueza da cultura e dos costumes judaicos.  Os últimos escritos do Primeiro Testamento devem ser situados no período dos hasmoneus: Livro de Ester - o texto grego; 1Macabeus: a luta pela libertação; Baruc: arrependimento e conversão; Sabedoria: ser sábio é ser justo.

 

6.1 - O Livro de Ester:

Têm-se duas versões do escrito de Ester: a mais antiga hebraica e a outra grega. A hebraica foi escrita por volta do ano 350 a. c., no fim do domínio persa, um ano antes da invasão grega no território dos israelitas. Os motivos para a data são basicamente dois: há referências precisas a respeito da estrutura do império persa e ainda não há menção ao domínio dos gregos e seu estilo de vida. A edição grega é de 114 e 112 a.C., durante o governo de certo João Hircano sobre a Judeia.

 

É preciso fazer duas observações. Não é somente uma tradução para o grego. Quem traduziu implantou adaptações à nova realidade em que se encontravam por volta do ano 113 a. C.; foram feitos acréscimos. É escrito com uma literatura judaica chamada de novela, um conto. Mesmo mostrando que seu autor conhecia com particularidades a geografia da cidade de Susa, do império persa, à qual o conteúdo do livro faz referência, e tinha conhecimento de como funcionava a administração interna da corte, o livro não é de história. Embora se trate de uma novela, faz referência à vida sofrida dos judeus e quer ser ânimo para as comunidades espalhadas pelo império persa.  O livro quer ajudar a comunidade judaica da época a se manter fiel à história de seus antepassados, não caindo no jogo dos dominadores persas. E devolver aos judeus a esperança para continuarem fiéis aos seus costumes, mesmo no meio das dificuldades e humilhações.

 

Ester é a mulher que por causa de seu povo enfrentou o império. Assim como nos livros de Rute e Cânticos dos Cânticos, a mulher teve uma importante participação no processo de libertação; também Ester é protagonista na libertação de seu povo. Isso significa que a mulheres continuavam tendo papel significativo no resgate de sua dignidade e de sua participação nas lutas em busca de liberdade para o povo, em meio a um contexto patriarcal. Ester salva seu povo do extermínio, e chama seus correligionários à fidelidade ao Deus do Êxodo, que tirou os pobres da escravidão do Egito. 

 

Os seus 10 capítulos apresentam: introdução falando sobre como Deus escuta o clamor do eu povo, e como o conflito no centro da corte surgiu (1); a ameaça do poder com a instauração do banquete dos poderosos (1,1-8); como deveria ser o uso do poder da autoridade, e que aquele que o está exercendo está cometendo abusos (9-22); Deus que se esconde na força dos fraco (2,1-19); por que aconteceu o conflito entre o poderosos e o povo (2,19-23); o povo oprimido que não faz referência a quem o oprime (3.1-6); como o povo hebreu é guiado pelo Deus libertador (3,7-11); a arbitrariedade dos poderosos (3,12-15); que é preciso fazer escolhas radicais, honrar o nome de Deus, e, perante os poderosos, é necessário ser subversivo; e ainda como os pobres venceram os poderosos (4-5); Deus que, através de Ester, liberta seu povo oprimido: o valor de reconhecer o agir correto dos justos; faz-se referência ao povo hebreu que tinha sede de vida, e que a lei deve ser sempre usada em beneficio comum; e que, perante a vida negada ao povo, este tem o direito de se defender. O texto mostra como o povo festejou a libertação mediada por Ester, a ação do Deus libertador e, por fim, como Deus ouviu o clamor dos pobres (6-10) 

 

6.2 - O Livro de Baruc

 Baruc (em hebraico significa bento), companheiro e escriba de Jeremias (Jr 32,12 e Jr 36,26) e o acompanhou durante sua estada no Egito, depois da queda da Cidade Santa (Jr 43,6s). Por esse motivo, o livro de Baruc aparece nos manuscritos da LXX, juntamente com o livro das Lamentações e a Carta de Jeremias, logo após o livro desse profeta. Já na Vulgata de São Jerônimo (séc. IV d.C.), a Carta de Jeremias torna-se o capítulo 6 de Baruc. 

 

O livro que chegou até nós é um escrito do período grego, pois a introdução foi escrita em grego; já a oração de 1,15-3,8 (desenvolve a oração de Dn 9,4-19) deve ter sido redigida em hebraico e depois traduzida para o grego. A data mais provável da redação final desse escrito é meados do século I a.C. O autor deve ter sido um judeu que vivia fora da Terra Santa (na diáspora), utilizando o nome desse personagem histórico (pseudepigrafia).

 

Procura animar os judeus a se manterem em comunhão com Jerusalém, com o Templo e seus ritos.  Esse livro retrata as motivações daqueles judeus que procuravam resistir contra a idolatria e não se distanciar de Jerusalém, o que faziam através de cartas, orações pessoais e recordando, nas sinagogas, a história do passado do seu povo, das principais Leis e dos textos sagrados. Por isso, o autor apresenta uma profunda análise sobre o pecado: é uma perversão da ordem moral (Br 2,12), rejeita a verdadeira sabedoria (Br 3,9ss), opõe-se à Lei de Deus e dos profetas (cf. Br 1,18.21; 2,5.10.24). Para não cair no pecado, o fiel deve colocar-se humildemente junto de Deus e observar as leis da Torah (Br 2,8.30ss; 4,1.28). 

 

A parte principal do livro de Baruc (Br 1-5) é composta de uma introdução (1,1-14 - comunhão entre os exilados e os que ficaram em Jerusalém) e de três temas que supõem o povo de Judá exilado na Babilônia.

 

A primeira parte (Br 1,15-3,8) é uma oração dos exilados na qual o autor reconhece a situação de todos como pecadores e os exorta à confissão dos pecados, mas renova as esperanças do povo na misericórdia divina. A segunda parte (Br 3,9-4,4) é um poema no qual se reconhece a grande sabedoria de Deus identificada com a sua Lei, e se exorta Israel a voltar-se para ela para ser feliz. O meio proposto pelo autor é a observância da Torá (= Lei). A terceira parte (Br 4,5-5,9), ainda na forma e no estilo de poema, Jerusalém é personificada e assim se dirige a seus filhos que estão no exílio, exortando-os à coragem e à perseverança na fé (cf. Br 4,5-29). 

 

O capítulo 6 do livro de Baruc, conforme a maioria de nossas Bíblias (seguindo a Vulgata e também alguns textos sírios) é a Carta de Jeremias, que em alguns manuscritos gregos do AT aparece logo depois de Lamentações, como se fosse um livro à parte. O texto original parece ter sido escrito em hebraico e posteriormente traduzido para o grego. A Carta de Jeremias é um forte convite aos exilados na Babilônia para não caírem na idolatria, pois os ídolos não têm vida e são incapazes de ajudar qualquer pessoa.  Nada representam nem podem prejudicar alguém, por isso repete sempre: "Por conseguinte, não os temais" (Br 6,15.22.28.64.68), ou: "Como crer ou dizer que são deuses?" (Br 6,39.44.49.55), ou "Quem não vê que não são deuses?" (Br 6,51.63.68). Apesar de costumeiramente se atribuir essa pequena carta a Jeremias, o autor é desconhecido; pode ter sido escrita no fim do séc. IV a.C.

 

6.3 - O Livro de Sabedoria.

Este é o último escrito do AT, redigido num tempo muito próximo ao surgimento do Cristianismo (60 a.C), revela grandes riquezas,  tanto para o povo judeu quanto para os cristãos.  Escrito para judeus, embora permeado da cultura grega, não deixa de lado a sabedoria da religião e do pensamento judaicos.

 

O livro da Sabedoria é o que melhor ilustra a assimilação da língua grega no AT (o que perdurará no NT, escrito todo ele na língua helênica).  Observando o estilo e o conteúdo do livro, deduz-se que foi redigido fora de Israel, talvez no Egito, provavelmente em Alexandria. Desde o domínio grego, com Alexandre (t323 a.Cv), Alexandria passou a ser um dos principais centros da cultura e do pensamento helenista naquela região. Nessa cidade de cultura pluralista e cuja população era formada por grande diversidade de pessoas, representativas de vários povos, algumas correntes de pensamento se destacavam. Os epicureus10 tiveram um destaque especial no tempo da redação do livro da Sabedoria, além dos materialistas (Sb 2,1-20), de outros grupos com cultos naturalistas (culto de animais - Sb 12,24; 13,115,19) e de religiões e cultos estranhos ao mundo judaico. Ser e permanecer judeu num mundo desse não deve ter sido fácil. 

 

Nesse ambiente diverso, os judeus aparentemente estavam à parte de tudo o que acontecia. No entanto, um judeu culto, conhecedor da língua grega, dispôs-se a escrever o livro da Sabedoria, procurando mostrar, no contexto da cultura e da língua grega, a grandeza da sabedoria judaica. Expôs e defendeu a fé judaica e a Providência Divina que agiu junto ao seu povo escolhido; tornou conhecida a longa história de promessas e de grandes feitos de Deus para com seu povo. Buscando exaltar a sabedoria de Deus junto ao seu povo, o autor combateu diretamente o ateísmo e a idolatria presentes no ambiente em que se  encontrava. Segundo ele, a sabedoria divina deve ser buscada e apreendida por todos (Sb 1,1-15) O livro da Sabedoria pode ser dividido em três partes:  1ª  Parte - Sb 1,16-5,24 - Comparando os justos com os ímpios, o autor mostra a soberba dos maus em relação aos bons. No futuro, os maus terão uma grande decepção, enquanto os justos reinarão com Deus. Por isso conclui: é preciso saber viver a vida presente, escolhendo os principais valores em relação aos menos importantes e transitórios ou contrários à Lei de Deus. 

                                                         

Epicurismo. É uma doutrina filosófica de Epicuro, filósofo materialista grego (341-270 a.C.), e de seus seguidores, entre os quais Lucrécio, poeta latino (98-55 a.C). Caracteriza-se,  na física, pelo atomismo e na moral pela identificação  do bem sobretudo com o prazer, o qual, concretamente, há de ser encontrado na prática da virtude e na cultura do espírito. 

 

2ª Parte - Sb 6,1-9,19 - A sabedoria é apresentada com sua origem e características, mas acima de tudo é considerada dom de Deus. Por isso, basta pedi-Ia que será concedida a todos. Nessa parte do livro, é possível observar o uso de provérbios gregos, mas a serviço do pensamento judeu.  3ª Parte - Sb 10,1-19,20 - O autor compara os idólatras pagãos com seu povo judeu; faz isso resgatando a história da sua gente, desde as pragas do Egito, a travessia do Mar Vermelho até outros feitos de Deus junto ao seu povo. Deus sempre protegeu e guiou todo aquele que seguiu seus  preceitos.  O livro da Sabedoria procura deixar bem claro ao seu leitor que o pensamento e a sabedoria do povo judeu em nada são inferiores aos de outros povos, pois têm sua origem no próprio Deus Criador (Sb 9,9), é colaboradora na criação e na conservação do mundo (Sb 7,21; 8,1-6; 9,3s.9-12). É quase uma pessoa, por isso é próxima a Deus (Sb 8,3) e subsiste ao lado de seu trono celeste (Sb 9,4). O escritor sagrado tem clara consciência da grandeza da sabedoria de Deus, superior à sabedoria grega e a suas religiões (Sb 14,23). 

 

Conclusão:  O período da dominação helenista foi um dos mais longos, de 333 a 63 a.C. Só terminou quando chegou o domínio romano. Deixou marcas profundas na história do povo da Bíblia. Esse período iniciou-se com Alexandre Magno em 323 a.C. e, com sua morte, o reino dividiu-se entre quatro generais. Os Ptolomeus ficaram com a região de Canaã e a eles sucederam-se os Selêucidas. Nesse período, houve um grande confronto entre as duas culturas, a helenista e a judaica. O bojo da discórdia, da helenização maciça promovida por Antíoco IV Epífanes, foi sua imposição cultural e as práticas religiosas. Arraigado no monoteísmo, o povo judeu reagiu ao politeísmo e às práticas religiosas pagãs: o culto aos ídolos e a prostituição sagrada com orgias e banquetes rituais (2Mc 6,211.18-31). 

 

A comunicação intensa que havia entre Judá e a comunidade judaica em Alexandria, no tempo dos Ptolomeus, não pôde continuar no domínio dos Selêucidas; isso dificultou ainda mais as relações entre dominadores e do- minados. Levantou suspeita e fez com que o movimento dos judeus a favor da helenização encontrasse apoio junto ao rei (lMc 1,41-51). Grande parte dessas dificuldades foi causada por motivos econômicos anteriores a Antíoco IV Epífanes, como a apropriação indevida do tesouro do Templo e pelas dívidas que Selêuco III havia contraído com Roma. Essa atitude foi interpretada pelos judeus como um sacrilégio e para os helenistas podia ser vista como um empréstimo forçado. Outro motivo de confronto pode ter sido a diversidade de concepção da vida, do mundo, da história. Eram culturas com visões muito diferentes.