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3ª Aula:Gn - 1,26-31- A Bíblia é o livro da vida.
3ª Aula:Gn - 1,26-31- A Bíblia é o livro da vida.

 

Motivando a aula de hoje. Deus é o Senhor da vida. Ele está presente em todos os momentos de nossa história. Dando sequência a nossa reflexão sobre o livro do Gênesis, vamos fazer memória de sua presença entre nós. A Bíblia é, para nós, cristã e cristãos, o livro sagrado. É a fonte da espiritualidade que nos ilumina e nos orienta. É um espelho no qual vemos refletida a nossa vida.

 

Certa vez, em um encontro bíblico, uma senhora se aproximou e fez a seguinte consideração: "A Bíblia fala que Deus primeiro criou Adão e depois Eva. Deles nasceram Abel e Caim. Depois, Caim matou Abel e fugiu para outro país; casou-se com uma mulher e eles tiveram um filho. Mas quem criou a mulher de Caim? Existiam outras pessoas além de Adão e Eva? 

 

Esta pergunta surge da nossa forma de ler o texto bíblico. Se lermos a narrativa da criação como um fato acontecido, um dado científico, a pergunta tem sentido. Mas este não é o objetivo dos relatos de Gênesis 1-11. Esses textos descrevem como o povo de Israel contava a história da Criação usando a concepção do universo de sua época. 

 

Quando lemos os relatos bíblicos como fatos acontecidos surgem muitas perguntas. Quais as perguntas que você tem a respeito da criação do mundo e da humanidade?  

 

2- Iluminando a vida. As memórias que estão na Bíblia surgiram da vivência cotidiana do povo, de suas lutas e esperanças, de seus sonhos e pequenas conquistas nas quais eles perceberam a ação de Deus em sua caminhada. Por isso, ao ler a Bíblia, é muito importante fazer algumas perguntas: Quem escreveu? Quando? Onde? O que? Para quem? E qual o jeito de escrever? Assim poderemos dialogar com as comunidades de ontem e redescobrir hoje a presença de Deus em nossa vida.  

 

a) Como você se relaciona com a Bíblia? 

 

b) A forma como nós lemos e interpretamos a Bíblia influência a nossa oração e a nossa vivência. Quais os passos que você esta dando para ter uma melhor compreensão da Palavra de Deus?

 

3- Introdução a leitura do texto. A Bíblia por ser um livro de fé com orientações para a vida de ontem e hoje, não pode ser lido ao pé da letra nem como se fosse um livro de ciências. Deus não pegou a caneta e escreveu os textos que se encontram na Bíblia. Ela não caiu pronta do céu, mas é fruto da longa caminhada do povo de Israel com Deus. As narrativas bíblicas são baseadas nas tradições, na cultura e, principalmente, na fé do povo. Naquela época, como já vimos na aula anterior, para responder às perguntas referentes às divindades, à origem do mundo e à condição humana, o povo costumava dar explicações por meio de mitos. Os mitos apresentam uma resposta às questões existenciais de maneira simbólica. Por exemplo, os dois relatos da criação que estão na Bíblia (Gn 1,1 a 2,4ª e 2,4b a 24.) se parecem muito com os mitos do Antigo Oriente. Eles foram contados, recontados e escritos em épocas e lugares diferentes.  

 

Ao ler um texto é importante procurar responder às seguintes questões: Quem escreveu? Onde? Para quem? Qual a intenção do autor? É a partir dessa perspectiva que vamos ler os relatos de Gênesis 1 e 2, procurando compreender o sentido de algumas palavras, expressões e símbolos que aparecem no texto e perceber a intenção do autor ou dos autores do texto. Entremos no texto. 

 

Leitura do texto Gênesis 1,1-2,4a e 2,4b-24: Sugerimos que você leia agora o texto completo - Gênesis 1,1-2,4a e 2,4b-24 - (O versículo quatro do capítulo dois é o final da primeira narração sobre a criação e também o começo da segunda. Por isso ele é dividido em 4a e 4b, porque fala de coisas diferentes) e estabeleça os pontos semelhantes e divergentes. Vou dar um exemplo: Qual o nome de Deus que aparece nos dois relatos? No primeiro relato o céu e a terra foram criados por primeiro. E no segundo relato o que foi criado por primeiro? Vamos lá! De olho nos dois relatos para identificar as particularidades de cada um! 

 

Comentando o texto: "No princípio, Deus criou o céu e a terra", assim começa o relato de Gênesis 1,1, terminando com uma frase conclusiva: "Essa é a história do céu e da terra, quando foram criados" (2,4a). Tudo o que Deus criou e a maneira como criou está descrita nos versículos. O céu e a terra foram criados. Fim da história.

 

Mas, em seguida, temos um novo começo: "No tempo em que Javé Deus fez a terra e o céu" (2,4b). É isso mesmo na Bíblia há duas narrativas diferentes sobre a criação. A primeira é uma narrativa poética, numa linguagem longa, solene, minuciosa e ordenada. A segunda é mais simples, breve, concisa.  As duas falam da criação do mundo, do homem e do paraíso. Vejamos algumas diferenças que aparecem nos dois textos.  

 

A primeira diferença aparece nas introduções das narrativas. Em Gênesis 1,1: "Deus criou o céu e a terra"; em Gênesis 2,4b: "Javé Deus fez a terra e o céu". A maneira de descrever a divindade é muito diferente: no primeiro, a divindade cria; no segundo, a divindade modela - imagem de um Deus mais próximo. No primeiro relato a palavra céu vem primeiro, indicando a sua importância, ao passo que, no segundo relato, o centro é a terra.  

 

Em Gn 1,2: no início havia águas e trevas; em Gênesis 2, não havia chuva (2,5). Na visão de Gênesis 1, o universo surge das águas e das trevas primordiais. Na construção dessa imagem, pode estar a realidade de uma região inundada pelas águas, realidade que acontecia na época das chuvas no Egito e na Mesopotâmia. Em Gênesis 2, a realidade é outra: a seca, o que reflete a terra de  Israel. 

 

- No primeiro relato, em seis dias, Deus cria a luz, o firmamento, separa as águas da terra e faz crescer as plantas; em seguida, cria os astros; depois, cria os seres vivos: peixes, pássaros, animais; por último, cria os seres humanos. No segundo relato, primeiro Deus, do solo, modela o homem e o coloca num jardim.  

 

Em Gênesis 1, Deus cria pela palavra. A expressão "Deus disse" aparece dez vezes; podemos lembrar os dez mandamentos de Israel. Em Gênesis 2, Deus trabalha como oleiro e agricultor: modela o homem com a argila do solo, planta um jardim, modela todas as feras selvagens e todas as aves do céu, modela a mulher a partir da costela do homem (2,7-8.19.22). 

 

Gênesis 1 fala da criação do céu, do mar e da terra, luz, luzeiros maiores e menores; Gênesis 2 menciona somente a criação da terra e dos seres vivos.  

 

Gênesis 1,11 fala do surgimento de plantas frutíferas sobre a terra, sem distinção alguma, mas Gênesis 2,9 menciona plantas de frutos bons e destaca a árvore do conhecimento do bem e do mal.  

 

Em Gênesis 1, Deus cria homem e mulher depois de toda a criação e os abençoa (1,26-27); em Gênesis 2, o homem é o primeiro a ser modelado e ele dá nome a todos os animais, aves do céu e feras selvagens (2,20).  

 

A descrição da criação do mundo de acordo com a narrativa ele Gênesis 1, é completa e apresenta uma perspectiva positiva, perfeita e universal. O contentamento de Deus é repetido sete vezes: “E Deus viu que era bom" (1,4.10.12.18.21.25.31). Em Gênesis 2, o principal enfoque é a criação da humanidade e das condições de sua sobrevivência na terra. Nem tudo é positivo nesse relato: já existe a árvore do conhecimento do bem e do mal, que provoca a morte (2,9.17).  

 

Por que duas narrações? Como explicar as diferenças entre elas? São relatos que foram escritos por autores diferentes, em épocas diferentes com intenções diferentes, e que foram mais tarde juntadas numa narração só porque se completam. A primeira narrativa de Gênesis 1,1 a 2,4a foi escrita por um grupo de sacerdotes exilados na Babilônia, por volta do ano 550 a.C. 

 

A segunda narrativa de Gênesis 2,4b a 24 que iremos estudar na próxima lição, foi escrita por gente do povo e apresenta tradições antigas, que remontam ao tempo dos reis e às tradições do pós-exílio; sua redação final pode ser situada por volta do ano 400 a.C.

 

No tempo de Neemias e Esdras, entre 450 e 350 a.C,. essas duas narrações foram juntadas e formaram a atual (Ne 8). Essa será o assunto da terceira aula.  

 

A intenção de cada grupo ao escrever a história da criação era diferente. O relato sobre a criação em seis dias e o “descanso de Deus” faz parte da narração do primeiro grupo, o sacerdotal. A intenção deles era, naturalmente, religiosa e litúrgica. 

 

Em cada época, as pessoas usaram a realidade do seu tempo para transmitir sua mensagem, suas críticas e suas propostas acerca dos problemas que estavam enfrentando; para isso, usaram a ciência de sua época e a estrutura narrativa de outros povos.  

 

É bom lembrar que os relatos de Gênesis 1-11 são relatos simbólicos da história de Israel contendo uma mensagem religiosa. São narrativas construídas com vários gêneros literários: saga, lenda, mito, etiologia  .

 

- relatos que explicam a origem de um lugar ou de um costume -, e apresentam determinada compreensão de Deus. Dizer que um texto bíblico é uma narrativa mítica, às vezes, causa estranheza e mal-estar, pois temos uma compreensão de mito como mentira, fantasia ou fábula. Vejamos, em síntese, o que é um mito.  

 

Aprofundando: A criação a partir de um mito africano. Todas as culturas produzem seus mitos. Eles procuram dar uma resposta às questões existenciais do ser humano, por exemplo: Quem é o ser humano? De onde viemos? Para onde vamos? Por que o sofrimento? Por que morremos?

 

Para entender o que é um mito, tomemos como exemplo um mito africano da cultura ioruba sobre a criação: 

 

No início do mundo era um Caos informe que não era mar nem terra, mas só desolação pantanosa. Acima dele, no céu, vivia o Ser Supremo, Olorum, servido pelos outros deuses, incluindo Oxalá. Olorum chamou Oxalá à sua presença e ordenou-lhe que criasse o mundo. Oxalá recebeu uma concha de caramujo cheia de terra mágica, um pombo e uma galinha de cinco garras para realizar sua missão. Oxalá desceu até o Caos e começou a organizá-lo. Ele jogou a terra mágica num pequeno ponto seco. O pombo e a galinha começaram a ciscar na terra mágica, ciscaram até  que a terra e o mar foram totalmente separados.  

 

O Ser Supremo, satisfeito com o trabalho de Oxalá, enviou-o novamente para terminar a tarefa. A criação da terra levou quatro dias. No quinto dia, Oxalá descansou do seu trabalho. Tradicionalmente, os iorubas possuem uma semana de quatro dias úteis, e descansam no quinto, recordando a Criação. Oxalá foi enviado à terra para plantar árvores, incluindo a primeira dendezeira. Olorum fez a chuva cair do céu para molhar as sementes, que cresceram até formar uma grande  floresta.  

 

No céu, Olorum começou a formar as primeiras pessoas. Elas foram formadas a partir da terra por Oxalá, mas só Olorum poderia dar-lhes vida. Oxalá se escondeu na oficina de Olorum para assistir: Contudo, Olorum sabia que Oxaestava escondido e fez com que ele caísse num sono profundo, portanto Olorum conhece o segredo de como trazer  um corpo à vida. Até hoje Oxalá, por meio dos pais, faz o corpo, mas só o Ser Supremo pode dar a vida.1 (Texto extraído do livro de J.F.BIERLEIN, Mitos paralelos, Rio de Janeiro: Ediouro, 2003, p.64)

 

Nesse mito encontramos vários elementos comuns aos relatos de Gênesis 1-3: separação entre terra e mar; o ser humano formado do barro; o trabalho realizado num período de quatro dias e o descanso no quinto. De acordo com esse mito, Olorum é o grande Ser Supremo, e Oxalá, a divindade que recebe dele a ordem de criar o mundo e todas as coisas existentes, mas o ser humano é criado a partir da ação das duas divindades: Oxalá modela as pessoas a partir da terra e somente Olorum, do céu, tem o poder de dar a vida. É uma forma de enfatizar a importância do ser humano.  

 

O mito está relacionado com a questão das origens do mundo, da humanidade e das instituições humanas. No mito há um interesse especial nas relações da natureza com o ser humano e com a divindade. Pode-se dizer que o mito é o precursor da ciência. É a primeira tentativa de dar explicação convincente aos fatos que não conhecemos e por que as coisas acontecem. Os mitos são narrativas orais, transmitidas de geração em geração, e, posteriormente, colocadas por escrito. Nas culturas antigas, contar o mito é entrar num tempo sagrado.  

 

As histórias míticas contêm as memórias dos antepassados. Eles descrevem uma realidade que nossos sentidos não conseguem entender nem explicar com palavras. O mito é uma expressão simbólica, cuja função é apresentar o sentido do universo e da vida humana. O mito não é um relato falso ou fantasioso da realidade, mas uma intuição que vai além da análise científica e da lógica, e diz quem nós somos e de onde viemos.  

 

Os autores dos relatos de Gênesis 1-11 usaram linguagem e estruturas míticas de outros povos para expressar sua reflexão, porém eles as adaptaram conforme seus objetivos, especialmente reforçando a fé num Deus único e criador de todas as coisas (Is 44,1-4). Um Deus que se faz presente na história humana.  

 

 

Leitura complementar: 

Leia o artigo: https://leituraorante.comunidades.net/22-o-mundo-foi-criado-duas-vezes    O MUNDO FOI CRIADO DUAS VEZES?