Translate this Page

Rating: 2.6/5 (679 votos)

ONLINE
4





Partilhe esta Página


5- A Ressurreição de Lázaro - Jo 11,1-44
5- A Ressurreição de Lázaro - Jo 11,1-44

O que significa viver em comunidade? Viver em comunidade é...

 

A comunidade joanina estava passando por um mo­mento muito difícil. Os cristãos estavam sendo persegui­dos, torturados e alguns foram mortos. Outros abando­naram a comunidade. Diante dessa situação, eles relembram a história da família de Lázaro, Marta e Maria, da comunidade de Betânia, que significa "casa do pobre". Nessa comunida­de encontramos Lázaro, cujo nome significa "Deus que ajuda", aquele que não abandona; Maria, aquela que é muito "amada" por Deus; e Marta, "a dona da casa", mu­lher sensível e acolhedora.

 

A comunidade era formada por pobres, preferidos e amados por Deus; de pessoas que acolhem, amam e ser­vem uns aos outros. Essa vivência é muito importante para resistir às perseguições.

 

Vamos ver (Ler 11,1-44) como essa comunidade viveu a sua fé e o seu testemunho e depois ver no texto quais são os personagens que aparecem, as palavras que mais se repetem e os gestos que nos falam do amor que havia entre aquelas pessoas.

 

Situando o texto: A ressurreição de Lázaro  é o maior sinal realizado por Jesus: é a vida que supera a morte (20,11-18). Ao mesmo tempo, é um anúncio do grande sinal: a ressurreição de Jesus. O projeto de Jesus de uma nova sociedade baseada no amor e na partilha continuou vivo nas primeiras comunidades cristãs. E hoje, as comunidades tentam seguir as marcas deixadas pelos primeiros seguidores e seguidoras de Jesus.

 

Em Jo 11,1-6 a palavra "doença" aparece 5 vezes. A repetição desse termo reflete a situação de sofrimento e morte provocada pela perseguição. Os judeus que abra­çaram a fé cristã foram perseguidos pelo império roma­no e pelas autoridades judaicas, por isso estavam viven­do uma situação de miséria, sem auxílio e sem proteção. De um lado, o sofrimento econômico: muita gente esta­va passando fome. De outro, o sofrimento religioso: os pobres e os doentes se sentiam castigados por Deus.

 

De acordo com a teologia da retribuição, a pessoa justa, observante da Lei, era abençoada com vida longa, descendência e prosperidade (Dt 8,1). A pobreza, a doença e a morte eram vistas como castigo de Deus. Jesus, com sua prática, rompe com essa mentalidade, e a comuni­dade, baseada na prática de Jesus, afirma: "...a doença não é mortal, mas é para a glória de Deus, para que, por ela, seja glorificado o Filho de Deus" (11,4).

 

Comentando o texto: Na comunidade joanina muitos membros estão sendo mortos, porém essas mortes ganham um novo sentido: são fontes de vida e comprovam a prática da comunidade. Lázaro, Marta e Maria representam a comunidade de Betânia, comunidade em que circula uma profunda relação de amizade e amor entre os mem­bros (11,3.5.11.35), capaz de gerar vida nova. Uma co­munidade que necessita da presença de Jesus. No capí­tulo 11 do Evangelho de João vemos que, na ausência de Jesus, há doença (11,6), morte (11,17), sofrimento (11,19), desânimo (11,20). Com a presença de Jesus, as pessoas voltam a acreditar na vida (11,25-27), saem de sua inatividade (11,20.29: atitude de Maria antes e de­pois), surge a solidariedade (11,33-35) e a vida nova (11,43-44).

 

Jesus recebe o recado, enviado por Marta e Maria, de que Lázaro está doente (11,3). Marta e Maria são ir­mãs de Lázaro. O termo irmão era um tratamento muito comum entre os cristãos após a ressurreição de Jesus (11,1; Ef 6,23; Gl 1,2). Outro modo de trata­mento familiar entre eles era amigo (11,11). Lázaro é o único enfermo que recebe nome próprio (4,46b; 5,3; 9,1). Lázaro é discípulo, tem identidade, é amado: "Vede como ele o amava" (11,36).

 

Apesar da amizade que une Jesus ao grupo de Betânia, ele demora dois dias para atender o chamado das irmãs. Quando Jesus chega, Lázaro - aquele que Deus ajuda - já está morto há quatro dias. De acordo com a crença daquela época, depois do terceiro dia seria impossível voltar à vida. Jesus encontra um ambiente de luto e tristeza.

 

Marta, ao receber a notícia de que Jesus está che­gando, sai ao seu encontro. A comunidade, na pessoa de Marta, é chamada a crescer na fé, a superar a crença na ressurreição do último dia (11,24) e a acreditar que Je­sus não é apenas alguém que faz milagres (11,22), mas é a ressurreição e a vida (11,25). Para ser discípulo e discí­pula, é preciso superar as crenças antigas. A comunida­de faz o seu ato de fé: "Sim, Senhor, eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus que devia vir ao mundo" (11,27).

 

Essa confissão de fé é o ponto alto desse texto, é con­dição para reavivar a esperança, fazer renascer a vida e unir as pessoas. Marta, por sua própria iniciativa, avisa a irmã de que Jesus está na região e a chama. O recado é dado em voz baixa (11,28). Isso indica que havia hostili­dade contra Jesus nos meios oficiais. As comunidades, articuladas principalmente pelas mulheres, sobreviviam às escondidas. Com a presença de Jesus, as pessoas são arrancadas do medo, ganham novo ânimo para a ação (11,29).

 

O encontro de Maria e Jesus é pleno de sentimentos. Ela se prostra, não tem receio de ser ela mesma, de ex­pressar a sua dor e tristeza. Uma cena comovente: de um lado, estão os judeus que se comovem e choram a morte; de outro, Jesus que se compadece e se comove (11,33). Jesus pergunta: onde o puseram? Maria responde: Se­nhor, vem e vê. Ir e ver indica proximidade, convivência. Jesus, à medida que se aproxima do sofrimento da co­munidade, é solidário e chora (11,35). Ele se dirige ao sepulcro, não para chorar a morte, mas para fazer res­surgir uma vida nova.

 

Jesus manda retirar a pedra, Marta faz uma obje­ção: "Senhor, já cheira mal: é o quarto dia!" (11,39). No­vamente a comunidade é chamada a amadurecer na fé: "Se creres, verás a glória de Deus" (11,40). O Evangelho de João não usa o substantivo fé, mas sim o verbo crer, para mostrar que a fé é um processo dinâmico que se forja na caminhada, nos acontecimentos e nas experiên­cias que a pessoa/comunidade faz no dia-a-dia.

 

A vida nova depende da ação solidária e amorosa da comunidade. "E Jesus gritou em alta voz: Lázaro vem para fora!" (11,43). Atenção! É a comunidade que ajuda a ressuscitar Lázaro, desatando-lhe as mãos e os pés. É a comunidade que devolve a vida a seus próprios membros, que se ajuda a libertar-se do medo da morte, do medo que paralisa. No grito de Jesus e da comunida­de está o clamor pela vida! Todos e todas são chamados a sair do sepulcro, a assumir o compromisso com a jus­tiça e, se preciso for, entregar a vida livremente: "Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só; mas se morrer, produzirá muito fruto" (12,24; d. 10,18).

 

Aprofundamento: que é ressurreição? No antigo Israel não existia o conceito de ressurrei­ção. A pessoa tinha de aproveitar bem a vida, usufruir os bens e as riquezas neste mundo. De acordo com a teolo­gia da retribuição, uma pessoa justa, aquela que cum­pria a Lei, era abençoada por Deus com riqueza e vida longa (Dt 5,33; Lv 18,5; Ne 9,29; SI 112,1-6). Quando uma pessoa morria, era colocada no túmulo e daí ia direto para o reino dos mortos, o Xeol. Conforme a concepção da época, o Xeol ficava nas profundezas da terra (J ó 17,13- 16). Onde havia um túmulo, existia um Xeol. A vida era limitada, a morte era vista como castigo e o fim de tudo (Jó 24,19; Sl 55,16).

 

No Antigo Testamento, a primeira vez que aparece o tema da ressurreição é no livro de Daniel (12,2-3), escri­to por volta de 164 a.C. E essa mesma crença também é confirmada no período dos macabeus (2Mc 7,9.11.23; 14,46). Diante dos justos que estavam sendo mortos por defender a Lei e a tradição judaica contra o domínio dos gregos, a idéia da morte como o fim de tudo foi se tor­nando inaceitável. Dessa forma se fortaleceu o conceito de ressurreição, para dar sentido à morte dos justos e incentivar os judeus na resistência contra os gregos. A idéia de ressurreição caminhou dependente da teologia da retribuição. É o homem justo que ressuscita, e ser justo significava cumprir a Lei. Acreditava-se que os jus­tos ressuscitariam para a vida eterna e os injustos para a vergonha eterna, para o castigo eterno.

 

Essa mentalidade também fazia parte da comuni­dade joanina (5,29), porém, diante do contexto de vio­lência, perseguição e morte que ela estava enfrentando, o conceito de ressurreição ganhou novo sentido. Basea­da na prática da justiça, do amor e da misericórdia vivi­das por Jesus, a comunidade fez sua releitura. O concei­to de morte na cruz como escândalo foi superado: a cruz passou a ser vista como fonte de vida e conseqüência da prática da justiça e do amor. Aqueles que viviam a prática do amor, solidariedade e misericórdia não mor­reriam jamais.

 

A comunidade cristã, através da defesa da vida e do sofrimento do inocente, consegue romper com a teolo­gia da retribuição. Ela se fundamenta na teologia do Ser­vo Sofredor, que por sua prática da justiça e do amor é perseguido (Is 42,1-9), assume a missão (Is 49,1-6), rea­liza (Is 50,4-11), sofre, morre e ressuscita (Is 52,13-53,12).

 

Quem assume o compromisso com a justiça entra em confronto com os poderes opressores. O que ani­ma a luta cotidiana é a relação profunda de amor e de solidariedade existente entre as pessoas. Ainda hoje o testemunho de mulheres e homens continua ressoan­do em nossa vida. Lembramos aqui Margarida Alves, uma líder morta na luta para conquistar a terra, cujo sonho está vivo nas pessoas que continuam nessa mes­ma luta. Santo Dias, líder sindical, morto por sua luta pelos direitos dos trabalhadores... Porém as comunida­des afirmam: Santo, a luta vai continuar, os teus filhos vão ressuscitar...

 

O sonho de vida digna: terra, trabalho e comida, continua vivo, animando e sustentando a busca de con­dições dignas de vida. As pequenas conquistas do dia-a-­dia, a imensa rede de gestos solidários que nasce e se fortifica nos corações capazes de abrir-se ao amor nos ajudam na fidelidade e no compromisso com a justiça. Na próxima reunião, como num espelho, através de Ma­ria Madalena vamos ver o que sustentava a convivência da comunidade do Evangelho de João.